E, por fim, Deus regressa, num poema de José Tolentino de Mendonça

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Edvard Munch - FertilidadeÉ inevitável. Por estes dias de Semana Santa o meu sumário vínculo católico ressurge. Habitualmente não tenho Deus por suporte ou interrogação. Tenho-O por companhia, numa crença despida de rituais e interditos, apenas na evidência da sua presença, qual seja o descrito no poema Escatologia de José Tolentino de Mendonça que a seguir transcrevo.

 

Escatologia

 

E, por fim, Deus regressa

carregado de intimidade e de imprevisto

já olhado de cima pelos séculos

humilde medida de um oral silêncio

que pensámos destinado a perder

 

Eis que Deus sobe a escada íngreme

mil vezes por nós repetida

e se detém à espera sem nenhuma impaciência

com a brandura de um cordeiro doente

 

Qual de nós dois é a sombra do outro?

Mesmo se piedade alguma conservar os mapas

desceremos quase a seguir

desmedidos e vazios

como o tronco de uma árvore

 

Transcrito de A Noite Abre Meus Olhos [poesia reunida], Assírio & Alvim, 2014.

 

Escatologia — do dicionário

Parte da teologia que trata dos fins últimos do homem e do que há-de acontecer no fim do mundo.

Ana Hatherly – Tudo o que não é paixão, amor ou descoberta, não é senão sofrimento

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Sentado numa esplanada, e nas minhas costas, duas mulheres a quem há muito os quarenta anos tinham dito adeus, conversavam.

Uma, pragmática, argumentava com a razão as vantagens de um compromisso da outra com alguém que ambas conheciam. A certa altura a visada, responde nostálgica e com um grão de tremura na voz:

– Não querida, ainda estou à espera do príncipe encantado!

É bom esperar principes ou princesas encantadas toda a vida.

Há alguns anos, quando deparei na livraria com o título de um novo livro de Ana Hatherly (1929) A NEO-PENÉLOPE, pensei: quase aos oitenta anos e ainda à espera do regresso do amor/Ulisses, vagabundo de outras camas/Calíopes que pelo mundo há.

Há tempos, conversa que traz conversa, veio o livro à baila, e de regresso a casa, lá fui. A ironia feroz que perpassa por tanta da poesia de Ana Hatherly, de alguma forma contrastando com um cativante feminino na sua obra plástica, parece neste livro ter virado desalento onde, no entanto, a espaços, um sopro irónico ainda surge.

É claro que o poeta atento ao mundo que nos anos 60 escreveu BALADA DO PAÍS QUE FOI, CALADO ou  EPÍSTOLA DE UM EMIGRANTE,  entre outros, não anda distraído. Os tempos são outros, a vida também, mas a atenção ao real lá está. Passadas as querelas de escola, fica a eterna e inacabada busca sobre o amor. E  esta poesia, agora, é mais a visão do sage que tanta vida viveu, e nos conta em poemas como neste  SEM AMOR, ou no seguinte, CARTA DE AMOR INFORMÁTICO, o papel do amor na vida de cada um.


SEM AMOR


Viver sem amor

É como não ter para onde ir

Em nenhum lugar

Encontrar casa ou mundo


É contemplar o não-acontecer

O lugar onde tudo já não é

Onde tudo se transforma

No recinto

De onde tudo se mudou


Sem amor andamos errantes

De nós mesmos desconhecidos


Descobrimos que nunca se tem ninguém

Além de nós próprios

E nem isso se tem


 

CARTA DE AMOR INFORMÁTICO


Penetraste no meu coração

Como um virus no meu computador


Vindo de lado nenhum

Ofereces-me agora

O vazio da não opção


Estragaste-me o real

Obrigaste-me a reinventá-lo:

Para quê?


Agora estás

No meu cemitério de textos

Já não te posso reencaminhar


Arquivei-te no lixo da memória

Do meu Pentium IV

Que aliás já vendi


Troquei-o por um lap top

Mais leve

Mais portátil

Mais facilmente descartável


Prossigo no livro e com que desencanto ela nos fala da mulher hoje, em poemas como A NEO-PENÉLOPE, A CAMPEÃ DAS GATAS,  ou este ELA – AGORA

Não menos que Helena bela

Ela senta-se à janela

Porém não à janela mas às janelas

Do computador

Que abrem portas que são redes

Páginas que são sítios

Avenidas que são ermos

Que agora percorremos

Já sem voz

Cada vez mais sós


Tanta profusão

Atira-nos

Para um lixo que nos deita fora


Embora na desolada solidão  Que agora percorremos / Já sem voz / Cada vez mais sós, desta vida com internet, há ainda lugar para os ecos de eros, não já EROS FRENÉTICO mas ainda assim EROS em A VIDA DO MEU CORPO – A atenção ao corpo / É um vínculo selvático


A vida do meu corpo

É toda uma lição

Fechada folha em acto


A seu respeito

Continuam as perguntas

Por exemplo:

Quando é que Adão e Eva

Primeiro se encontraram?

Qual foi a hora

Do fatídico acto?


No paraíso

O tempo despenha-se

Numa corrente acrónica


Ah!

Apressa o teu passo

Fortuito acaso

A atenção ao corpo

É um vínculo selvático

 

Mas há mais, há ainda a mulher-menina a quem Alice em tempos seduziu: contínua é a minha partida / Para o regresso / O espelho que eu cruzo / tem dupla face / Nunca me indica / qual lado ultrapasse., e eis que Alice regressa.

Agora, numa forma magoada, instala-a Ana Hatherly NO PAÍS DOS ANÕES

 

Alice é

A filha inventada

De um pai fingido.


Ele queria que ela fosse

A chave

Que abre a porta

Do paraiso sonhado

Onde a felicidade

Devia morar

Mas já não mora.

Para o final em jeito de memória, a estudiosa apaixonada do barroco brinda-nos com 4 SÁTIRAS BARROCAS escondidas entre desencantos de amor qual seja a primeira

 

SÁTIRA BARROCA I – O PRAZER DOS CASAIS

Os mesclados jogos esponsais

Lugar obrigatório de cristais

Decorrem de proximidades desiguais


Infamantes sombrias mas legais

As exigências intensas conjugais

Perluzem pelos preitos maritais


Repercussões: efeitos sociais

Repartição de legados essenciais

Injunções recalques preceituais

A familia é o prazer dos casais

 

Termina o livro com O CRONISTA SOCIAL


O tribuneiro cronista social

Atinge a plenitude laboral

Ao expor dos estros dominantes

Os seus sucessos

Desporto de gigantes.


Olhando só de longe

Mas a fundo

Cobiça a sua galhardia

E do intenso gasto de energia

Cai depois numa profunda nostalgia.


Sempre quer

Mas não consegue

Nem subir mais nem sequer rir

E à noite

Com uma insónia enorme

Não deixa dormir

Nem dorme.


 

 

Edição &etc, Lisboa, 2007, e como costume da editora, edição única.

Composto e paginado por Olímpio Ferreira, tem na capa um belíssimo desenho da autora.

Nota final: O título do artigo é uma frase de Ana Hatherly com que esta encerra uma entrevista a Ana Vasconcelos e Melo a propósito de uma sua exposição de desenhos, colagens e papeis pintados realizada em Paris em 2005.

Artigo publicado aqui no blog em Nov de 2010, agora ligeiramente retocado e trazido à luz para os novos leitores.

A busca inacabada num poema de Al-Thurthusi

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Iluminura 25 600pxContinuo com a poesia do Al-Andaluz, desta vez com Al-Thurthusi, andaluz do sec. XI, e um seu poema em versão de Jorge Sousa Braga.

 

Lemos, numa forma poética superior, da busca inacabada pelo ideal que todos com mais ou menos detalhe por uma vez tocámos e com persistência almejamos.

 

Olho o céu sem fim

à espera de ver a estrela que tu vez

 

Vou ao encontro dos viajantes que chegam de todo o lado

à espera que alguém se tenha inebriado com o teu perfume

 

Enfrento os ventos

à espera que tragam uma mensagem tua

 

Vagueio sem destino

à espera de ouvir uma canção que fale de ti

 

Olho as mulheres que encontro sem outra intenção

que descobrir um toque da tua beleza nos seus rostos

 

Transcrito de O Vinho e as Rosas, Antologia de poemas sobre a embriaguez, organização de Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim, Lisboa 1995.

Com Ibn Sâlih em relato de prazeres

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Depois das seríssimas questões poeticamente abordadas nos últimos dias, volto à alegria simples da plenitude do amor com um curto poema de um nosso antepassado quando a península era o Al-Andaluz, Ibn Sâlih Ash-Shantamarî.

Os tempos eram violentos, as paixões também, e os homens encontravam repouso nos prazeres e no seu relato poético.

Aproveitai do curto poema para o longo prazer que ele revela.

 India sec XVIII 1

na mais luminosa noite

repouso ao corpo não dei

e de meus olhos o sono

nessa noite eu apartei:

aos brincos dela as argolas

dos tornozelos juntei.

India sec XVIII 2

Aos leitores a escolha de qual o caminho para unir os brincos às argolas dos tornozelos, sendo certo que o nosso poeta nos diz — repouso ao corpo não dei — pudera…

Esta poética versão de uma noite de amor foi mudada para português por Adalberto Alves, e consta da antologia O Meu Coração é Árabe, Assírio & Alvim, Lisboa, 1999.

 

Diz-nos o antologiador que o poeta era natural de Faro, e terá vivido o século XII.

 

As pinturas que abrem e fecham o poema, são miniaturas da Índia do século XVIII, e pertencem à colecção do Museu Britânico.

 

Glória — poema de Malcolm Lowry

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Imagem 028 600pxOntem, entre eufóricos e alarmados, os computadores do wordpress davam-me conta de uma média de 79 visitas por hora ao blog. Afinal não era razão de júbilo. O anúncio da morte de Herberto Helder trazia mais gente à procura da sua poesia. Passado o entusiasmo mediático, regressamos à média habitual de 23 visitas por hora.

Persistentemente veio-me à memória o poema Glória de Malcolm Lowry (1909-1957) que Herberto Helder (1930-2015) mudou para português. Transcrevo-o em recordatória a quem não o conheça.

 

Glória

 

A glória é como uma terrível catástrofe,

pior que a casa incendiada; enquanto

se abate a trave-mestra, o fragor

da destruição repercute-se cada vez mais depressa;

e tu contemplas tudo aquilo, inane

testemunha da danação.

 

Como uma bebedeira a glória devora

a casa da alma, revela que trabalhaste

para coisa pouca: para ela —

ah, queria que esse beijo traiçoeiro nunca tivesse

molhado a minha face: queria

fundir-me, só, para sempre, na obscuridade, na noite.

 

1987 e 1996-97.

 

Publicado em OUOLOF, Poemas mudados para portugués por Herberto Helder, Assírio & Alvim, Lisboa, 1997.

Luiza Neto Jorge — O Poema e A Dívida

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Quentin MASSYS - O Prestamista 600pxEscrever poesia é algo diferente de relatar uma reflexão de estar só ou enviar uma mensagem social ou comercial.

O uso da língua, o mistério das palavras, a intuição para lá da lógica, são matéria que pode conduzir ao poema. Nem sempre.

 

Escolho dois poemas de Luiza Neto Jorge (1939-1989) onde à reflexão sobre as possibilidades do poema se junta uma trivialidade dos nossos dias, A Dívida, e a sua possibilidade poética. Aqui encontramos a narrativa que do simples se faz múltiplo, conduzindo cada leitura a sentidos novos do real.

 

O Poema

 

I

Esclarecendo que o poema

é um duelo agudíssimo

quero eu dizer um dedo

agudíssimo claro

apontado ao coração do homem

 

falo

com uma agulha de sangue

a coser-me todo o corpo

à garganta

 

e a essa terra imóvel

onde já a minha sombra

é um traço de alarme

 

II

Piso do poema

chão de areia

 

Digo na maneira

mais crua e mais

intensa

 

de medir o poema

pela medida inteira

 

o poema em milímetro

de madeira

 

ou apodrece o poema

ou se ateia

 

ou se despedaça

a mão ateia

 

ou cinco seis astros

se percorre

 

antes que o deserto

mate a fome

 

A Dívida

 

Viva no instantâneo lábio do punhal

na hora diariamente imóvel

 

As dívidas crescem já são ásperas

magoam a pele já são pus

 

O dia começa pela sombra

como um povo começa pelo pó

Luz e morte coincidem hora a hora

 

A dívida alastra   abre as asas

leva-me sonhos débeis tudo a tenta

 

Atrás do meu gesto

a mão sozinha os dedos conspirando

assimétricos

salientes do corpo até à morte

 

Já hoje os doava se pudesse

Com que arma porém os separar de mim?

 

A dívida mais cresce

enquanto eu penso

 

Transcrito de Luiza Neto Jorge, poesia, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001.

Hino por Jorge Luis Borges

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Iluminura 24 600pxComo sempre, na simplicidade de palavras de todos os dias, num discorrer quase coloquial, Jorge Luís Borges (1899-1986) leva-nos por caminhos de reflexão profunda sobre nós, o mundo, a cultura e o tempo, naquela zona, quase fenda, por onde a razão não entra, e o inverosímil se faz plausível, porque uma mulher te beijou, pois súbito, somos não o ínfimo, mas a humanidade inteira, e há no ar a incrível fragrância das rosas do Paraíso.

 

Hino

 

Esta manhã

há no ar a incrível fragrância

das rosas do Paraíso.

Na margem do Eufrates

Adão descobre a frescura da água.

Uma chuva de ouro cai do céu;

é o amor de Zeus.

Salta do mar um peixe

é um homem de Agrigento lembrará

ter sido ele esse peixe.

Na gruta cujo nome será Altamira

dedos sem rosto traçam a curva

de um lombo de bisonte.

A lenta mão de Virgílio acarinha

a seda trazida

do reino do Imperador Amarelo

por naus e caravanas.

O primeiro rouxinol canta na Hungria.

Jesus vê na moeda o perfil de César.

Pitágoras revela aos seus gregos

que a forma do tempo é a do círculo.

Numa ilha do Oceano

os lebréus de prata perseguem os veados de ouro.

Numa bigorna forjam a espada

que será fiel a Sigurd.

Whitman canta em Manhattan.

Homero nasce em sete cidades.

Uma donzela acaba de caçar

o unicórnio branco.

Todo o passado volta, é uma onda,

e essas antigas coisas regressam

porque uma mulher te beijou.

 

Poema publicado em La Cifra (1981), aqui em tradução de Fernando Pinto do Amaral, in Jorge Luis Borges, Obras Completas, vol III, Editorial Teorema, Lisboa, 1998.

Da Poesia com Heidegger

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Teaching literacyA linguagem originária á a linguagem da poesia.

Contudo, o poeta não é aquele que faz versos sobre o respectivo agora. A poesia não é um calmante para rapariguinhas delirantes, um estímulo para os estetas que pensam que a arte é para desfrutar e lamber. A verdadeira poesia é daquele ser que já há muito nos foi profetizado e que nós ainda não alcançámos. Por isso, a linguagem do poeta não é nunca actual, mas sempre sido e futuro. O poeta nunca é contemporâneo. Os poetas contemporâneos deixam-se, na verdade, classificar como tal, mas permanecem, apesar disso um contra-senso. A poesia, e com ela a linguagem em sentido próprio, acontecem só lá onde o vigorar do ser é trazido à intangibilidade superior da palavra originária.

 

in Martin Heidegger, LÓGICA A pergunta pela essência da linguagem. edição FCG, Lisboa 2008.

Tradução de Maria Adelaide Pacheco e Helga Hoock Quadrado

Um êxtase espiritual de São João da Cruz

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CELLINI, Benvenuto - cruxifixo do Escorial marmore 550pxA forma erotizada de expressar o sentimento religioso na poesia de São João da Cruz (1542-1591) faz da sua leitura uma experiência única. O contraste entre o amor divino, imaterial por natureza, e a sua expressão física relatada nos poemas, são o combustível para a singularidade da emoção à sua leitura.

 

Transcrevo o êxtase que no poema Noite Escura o santo homem relata. Nele, fala-nos a alma do encontro com o seu Amado, guiada até ele apenas pela luz que no seu coração ardia.

É do mais sublime que em poesia erótica existe no mundo.

 

Noite Escura

 

Canções da alma que rejubila

por ter chegado ao alto estado da perfeição,

que é a união com Deus,

pelo caminho da negação espiritual

 

Em uma noite escura,

com ânsias, em amores inflamada,

oh ditosa ventura!,

saí sem ser notada,

estando minha casa sossegada.

 

Às escuras, segura,

pela secreta escada, disfarçada,

oh ditosa ventura!,

às escuras e emboscada,

estando minha casa sossegada.

 

Nessa noite ditosa,

secretamente, que ninguém me via,

de nada curiosa,

sem outra luz nem guia

senão a que no coração me ardia.

 

Só esta me guiava

mais segura que a luz do meio-dia,

aonde me esperava

quem eu já bem sabia,

em parte onde ninguém aparecia.

 

Oh noite, que guiaste!

Oh noite, amável mais que a alvorada!

Oh noite que juntaste

Amado com amada,

amada em seu Amado transformada!

 

Em meu peito florido,

que inteiro só para ele se guardava,

ficou adormecido,

e eu o afagava,

e o leque de cedros brisa dava.

 

A viração da ameia,

enquanto eu seus cabelos espargia,

com sua mão que enleia

o meu colo feria,

e meus sentidos todos suspendia.

 

Fiquei e olvidei-me,

O rosto reclinei sobre o Amado;

cessou tudo, e deixei-me,

deixando o meu cuidado

por entre as açucenas olvidado.

 Scheffer, Ary - Os fantasmas de Paulo e Francesca aparecem a dante e Virgilio 1835 Wallace Collection

Tradução de José Bento

Transcrito S. João da Cruz, Poesias Completas, Assírio & Alvim, Lisboa.

 

Acrescento a tradução de Jorge de Sena

 

Noite Escura

 

Em uma Noite escura,

com ânsias em amores inflamada,

ó ditosa ventura!

saí sem ser notada,

estando minha casa sossegada.

 

A ocultas, e segura,

pela secreta escada, disfarçada,

ó ditosa ventura!,

a ocultas, embuçada,

estando minha casa sossegada.

 

Em uma Noite ditosa,

tão em segredo que ninguém me via,

nem eu nenhuma cousa,

sem outra luz e guia

senão aquela que em meu seio ardia.

 

Só ela me guiava

mais certa do que a luz do meio-dia,

aonde me esperava

quem eu mui bem sabia,

em parte onde ninguém aparecia.

 

Ó Noite que guiaste!,

ó Noite amável mais que a alvorada!,

ó Noite que juntaste

Amado com amada,

amada nesse Amado transformada!

 

No meu peito florido,

que inteiro para ele se guardava,

quedou adormecido

do prazer que eu lhe dava,

e a brisa no alto cedro suspirava.

 

Da torre a brisa amena,

quando eu a seus cabelos revolvia,

com fina mão serena

a meu colo feria,

e todos meus sentidos suspendia.

 

Quedei-me e me olvidei,

e o rosto inclinei sobre o do Amado:

tudo cessou, me dei,

deixando meu cuidado

por entre as açucenas olvidado.

 

Transcrito de Poesia de 26 Séculos, Fora do Texto, Coimbra, 1993.

 

Termino com a transcrição do original do poema.

 

Noche Oscura

Canciones de el alma que se goza

de habber llegado al alto estado de la perfección,

que es la unión con Dios,

por el camino de la negación espiritual

 

En una noche obscura,

con ansias, en amores inflamada,

¡oh dichosa ventura!,

salí sin ser notada,

estando ya mi casa sosegada.

 

Ascuras y segura,

por la secreta escala disfrazada,

¡oh dichosa ventura!,

a oscuras y en celada,

estando ya mi casa sosegada.

 

En la noche dichosa,

en secreto, que nadie me veía,

ni yo miraba cosa,

sin otra luz y guía

sino la que en el corazón ardía.

 

Aquesta me guiaba

más cierto que la luz del mediodía,

adonde me esperaba

quien yo bien me sabía,

en parte donde nadie parecía.

 

¡Oh noche, que guiaste!

¡Oh noche, amable más que el alborada!

¡Oh noche que juntaste

Amado con amada,

amada en el Amado transformada!

 

En mi pecho florido,

que entero para él solo se guardaba,

allí quedó dormido,

y yo le regalaba,

y el ventalle de cedros aire daba.

 

El aire del almena,

cuando yo sus cabellos esparcía,

con su mano serena

en mi cuello hería

y todos mis sentidos suspendía.

 

Quedéme y olvidéme,

el rostro recliné sobre el Amado,

cesó todo, y dexéme,

dexando mi cuidado

entre las azucenas olvidado.

 

Abre o artigo a imagem do chamado Cristo do Escorial esculpido por Benvenuto Cellini (1500-1571) para o acompanhar no seu próprio enterro. A escultura em mármore de Carrara, e de tamanho natural, mede 1,84m, mostra-se actualmente na Basílica do Escorial, nos arredores de Madrid. Acontece que, supostamente para evitar o escândalo dos fiéis, se encontra envolta na bacia, por uma tela.

 CELLINI, Benvenuto - cruxifixo do Escorial com tela 300px

Comprado pelos Medici, foi posteriormente oferecido a Filipe II de Espanha, e por este guardado no Mosteiro do Escorial.

 

A imagem da pintura dá conta de uma visão de Paolo e Francesca vivendo no inferno pelo pecado da luxúria, e encontrados por Dante na sua passagem. A pintura, de Ary Scheffer (1795-1858), feita em 1835, pertence à Wallace Collection de Londres.

 

Num tempo em que culpa e castigo ocorrem dentro de outros paradigmas, a sobreposição da mente ao corpo é algo com que todos os dias temos que nos haver.

Sendo estas obras testemunhos históricos de uma relação entre o erótico e o sagrado, e com uma história mítica que lhes subjaz, hoje, no nosso confronto com elas, somos questionados sobre as certezas acerca de quanto corpo e espírito são realidades autónomas no ser humano: entre fazer e pensar que distância há a percorrer? — (emocional, social e afectivamente?).

Sófocles — fragmento de Rei Édipo

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Robert Smithson-Spiral-Jetty-Great-Salt-Lake-02-1970A condição de homem, em filho sempre, em pai, se acontece, vive-se na fragilidade da nossa circunstância. No labirinto do mundo apenas alguns caminhos percorremos, e em cada encruzilhada somos levados a decidir, bem ou mal, por onde continuar. Dessas escolhas vivemos as consequências. Se em algum momento podemos sentir: Pai, Pai, porque me abandonaste!? há um desabar em torno que retira sentido ao mundo.

A tragédia que as armadilhas do destino podem proporcionar viveu-as Édipo enquanto filho e pai, levadas a uma dimensão de absoluto. Personagem exemplar e mítico, na tragédia Rei Édipo escrita por Sófocles, confronta-se com os acasos que a vida o fez viver.

É a sua condição de filho que matou o pai, posteriormente casou com a mãe com quem gerou também filhos que seriam simultaneamente seus irmãos, o que se relata nos fragmentos que a seguir transcrevo.

Apesar de nos actos ignorar a sua condição de filho, descobrindo-se autor de tão hediondos crimes, furou os olhos cegando-se, a assim renunciou à vida quando o suicídio era um interdito.

A história, abusivamente assimilada a partir de Freud ao chamado complexo de Édipo, dá conta, entre a vastidão das suas implicações morais, da dignidade com que um homem aceita o inevitável sofrimento pela honra, em sequência de actos ignominiosos cometidos no desconhecimento da sua natureza e dimensão.

 

 

Estásimo IV

 

Coro

 

Ó gerações dos mortais,

como a vossa vida ao nada

se iguala!

Que homem, sim, que homem

da ventura mais possui

do que a aparência de a ter,

e, uma vez tida, de cair no ocaso?

Sim, com o teu exemplo — o teu!…

ó desditoso Édipo, os mortais

em nada vejo afortunados.

 

Tu, que ao mais alto

apontaste e dominaste

em tudo próspera a riqueza

— ó Zeus! — que derrubaste,

fatídica, a virgem

de recurvas presas e contra a morte

tua muralha nos ergueste!

Desde então meu rei

tu és chamado e as maiores

honras te são dadas,

da poderosa Te as

senhor!

 

Agora, quem poderá contar maior desdita?

Quem, no sofrimento, quem na ruína cruel

se lhe aproxima na derrocada da vida?

Aí, gloriosa figura de Édipo

a ti, imenso, o mesmo

porto foi bastante

para o filho e o pai

nas núpcias receber.

Como pôde, como pôde o seio fecundado

por teu pai consentir-te,

desditoso, no silêncio até agora?

 

Descobriu-te, mau grado teu, o tempo que tudo vê;

condena esta união monstruosa, em que há muito

genitor é gerado são um só.

Ai, filho de Laio,

nunca, nunca eu

te conhecesse!

Choro como se um grito

de horrores dos meus lábios

escapasse. E para falar

com justiça, por ti tomei alento,

e por ti, agora, a treva me cobre os olhos!

v.v. 1186-1222

 

 

Édipo

 

Que estas acções não foram o procedimento ideal, não mo ensines nem tão-pouco me dês conselhos. Pois, se eu tivesse vista, não sei com que olhos poderia encarar o meu pai, ao entrar no Hades, ou minha desgraçada mãe; contra ambos cometi crimes que exigem mais do que a forca.

E também em contemplar os meus filhos, nascidos como nasceram, que prazer poderia eu sentir? Nunca os meus olhos o teriam! Nem em contemplar a cidade, nem as suas muralhas, nem as imagens sagradas dos deuses; delas me afastei eu próprio — eu, que agora sou o maior dos desgraçados, e que fui um dos mais nobres filhos de Tebas — ao exortar todos ao repúdio do homem impuro, desse que os deuses apontam como anátema e filho de Laio.

Depois de tal mancha ter descoberto em mim, podia eu encará-los de olhar levantado? De modo algum. Houvesse ainda para a fonte dos sons uma barreira na senda dos ouvidos, e não me teria contido, sem aferrolhar o meu pobre corpo, para que fosse, além de cego, incapaz de ouvir; é doce para o espírito habitar longe dos seus males.

Oh Citerón, porque me acolheste? Porque me não recebeste para em seguida me dares a morte? Jamais mostraria então aos homens a minha origem. Oh, Pólibo, Corinto, antigo palácio ancestral, que passava por ser o de meu pai, tanta beleza criastes, e tanto mal dissimulado em mim! Pois agora, eu me descubro como réprobo, de réprobos nascido. Oh, caminho tripartido, recanto arborizado do vale, floresta de carvalhos, senda estreita da tripla encruzilhada, que bebeste, por minhas mãos derramado, o sangue de meu pai: acaso vos lembrais ainda de mim, dos crimes que em vossa presença cometi e daqueles que, ao vir, de novo pratiquei? Oh, himeneu, himeneu, que me fizeste nascer, e, depois de eu ter nascido, de novo me fizeste germinar na minha própria semente! Por ti se mostraram os pais, irmãos, filhos, como sangue incestuoso, para quem as esposas eram mulheres e mães ao mesmo tempo — toda a espécie de actos que são a suprema vergonha da humanidade.

Mas não é belo evocar o que não é decoroso. Depressa, pelos deuses, escondei-me algures, ou matai-me, arrojai-me ao mar, lá, onde jamais me possam ver. Aproximai-vos, dignai-vos tocar um homem desgraçado; acreditai, não tenhais receio, pois os meus males ninguém —senão eu — entre os mortais é capaz de os suportar.

v.v. 1369-1415

 

Tradução de Maria do Céu Zambujo Fialho

Transcrito de Sófocles, Rei Édipo, edições 70, Lisboa, 1997.