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CELLINI, Benvenuto - cruxifixo do Escorial marmore 550pxA forma erotizada de expressar o sentimento religioso na poesia de São João da Cruz (1542-1591) faz da sua leitura uma experiência única. O contraste entre o amor divino, imaterial por natureza, e a sua expressão física relatada nos poemas, são o combustível para a singularidade da emoção à sua leitura.

 

Transcrevo o êxtase que no poema Noite Escura o santo homem relata. Nele, fala-nos a alma do encontro com o seu Amado, guiada até ele apenas pela luz que no seu coração ardia.

É do mais sublime que em poesia erótica existe no mundo.

 

Noite Escura

 

Canções da alma que rejubila

por ter chegado ao alto estado da perfeição,

que é a união com Deus,

pelo caminho da negação espiritual

 

Em uma noite escura,

com ânsias, em amores inflamada,

oh ditosa ventura!,

saí sem ser notada,

estando minha casa sossegada.

 

Às escuras, segura,

pela secreta escada, disfarçada,

oh ditosa ventura!,

às escuras e emboscada,

estando minha casa sossegada.

 

Nessa noite ditosa,

secretamente, que ninguém me via,

de nada curiosa,

sem outra luz nem guia

senão a que no coração me ardia.

 

Só esta me guiava

mais segura que a luz do meio-dia,

aonde me esperava

quem eu já bem sabia,

em parte onde ninguém aparecia.

 

Oh noite, que guiaste!

Oh noite, amável mais que a alvorada!

Oh noite que juntaste

Amado com amada,

amada em seu Amado transformada!

 

Em meu peito florido,

que inteiro só para ele se guardava,

ficou adormecido,

e eu o afagava,

e o leque de cedros brisa dava.

 

A viração da ameia,

enquanto eu seus cabelos espargia,

com sua mão que enleia

o meu colo feria,

e meus sentidos todos suspendia.

 

Fiquei e olvidei-me,

O rosto reclinei sobre o Amado;

cessou tudo, e deixei-me,

deixando o meu cuidado

por entre as açucenas olvidado.

 Scheffer, Ary - Os fantasmas de Paulo e Francesca aparecem a dante e Virgilio 1835 Wallace Collection

Tradução de José Bento

Transcrito S. João da Cruz, Poesias Completas, Assírio & Alvim, Lisboa.

 

Acrescento a tradução de Jorge de Sena

 

Noite Escura

 

Em uma Noite escura,

com ânsias em amores inflamada,

ó ditosa ventura!

saí sem ser notada,

estando minha casa sossegada.

 

A ocultas, e segura,

pela secreta escada, disfarçada,

ó ditosa ventura!,

a ocultas, embuçada,

estando minha casa sossegada.

 

Em uma Noite ditosa,

tão em segredo que ninguém me via,

nem eu nenhuma cousa,

sem outra luz e guia

senão aquela que em meu seio ardia.

 

Só ela me guiava

mais certa do que a luz do meio-dia,

aonde me esperava

quem eu mui bem sabia,

em parte onde ninguém aparecia.

 

Ó Noite que guiaste!,

ó Noite amável mais que a alvorada!,

ó Noite que juntaste

Amado com amada,

amada nesse Amado transformada!

 

No meu peito florido,

que inteiro para ele se guardava,

quedou adormecido

do prazer que eu lhe dava,

e a brisa no alto cedro suspirava.

 

Da torre a brisa amena,

quando eu a seus cabelos revolvia,

com fina mão serena

a meu colo feria,

e todos meus sentidos suspendia.

 

Quedei-me e me olvidei,

e o rosto inclinei sobre o do Amado:

tudo cessou, me dei,

deixando meu cuidado

por entre as açucenas olvidado.

 

Transcrito de Poesia de 26 Séculos, Fora do Texto, Coimbra, 1993.

 

Termino com a transcrição do original do poema.

 

Noche Oscura

Canciones de el alma que se goza

de habber llegado al alto estado de la perfección,

que es la unión con Dios,

por el camino de la negación espiritual

 

En una noche obscura,

con ansias, en amores inflamada,

¡oh dichosa ventura!,

salí sin ser notada,

estando ya mi casa sosegada.

 

Ascuras y segura,

por la secreta escala disfrazada,

¡oh dichosa ventura!,

a oscuras y en celada,

estando ya mi casa sosegada.

 

En la noche dichosa,

en secreto, que nadie me veía,

ni yo miraba cosa,

sin otra luz y guía

sino la que en el corazón ardía.

 

Aquesta me guiaba

más cierto que la luz del mediodía,

adonde me esperaba

quien yo bien me sabía,

en parte donde nadie parecía.

 

¡Oh noche, que guiaste!

¡Oh noche, amable más que el alborada!

¡Oh noche que juntaste

Amado con amada,

amada en el Amado transformada!

 

En mi pecho florido,

que entero para él solo se guardaba,

allí quedó dormido,

y yo le regalaba,

y el ventalle de cedros aire daba.

 

El aire del almena,

cuando yo sus cabellos esparcía,

con su mano serena

en mi cuello hería

y todos mis sentidos suspendía.

 

Quedéme y olvidéme,

el rostro recliné sobre el Amado,

cesó todo, y dexéme,

dexando mi cuidado

entre las azucenas olvidado.

 

Abre o artigo a imagem do chamado Cristo do Escorial esculpido por Benvenuto Cellini (1500-1571) para o acompanhar no seu próprio enterro. A escultura em mármore de Carrara, e de tamanho natural, mede 1,84m, mostra-se actualmente na Basílica do Escorial, nos arredores de Madrid. Acontece que, supostamente para evitar o escândalo dos fiéis, se encontra envolta na bacia, por uma tela.

 CELLINI, Benvenuto - cruxifixo do Escorial com tela 300px

Comprado pelos Medici, foi posteriormente oferecido a Filipe II de Espanha, e por este guardado no Mosteiro do Escorial.

 

A imagem da pintura dá conta de uma visão de Paolo e Francesca vivendo no inferno pelo pecado da luxúria, e encontrados por Dante na sua passagem. A pintura, de Ary Scheffer (1795-1858), feita em 1835, pertence à Wallace Collection de Londres.

 

Num tempo em que culpa e castigo ocorrem dentro de outros paradigmas, a sobreposição da mente ao corpo é algo com que todos os dias temos que nos haver.

Sendo estas obras testemunhos históricos de uma relação entre o erótico e o sagrado, e com uma história mítica que lhes subjaz, hoje, no nosso confronto com elas, somos questionados sobre as certezas acerca de quanto corpo e espírito são realidades autónomas no ser humano: entre fazer e pensar que distância há a percorrer? — (emocional, social e afectivamente?).

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