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vicio da poesia

Category Archives: Poetas e Poemas

Saudade do teu corpo – soneto de António Patrício

26 Sábado Nov 2011

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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António Patrício

20111126-013218.jpg

SAUDADE DO TEU CORPO

Tenho saudades do teu corpo: ouviste
correr-te toda a carne e toda a alma
o meu desejo – como um anjo triste
que enlaça nuvens pela noite calma?…

Anda a saudade do teu corpo (sentes?…)
Sempre comigo: deita-se ao meu lado,
dizendo e redizendo que não mentes
quando me escreves: “vem, meu todo amado…”

É o teu corpo em sombra esta saudade…
Beijo-lhe as mãos, os pés, os seios-sombra:
a luz do seu olhar é escuridade…

Fecho os olhos ao sol p’ra estar contigo.
É de noite este corpo que me assombra…
Vês?! A saudade é um escultor antigo!

Pois é, ler poesia a horas mortas dá isto!
E a esta saudade na pele faz companhia o dourado liquido temperado com in the wee small hours na voz de Sinatra.

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/09-frank_sinatra-in_the_wee_samll_hours_of_the_morning-atm.mp3

Noticia bibliográfica
O soneto é de António Patrício (1878-1930). Foi originalmente publicado em 1911 no nº10 da revista A Águia e recolhido na edição de poesia completa, Assírio & Alvim, 1980.

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História em 4 posters com um poema de Leonor Almeida

23 Quarta-feira Nov 2011

Posted by viciodapoesia in A mulher imaginada, Poetas e Poemas

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Leonor Almeida

Os 4 posters que seguem têm uma história que vou contar de forma telegráfica e púdica.

Recebi de uma leitora do blog correio com o poema  POSSE que transcrevo, e o convite para um encontro.

POSSE

Vem cá! Assim, verticalmente!

Achega-te… Docemente…

Vou olhar-te… E, no teu olhar, colher

Promessas do que quero prometer,

Até à síncope do amor na alma!

Colemos as mão, palma a palma!

A minha boca na tua, sem beijo…

Desejo-te, até o desejo

Se queixar que dói…

E sou tua, assim, como nenhuma foi!

Dei comigo a sonhar com a anónima escritora, daí um primeiro poster.

Muni-me de Viagra e parti para o encontro. Ao chegar tenho a imagem que se pode depreender deste 2º poster.

Avançados nos preliminares, vinha preparado para o prometido   Desejo-te, até o desejo / Se queixar que dói…  mas o Viagra é um problema sério para as mulheres de meia idade ou nem tanto. A certa altura, a fuga foi inevitável, ainda que feliz e satisfeita como este 3º poster elucida.

O blogger depois do encontro que se relata ficou no estado que segue, visto de forma brilhante por Dave Murray

Termino com o escritor, de costas para o mundo, a inventar esta história. Reparem nos coraçõezinhos a subir dos prédios imaginados pelo escritor. Tão q’rido não é?

Nota séria

O poema é de Leonor de Almeida (1915) e foi publicado no livro Caminhos Frios em 1947.

Da poetisa pouco se sabe no passado recente, a não ser que publicou pelo menos quatro livros de poesia: além do já referido Caminhos Frios (1947), Luz do Fim (1950), Rapto (1953), Terceira Asa (1960),  onde o erótico ressuma. Terá vivido longamente na Dinamarca, e daí a escolha dos posters.

Os posters com figuras femininas são de Mads Berg (Copenhague). O primeiro poster do artigo é de autor não identificado. O poster do escritor é de Borja Bonaque

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Salette Tavares – uma aproximação

22 Terça-feira Nov 2011

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Salette Tavares

 

É a caricia da mão na minha face

e o meu olhar repousado

o sorriso que passa

rápido

de mim a ti.

 

É toda uma ternura que nos chama

é a desolada solidão de quem se ama

e conhece o espaço

que fica

de aqui ali.

 

É uma inclinação suspensa

por toda a pele que nos limita o corpo

gemido, doçura, pena

como o poema

a chamar por mim.

 

Integrando o pequeno grupo de grandes poetas portugueses do século XX, a poesia de Salette Tavares (1922-1994) é pouco conhecida. Espero ter o tempo para a ela regressar de forma circunstanciada.

Por agora, além do poema de abertura, deixo-vos com outro poema de amor, ambos de Espelho Cego primeiro livro da autora publicado em 1957.

 

Aqui onde chegaste

a tua voz trocou-se,

diz-me

onde puseste

o amor com que te sei.

 

Meridiano do meu corpo

mundo escorrido limite

raiz encharcada d’água

a respirar-me no peito.

 

Vela de cera acendida

no teu olhar que morreu

eu sei-me

água, terra, morte, vida,

cor do vento sobre a pele,

eu sei-te

luz do ar do meu cabelo.

 

Em despedida aqui fica um exemplo da sua poesia concreta, arranhisso, em que a disposição das palavras nos remete visualmente para o bicho.

 

 

Noticias biográficas sobre a autora podem ser facilmente encontradas na net.

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Nous dormirons ensemble – poemas de Louis Aragon e a voz de Jean Ferrat

14 Segunda-feira Nov 2011

Posted by viciodapoesia in Convite à música, Poetas e Poemas

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Jean Ferrat, Louis Aragon

Alguma poesia de Louis Aragon (1897-1982) foi musicada e cantada por Jean Ferrat (1930-2010) tendo com isso chegado ao coração de muitos de nós. São canções onde a mulher e o amor irrompem, eivadas da nostalgia dos tempos felizes a maior parte das vezes.

O poeta, resultado de um percurso politico polémico e de uma personalidade incapaz de gerar consensos, continua ainda hoje fora da atenção dos amantes da poesia, pelo menos entre nós.

Servem-nos as canções para um aproximar de uma poesia com uma verdade no sentimento que julgaríamos inacessível à personalidade pública e politica cuja imagem nos chegou.

lamentavelmente não conheço traduções portuguesas dos poemas pelo que segui-los fica ao alcance dos conhecedores de francês. Aos outros restam as belíssimas interpretações de Jean Ferrat, de onde o conteúdo poético pode ser inferido usando a sensibilidade.

Nous dormirons  ensemble

Que ce soit dimanche ou lundi

Soir ou matin, minuit, midi

Dans l’enfer ou le paradis

Les amours aux amours ressemblent

C’était hier que je t’ai dit

Nous dormirons ensemble

C’était hier et c’est demain

Je n’ai plus que toi de chemin

J’ai mis mon coeur entre tes mains

Avec le tien comme il va l’amble

Tout ce qu’il a de temps humain

Nous dormirons ensemble

Mon amour, ce qui fut sera

Le ciel est sur nous comme un drap

J’ai refermé sur toi mes bras

Et tant je t’aime que j’en tremble

Aussi longtemps que tu voudras

Nous dormirons ensemble

Segue-se o poema feito canção por Jean Ferrat e cantado por este.

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/Jean+Ferrat+-+Nous+dormirons+ensemble.mp3

Acrescento HEUREUX CELUI QUI MEURT D’AIMER 

O mon jardin d’eau fraîche et d’ombre

Ma danse d’être mon coeur sombre

Mon ciel des étoiles sans nombre

Ma barque au loin douce à ramer

Heureux celui qui devient sourd

Au chant s’il n’est de son amour

Aveugle au jour d’après son jour

Ses yeux sur toi seule fermés

Heureux celui qui meurt d’aimer

Heureux celui qui meurt d’aimer

D’aimer si fort ses lèvres closes

Qu’il n’ait besoin de nulle chose

Hormis le souvenir des roses

A jamais de toi parfumées

Celui qui meurt même à douleur

A qui sans toi le monde est leurre

Et n’en retient que tes couleurs

Il lui suffit qu’il t’ait nommée

Heureux celui qui meurt d’aimer

Heureux celui qui meurt d’aimer

Mon enfant dit-il ma chère âme

Le temps de te connaître ô femme

L’éternité n’est qu’une pâme

Au feu dont je suis consumé

Il a dit ô femme et qu’il taise

Le nom qui ressemble à la braise

A la bouche rouge à la fraise

A jamais dans ses dents formée

Heureux celui qui meurt d’aimer

Heureux celui qui meurt d’aimer

Il a dit ô femme et s’achève

Ainsi la vie, ainsi le rêve

Et soit sur la place de grève

Ou dans le lit accoutumé

Jeunes amants vous dont c’est l’âge

Entre la ronde et le voyage

Fou s’épargnant qui se croit sage

Criez à qui vous veut blâmer

Heureux celui qui meurt d’aimer

Heureux celui qui meurt d’aimer

Eis a interpretação de Jean Ferrat, com musica de sua autoria.

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/Jean+Ferrat+-+Heureux+celui+qui+meurt+d%27aimer.mp3

Termino com C’EST SI PEU DIRE QUE JE T’AIME

Comme une étoffe déchirée

On vit ensemble séparés

Dans mes bras je te tiens absente

Et la blessure de durer

Faut-il si profond qu’on la sente

Quand le ciel nous est mesure

C’est si peu dire que je t’aime

Cette existence est un adieu

Et tous les deux nous n’avons d’yeux

Que pour la lumière qui baisse

Chausser des bottes de sept lieues

En se disant que rien ne presse

Voilà ce que c’est qu’être vieux

C’est si peu dire que je t’aime

C’est comme si jamais jamais

Je n’avais dit que je t’aimais

Si je craignais que me surprenne

La nuit sur ma gorge qui met

Ses doigts gantés de souveraine

Quand plus jamais ce n’est le mai

C’est si peu dire que je t’aime

Lorsque les choses plus ne sont

Qu’un souvenir de leur frisson

Un écho des musiques mortes

Demeure la douleur du son

Qui plus s’éteint plus devient forte

C’est peu des mots pour la chanson

C’est si peu dire que je t’aime

Et je n’aurai dit que je t’aime

e de novo a musica e interpretação de Jean Ferrat.

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/Jean+Ferrat+-+Nous+dormirons+ensemble.mp3

Nota

A pintura que ilustra o artigo é de Picasso e chama-se A alegria de viver, tendo sido pintada em 1946.

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Tornar à felicidade segundo José Lino Grünewald (1931-2000)

13 Domingo Nov 2011

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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José Lino Grünewald

Entretido a vasculhar a biblioteca em busca de poesia erótica para o meu novo entretém, o blog obelosexo.tumblr.com, tenho descurado o alimento poético dos leitores do vicio da poesia.

Não será ainda hoje a visita circunstanciada à poesia de José Lino Grünewald (1931-2000), que me encanta na sua despretensiosa simplicidade, mas, e sem comentários adicionais, deixo três poemas exteriores à sua poesia visual, da qual já incluí um exemplo em  A culinária chega ao blog com A VIDA de Zelino.


Nestes tempos em que a politica questiona o nosso pseudo civil service, leia-se este soneto burocrático, que em gente com mais idade fará lembrar o formulário dos requerimentos em papel selado, e a todos revela o fascinante mundo do “quanto mais me reporto mais equivalentemente me certifico”:

soneto burocrático

salvo melhor juízo doravante

dessarte data vénia por suposto

por outro lado maxime isso posto

todavia deveras não obstante

 

pelo presente atenciosamente

pede deferimento sobretudo

nestes termos quiçá aliás contudo

cordialmente alhures entrementes

 

sub-roga ao alvedrio ou outrossim

amiúde nesse interim senão

mediante mormente oxalá quão

 

via de regra tê-lo-ão enfim

ipso facto outorgado mas porém

bem substabelecido assim amém

 

Depois de semelhante transtorno, valham-nos as mulheres lembradas neste galanteio

todas as mulheres são

um enlace de perfumes

 

um haikai de ai-ai-ai

um haikai de vai-vai-vai

um haikai de sai-sai-sai

um haikai de cai-cai-cai

e embrulhados em saboroso cai-cai-cai proponho-vos tornar à felicidade

 

tornar à felicidade

quando à hora da saudade

ciciam as aves breves

sob o anelo de ares leves.

 

oh! Quem azul não queria?

quem não quereria e ria?

pára o mundo, baixa a autora

rios sorriem agora.

 

o universo enlaça a festa

cores vibram na floresta.

chega alegre o vate ao mundo

e esquece que é profundo.

Não sei de melhor conselho.

Noticia bibliográfica

Os poemas foram transcritos de  escreviver, edição da obra poética completa do autor, publicada por editora PERSPECTIVA, São Paulo, Brasil, 2008.

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Le baiser de Anna de Noailles (1876-1933)

08 Terça-feira Nov 2011

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Anna de Noailles

A espaços passo algumas horas a desenterrar poesia de que nunca ouvi falar. Umas vezes são poetas portugueses, outras poesia nas línguas que conheço.

Trago hoje um poema de uma poetisa francesa que o leitor talvez conheça, mas cuja existência eu desconhecia por completo. Chamou-se Anna de Noailles (1876-1933).

Le baiser

Couples fervents et doux, ô troupe printanière !

Aimez au gré des jours.

– Tout, l’ombre, la chanson, le parfum, la lumière

Noue et dénoue l’amour.

 Épuisez, cependant que vous êtes fidèles,

La chaude déraison,

Vous ne garderez pas vos amours éternelles

Jusqu’à l’autre saison.

 Le vent qui vient mêler ou disjoindre les branches

A de moins brusques bonds

Que le désir qui fait que les êtres se penchent

L’un vers l’autre et s’en vont.

 Les frôlements légers des eaux et de la terre,

Les blés qui vont mûrir,

La douleur et la mort sont moins involontaires

Que le choix du désir.

 Joyeux; dans les jardins où l’été vert s’étale

Vous passez en riant,

Mais les doigts enlacés, ainsi que des pétales,

Iront se défeuillant.

 Les yeux dont les regards dansent comme une abeille

Et tissent des rayons,

Ne se transmettront plus, d’une ferveur pareille,

Le miel et l’aiguillon,

 Les coeurs ne prendront plus, comme deux tourterelles,

L’harmonieux essor,

Vos âmes, âprement, vont s’apaiser entre elles,

C’est l’amour et la mort…

A volubilidade do desejo atravessa o poema, qual brisa conduzindo do enlace inicial ao afastamento, tão belamente descrito nos versos Mais les doigts enlacés, ainsi que des pétales, / Iront se défeuillant, para a seguir referir como os corações já não seguirão, como duas rolas / o harmonioso voo ou, nos versos originais:

Les coeurs ne prendront plus, comme deux tourterelles, / L’harmonieux essor,

Anna de Noailles, tendo publicado o primeiro livro de poemas em 1901, Le Cœur innombrable, poèmes, Calmann-Lévy, possui na sua biografia a particularidade de ter sido a primeira mulher em França a receber a Legião de Honra e a entrar na Academie Francaise. Com outras mulheres, criou em 1904 o prémio “Vie Heureuse”, que mais tarde se transformou no “Prix Femina” ainda hoje existente.

Encontrado o nome, a net acaba por fornecer informação adicional, e para a poetisa, uma admiradora criou uma bela página com abundantes extractos da sua obra, para onde remeto o leitor interessado, e onde encontrará outros poemas, que não o transcrito neste artigo.

http://www.annadenoailles.org/

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Soneto 2 de Fernando Assis Pacheco

05 Sábado Nov 2011

Posted by viciodapoesia in Convite à fotografia, Erótica, Poetas e Poemas

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Fernando Assis Pacheco

Soneto 2

Os trabalhos de amor são os mais leves

de quantos algum dia pratiquei

na cama as alegrias fazem lei

e se me queixo é só de serem breves

 

eu vivo atado às tuas mãos suaves

num nó de que este corpo já não sai

ferve o arco do sol a tarde cai

ardem voando pelo céu as aves

 

mágoas outrora muitas fabriquei

e em países salobros jornadeei

ao dorso das tristezas almocreves

 

a vez em que te amei um outro fui

comigo fiz a paz nada mais dói

e os trabalhos de amor nunca são graves

 Lisboa

12-X93, 23-XII-93

Soneto 2 de Fernando Assis Pacheco (1937-1995) publicado em RESPIRAÇÃO ASSISTIDA, edição Assírio & Alvim, 2003.

 

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CINZA ETERNA – Poema de Juan Luis Panero (1942) para a pintura de Giorgio Morandi (1890-1964)

04 Sexta-feira Nov 2011

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Giorgio Morandi, Juan Luis Panero

…

O quarto decorado em tons pastel lembrava uma pintura de Morandi, transpirava uma atmosfera diáfana e convidava ao repouso. A luz coada pelas cortinas esvoaçantes punha sobre os móveis encerados um dourado acolhedor.

…

 

Depois deste fragmento de uma ficção em curso, deixo-vos com um poema de Juan Luis Panero (1942) evocativo da pintura de Giorgio Morandi (1890-1964).

CINZA ETERNA

(Giorgio Morandi)

 Musica silenciosa da cor, rumor do pincel e da tela,

simbolo simples, segredo azul e cinzento.

O tempo passa, mas não fere, parece flutuar,

suave nos contornos, detido nas formas,

 reflexos onde a realidade se sonha,

 inventada luz, por isso mais intensa.

Milhares de olhos e um único olhar

para pintar esta garrafa, depurar o branco daquela cerâmica,

despir, transparente pele cálida, fulgor acariciado,

o vidro, a toalha, a madeira, as frágeis flores,

para sonhar diferente e única,

repetida e comum, esta matéria eterna,

as suas marcas de espuma, a sua pálida cinza.

Noticia bibliográfica

O poema foi publicado no livro Antes que llegue la noche (1985) e traduzido por Joaquim Manuel Magalhães. A tradução foi publicada por RELÓGIO D’ÁGUA em 2003, na antologia da obra do poeta, POEMAS, organizada e prefaciada pelo tradutor.

 

Termino com três pinturas de Morandi onde o predomínio do amarelo produziu resultados diversos num intervalo de largos anos, num progressivo abandonar do rigor do desenho até àquela diáfana forma de representar sempre os mesmos objectos.

 

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Escherichia – uma declaração de amor de Vitorino Nemésio

09 Domingo Out 2011

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Vitorino Nemésio

Alguns poetas relataram dolorosas experiências de hospital, e estou a lembrar-me (e não por acaso) de Manuel António Pina, assim também Vitorino Nemésio (1901-1978).

Em Limite de Idade, livro atípico na obra do poeta, onde sarcasmo e non-sense se namoram, encontramos uma declaração de amor à bactéria que o atormenta Escherichia Coli de seu nome.

Parodiando notáveis poemas de amor, de Dante a Álvaro de Campos, passando por Antero de Quental, temos uma bem disposta reflexão sobre os males do corpo e como olhá-los com bonomia. A idade do poeta terá contribuído para tão serena e bem-humorada reflexão, primeiro em torno da Escherichia e depois à roda da Keratina.

Aí ficam os poemas. Noutra oportunidade iremos a outras zonas desta fascinante e diversificada obra poética.

Escherichia

I
Mandei fazer o electrocardiograma
À minha “Beatriz de mão gelada”:
Mas fui eu, fui eu só que fui à cama,
Eu, claro! não Beatriz, nem Dante, eu nada!


“Mas única Beatriz consoladora”
Então não era a Morte reservada
A quem tem coração pela vida fora
E por ele sobe em hélice aminada?


Em gráfico de sismo a sina veio
Nessa foto cardíaca: – “Receio
Que morra, Daisy!” Não:”Que morra, Dolly!”


Pois eu não sou o Fernando Pessoa
Ou Antero, nem em inglês seu nome soa,
Que minha Musa é Escherichia Coli.

II
Escherichia ou Beatriz, que importa o nome
Se ambos me soam igualmente belos?
A prometida morte nos consome
Como flor prometida nos carpelos.


Assim tu, Escherichia, és meu tormento
E nocturno tremor, Beatriz funérea!
Quem nasceu para casto fingimento
Afinal pode amar uma bactéria.

III
Pego em Escherichia ao colo,
Musa micrónica, etérea,
Mas não já de éter sulfúrico
Senão feminil bactéria.
Por ela todo estremeço
Em suor e ácido úrico!

 

KERATINA

Não há projecto no dejecto
E o castelo de moscas o assimila!
Em horas, uma dúzia de ovos
Dá milhares de asas verdes:
Assim a keratina da menina,
Além das unhas róseas
Dá-lhe uma touca de oiro.
Eu amo, não a Rosa
– Cabeleira ou Corina –
Mas o lento caminho aminoácido,
A molécula plástica e feminina
Que não me engana ou perde.
Eu amo a mosca verde
E – mais precisamente – a keratina.

Embora a minha vontade fosse continuar a transcrição de mais saborosos exercícios poéticos, termino com a séria reflexão em forma brincada sobre aquela ante-câmara da morte que a anestesia pode ser:

CA-DÁ-VER

Estendo-me na morte,
Ainda em lençóis de vida:
As enzimas alerta,
A catálise certa
Na carne arrependida.
Preparo-me sangrando
Só na circulação:
Bate a ritmo brando
Meu áspero coração.
E assim, como um adeus,
Os neurones cintilam
Como a luz interior
De que meus olhos brilham.
Saberei no disperso
Do ácido aminado
Que a rima do meu verso
Diz amor
Acabado:


Ca-dá-ver …
Até ver
Se sou ressuscitado.

1.5.71

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Morro faz já bastante tempo – caminho para a poesia de Ângelo de Lima

28 Quarta-feira Set 2011

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Ângelo de Lima, Herberto Helder, Mário de Sá-carneiro

Sirvo-me do belo verso de Herberto Hélder:  Morro faz já bastante tempo e do poema que vos deixei no blog antes de férias, como pretexto para visitar a poesia de Ângelo de Lima (1872-1921), nesse poema também evocada, através do  verso com que abre um dos mais belos sonetos da língua portuguesa:

Pára-me de repente o pensamento

e que no final transcrevo.

A biografia do poeta é conhecida nos aspectos dramáticos da sua loucura(?) com o relatório do Dr. Miguel Bombarda como peça chave, e dispenso-me de o reproduzir.

Inicio esta curta viagem com o poema A MEU PAI, poema onde a verdade emocional exçuda, transmitindo de forma ímpar a desolada sensação de estar só no mundo com este verso:

Ai! que é tão triste não se ter ninguém!

A pungência do poema, qual  grito de socorro, toca-nos para além do conhecimento da biografia do Poeta.

A MEU PAI
(No Santo Dia Dos Finados)

Pai! quando às horas do findar do dia,
A bruma vaga cobre, triste, o Espaço
E a mim me envolve na melancolia…

Pai! Diz-me: sabes que secreto laço
Me prende, a mim, que vago n’este mundo,
Triste, avergado sob o atroz cansaço,
A ti, que pairas lá no céu profundo?…

Pai! sou teu filho! – sou teu filho, sinto…
Não me renegues – sou teu filho, oh! Pai!…
Vês como eu vago n’este labirinto,
Perdido, triste, alucinado, – aí! –
Tal como a nave em que Israel vagou,
E, erma, ao acaso, sobre as aguas vai,
Sem já saber que força me guiou,
Sem que me guie já vontade alguma,
N’esta derrota que seguindo vou?

Pois, como à nave que não tem nenhuma,
Nenhuma sombra de tripulação,
Sorri ainda Vésper, de entre a bruma…
Tal ao meu enlutado coração,
Que já não guia nem um só anseio,
Sorri, ao longe, de entre a cerração,
Oh! Pai! O afecto do teu nobre seio!

Pai! meu sincero, meu finado amigo!…
Dormes, no Nada majestoso e triste,
Ou vives ‘inda, como a Dor existe?…

Pai! quem me dera, logo, ir ter contigo!…

Pai! A Desgraça se enlaçou comigo,
Desde que, um dia, oh Pai! tu me fugiste!…
Pai!, se, n’um voo, pelo céu, partiste,
Dize-me o rumo, quero ver se o sigo…

Pai! Tua pobre campa, tão singela,
Talvez não tenha, como as outras têm,
No dia de hoje, quem n’a enflore a ela…

Ai! que é tão triste não se ter ninguém!

Ao menos, Eva, o nosso encanto, – vê-lá? –
E Pedro, e Vasco… São contigo além!

Eva, Pedro e Vasco, referidos no poema eram irmãos do autor.

O poema, tal como os restantes que transcrevo, foi retirado da edição das POESIAS COMPLETAS organizada por Fernando Guimarães e publicada pela Editorial Inova s/d (1971?).

Para uma Obra Poética conhecida de apenas 43 poemas, o conjunto de poemas notáveis é impressionante. Escolho apenas quatro: onde a condicão humana é questionada por um lado,

Sob a luz calma e suave / Dos mundos do sentimento… ,

ou então na singularidada da sua solidão e abandono

Na Douda Correria… em que, levado… / – Anda em Busca… da Paz… do Esquecimento[.]

Comecemos pelo poema 10 da edição mencionada:

Vai, sobre o sombrio abismo

D’esta existência terrena…

– Nas asas d’um misticismo

E paira a sonhar, serena!…

 

Sob a luz calma e suave

Dos mundos do sentimento…

Paira tranquila, alma… ó ave!

Sacia o longo tormento!…

 

– Sonha!… e sonhando te esquece!…

– Lá no sonho recatado –

A Rosa, o Lírio entreteces

D’um abraço embalsamado[.]

 

Lá minh’alma, alma adorada[.]

Mulher na terra caída[.]

Anjo que em meio à jornada

Sentiste a asa partida…

 

Lá minh’alma a ti cingindo,

Perfumada de amorosa,

No excelso cônjuge infindo,

Do Lírio, d’est’alma, ó Rosa!…

 

Fiquemos eternamente

Asa n’asa conjugada

– Se não tens nota ascendente,

Queda ó guitarra calada!

 

Sonhos

Sonho suave e bom que me envolveste

Não me deixes sózinho sobre a terra[.]

Se vais, contigo esta minha alma encerra,

Leva-a contigo a Deus d’onde vieste.

 

Como do céu minha alma assim mereceste

Que por ti d’ele um sonho se descerra

Ai com que frenesi que a ti se aferra,

Sonho, a ti sonho, esta alma a que desceste.

 

Sonhos que em vossas asas me tomais

Em meio do caudal em que derivo

E em vir a mim dos outros me estremais.

 

Sonho, ó ultimo sonho de que vivo[,]

Ai  não me deixes tu[,] como os demais

Retém-no em meu seio – ó meu senhor! – cativo.

Sozinho

Quando eu morrer m’envolva a Singeleza,

Vá sem Pompa a caminho do coval,

Acompanhe-me apenas a tristeza [,]

Não vá do bronze o som de val’ em val!

 

Chore o céu sobre mim de orvalho as bagas [,]

Luz do sol-posto fulja em seu cristal,

Cantem-me o “dorme em paz” ao longe as vagas.

 

Gemente a viração entoe o “Amém” [,]

Vá assim té ermas, afastadas plagas…

Lá… fique eu só!

                                               Não volte lá ninguém!

Por estas alturas, um outro louco na sua lucidez – Mário de Sá Carneiro –  escrevia:

Quando eu morrer batam em latas, / rompam aos berros e aos chicotes –  / …

Comuns na vontade de encenar a morte, são opostos os desejos, reflexo de naturezas bem diferentes.

Terminemos com o poema mais famoso de Ângelo de Lima:

Pára-me de repente o Pensamento…

– Como se de repente sofreado

Na Douda Correria… em que, levado…

– Anda em Busca… da Paz… do Esquecimento[.]

 

– Pára Surpreso… Escrutador… Atento

Como pára um Cavalo Alucinado

Ante um Abismo… ante seus pés rasgado…

– Pára… e Fica… e Demora-se um Momento…

 

Vem trazido na Douda Correria

Pára à beira do Abismo e se demora

 

E Mergulha na Noute, Escura e Fria

Um Olhar d’Aço, que na Noute explora…

 

– Mas a Espora da dor seu flanco estria…

 

E Ele Galga… e Prossegue… sob a Espora!

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