Caso do vestido — poema de Carlos Drummond de Andrade lido por João Villaret

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Graham_John_D.-Two_Sisters 1944Hoje, um poema de Carlos Drummond de Andrade (1902-87) sobre mulheres, Caso do vestido.

Encontramos aqui um triângulo amoroso entre duas mulheres e um homem de onde resplandece a capacidade infinita de amar de ambas. Não há sofrimento que as canse ou faça soçobrar. Nesta abnegação e entrega ao amor, concentrada em sublime síntese poética, ocorre-me a história de Senso, sobretudo na versão filmada de Visconti, onde uma Alida Valli (a actriz) no papel da condessa, se arrasta do esplendor à maior degradação, traindo os seus, e os valores em que viveu, roubando ouro que lhe confiaram para o entregar e ir atrás do homem que ama e a repudia de forma ignóbil. Que mola move uma mulher a tal abnegação? Nenhum homem é capaz desta desmesura. Também não sei se algum homem quer um amor assim.

Na história poética do Caso do vestido, o homem é afinal um pobre diabo que nunca esteve à altura das mulheres que o amaram.

Ouçamos o poema lido de forma ímpar por João Villaret.

Caso do Vestido

Nossa mãe, o que é aquele

vestido, naquele prego?

 Minhas filhas, é o vestido

de uma dona que passou.

Passou quando, nossa mãe?

Era nossa conhecida?

Minhas filhas, boca presa.

Vosso pai ai vem chegando.

Nossa mãe, dizei depressa

que vestido é esse vestido.

Minhas filhas, mas o corpo

ficou frio e não o veste.

O vestido, nesse prego,

está morto, sossegado.

Nossa mãe, esse vestido

tanta renda, esse segredo!

Minhas filhas, escutai

palavras de minha boca.

Era uma dona de longe,

vosso pai enamorou-se.

E ficou tão transtornado,

se perdeu tanto de nós,

se afastou de toda vida,

se fechou, se devorou,

chorou no prato de carne,

bebeu, brigou, me bateu,

me deixou com vosso berço,

foi para a dona de longe,

mas a dona não ligou.

Em vão o pai implorou.

Dava apólice, fazenda,

dava carro, dava ouro,

beberia seu sobejo,

lamberia seu sapato.

Mas a dona nem ligou.

Então vosso pai, irado,

me pediu que lhe pedisse,

a essa dona perversa,

que tivesse paciência

e fosse dormir com ele…

Nossa mãe, por que chorais?

Nosso lenço vos cedemos.

Minhas filhas, vosso pai

chega ao pátio. Disfarcemos.

Nossa mãe, não escutamos

pisar de pé no degrau.

Minhas filhas, procurei

aquela mulher do demo.

E lhe roguei que aplacasse

de meu marido a vontade.

Eu não amo teu marido,

me falou ela se rindo.

Mas posso ficar com ele

se a senhora fizer gosto,

só pra lhe satisfazer,

não por mim, não quero homem.

Olhei para vosso pai,

os olhos dele pediam.

Olhei para a dona ruim,

os olhos dela gozavam.

O seu vestido de renda,

de colo mui devassado,

mais mostrava que escondia

as partes da pecadora.

Eu fiz meu pelo-sinal,

me curvei… disse que sim.

Saí pensando na morte,

mas a morte não chegava.

Andei pelas cinco ruas,

passei ponte, passei rio,

visitei vossos parentes,

não comia, não falava,

tive uma febre terçã,

mas a morte não chegava.

Fiquei fora de perigo,

fiquei de cabeça branca,

perdi meus dentes, meus olhos,

costurei, lavei, fiz doce,

minhas mãos se escalavraram,

meus anéis se dispersaram,

minha corrente de ouro

pagou conta de farmácia.

Vosso pai sumiu no mundo.

O mundo é grande e pequeno.

Um dia a dona soberba

me aparece já sem nada,

pobre, desfeita, mofina,

com uma trouxa na mão.

Dona, me disse baixinho,

não te dou vosso marido,

que não sei onde ele anda.

Mas te dou este vestido,

última peça de luxo

que guardei como lembrança

daquele dia de cobra,

da maior humilhação.

Eu não tinha amor por ele,

ao depois amor pegou.

Mas então ele enjoado

confessou que só gostava

de mim como eu era dantes.

Me joguei a suas plantas,

fiz toda sorte de dengue,

no chão rocei minha cara,

me puxei pelos cabelos,

me lancei na correnteza,

me cortei de canivete,

me atirei no sumidouro,

bebi fel e gasolina,

rezei duzentas novenas,

dona, de nada valeu:

vosso marido sumiu.

Aqui trago minha roupa

que recorda meu malfeito

de ofender dona casada

pisando no seu orgulho.

Recebei esse vestido

e me dai vosso perdão.

Olhei para a cara dela,

quede os olhos cintilantes?

quede graça de sorriso,

quede colo de camélia?

quede aquela cinturinha

delgada como jeitosa?

quede pezinhos calçados

com sandálias de cetim?

Olhei muito para ela,

boca não disse palavra.

Peguei o vestido, pus

nesse prego da parede.

Ela se foi de mansinho

e já na ponta da estrada

vosso pai aparecia.

Olhou pra mim em silêncio,

mal reparou no vestido

e disse apenas: — Mulher,

põe mais um prato na mesa.

Eu fiz, ele se assentou,

comeu, limpou o suor,

era sempre o mesmo homem,

comia meio de lado

e nem estava mais velho.

O barulho da comida

na boca, me acalentava,

me dava uma grande paz,

um sentimento esquisito

de que tudo foi um sonho,

vestido não há… nem nada.

Minhas filhas, eis que ouço

vosso pai subindo a escada.

Alexandre O’Neill — Ana Brites, Balada tão ao gosto português

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Degas_Edgar-A_Roman_Beggar_Woman

Na poesia de Alexandre O’Neill (1924-1986) o sarcasmo tem presença frequente, e se um corrosivo humor cruza quase toda a sua poesia, o poeta foi por vezes capaz de comovente ternura por alguns desamparados, qual este Ana Brites, Balada tão ao gosto português.

 Ana Brites, Balada tão ao gosto português

Ana Brites, a coitada,

está no seu canto, enfartada,

a brancura do cabelo

na brancura da almofada,

a roupa da cama, pois,

bem dobrada e alinhada.

 

Ana Brites, camponesa

do fundo de Portugal,

com um tubo no nariz,

não pensa nem bem nem mal,

vê imagens, as da vida,

que até agora viveu,

vê a Castanha, a vaquinha,

o que no eido ocorreu,

vê-se em pequena, sozinha,

por esses montes, além,

caminho das letras gordas

também das quatro operações,

vê-se já em rapariga,

a alfinetar corações.

 

Vê o primeiro que pôs

rumores no seu coração,

um moço de grande lábia

sempre alegre e espertalhão.

Vê aquele que a levou,

por uma vez ao altar,

e vai, no seu corpo entrou,

como na casa o ladrão,

para a deixar com um filho

que é a sua devoção.

 

Ana Brites, a coitada,

sente, às vezes, a dor fina.

Apetece-lhe gemer,

mas é muito envergonhada,

além de não ser menina.

 

É então que uma senhora,

branca, de sorriso doce,

aparece em boa hora,

põe-lhe a mão no peito murcho

e vai-se embora só quando

a dor fica aliviada.

 

Ela não sabe quem é,

mas por seu bem ou seu mal,

habituou-se a chamar-lhe:

Senhora do Hospital.

O poema foi transcrito de Alexandre O’Neill, Poesias Completas 1951/1986, 3ª edição revista e aumentada, INCM, Edição do Dia de Portugal, 10 de Junho de 1990.

Marianne Moore — Poesia

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Richard Avedon - Foto de Marianne MoorePara pequena pausa dos leitores do blog hoje apenas transcrevo esta reflexão da poetisa norte-americana Marianne Moore (1887-1972) sobre Poesia, acompanhada de uma sua foto de 1958, suponho, magistral, e onde a personalidade da mulher se adivinha, feita por Richard Avedon (1923-2004).

Poesia

Também não gosto.

Lendo-a, no entanto, com um perfeito desprezo por ela,

                                                           descobrimos

nela, apesar de tudo, um lugar para o genuíno.

Tradução de Carlos Mendonça Lopes

Poetry

I, too, dislike it.

Reading it, however, with a perfect contempt for it, one

                                                          discovers in

it, after all, a place for the genuine.

O poema foi publicado em 1935, se não erro, no livro Selected Poems. Há uma versão mais longa desta reflexão, mas fica para outra oportunidade.

Com mulher nas 4 estacões – anúncio de jornal e três poemas de Vinicius de Moraes

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c842b.jpg (JPEG Image, 477x738 pixels)A presença de uma mulher na nossa vida adulta é para qualquer homem uma exigência e um desafio. Estou a lembrar-me da canção de Vinicius de Moraes, Mulher, sempre mulher, aqui cantada por Toquinho.

Mulher, sempre mulher

Mulher, ai, ai, mulher

Sempre mulher

Dê no que der

Você me abraça, me beija, me xinga

Me bota mandinga

Depois faz a briga

Só pra ver quebrar

Mulher, seja leal

Você bota muita banca

Infelizmente eu não sou jornal

 

Mulher, martírio meu

O nosso amor

Deu no que deu

E sendo assim, não insista

Desista, vá fazendo a pista

Chore um bocadinho

E se esqueça de mim

E se conservá-las é uma arte, a procura reveste as formas mais variadas.

Enviou-me mão amiga um anúncio de homem procurando namorada, publicado num jornal de Ceará no Brasil. O extraordinário da prosa faz com que o transcreva na forma em que me chegou.

Homem descasado de 40 anos, que só gosta de mulher, após casamento de sete anos, mal sucedido afetivamente, vem através deste anúncio, procurar mulher que só goste de homem, para compromisso duradouro, desde que esta preencha certos requisitos:

O PRETENDIDO exige que a PRETENDENTE tenha idade entre 28 e 40 anos, não descartando, evidentemente, aquelas de idade abaixo do limite inferior, descartando as acima do limite superior.

Devem ter um grau razoável de escolaridade, para que não digam, na frente de estranhos: ‘menas vezes’, ‘quando eu si casar’, ‘pobrema no úter’, ‘eu já si operei de apênis’, ‘é de grátis’, ‘vamo de a pé’, ‘adoro tar com você’ e outras pérolas gramaticais.

Os olhos podem ter qualquer cor, desde que sejam da mesma e olhem para uma só direção.

Os dentes, além de extremamente brancos, todos os 32, devem permanecer na boca ao deitar e nunca dormirem mergulhados num copo d’água.

 Os seios devem ser firmes, do tamanho de um mamão papaia, cujos mamilos olhem sempre para o céu, quando muito para o purgatório, nunca para o inferno. Devem ter consistência tal que não escapem pelos dedos, como massa de pão.

 Por motivos óbvios, a boca e os lábios, devem ter consistência macia, não confundir com beiço.

A barriga, se existir, muito pequena e discreta, e não um ponto de referência.

 O PRETENDIDO exige que a PRETENDENTE seja sexualmente normal, isto é, tenha orgasmos, se múltiplos melhor, mas mesmo que eventuais, quando acontecerem, que ela gema um pouco ou pisque os olhos, para que ele sinta-se sexualmente interessante.

 Independentemente da experiência sexual do PRETENDIDO, este exige que durante o ato sexual a PRETENDENTE não boceje, não ria, não fique vendo as horas no rádio relógio, não durma ou cochile.

O PRETENDIDO exige que a PRETENDENTE não tenha feito nenhuma sessão de análise, o que poderia camuflar, por algum tempo, uma eventual esquizofrenia.

A PRETENDENTE deverá ter um carro que ande, nem que seja uma Brasília, ou que tenha dinheiro para o táxi, uma vez que pela própria idade do PRETENDIDO, ele não tem mais paciência para levar namorada de madrugada para casa.

Enviar cartas com foto recente, de corpo inteiro, frente e costas, da PRETENDENTE, para a redação deste jornal, para o codinome:

‘CACHORRO MORDIDO DE COBRA TEM MEDO ATÉ DE BARBANTE’.

Há nesta prosa uma sinceridade reveladora do homem no que à mulher exige para o servir, que dificilmente alguém conseguiria inventar. Estamos, neste anúncio, num mundo de títeres. A dignidade que se exige a cada um para ser parte da humanidade anda longe daqui.

É outro o universo onde a humanidade que se respeita vive. E é do Brasil que nos vem, de novo, pela inspiração de Vinicius de Moraes a acertada forma de perguntar a uma mulher — Você quer ser minha namorada?

Oiçamo-la na voz de Maria Bethânia, numa versão que não inclui a primeira estrofe do poema.

Você quer ser minha namorada?

Meu poeta eu hoje estou contente

Todo mundo de repente ficou lindo

Ficou lindo de morrer

Eu hoje estou me rindo

Nem eu mesma sei de que

Porque eu recebi

Uma cartinhazinha de você

Se você quer ser minha namorada

Ai que linda namorada

Você poderia ser

Se quiser ser somente minha

Exatamente essa coisinha

Essa coisa toda minha

Que ninguém mais pode ser

Você tem que me fazer

Um juramento

De só ter um pensamento

Ser só minha até morrer

E também de não perder esse jeitinho

De falar devagarinho

Essas histórias de você

E de repente me fazer muito carinho

E chorar bem de mansinho

Sem ninguém saber porquê

E se mais do que minha namorada

Você quer ser minha amada

Minha amada, mas amada pra valer

Aquela amada pelo amor predestinada

Sem a qual a vida é nada

Sem a qual se quer morrer

Você tem que vir comigo

Em meu caminho

E talvez o meu caminho

Seja triste pra você

Os seus olhos têm que ser só dos meus olhos

E os seus braços o meu ninho

No silêncio de depois

E você tem que ser a estrela derradeira

Minha amiga e companheira

No infinito de nós dois

Música de Carlos Lyra

Termino com os conselhos do sábio poeta sobre como viver um grande amor

Para Viver Um Grande Amor dito por Vinicius de Moraes

Para Viver Um Grande Amor

Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é p’ra quem quer… — não tem nenhum valor.

Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro, e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for.

Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor direito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador.

É sempre necessário ter em vista um crédito de rosas no florista, muito mais, muito mais que na modista! — para viver um grande amor.

Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, filets com fitas — comidinhas para depois do amor.

E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?

Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor.

É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer “baixo” seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor.

Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — não ser um ganhador.

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva escura e desvairada não se souber achar a grande amada para viver um grande amor.

Transcrevi a versão lide pelo poeta nesta gravação. Existem outras versões do poema publicadas em livro.

Alexandre O’Neill — Há palavras que nos beijam, e outros poemas onde o amor também está

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Snyders_Frans-Fruit_and_Vegetable_Stall_detailCom uma ternura escondida frequentemente sobre a brutalidade do verso, fala-nos Alexandre O’Neill (1924-86) de variadas formas que o amor reveste e de como a sua ausência dói.

Começo com o poema Há palavras que nos beijam onde lemos Palavras que nos transportam / Aonde a noite é mais forte, / Ao silêncio dos amantes / Abraçados contra a morte.

Há palavras que nos beijam

Como se tivessem boca.

Palavras de amor, de esperança,

De imenso amor, de esperança louca.

 

Palavras nuas que beijas

Quando a noite perde o rosto;

Palavras que se recusam

Aos muros do teu desgosto.

 

De repente coloridas

Entre palavras sem cor,

Esperadas inesperadas

Como a poesia ou o amor.

 

(O nome de quem se ama

Letra a letra revelado

No mármore distraído

No papel abandonado)

 

Palavras que nos transportam

Aonde a noite é mais forte,

Ao silêncio dos amantes

Abraçados contra a morte.

Mudamos agora de registo e acompanhamos as dificuldades de jovens pais em viver a sua sexualidade com meninos em torno. Munch - four-girls-in-arsgardstrand-1903Canção de embrulhar

boa noite meninos não

não levantar da cama

não ir pé ante pé ver os pais ao

quarto diz que eles são quatro foles

agarrados uns aos outros ar

quejando diz que é o amor

ou quejando diz que é

o pai com uma coisinha assim

a meter um recado na caixinha que a mãe

tem diz que não que não é a da

costura que é aquela onde se

guardam os meninos antes de se poder

comprar o berço e eles poderem

nascer para o amor dos seus pais

No que segue, escreve Alexandre O’Neill sobre o homem solitário e a sua busca de consolo no sexo. Se os poemas envolvendo prostitutas são matéria poética vasta nos mais variados registos, referir em poesia o recurso a uma boneca insuflável para coito do coitado, coutada do solitário, não conheço outro.

Botero_Fernando-Seated_Woman_I 1997Soprónia Insuflávia

Soprónia Insuflávia, ó minha noiva cauchutada,

minha câmara-de-ar nupcial,

coito do coitado, coutada do solitário

cervo que nos galhos trazia à dependura

o retrato da que diziam verdadeira…

Verdadeira és tu, Soprónia! Machucada,

logo repões a glória da tua carne

na opulência das tuas formas,

as mesmas que, pelo catálogo, escolhi.

Porque fui eu que, à velha maneira, te escolhi

e a teus pais te paguei para poder trazer-te

a este quarto onde, dando novos sentidos à estafada canção,

o amor é uma coisa maravilhosa!

Que obediência devemos a práticas que não sejam as mais antigas?

Nós não fazemos amor, como diz a de hoje tão dessorada gente;

nós, está bem de ver, FORNICAMOS!

Não precisamos de Kahn, Egas Moniz ou Freud,

sequer de Reich, pensador orgasmático,

nem dessa trupe que dá pelo nome de As Femininistas

e que ao homem, quando quer, fecha obscenamente as pernas,

como santola que, já no prato, se recusasse.

Tão-pouco necessitamos de dar as nossas mãos

e fazer rodas infantis em casa de senhores idosos

para que a língua-de-sogra neles se desenrole

e eles digam:”- Te adoro!”

Somos absolutamente pela moral.

… … … … … … … … … … … … … … … … … … …

Ao Algarve, Soprónia, que o tempo tástupendo!

Desinflada, meto-te na mala.

Em Albufeira, recobro a forma do meu amor

e, naquele mar que nasceu para estar deitado,

deitamo-nos perdidamente a amar!

Termino com esta pungente Meditação na Pastelaria onde se fala de solidão e memória do que foi, talvez, amor – Chorar encostada a uma saudade / Bem maior do que eu, – e onde os sentimentos se abrigam na companhia de um cão de estimação. Henri de Toulouse-Lautrec - a condessa tomando o pequeno-almoçoMeditação na Pastelaria

Por favor, Madame, tire as patas,

Por favor, as patas do seu cão

De cima da mesa, que a gerência

Agradece.

 

Nunca se sabe quando começa a insolência!

Que tempo este, meu Deus, uma senhora

Está sempre em perigo e o perigo

Em cada rua, em cada olhar,

Em cada sorriso ou gesto

De boa-educação!

 

A inspecção irónica das pernas,

Eis o que os homens sabem oferecer-nos,

Inspecção demorada e ascendente,

Acompanhada de assobios

E de sorrisos que se abrem e se fecham

Procurando uma fresta, uma fraqueza

Qualquer da nossa parte…

 

Mas uma senhora é uma senhora.

Só vê a malícia quem a tem.

Uma senhora passa

E ladrar é o seu dever — se tanto for preciso!

 *

O pó de arroz:

Horrível!

O bâton:

Igual!

 

O amor de Raul é já uma saudade,

Foi sempre uma saudade…

(O escritório

Toma-lhe todo o tempo?

Desconfio que não…)

 

Filhos tivemos um:

Desapareceu…

E já nem sei chorar!

 

Chorar…

Como eu queria poder chorar!

 

Chorar encostada a uma saudade

Bem maior do que eu,

Que não fosse esta tristeza

Absurda de cada dia:

Unha

Quebrada de melancolia…

 

Perdi tudo, quase tudo…

 

Hoje,

Resta-me a devoção

E este pequeno inteligente cão.

 

Por favor, Madame, tire as patas,

Por favor, as patas do seu cão

De cima da mesa, que a gerência

Agradece.

Os poemas foram transcritos de Alexandre O’Neill, Poesias Completas 1951/1986, 3ª edição revista e aumentada, INCM, Edição do Dia de Portugal, 10 de Junho de 1990.

Da poesia com Casimiro de Brito

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Vasarely_Victor-Autoportrait_brise-1942-II

Poemas são conchas abandonadas por animais sofredores

que nelas viveram — a beleza que resta

de uns traços da humana errância.

E quando assim não é soa a falso. Ainda que algum virtuosismo de linguagem por momentos nos emocione.

É com uma comovente e profunda reflexão sobre a poesia e nós, leitores, feita por Casimiro de Brito (1938) que vos deixo.

Da poesia

Da poesia se poderá dizer que embeleza a dor,

que cicatriza com as flechas que atravessam

o corpo real,

que é uma flor de espuma que lava a cegueira das cidades.

Enquanto a dor arde e a morte se aproxima — a poesia

fornece-nos um pouco de azul.

Ironia da arte — ela sorri, altaneira quase,

do ruído da vida, do caos cumprido pelos corpos,

da tristeza e do abandono como se fossem coisa de somenos.

Mas, para quem souber ler, a poesia que nos encanta

e quase nos faz esquecer,

também nos aviva a memória para os caminhos do chão

e do ar e das águas,

por mais tortuosos que sejam,

como se ela fosse uma irmã consoladora da dor.

Serão então os poemas fragmentos iluminados da mágoa em cacos

que ficam pelo caminho? Palavras que nos lembram

que nem só de sofrimento se compõem

os percursos do homem?

Que nos recordam os vales da alegria,

os prazeres, os momentos mas delicados?

Poemas são conchas abandonadas por animais sofredores

que nelas viveram — a beleza que resta

de uns traços da humana errância.

O repouso do sobressalto.

Poema publicado em Fragmentos de Babel seguido de Arte Poética, Quasi Edições, Fevereiro de 2007.

De vez em quando Pessoa — hoje Os Jogadores de Xadrez de Ricardo Reis

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Dominic Nahr - Gaza City, Palestinian TerritoriesOuvi dizer que outrora, quando a Pérsia / Tinha não sei qual guerra.

Serve-nos a televisão com o jantar, notícias das catástrofes do mundo e do andamento que os políticos lhes dão.

Ardiam casas, saqueadas eram

As arcas e as paredes,

Violadas, as mulheres eram postas

Contra os muros caídos,

Trespassadas de lanças, as crianças

Eram sangue nas ruas…

Mas onde estavam, perto da cidade,

E longe do seu ruído,

Inda que nas mensagens do ermo vento

Lhes viessem os gritos,

E, ao refletir, soubessem desde a alma

Que por certo as mulheres

E as tenras filhas violadas eram

Nessa vitória próxima,

Fabio Bucciarelli  - Aleppo, SyriaSaber isto o espectador, acrescenta-lhe a ilusão de, ao saber o que acontece, participar na sua resolução: inclui-se na chamada opinião pública.

Inda que, no momento que o pensavam,

Uma sombra ligeira

Lhes passasse na fronte alheada e vaga,

Breve seus olhos calmos

Volviam sua atenta confiança

Ao tabuleiro velho.

Os jogadores de xadrez jogavam

O jogo de xadrez.

E, na verdade, esta ilusão de assim interferir nos destinos do mundo, permite ganhar a tranquilidade de consciência e dormir em sossego.

Dominic Nahr  - Heglig, SudanQuão longe estamos da indiferença levada aos limites por Fernando Pessoa no poema do heterónimo Ricardo Reis, Os Jogadores de Xadrez, que tenho vindo a citar?

Desde muito novo me debato com a pontual evidência experiencial deste poema e a liminar recusa da indiferença pelo destino do mundo que me rodeia e em que vivo.

Ah! sob as sombras que sem qu’rer nos amam,

Com um púcaro de vinho

Ao lado, e atentos só à inútil faina

Do jogo do xadrez,

Mesmo que o jogo seja apenas sonho

E não haja parceiro,

Imitemos os persas desta história,

E, enquanto lá por fora,

Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida

Chamam por nós, deixemos

Que em vão nos chamem, cada um de nós

Sob as sombras amigas

Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez

A sua indiferença.

Micah Albert - Nairobi, KenyaSoberba interrogação sobre nós e o mundo nos faz este poema! Aí fica na totalidade.

 

Os Jogadores de Xadrez

 

Ouvi dizer que outrora, quando a Pérsia

Tinha não sei qual guerra,

Quando a invasão ardia na Cidade

E as mulheres gritavam,

Dois jogadores de xadrez jogavam

O seu jogo contínuo.

 

À sombra de ampla árvore fitavam

O tabuleiro antigo,

E, ao lado de cada um, esperando os seus

Momentos mais folgados,

Quando havia movido a pedra, e agora

Esperava o adversário,

Um púcaro com vinho refrescava

Sobriamente a sua sede.

 

Ardiam casas, saqueadas eram

As arcas e as paredes,

Violadas, as mulheres eram postas

Contra os muros caídos,

Trespassadas de lanças, as crianças

Eram sangue nas ruas…

Mas onde estavam, perto da cidade,

E longe do seu ruído,

Os jogadores de xadrez jogavam

O jogo de xadrez.

 

Inda que nas mensagens do ermo vento

Lhes viessem os gritos,

E, ao refletir, soubessem desde a alma

Que por certo as mulheres

E as tenras filhas violadas eram

Nessa vitória próxima,

Inda que, no momento que o pensavam,

Uma sombra ligeira

Lhes passasse na fronte alheada e vaga,

Breve seus olhos calmos

Volviam sua atenta confiança

Ao tabuleiro velho.

 

Quando o rei de marfim está em perigo,

Que importa a carne e o osso

Das irmãs e das mães e das crianças?

Quando a torre não cobre

A retirada da rainha alta,

Pouco importa a vitória.

E quando a mão confiada leva o xeque

Ao rei do adversário,

Pouco pesa na alma que lá longe

Estejam morrendo filhos.

 

Mesmo que, de repente, sobre o muro

Surja a sanhuda face

Dum guerreiro invasor, e breve deva

Em sangue ali cair

O jogador solene de xadrez,

O momento antes desse

É ainda entregue ao jogo predileto

Dos grandes indif’rentes.

 

Caiam cidades, sofram povos, cesse

A liberdade e a vida.

Os haveres tranquilos e avitos

Ardem e que se arranquem,

Mas quando a guerra os jogos interrompa,

Esteja o rei sem xeque,

E o de marfim peão mais avançado

Pronto a comprar a torre.

 

Meus irmãos em amarmos Epicuro

E o entendermos mais

De acordo com nós-próprios que com ele,

Aprendamos na história

Dos calmos jogadores de xadrez

Como passar a vida.

 

Tudo o que é sério pouco nos importe,

O grave pouco pese,

O natural impulso dos instintos

Que ceda ao inútil gozo

(Sob a sombra tranqüila do arvoredo)

De jogar um bom jogo.

 

O que levamos desta vida inútil

Tanto vale se é

A glória, a fama, o amor, a ciência, a vida,

Como se fosse apenas

A memória de um jogo bem jogado

E uma partida ganha

A um jogador melhor.

 

A glória pesa como um fardo rico,

A fama como a febre,

O amor cansa, porque é a sério e busca,

A ciência nunca encontra,

E a vida passa e dói porque o conhece…

O jogo do xadrez

Prende a alma toda, mas, perdido, pouco

Pesa, pois não é nada.

 

Ah! sob as sombras que sem qu’rer nos amam,

Com um púcaro de vinho

Ao lado, e atentos só à inútil faina

Do jogo do xadrez,

Mesmo que o jogo seja apenas sonho

E não haja parceiro,

Imitemos os persas desta história,

E, enquanto lá por fora,

Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida

Chamam por nós, deixemos

Que em vão nos chamem, cada um de nós

Sob as sombras amigas

Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez

A sua indiferença.

 

1-6-1916

 

Transcrevi a versão proposta por Manuela Parreira da Silva em Ricardo Reis, Poesia, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000.

 

As fotos que acompanham o artigo pertencem à selecção 2013 de WorldPress Photo, e podem ser encontradas com informação sobre os seus autores seguindo este link AQUI.

 

A mulher segundo o zodíaco de Vinicius de Moraes

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Zodíaco

O fascínio do simbólico como explicação do incompreensível é de todas as épocas e civilizações. Encontramos o circulo zodiacal dividido em 12 partes, da China à Europa, com uma simbologia apenas pontualmente divergente. Enquanto fonte de explicação dos homens, a sua associação a animais retira das particularidades cinésicas destes, o grosso da explicação comportamental dos humanos nascidos no período associado a cada signo zodiacal.

 

Numa tentativa de leitura fiel da natureza humana feminina nascida sob cada um dos signos do zodíaco seguido no ocidente, compôs Vinicius de Moraes(1913-1980) 12 poemas que foram pela primeira vez publicados no primeiro número de 1971 de Manchete, como presente de Ano Novo aos leitores da revista.

 

Estes poemas forma posteriormente editados em livro, Um signo uma mulher, sob os cuidados de Pedro Moacir Maia, em Setembro de 1975, em Buenos Aires.

 

 

ÁRIES

Branca, preta ou amarela

A ariana zela.

 

Tem caráter dominador

Mas pode ser convencida

E aí, então, fica uma flor:

Cordata … e nada convencida.

 

Porque o seu denominador

É o amor.

 

Eu cá por mim não tenho nenhum preconceito racial:

Mas sou ariano!

 

 

TOURO

O que é que brilha sem

Ser ouro? — A mulher de Touro!

É a companheira perfeita

Quando levanta ou quando deita.

Mas é mulher exclusivista

Se não tem tudo, faz a pista.

Depois, que dona-de-casa …

E à noite ainda manda brasa.

Sua virtude: a paciência

Seu dia bom: a sexta-feira

Sua cor propícia: o verde

As flores dos seus pendores:

Rosa, flor de macieira.

 

 

GÉMEOS

A mulher de Gêmeos

Não sabe o que quer

Mas tirante isso

É boa mulher.

 

A mulher de Gêmeos

Não sabe o que diz

Mas tirante isso

Faz o homem feliz.

 

A mulher de Gêmeos

Não sabe o que faz

Mas por isso mesmo

É boa demais …

 

 

CÂNCER

Você nunca avance

Em mulher de Câncer.

 

Seu planeta ê a Lua

E a Lua, é sabido

Só vive na sua.

 

É muito apegada

E quando pegada

Pega da pesada.

 

É mulher que ama

Com muito saber

No tocante à cama

Não sei lhe dizer …

 

 

LEÃO

A mulher de Leão

Brilha na escuridão.

 

A mulher de Leão, mesmo sem fome

Pega, mata e come.

 

A mulher de Leão não tem perdão.

 

As mulheres de Leão

Leoas são.

 

Poeta, operário, capitão

Cuidado com a mulher de Leão!

 

São ciumentas e antagônicas

Solares e dominicais

Igneas, áureas e sardônicas

E muito, muito liberais.

 

 

VIRGEM

Se Florence Nightingale era Virgem

Não sei. .. mas o mal é de origem.

 

A mulher de Virgem aceita a amante

Isto é: desde que não a suplante.

 

Sexo de consumo, pães-de-minuto

Nada disso lhe há de faltar

O condomínio é absoluto

A Virgem é mulher do lar.

 

Opala, safira, turquesa

São suas pedras astrais

Na cuca, muita esperteza

Na existência, muita paz.

 

 

LIBRA

A mulher de Libra

Não tem muita fibra

Mas vibra.

 

Quer ver uma libriana contente?

Dê-lhe um presente.

 

Quando o marido a trai

A mulher de Libra

Balança mas não cai.

 

Se você a paparica

Ela fica.

 

Com librium ou sem librium

Salve, venusina

Que guarda o equilíbrio

Na corda mais fina.

 

 

ESCORPIÃO

Mulher de Escorpião

Comigo não!

É a Abelha Mestra

É a Viúva Negra

Só vai de vedete

Nunca de extra.

Cria o chamado conflito

de personalidades.

É mãe tirana

Mulher tirana

Irmã tirana

Filha tirana

Neta tirana

tirana tirana.

Agora, de cama diz –

que é boa paca.

 

 

SAGITÁRIO

As mulheres sagitarianas

São abnegadas e bacanas

Mas não lhe venham com grossuras

Nem injustiças ou censuras

Porque ela custa mas se esquenta

E pode ser muito violenta.

Aí, o homem que se cuide …

—Também, quem gosta de censura!

 

 

CAPRICÓRNIO

A capricorniana ê capricomial

Como a cabra de João Cabral.

Eu amo a mulher de Capricórnio

Porque ela nunca lhe põe os próprios.

 

A caprina é tão ciumenta

Que até os ciúmes ela inventa.

Mulher fiel está aí: é cabra

Só que com muito abracadabra.

 

Suas flores: a papoula e o cânhamo

De onde vêm o ópio e a maconha

Ela é uma curtição medonha

Por isto nos capricorniamos.

 

 

AQUÁRIO

Se o que se quer é a boa esposa

A aquariana pousa.

 

Se o que se quer é uma outra coisa

A aquariana ousa.

 

Se o que se quer é muito amor

A aquariana

É mulher macho sim senhor.

 

Porém não são possessivas

Nem procuram dominar

Ou são meigas e passivas

Ou botam para quebrar.

 

 

PEIXES

Mulher de Peixe . .. peixe é

Em águas paradas não dá pé

Porque desliza como a enguia

Sempre que entra numa fria.

Na superfície é sinhazinha

E festiva como a sardinha

Mas quando fisga um namorado

Ele está frito, escabechado.

É uma mulher tão envolvente

Que na questão do Paraíso

Há quem suspeite seriamente

Que ela era a mulher e a serpente.

Seu Id: aparentar juízo

Seu Ego: a omissão, o orgulho

Sua pedra astral: a ametista

Seu bem: nunca ser bagulho

Sua cor: o amarelo brilhante

Seu fim: dar sempre na vista.