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Category Archives: Poesia Antiga

Macaroni e um enigma setecentista em verso atribuído a Curvo Semedo

15 Quinta-feira Set 2016

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poesia Antiga

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Curvo Semedo

macaroni-ingles-2-500pxO reino das massas alimentícias, originárias de Itália, é, como se sabe, universo de paixão e de prodígios (culinários, evidentemente), onde até em Nápoles a pizza portuguesa pode ser considerada a melhor do mundo (noticia a imprensa).

Em massas, a infinita variação culinária é quase igual à diversidade de apresentação, e embora as massas frescas sejam de popularidade recente entre nós, algumas variedades de massa seca foram de longa data adoptadas pela culinária portuguesa, qual seja, por exemplo, o macarrão, indispensável para um bom feijão com massa.

Este macarrão já conhecido por cá no século XVIII, gozaria certamente de grande popularidade à época, a tal ponto que foi assunto de um sofisticado enigma poético atribuído a Belchior Curvo de Semedo (1766-1838), e que a seguir vos dou a conhecer.

 

Enigma
É grosso, longo, e furado,
Pinga, mas não se derrete,
Enxuto, e duro, se mete,
Tira-se mole, e molhado.
É à cobra assemelhado,
Mas tem seu quê com a espiga,
Penetra até à barriga,
Sacia a vontade à gente;
Porém ser cousa indecente
Não se creia, nem se diga.

 

E não se creia, não, senhores.

Tudo isto quer dizer mui simplesmente macarrão!

 

In Poesias Lyricas de Belchior Manuel Curvo de Semedo – Belmiro Transtagano, ed. 1890.

macaroni-ingleses-1-450pxEsta leitura do macarrão está longe do que sucedeu à palavra em terras de sua majestade britânica.

Por alturas da composição deste poema, ou um pouco antes (anos 60 do século XVIII), o macarrão, maccherone em italiano, transformou-se em Inglaterra num epíteto, acompanhando o sucesso local à época das massas italianas, macaroni.

macaroni-ingleses-sala-de-vestir-500pxAplicou-se em Inglaterra o epíteto de macaroni aos elegantes, sobretudo jovens aristocratas ou de posses, regressados da sua viagem cultural ao continente (Grand Tour), trajando  de forma original e espaventosa. A coisa ganhou proporção tal no espavento que foi motivo de retumbante sucesso em caricaturas da época, das quais alguns exemplos acompanham o artigo.

macaroni-ingles-1-450pxO amaneiramento em que a originalidade se tornou fez com que em alguns anos, o termo se tornasse sinónimo de efeminado. A vertigem da moda seguiu outros caminhos e por eles desapareceram os macaroni.

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Um poema/conselho vindo da Índia antiga

12 Segunda-feira Set 2016

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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picasso-gravura-500pxA vida coloca-nos todos os dias interrogações, e o sentido do que fazer como destino participa desse questionar. Se umas vezes as opções escasseiam, outras o leque é vasto. O acerto na decisão a tomar é tantas vezes motivo de angústia ou ansiedade que, procurando colmatar em algum leitor certa perplexidade sobre o que fazer, deixo a quem tal acontecer um conselho transmitido a partir da Índia antiga na forma de um poema, em versão de Jorge Sousa Braga.

Neste vão e flutuante mundo
O que resta a um homem?
Pode dedicar-se à oração
Mas se isso porventura não resulta
O melhor é refugiar-se entre os seios de uma mulher
Acariciar as suas coxas quentes
E possuir o que entre elas se oculta

Transcrito de Os Cinquenta poemas do amor furtivo e outros poemas eróticos da Índia antiga, introdução e versões de Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004.

Abre o artigo a imagem de uma gravura de Picasso (1881-1973).

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Paixão que teima num soneto da Viscondessa de Balsemão

12 Sexta-feira Ago 2016

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Tamara de Lempicka, Viscondessa de Balsemão

Tamara de Lempicka - Mulher à guitarra (detalhe) 600pxAbro um parêntesis no sobressalto dos dias para trazer mais uma perspectiva sobre o amor, desta vez sobre a escravidão da paixão, aqui num relato da Viscondessa de Balsemão (1749-1816):

 

…
Só por ti vivo, só por ti respiro;
Sairá com a minha alma em pranto envolto,
Teu nome unido ao último suspiro.

 

 

 

A Viscondessa de Balsemão figura entre a legião de poetas pré-românticos cuja obra se encontra esquecida entre manuscritos inéditos e edições da época inacessíveis. Entre esta herança poética, serão muitos os poemas banais ou dignos do silêncio do esquecimento, mas entre eles surgem por vezes algumas pérolas, como o soneto que hoje transcrevo.
Nele se dá conta do absoluto da paixão amorosa, mesmo quando a relação se quebra:

 

 

Inda existe, cruel, inda em meu peito
Se nutre da paixão o fogo activo;
Inda contra o meu gosto por ti vivo,
Fazendo o sacrifício mais perfeito.
…

 

 

A seguir refere o soneto como ela se agarra à pele e não larga, fazendo o apaixonado rebolar-se no prazer da sua dor:

 

…
Inda te adoro, ainda te respeito
Vendo em ti de meus males o motivo,
Porém o coração de amor cativo,
No cativeiro vive satisfeito.
…

 

 

Mais à frente regista o poema como naquele vai-vem do querer e não querer se alimenta o fogo da paixão:

 

…
Se às vezes contra ti queixumes solto,
Do que fiz insensato então me admiro
E aos meus antigos sentimentos volto.
…

 

 

Percorridos que estão os caminhos que o(a) apaixonado(a) atravessa quando escravo(a) da paixão, resta a leitura integral do soneto:

 

 

Inda existe, cruel, inda em meu peito
Se nutre da paixão o fogo activo;
Inda contra o meu gosto por ti vivo,
Fazendo o sacrifício mais perfeito.

Inda te adoro, ainda te respeito
Vendo em ti de meus males o motivo,
Porém o coração de amor cativo,
No cativeiro vive satisfeito.

Se às vezes contra ti queixumes solto,
Do que fiz insensato então me admiro
E aos meus antigos sentimentos volto.

Só por ti vivo, só por ti respiro;
Sairá com a minha alma em pranto envolto,
Teu nome unido ao último suspiro.

(Misc. Poética. Jornal de poesias inéditas, p15)

 

 

Transcrito de Zenóbia Collares Moreira, O Lirismo Pré-Romântico da Viscondessa de Balsemão,  Edições Colibri, Lisboa, 2000.

 

 

 

Abre o artigo a imagem do detalhe de uma pintura de Tamara de Lempicka (1898-1980) – Mulher à guitarra.

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Da Morte em dois poemas de Emily Dickinson

02 Terça-feira Ago 2016

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Emily Dickinson, Henri Rousseau

Rousseau, Henri (1844-1910) - Guerra 600pxFelizmente, o meu ânimo prazenteiro sobrepõe-se rápido aos desastres da vida, e quando me sento a escrever para o blog são as coisas agradáveis que me apetecem, ainda que uma ou outra mais negra por vezes se introduza.
A política não nos larga, e a pretexto dela, ou seja, de um ou alguns pretenderem escolher por nós o que nos fará felizes, esses mesmos vão semeando a morte nas calçadas. Acreditam no que este poema Emily Dickinson (1830-1886) refere:

 


Morrer — sem ser Morrendo
E sem a Vida — viver
O mais árduo Milagre
Que se propõe a Fé.

 


Pensar na morte, reflectir sobre o efémero dos dias, sobre a fragilidade do que até há pouco tomámos por seguro, é hoje uma inevitabilidade. E no entanto, a força da vida rapidamente nos tenta a levantar cabeça, e num encolher de ombros seguir em frente. Felizes os que o conseguem.

Num outro doloroso poema Emily Dickinson regista lapidarmente a sucessão entre a morte e o esquecimento dela, e que viveremos passadas as primeiras emoções:

…
Um Laço mais escuro — por um dia —
Um crepe no Chapéu —
E vem então a bela luz do sol —
E ajuda-nos a esquecer —
…

 

Neste poema, em três curtas quadras percorremos o quadro, no que à morte respeita, da dor pessoal, da vida em sociedade, e do mistério da fé cristã:

 


Morrer — é muito breve —
Dizem que não dói —
É só desfalecer — a pouco e pouco —
Depois — nada se ver —

Um Laço mais escuro — por um dia —
Um crepe no Chapéu —
E vem então a bela luz do sol —
E ajuda-nos a esquecer —

A criatura — mística — e distante —
Que só por nosso amor —
Fora dormir — nesse perfeito tempo —
E de cansaço ausente —

 

in Emily Dickinson, Duzentos Poemas, tradução, belíssima, posfácio organização e de Ana Luísa Amaral, Relógio D’Água Editores, Lisboa 2014.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Henri Rousseau (1844-1910), Guerra.

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Um poema de A Primavera de Francisco Rodrigues Lobo

28 Quinta-feira Jul 2016

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Francisco Rodrigues Lobo

HILLIARD, Nicholas 1547-1619 - miniatura sobre pergaminho 1588 300pxSabemos todos que as horas não têm sempre a mesma duração. E se as horas de prazer voam ligeiras, as de espera, ansiedade, desgosto ou desengano, de dilatadas, parecem eternidade.
Dessa variabilidade da duração do tempo em função de estados de alma nos fala o poema de Francisco Rodrigues Lobo (1580-1621) que a seguir transcrevo.
Se esta reflexão poética é de todos os tempos, as quatro oitavas que seguem têm a particularidade de glosar o primeiro quarteto de um soneto arqui-popular à época — Horas breves do meu contentamento — de autoria desconhecida, e a certa altura também atribuído a Camões, e no qual, com algumas nuances, esta mesma reflexão se escreve.
Ao soneto e às suas variadas versões irei proximamente. Por agora entrego-vos ao poema de Francisco Rodrigues Lobo.

 

 

Se sois, horas, da mesma natureza
Do tempo vão que passa e não se sente,
Como só no meu mal tendes firmeza
E tomais natureza diferente?
Como assim não fugis desta tristeza
E desta vida em tudo descontente,
Se mais leves fugis que o leve vento,
Horas breves do meu contentamento?

Quanto para saber-vos me faltava
Naquele breve espaço que vos vi!
Como do tempo então me descuidava,
Cuidei que todo fosse sempre assi.
Quanto fugia o bem e o mal durava
Pareceu-me depois que vos perdi.
Porque amor a meu mal tudo encaminha,
Nunca me pareceu quando vos tinha.

Ai duros, rigorosos desenganos,
A que tempo cortais minha esperança!
Saber que em tanta pena, em etantos danos
O mal só dura, o bem nunca descansa!
Horas que para o mal durais mil anos
E em meu gosto fazeis logo mudança,
Quão mal imaginara esta alma minha
Que vos visse mudada tão asinha!

Tudo em vós se trocou, tudo é mudado,
A vida, o gosto e o desejo dela,
O rosto , o parecer, o trajo, o gado,
E também se mudou a minha estrela.
Mudar-se tudo, enfim, me era forçado,
Que juízo não vale, força ou cautela
Pera sustentar sempre um sofrimento
Em tão compridos anos de tormento.

 

Transcrito de Francisco Rodrigues Lobo, A Primavera, edição de Maria Emília Gonçalves Pires, Vega Editora, Lisboa, 2003.

Abre o artigo a imagem de uma pintura miniatura (aguarela sobre pergaminho) por Nicholas Hilliard (1547-1619), feita em 1588, contemporânea próxima do poema. A atitude do jovem pintado reflecte admiravelmente o espírito que a meditação do poema transporta.

A pintura pertence à colecção do museu Victoria and Albert de Londres. A ficha da obra disponibilizada pelo museu on-line lê-se com proveito.

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Cantiga do campo — poema de Gomes Leal para canção dos Madredeus

14 Quinta-feira Jul 2016

Posted by viciodapoesia in Convite à música, Poesia Antiga

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Gomes Leal

Millet 1857 500pxA música de Pedro Ayres Magalhães e Rodrigo Leão para o poema de Gomes Leal (1848-1921) Cantiga do Campo capta a atmosfera luminosa deste, simultaneamente ensolarada e fresca, qual a da natureza pelo verão, servida por uma refinada orquestração.

Jean-Francois Millet 09 500px

O mundo rústico de que o poema fala está extinto, mas o desejo do contacto com a natureza assalta as gentes urbanas nestes dias de verão que incendeiam corpos e almas, levando multidões atrás da música em festivais com a paisagem silvestre quase intocada por cenário.

A música no seu mistério de devolver a harmonia ao humano é o catalisador destes parêntesis numa vida por demais enfeudada à vertigem das exigências de todos os dias.

Woodstock poster

Antes de transcrever o poema, registo além das variadas versões pelos Madredeus a belíssima e original interpretação da canção por Mylene, cantora brasileira que em 2007 gravou um esplêndido disco com diversas canções dos Madredeus.

As canções tanto nas interpretações dos Madredeus como de Mylene encontram-se on-line nos lugares do costume.

Jean-Francois Millet 02 450px

 

Cantiga do Campo

 

 

Por que andas tu mal comigo

Ó minha doce trigueira?

Quem me dera ser o trigo

Que, andando, pisas na eira!

 

Quando entre as mais raparigas

Vais cantando entre as searas,

Eu choro ao ouvir-te as cantigas

Que cantas nas noites claras!

 

Os que andam na descamisa

Gabam a viola tua,

Que, às vezes, ouço na brisa

Pelos serenos da lua.

 

E falam com tristes vozes

Do teu amor singular

Àquela casa onde cozes,

Com varanda para o mar.

 

Por isso nada me medra,

Ando curvado e sombrio!

Quem me dera ser a pedra

Em que tu lavas no rio!

 

E andar contigo, ó meu pomo

Exposto às chuvas e aos sois!

E uma noite morrer como

Se morrem os rouxinóis!

 

Morrer chorando, num choro

Que mais as magoas consola,

Levando só o tesouro

Da nossa triste viola!

 

Por que andas tu mal comigo?

Ó minha doce trigueira?

Quem me dera ser o trigo

Que, andando, pisas na eira!

 

in Gomes Leal, Claridades do Sul, Braz Pinheiro Editor, Lisboa, 1875.

Modernizei a ortografia.

Jean-Francois Millet 03 500px

 

Acompanham o artigo imagens de pinturas de Jean-Francois Millet (1814-1875) entremeadas com a imagem do poster original do Festival de Woodstock em 1969, pontapé de saída para os festivas de verão em ambiente rural.

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Ode anacreôntica de António Diniz da Cruz e Silva

29 Domingo Maio 2016

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poesia Antiga

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António Diniz da Cruz e Silva, Cole Porter, Ella Fitzgerald, Sandro Botticelli

Botticelli - Primavera pormenor 4 450px

Há uma delicadeza de flor frágil na ode anacreôntica de António Diniz da Cruz e Silva (1731-1799) que hoje transcrevo.

Envolvido no manto diáfano da paisagem primaveril encontra-se um apelo ao amor, vivido em tempo jovem, não vá a vida passar sem que esse ardor juvenil se consuma:

…

Que uma parte da vida

Aos brincos*, e aos amores é devida.

 

*brincos — o mesmo que brincadeiras

Botticelli - Primavera pormenor 3 500px

Corre o poema numa atmosfera de erotismo suave onde toda a natureza mergulha à chegada da primavera, fazendo uso dos amores mitológicos cujo conhecimento ajuda à sua mais profunda inteligência.

Ler este poema faz-me recordar a canção de Cole Porter, Let’s do it (Let’s Fall in Love)(1), na qual o cantor(a) dá a volta pela natureza e pelo mundo para convencer o outro(a) ao amor, enumerando quanto bichos e gentes que o fazem, o amor, evidentemente: Antes que a idade breve / Nos roube os gostos, e o prazer nos leve.

Botticelli - Primavera pormenor 1 500px

 

Ode anacreôntica VI

 

Já vem a primavera

Os prados matizando,

De verde murta e de hera

As selvas coroando;

E as aves entre as flores

Renovam docemente os seus amores.

 

Vénus em companhia

De mil ninfas formosas,

Pela selva sombria

Colhe lírios e rosas,

Com que longos cabelos

Destramente enastrando faz mais belos.

 

Os Risos, a Alegria,

Os Brincos a acompanham,

E sobre a fonte fria

Voando as asas banham;

Que logo sacudindo,

De branco orvalho a Deusa vão cobrindo.

 

Um deles ao parceiro

Dentro nas águas lança,

Que voando ligeiro

Dele a tomar vinganca,

Este de astúcia cheio,

Da branca Deusa foge ao branco seio.

 

Mil em torno adejando

Das ninfas peregrinas,

Sobre elas vão lançando

Em chuvas as boninas,

E as faces um lhe toca,

E o mais descomedido a linda boca.

 

Amor alegre voa

Em repetidos giros;

Ferido o vento soa

Dos amorosos tiros;

Ardem em vivas fráguas

O bosque, o ar, as flores, Ninfas, águas.

 

Zéfiro suspirando

A linda Clóris chama,

Que travessa ocultando

Se vai por entre a rama,

Mas ao vê-lo impaciente

Entre seus braços corre velozmente.

 

Os Faunos namorados

As Mélias vão seguindo,

Que contra seus agrados

Brandas iras fingindo,

Se metem de ardilosas

Da selva pelas matas mais frondosas.

 

A doce liberdade

Do campo afasta ufana

A triste seriedade,

Dos prazeres tirana;

Que leva em companhia

A pesada e cruel melancolia.

 

O campo, pois, Oh Cloe,

Solícitos busquemos

Antes que o tempo voe,

Do tempo nos gozemos

Que uma parte da vida

Aos brincos, e aos amores é devida.

 

Dos álamos frondosos

À sombra reclinados,

Façamos venturosos

Nossos doces cuidados;

Antes que a idade breve

Nos roube os gostos, e o prazer nos leve.

 

Transcrito de Obras de António Diniz da Cruz e Silva vol II, edição de Maria Luísa Malaquias Urbano, Edições Colibri, Lisboa, 2001.

As imagéns que acompanham o artigo são pormenores da pintura Primavera de Sandro Botticelli (1445-1510).

(1) Para leitores que não conheçam a canção, ouçam-na com a inexcedível beleza e gosto da interpretação de Ella Fitzgerald num dos alguns do Cole Porter Songbook.

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O Canto do Árabe — poema de António José de Sousa Almada

24 Terça-feira Maio 2016

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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António José de Sousa Almada

Batalha 450pxQuando leio a poesia romântica de ambiente medievo, vêm-me à lembrança as histórias de cowboys que à entrada da adolescência devorava semanalmente em livrinhos pequeninos de uma colecção 6 balas dos quais perdi completamente o rasto.

Tal como naquelas histórias de cowboys, trata-se nesta poesia de narrativas de coragem salpicadas de crueldade e heroísmo a que subjaz a luta entre o bem e o mal.

O pano de fundo é a luta entre cristãos e muçulmanos de origem árabe ou mourisca, durante a reconquista cristã em Portugal e Espanha.

Formalmente são poesia rimada, em geral com a rima sonora frequentemente em “ar”, e desenvolvimento narrativo explícito e linear. Às peripécias narradas acrescenta-se por vezes um qualquer amor contrariado por questões de linhagem ou interdição religiosa, qual seja o amor entre um(a) cristã(o) e um(a) moiro(a).

A este quadro geral escapa o poema que a seguir transcrevo, O canto do árabe, escrito por António José de Sousa Almada (1824-1874). Nele o poeta não desenha um quadro de luta mas pinta o retrato de um cavaleiro árabe, mostrando um indivíduo arrogante e sanguinário, pleno de jactância e segurança de si:

…

Treme o Sheik da altiveza / De meus olhos,— da nobreza / Com que fulgem com viveza / Como astro lá no Céu!

…

 

a que acrescenta aquele toque quase infantil que muitos adultos cultivam: a terra onde nasci é o melhor lugar do mundo, de todos os pontos de vista:

…

Que me importa a Europa a mim? /Nâo tem coisas como cá:

O surgir do Sol aqui, /É diferente do de lá;

…

Se lá cresce a laranjeira / Pelas encostas do val

Aqui, viceja a palmeira / Sobre as ondas do areal:

…

 

Pintada a origem e a paisagem, surgem os lances da acção:

…

Mal aqui rompe a manhâ /Sai o árabe do Kan,

Prende à cinta o yatagan, / O trabuco e o punhal!

…

 

a que se segue a jactâncias que acima referi:

…

Venha aqui o viajante / Contar feitos lá do Cid …

Que se me ponha adiante / A disputar-me o Dgerid;

Que lhe posso aqui mostrar / Num só golpe que hei de dar

A cabeça a rebolar / Decepada nessa lide.

…

 

E no meio de toda a arrogância surge a nota do romantismo europeu dando conta do carácter sagrado do amor do cavaleiro à mulher escolhida, aqui entre as do harém, comparando este seu amor ao do Profeta ao Alcorão:

…

Faço-a rainha, e senhora / Deste ardente coração;

Amo-a tanto, quanto adora /O Profeta o Alcorâo;

…

 

Na mesma época outros poemas sobre nobres árabes ou mouriscos há, estou a lembrar-me de O Canto do Moiro de Francisco Palha ou Abd-El-Kader de Serpa Pimentel, mas são retratos de vingança O Canto do Moiro, e de vencido Abd-El-Kader, não dando conta da força vital que neste O Canto do Árabe transpira.

 

Eis o poema na totalidade

 

O CANTO DO ÁRABE

 

Sou das orlas do Oriente:

Desta plaga não avara

Nos feitos da forte gente,

Das tribos de força rara;

Sou Árabe e muçulmano,

Sou senhor e soberano;

Se me ofendem… sou tirano

Dos desertos té Sahara.

 

Destas terras sou eu rei,

Quanto abrange a vista,— é meu:

Quem promulga aqui a lei,

Aba ko de Alá — sou eu.

Treme o Sheik da altiveza

De meus olhos,— da nobreza

Com que fulgem com viveza

Como astro lá no Céu!

 

Nos divãs do meu harém

Tenho formosas sem fim;

Reclinadas com desdém,

A suspirarem por mim.

De seus carinhos sobejos

Adormeço nos desejos,

Embalado pelos beijos

De seus labios de carmim.

 

E qual Iouca mariposa

Que namora toda a flor:

Mas reserva a mais formosa

Pra beijar com mais ardor;

Beijo o seio que palpita,

Amo a alma que se agita,

Mas escolho a favorita

Pra lhe dar o meu amor.

 

Faço-a rainha, e senhora

Deste ardente coração;

Amo-a tanto, quanto adora

O Profeta o Alcorâo;

E baixo a fronte orgulhosa

Sob os seus lábios de rosa,

Quando os descerra, vaidosa

Como a rosa do Japão!

 

Que me importa a Europa a mim?

Nâo tem coisas como cá:

O surgir do Sol aqui,

É diferente do de lá;

Lá, não estruge o vulcão,

Nem há uivos de leão,

Nem o árabe, no châo

Prosta a fronte por Alá!

 

Se lá cresce a laranjeira

Pelas encostas do val

Aqui, viceja a palmeira

Sobre as ondas do areal:

Mal aqui rompe a manhâ

Sai o árabe do Kan,

Prende à cinta o yatagan,

O trabuco e o punhal!

 

E se nos ares se ateia

Ignea chama;—e rouco som

Sai fervente com a areia

Nas golfadas do Simuon;

Roja o corpo, e vaga incerto

Sobre as ondas do deserto,

A correr em leito aberto

Como as águas do Cedron!

 

Mas se das garras do perigo

Eu me escapo com valor;

E a vista do inimigo

Vem trazer-me outro maior;

Então parto a toda a brida,

Como um raio na corrida,

Embebendo em cada ferida

O meu sedento furor.

 

Venha aqui o viajante

Contar feitos lá do Cid …

Que se me ponha adiante

A disputar-me o Dgerid;

Que lhe posso aqui mostrar

Num só golpe que hei de dar

A cabeça a rebolar

Decepada nessa lide.

 

Traz em braza a fronte ardente

Quando nasce aqui o sol;

Ferve o sangue do oriente

No matutino arrebol;

Ergue a fronte soberana

A Naka que já se ufana

De mirar a caravana

Serpeando arida mole.

 

Roi de inveja aos potentados

Meu rico manto de Emir;

E meus cofres entulhados

Do oiro puro de Ofir,

Escarneço dos pelouros,

Se manto quis e tesouros

Fui ganha-los entre louros,

C’os golpes que eu sei brandir.

 

Sou senhor e soberano

Dos desertos, té Sahara

Sou árabe e muçulmano

Das tribos de força rara:

Sou das orlas do oriente

Sou Emir da forte gente

Sou da raça mais valente

Desta plaga não avara.

 

Nota bio-bibilografica

 

Informa a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira que António José de Sousa Almada (1824-1874) nasceu na Ilha da Madeira e foi poeta. Mais informa que as suas obras foram apreciadas na época e andam dispersas pelas publicações do tempo. Teve vida aventurosa ao fazer-se homem de negócios. Acrescenta que na política seguiu o Marechal Saldanha, o qual depois do 19 de Maio o fez governador de Castelo Branco.

Enquanto poeta, e já transcrevi no blog o seu poema Os Beijos, à desenvoltura da versificação alia-se a originalidade do ponto de vista com que trata os assuntos caros à poesia do romantismo.

Este poema, O Canto do Árabe, foi transcrito de Lísia Poética vol lll, Colecção de Poesias Modernas de Autores Portugueses publicada por José Ferreira Monteiro, Rio de Janeiro, 1848.

A imagem de abertura reproduz uma das pinturas feitas por volta de 1576 para uma edição de Shahnameh, Livro dos Reis, escrito por Ferdowsi (c. 940-1020), no qual se relatam os feitos de reis do Irão até à invasão árabe. As miniaturas dessa edição são atribuídas a Sâdeqi-Beg, Mihrab e Siyâvosh o Georgiano.

Shahnamed é um poema épico com cerca de 50.000 dísticos e conta-se entre os mais belos poemas épicos que a humanidade herdou, ao lado da Odisseia, Ilíada, Eneida, Lusíadas e pouco mais.

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Do Homem e do Divino com Goethe

25 Segunda-feira Abr 2016

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Boucher, Goethe

Boucher - Homem sentado com braços cruzados 450pxQuando numa leitura profissional me inteirava dos desafios de engenharia vencidos na execução do novo complexo de redes e estações de metro London’s Crossrail, ainda em construção em Londres, e da dimensão multidisciplinar da obra, simultaneamente comparava estes trabalhos com a tragédia recente na Índia em consequência do desmoronamento de um viaduto também em construção num ambiente urbano.

As assimetrias no mundo são, pelo que se pode intuir, fortemente agravadas por factores exteriores à biologia, onde os valores morais por detrás da aplicação do conhecimento fazem a diferença.

Educação e crença caminham de mãos dadas na vida de cada um, mas, como escreveu Goethe (1749-1832) no poema que hoje transcrevo: … somente o homem / Pode o impossível: / Só ele distingue, / Escolhe e julga; / E pode ao instante / Dar duração.

Neste poema, o poeta dá conta do lugar relativo de homens e divindade:

…

E nós veneramos

Os Imortais

Como se homens fossem,

Em grande fizessem

O que em pequeno o melhor de nós

Faz ou deseja.

…

Acentua o poema noutro passo, a indiferença da natureza comandada pelas forças divinas, a que alguns chamam acaso:

…

Pois insensível

É a natureza:

O sol ‘spalha luz

Sobre maus e bons,

E ao criminoso

Brilham como ao santo

A luz e as ‘strelas.

…

Termina o poema, tal como abre, exortando o homem ao seu melhor, para assim ser exemplo de divindade:

…

Que o homem nobre

Seja caridoso e bom!

Incansável crie

O útil, o justo,

E nos seja exemplo

Dos seres pressentidos.

 

Este poema, O Divino, juntamente com o poema Prometeu, do qual transcrevo a última estrofe:

…

Pois aqui estou! Formo Homens

À minha imagem,

Uma estirpe que a mim se assemelhe:

Para sofrer, para chorar,

Para gozar e se alegrar,

E pra não te (*) respeitar,

Como eu!

 

(*) Zeus

 

e ainda com o poema Limites da Humanidade, formam uma espécie de trilogia sobre a relação do homem com a divindade na obra poética de Goethe.

Antes de vos entregar à leitura integral do poema O Divino, transcrevo uma estrofe de Limites da Humanidade:

 

Pois com Deuses

Não deve medir-se

Homem nenhum!

Ergue-se ele ao alto

Até tocar

Co’a cabeça os astros,

Nenhures se prendem

Os pés incertos,

E com ele brincam

Nuvens e ventos.

 

 

Sabendo, pois, como o poeta vê o Divino, segue o poema integral.

O Divino

 

Nobre seja o homem,

Caridoso e bom!

Pois isso apenas

É que o distingue

De todos os seres

Que conheçemos.

 

Glória aos incógnitos

Mais altos seres

Que pressentimos!

Que o homem se lhe iguale!

Seu exemplo nos ensine

A crer neles!

 

Pois insensível

É a natureza:

O sol ‘spalha luz

Sobre maus e bons,

E ao criminoso

Brilham como ao santo

A luz e as ‘strelas.

 

Vento e torrentes,

Trovão e saraiva

Rugem seu caminho

E agarram,

Velozes passando,

Um após outro.

 

Tal a sorte às cegas

Lança mãos à turba

E agarra os cabelos

Do menino inocente

Ou a fronte calva

Do velho culpado.

 

Por eternas leis,

Grandes e de bronze,

Temos todos nós

De fechar os círculos

Da nossa existência.

 

Mas somente o homem

Pode o impossível:

Só ele distingue,

Escolhe e julga;

E pode ao instante

Dar duração.

 

Só ele é que pode

Premiar o bom,

Castigar o mau,

Curar e salvar,

Unir com proveito

Tudo o que erra e divaga.

 

E nós veneramos

Os Imortais

Como se homens fossem,

Em grande fizessem

O que em pequeno o melhor de nós

Faz ou deseja.

 

Que o homem nobre

Seja caridoso e bom!

Incansável crie

O útil, o justo,

E nos seja exemplo

Dos seres pressentidos.

 

Todas as traduções transcritas são de Paulo Quintela.

in J. W. Goethe (1749-1832), Poemas, 2ª edição corrigida e ampliada, Acta Universitatis Conimbrigensis, 1958.

Abre o artigo a imagem de um desenho de François Boucher (1703-1770).

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A Arte de Amar e os livros num poema de Afonso X, o Sábio

15 Sexta-feira Abr 2016

Posted by viciodapoesia in Erótica, Poesia Antiga

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Afonso X, o Sábio

Hercules e Djanira 500pxTrago hoje um poema profano do rei Afonso X o Sábio (1221-1284), celebrado autor das Cantigas de Santa Maria.

No poema somos ilustrados sobre os sucessos na arte de foder obtidos pelo deão de Cadiz, cargo eclesiástico, através do relato ao rei por um seu servidor.

Começa assim:

Ao deão de Cadiz eu achei / livros que lhe levavam a Benzer, / e ao que os trazia,  por eles perguntei: / – Senhor, me respondeu, / com estes livros que vós vedes, dois, / e com os outros que ele tem de seu, / fode por eles quanto foder quer.

Vemos pois, que se tratava de uma prática abençoada, a leitura de tais livros, e não o opróbrio a que mais tarde foram sujeitos, leitores e livros. Tal saber, quando adquiro, proporcionava poderes extraordinários, como para o final o poema refere: esconjurar o demónio e libertar mulheres abrasadas pelo fogo de S. Marçal.

Esta aprendizagem de manual, não é, portanto, dos nossos dias, e é de bom conselho a todos os adolescentes antes de se iniciarem nestas práticas, estudar as suas possibilidades e quadro de valores.

Aparentemente o nosso deão seria leitor compulsivo apanhado nas malhas do prazer da leitura como o poema também refere:

e ele dá-lhe tal gozo de os ler /que nunca noite nem dia outro faz;

Do relato do seu servidor saberemos que pela leitura o deão terá atingido alturas de mestre, não tanto Don Juan que parte à conquista, mas uma espécie de prato de mel onde as moscas caem, se não, leia-se:

e sabe da arte do foder tão bem / que com os seus livros d’artes, que ele tem, / fode ele as mouras, cada que lhe apraz.

Pelo que fica dito, o homem não seria guerreiro atrás de troféu de guerra, no tempo em que o vizinho reino de Granada ainda era domínio árabe, antes vencia a guerra com a sua arma biológica, e as voluptuosas odaliscas do imaginário ocidental correriam a banhar-se no prazer de tanta ciência.

Consoante os valores morais em cada época, assim as criações artísticas dando conta da sexualidade humana foram vestidas com capas alegóricas ou metafóricas que permitiam mostrá-la sem recorrer a instrumentos de linguagem visual ou escrita interditos. Os exemplos poéticos  abundam até aos nossos dias.

Quando estes critérios não foram respeitados, tais criações foram empurradas para um índex que pretendia torná-las invisíveis aos olhos comuns e arrumados com acesso restrito no que foi chamado de inferno nalgumas bibliotecas. De passagem refiro um saboroso catálogo da BNF, L’Enfer de la Bibliothèque, que dá conta das preciosidades encerradas no Inferno da Bibliothèque Nationale de France, a cujo acervo também pertence a imagem não censurada que abre o artigo.

O poema do sábio rei anda perdido pelas edições eruditas das Cantigas de Escárnio e Maldizer, colhidas nos Cancioneiros da Ajuda, da Biblioteca Nacional e da Biblioteca Vaticana.

Transcrevo uma minha modernização do poema em português actual, de onde provêm as citações, e duas leituras dos manuscritos em galaico-português.

Poema  [transcrição modernizada]

 

Ao deão de Cadiz eu achei

livros que lhe levavam a Benzer,

e ao que os trazia, por eles perguntei:

– Senhor, me respondeu,

com estes livros que vós vedes, dois,

e com os outros que ele tem de seu,

fode por eles quanto foder quer.

 

E ainda vos hei-de eu mais dizer:

embora na Lei muito seja necessário ler

por quanto eu da sua fazenda sei,

com os livros que tem, não há mulher

a que não faça que semelhem grous

os corvos, e as enguias babous,

por força de foder, se ele quiser.

 

Cá não há mais, na arte do foder,

do que nos livros que com ele tem;

e ele dá-lhe tal gozo de os ler

que nunca noite nem dia outro faz;

e sabe da arte do foder tão bem

que com os seus livros d’artes, que ele tem,

fode ele as mouras, cada que lhe apraz.

 

E mais vos contarei de seu saber

que com os livros que ele tem [i] faz:

manda-os ante si todos trazer,

e pois que fode por eles assaz,

se mulher acha que o demo tem,

assim a fode per arte e per sem,

que saca dela o demo malvaz.

 

E com tudo isto, ainda mais faz

com os livros que tem, por boa fé:

se acha mulher que tenha o mal

deste fogo que de Sam Marçal é,

assim [a] vai por foder encantar

que, fodendo, lhe faz bem semelhar

que é geada ou neve e nada mais.

 

Poema  [transcrição on-line Lopes, Graça Videira; Ferreira, Manuel Pedro et al. (2011-)]

 

Ao daiam de Cález eu achei

livros que lhe levavam de Berger,

e o que os tragia preguntei

por eles, e respondeu-m’el: – Senher,

com estes livros que vós vedes, dous,

e con’os outros que el tem dos sous,

fod’el per eles quanto foder quer.

 

E ainda vos end’eu mais direi:

macar [e]na Lei muit’haj[a mester]

leer, por quant’eu sa fazenda sei,

con’os livros que tem, nom há molher

a que nom faça que semelhem grous

os corvos e as anguias babous,

per força de foder, se x’el quiser.

 

Ca nom há mais, na arte do foder,

do que [e]nos livros que el tem jaz;

e el há tal sabor de os leer

que nunca noite nem dia al faz;

e sabe d’arte do foder tam bem

que con’os seus livros d’artes, que el tem,

fod’el as mouras, cada que lhi praz.

 

E mais vos contarei de seu saber

que cõn’os livros que el tem [i] faz:

manda-os ante si todos trager,

e pois que fode per eles assaz,

se molher acha que o demo tem,

assi a fode per arte e per sem,

que saca dela o demo malvaz.

 

E com tod’esto, ainda faz al

con’os livros que tem, per bõa fé:

se acha molher que haja [o] mal

deste fogo que de Sam Marçal é,

assi [a] vai per foder encantar

que, fodendo, lhi faz bem semelhar

que é geada ou nev’e nom al.

 

Poema  [transcrição impressa de Lopes, Graça Videira em Cantigas de Escárnio e Maldizer dos Trovadores e Jograis Galego-Portugueses]

 

Ao daiam de Cález eu achei

livros que lhe levavam d’aloguer,

e o que os tragia preguntei

por eles, e respondeu-m’el: – Senher,

com estes livros que vós vedes, dous,

e cõn’os outros que el tem dos sous,

fod’el per eles quanto foder quer.

 

E ainda vos end’eu mais direi:

macar no lei[to] muita[s el houver],

por quanto eu [de] sa fazenda sei,

cõn’os livros que tem, nom há molher

a que nom faça que semelhem grous

os corvos e as anguias babous,

per força de foder, se x’el quiser.

 

Ca nom há mais, na arte do foder,

do que [e]n’os livros que el tem jaz;

e el há tal sabor de os leer

que nunca noite nem dia al faz;

e sabe d’arte do foder tam bem

que cõn’os seus livros d’artes, que el tem,

fod’el as mouras, cada que lhi praz.

 

E mais vos contarei de seu saber

que cõn’os livros que el[e] tem faz:

manda-os ante si todos trager,

e pois que fode per eles assaz,

se molher acha que o demo tem,

assi a fode per arte e per sem,

que saca dela o demo malvaz.

 

E com tod’esto, ainda faz al

con’os livros que tem, per bõa fé:

se acha molher que haja [o] mal

deste fogo que de Sam Marçal é,

assi [a] vai per foder encantar

que, fodendo, lhi faz bem semelhar

que é geada ou nev’e nom al.

 

Notas sobre a modernização e bibliografia

 

Berger [v.2], palavra de transcrição controversa, adoptei a leitura de José Pedro Machado assumindo que se pode tratar da palavra Benger, com significado de Benzer.

[v. 3 e 4] Inverti a ordem das palavras sem alteração de significado para assegurar a rima com o verso 6.

Traduzi macar e mester [v. 9] com o significado atribuído por Carolina Michaëlis de Vasconcelos no Glossário do Cancioneiro da Ajuda publicado na Revista Lusitana XXIII [A] e reproduzido como anexo na edição fac-símile do Cancioneiro da Ajuda feita pela INCM EM 1990.

Este verso 9 de leitura muito imprecisa conduz a transcrições de significado díspar. Veja-se a transcrição de Graça Videira Lopes na edição impressa do poema, que nos acréscimos entre [] dá do verso esta leitura: marcar no lei[to] muita [s el houver]. — ainda que no leito muitas ele houver.

[A] é inequívoca ao dar para lei o sentido de religião monoteísta, daí a minha opção de modernização.

Mantive fazenda [v. 10] com o significado de situação, negócio [A].

sabor – o mesmo que gozo, prazer, [A].

Lopes, Graça Videira; Ferreira, Manuel Pedro et al. (2011-), Cantigas Medievais Galego Portuguesas [base de dados online]. Lisboa: Instituto de Estudos Medievais, FCSH/NOVA. [Consulta em (indicar data da consulta)] Disponível em: <http://cantigas.fcsh.unl.pt>.

Cantigas de Escárnio e Maldizer dos Trovadores e Jograis Galego-Portugueses, edição de Graça Videira Lopes, Editorial Estampa, Lisboa 2002.

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