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HILLIARD, Nicholas 1547-1619 - miniatura sobre pergaminho 1588 300pxSabemos todos que as horas não têm sempre a mesma duração. E se as horas de prazer voam ligeiras, as de espera, ansiedade, desgosto ou desengano, de dilatadas, parecem eternidade.
Dessa variabilidade da duração do tempo em função de estados de alma nos fala o poema de Francisco Rodrigues Lobo (1580-1621) que a seguir transcrevo.
Se esta reflexão poética é de todos os tempos, as quatro oitavas que seguem têm a particularidade de glosar o primeiro quarteto de um soneto arqui-popular à época — Horas breves do meu contentamento — de autoria desconhecida, e a certa altura também atribuído a Camões, e no qual, com algumas nuances, esta mesma reflexão se escreve.
Ao soneto e às suas variadas versões irei proximamente. Por agora entrego-vos ao poema de Francisco Rodrigues Lobo.

 

 

Se sois, horas, da mesma natureza
Do tempo vão que passa e não se sente,
Como só no meu mal tendes firmeza
E tomais natureza diferente?
Como assim não fugis desta tristeza
E desta vida em tudo descontente,
Se mais leves fugis que o leve vento,
Horas breves do meu contentamento?

Quanto para saber-vos me faltava
Naquele breve espaço que vos vi!
Como do tempo então me descuidava,
Cuidei que todo fosse sempre assi.
Quanto fugia o bem e o mal durava
Pareceu-me depois que vos perdi.
Porque amor a meu mal tudo encaminha,
Nunca me pareceu quando vos tinha.

Ai duros, rigorosos desenganos,
A que tempo cortais minha esperança!
Saber que em tanta pena, em etantos danos
O mal só dura, o bem nunca descansa!
Horas que para o mal durais mil anos
E em meu gosto fazeis logo mudança,
Quão mal imaginara esta alma minha
Que vos visse mudada tão asinha!

Tudo em vós se trocou, tudo é mudado,
A vida, o gosto e o desejo dela,
O rosto , o parecer, o trajo, o gado,
E também se mudou a minha estrela.
Mudar-se tudo, enfim, me era forçado,
Que juízo não vale, força ou cautela
Pera sustentar sempre um sofrimento
Em tão compridos anos de tormento.

 

Transcrito de Francisco Rodrigues Lobo, A Primavera, edição de Maria Emília Gonçalves Pires, Vega Editora, Lisboa, 2003.

Abre o artigo a imagem de uma pintura miniatura (aguarela sobre pergaminho) por Nicholas Hilliard (1547-1619), feita em 1588, contemporânea próxima do poema. A atitude do jovem pintado reflecte admiravelmente o espírito que a meditação do poema transporta.

A pintura pertence à colecção do museu Victoria and Albert de Londres. A ficha da obra disponibilizada pelo museu on-line lê-se com proveito.

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