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Rousseau, Henri (1844-1910) - Guerra 600pxFelizmente, o meu ânimo prazenteiro sobrepõe-se rápido aos desastres da vida, e quando me sento a escrever para o blog são as coisas agradáveis que me apetecem, ainda que uma ou outra mais negra por vezes se introduza.
A política não nos larga, e a pretexto dela, ou seja, de um ou alguns pretenderem escolher por nós o que nos fará felizes, esses mesmos vão semeando a morte nas calçadas. Acreditam no que este poema Emily Dickinson (1830-1886) refere:

 


Morrer — sem ser Morrendo
E sem a Vida — viver
O mais árduo Milagre
Que se propõe a Fé.

 


Pensar na morte, reflectir sobre o efémero dos dias, sobre a fragilidade do que até há pouco tomámos por seguro, é hoje uma inevitabilidade. E no entanto, a força da vida rapidamente nos tenta a levantar cabeça, e num encolher de ombros seguir em frente. Felizes os que o conseguem.

Num outro doloroso poema Emily Dickinson regista lapidarmente a sucessão entre a morte e o esquecimento dela, e que viveremos passadas as primeiras emoções:


Um Laço mais escuro — por um dia —
Um crepe no Chapéu —
E vem então a bela luz do sol —
E ajuda-nos a esquecer —

 

Neste poema, em três curtas quadras percorremos o quadro, no que à morte respeita, da dor pessoal, da vida em sociedade, e do mistério da fé cristã:

 


Morrer — é muito breve —
Dizem que não dói —
É só desfalecer — a pouco e pouco —
Depois — nada se ver —

Um Laço mais escuro — por um dia —
Um crepe no Chapéu —
E vem então a bela luz do sol —
E ajuda-nos a esquecer —

A criatura — mística — e distante —
Que só por nosso amor —
Fora dormir — nesse perfeito tempo —
E de cansaço ausente —

 

in Emily Dickinson, Duzentos Poemas, tradução, belíssima, posfácio organização e de Ana Luísa Amaral, Relógio D’Água Editores, Lisboa 2014.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Henri Rousseau (1844-1910), Guerra.

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