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vicio da poesia

Category Archives: Poesia Antiga

Com a poesia de Frei Agostinho da Cruz

26 Terça-feira Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Albrecht Dürer, Frei Agostinho da Cruz

Dürer - Estudo de mãos 02A…
O mundo é sonho vão, que enleia a vida,
Quem nele está melhor, tem pior alma
E quem o desprezou, tem alma e vida.

Afasto-me hoje da prosaica poesia contaminada de quotidiano por onde tenho circulado, e dirijo-me para as auras poéticas da transcendência do ser, guiado pela inspiração de Frei Agostinho da Cruz (1540-1619).

Irmão mais novo do poeta Diogo Bernardes, fez-se monge capuchinho arrábido aos 20 anos e professou no conventinho da serra de Sintra, onde viveu até aos 65 anos. Por essa altura, em 1605, pediu para viver como eremita na serra da Arrábida.

Por vezes atormentada, a sua poesia é sobretudo uma contemplativa reflexão do homem que escreve num soneto que mais à frente transcrevo:

Perdi-me dentro de mim, como em deserto,

Ou num outro soneto:

Acostumado tinha o sofrimento / A um mal, que já de antigo não sentia,
…
Dantes somente amor me perseguia, / Agora amor, fortuna e pensamento.
…

Estes tormentos do mundo são mitigados com a fé religiosa onde o monge procura apoio, por exemplo nesta espécie de orações em soneto para protecção de sonhos pecaminosos ao deitar, e enlevo do dia, ao despertar:

Ao recolher à noite para dormir

Omnipotente Deus, que o sol criastes
Presidente da luz do claro dia,
E o governo da noite escura e fria
À inconstante lua encarregastes:

Por refugio das gentes ordenastes
O repousado sono que alivia
O diurno trabalho e agonia,
A que nossa natureza obrigastes.

Pois deste se aproveita o inimigo,
Representando em sonhos e alusões,
Com que a vossa majestade ofendamos:

Livrai-nos do mal dele, e do perigo
De seus ardis e torpes invenções,
Por que dormindo ainda vos sirvamos.

Ao levantar da cama

Graças vos dou, Senhor, que da escura
Noite e perigos dela me livrastes,
Deste dia ver a luz deixaste
A mim humilde vossa criatura.

Fazei que esta alma seja nele pura
E limpa de pecado, pois a amastes,
E para me salvar do céu baixastes,
Tomando a carne nossa a figura

Com todo coração, e de vontade,
Com a palavra, obra e pensamento
Vos sirva, louve e ame neste dia.

Louvando vossa eterna majestade,
A meu obrar dareis merecimento,
Para gozar no céu vossa alegria.

Na simplicidade da vida monástica e no encontro com a natureza, sentiu a proximidade e o conforto de Deus.

Façamos primeiro uma curta digressão por alguma da poesia inspirada na natureza da serra da Arrábida.

Na Serra D’Arrábida

No meio desta serra, onde se cria
Aquela saudade d’alma pura,
Que no duro penedo acha brandura,
Ardente fogo dentro n’água fria:

Ouço do passarinho a melodia,
Vejo vestir o bosque de verdura,
Variar-se no céu outra pintura,
Que em vários sentimentos me varia.

Pasmando de quam mal se gasta a vida
De quem na terra quer subir ao céu
Pois caminhar em fim ninguém duvida.

Menos da vida estreita que escolheu,
Dos seus mais escolhidos mais seguida,
Christo Jesu, que numa Cruz morreu.

Da contemplação a mesma

Dos solitários bosques a verdura,
Nas duras penedias sustentada,
N’esta serra, do mar largo cercada,
Me move a contemplar mais fermosura.

Que tem quem tem na terra mór ventura,
Nos mais altos estados arriscada,
Se não tem a vontade registada
Nas mãos do Criador da criatura?

A folha que no bosque verde estava,
Em breve espaço cai, perdida a flor,
Que tantas esperanças sustentava.

Por isso considere o pecador,
Se quando na pintura se enlevava
Não se enlevava mais no seu pintor.

Da poesia que deixou, alguma foi publicada parcialmente a partir de cancioneiros manuscritos, já bem entrado o século XVIII. O conjunto da obra aguarda ainda, ao que suponho, uma edição crítica.

No sabor maneirista destes sonetos encontramos o homem incerto de si, em suave conflito com as paixões terrenas e de pensamento virado para o além.

*
No silêncio da noite, em que vigio,
Desterrado da terra o pensamento,
No que dentro nesta alma represento,
Ora me aquento mais, ora me esfrio.

E pera temperar fogo com frio,
Em que me esfrio mais, ou mais me aquento,
Dos efeitos do puro sentimento
Na minha saudade choro e rio.

Depois destes contrários temperados
Na môr quietação, na môr brandura
Meus pensamentos ficam sepultados:

Temperada a frieza na quentura
Do meu divino amor tão apurados,
Que me deixam em paz na sepultura.

Chora os desvarios da sua desaproveitada mocidade

Ó montes altos, vales abatidos,
Verdes ribeiras de correntes rios,
Ora por baixo de bosques sombrios,
Ora por largos campos estendidos:

Onde mais claros vejo repetidos
Meus mal considerados desvarios
De pensamentos vãos, baixos e frios,
Emendados tão mal, quão mal sentidos.

Passei a mocidade sem proveito,
Antes contra meu Deus acrescentando
Culpas a quantas culpas tenho feito.

Cuja pena a velhice está purgando
Para passar da morte o passo estreito,
Se não se no seu sangue for nadando.

Da emenda

Concluído me tenho a mim comigo
De deixar o caminho que levava,
Vendo com razoes claras quanto errava
Em não me desviar do mais antigo.

Pois no trabalho seu, por môr perigo
Meu amigo consigo a mim me achava;
E quando no meu mal algum buscava,
Achava-me comigo sem amigo.

Agora dei a volta por caminhos
De solitários bosques enramados
De feras bravas, mansos passarinhos.

Que inda que entre os espinhos conversados,
Mais quero pés descalços entre espinhos,
Que dos homens humanos espinhados.

À sua inalterável confiança em Deus

Ancorou-me a velhice no remanso
Deste mar oceano, largo e brando,
Onde não tenho já que andar remando,
Nem querer noutra parte melhor lanço.

Neste repouso meu, em que me lanço,
E me levanto sempre desejando,
As forças se me vão acrescentando
Para alcançar um bem que não alcanço.

E tendo já no mar ferro lançado,
A confiança minha não se altera,
Por mais que o bravo mar vejo alterado.

Antes mais firma e forte preservera,
Que quem só no seu Deus tem ancorado,
Do bem se logra já, que ter espera.

À morte

Os correios da morte são chegados
Por caminhos antigos, impedidos
Mal com meus olhos, mL com meus ouvidos,
ML com meus pés, do chão mal levantados.

E mal, por não chorar bem meus pecados,
Que sendo sete, e cinco meus sentidos,
Por serem tantas vezes repetidos,
Impossível será serem contados.

Se não viera a morte acompanhada
De conta, que dar devo tão estreita,
Não fora tão penosa imaginada.

Mas a que vivo e morto tenho feita,
Tenho com meu Senhor na Cruz pregada,
Onde o ladrão contrito não se enjeita.

*

Contentamentos meus que já passastes,
Trocando a vida alegre, que vivia,
Por este mal, que passo, que um só dia
Me não deixam, depois que me deixastes.

Acabar me convém, pois acabastes
De dar-me o desengano, que encobria
Uma esperança vã, que me trazia
Contente, a qual também me já tirastes.

Os olhos, que Amor sempre guiava
Aonde eu tinha firme o pensamento,
Quando vossa presença os alegrava;

Agora chorarão vosso apartamento,
Que lhe tirou um bem, que os sustentava,
E só de vós ficou o sentimento.

Depois desta curta visita onde alguns momentos poéticos nos consolam, termino com a transcrição completa dos sonetos citados no inicio.

*

Acostumado tinha o sofrimento
A um mal, que já de antigo não sentia,
E posto que era grave, nele via
Que o uso diminui o sentimento.

Ordenaram-me os céus novo tormento
No tempo, que esperei nova alegria;
Dantes somente amor me perseguia,
Agora amor, fortuna e pensamento.

A lembrança dos bens, que noutro estado
Teve este peito meu, que em chamas arde,
Está levando sempre meu cuidado.

Choro a noite, a manhã, a sesta e a tarde,
Mas não devo estar desesperado,
Pois não se escusa a morte, inda que tarde.

*

Perdi-me dentro de mim, como em deserto,
Minha alma está metida em labirinto,
Continuo contradigo o que consinto,
Cem mil discursos faço, em nada acerto.

Velo seguro o dano, o bem incerto,
Comigo porfiando me desminto,
O que mais atormente, menos sinto,
O bem fogo, quando está mais certo.

E se as asas levanta o pensamento
Àquela parte onde está escondida
A causa deste vario movimento.

Transforma-se por não ser conhecida,
Por que quer apesar do sofrimento
Pôr as armas da morte em mão da vida.

Os sonetos transcritos, com modernização da ortografia, constam de Poesia Inéditas de Frei Agostinho da Cruz, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1924.

O desenho com as mãos em prece, que abre o artigo é do pintor alemão Albrecht Dürer (1471-1528), tal como o desenho de um velho com que encerro esta espiritual visita

Durer_Albrecht-Study_of_a_Man_Aged_93

 

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Um poema de Wu-ti em versão de António Ramos Rosa

18 Segunda-feira Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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António Ramos Rosa, Archipenko, Poesia Chinesa Antiga, Wu-ti

Archipenko - Torso no espaço

Aí, Senhora minha,
que deixei de ouvir
o roçar da seda
do vosso vestido.

Já o pó se acama
sobre o chão dos pátios
do palácio onde
não mais passeais.

As folhas mortas
vão-se amontoando
diante da porta
p’ra sempre fechada.

E o silêncio do
palácio nunca mais
será quebrado pelo
lindo riso vosso.

Meu pobre coração
não encontra sossego
e, sem esperança alguma,
em vão por vós chama.

Versão de António Ramos Rosa (1924), in Rosa do Mundo, 2001 poemas para o futuro.

Embora sem informação editorial nesta versão, suponho que se trata de um poema do 6º imperador da dinastia Han, Wu-ti, que viveu entre 157-87 a. C, e não de c. 200 como assinalado na edição portuguesa.

O poema terá sido escrito em lembrança da sua amante Li Fu-jen, quando esta morreu.

Acrescento a versão inglesa do poema por Arthur Waley, a qual, no confronto com o português, permite saborear melhor a beleza da versão de António Ramos Rosa, na quase imponderável leveza do vocabulário, transmitindo-nos aquela espécie de silêncio que a ausência convoca.

LI FU-JEN

The sound of her silk skirt has stopped.
On the marble pavement dust grows.
Her empty room is cold and still
Fallen leaves are piled against the doors.
Longing for that lovely lady
How can I bring my aching heart to rest?

A imagem que abre o artigo mostra uma pintura/colagem de Archipenko – Torso no espaço.

Archipenko (1887-1964), conhecido sobretudo como escultor do Construtivismo soviético, possui também algumas belas obras de pintura/tecnica mista que noutro artigo arquivarei.

 

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O desejo, canção da Grécia, em versão de Herberto Hélder

17 Domingo Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Herberto Helder, Poesia Grega Antiga

Rune T 02É numa linguagem de oráculo que Herberto Hélder (1930) nos dá a versão dum poema da Grécia arcaica, originário de Epiro, a que chamou O DESEJO.
Podemos escolher entre os versos e desdobrá-los de significados, e a cada leitura novas leituras se nos oferecem, nesta ansiedade de amor:

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu, / eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.

Continuamos a leitura, e ouro, vermelho, maçã, são as palavras/imagens por onde o desejo se espraia.

Ler o poema é penetrar um pouco no mistério do desejo e na dificuldade da sua verbalização.

O DESEJO
(Canção)

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

Versão de Herberto Hélder, in Rosa do Mundo, 2001 poemas para o futuro.

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Erros meus… com Camões e a glosa de Gastão Cruz

15 Sexta-feira Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga, Poetas e Poemas

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Camões, Gastão Cruz, Paul Klee

Klee_Paul-SiblingsPor muito que estejamos convencidos do acerto das nossas escolhas, uma vez por outra ou o desânimo, ou as contrariedades, ou a constatação pela evidência do erro, conduzem-nos a reflexões próximas das de Camões no famoso soneto que hoje trago, sem que, evidentemente, as consigamos expressar com a elegante inspiração do nosso génio maior.

As escolhas, os enganos, a sorte, tudo lá está, na concisão que o soneto exige, servido pela admirável simplicidade de uma linguagem que nos faz participar desse destino.

Na perpétua releitura a que os clássicos convidam, os nossos poetas, por vezes, encontram aí inspiração. É o caso, hoje, de Gastão Cruz (1941) que ao famosíssimo soneto de Camões

[Erros meus, má fortuna, amor ardente]

foi buscar âncora para a glosa que o seu poema Erros traduz.

É num diálogo com o soneto de Camões que o poema de Gastão Cruz se inicia, ganhando rapidamente o caminho da interrogação própria do poeta, atendo-se apenas às perplexidades do amor e que o tempo se encarrega de esgotar:

em que tudo era eterno e só durou / o espaço da manhã do teu sorriso

…

frio só porque tudo tem um tempo / até as rosas…

A simplicidade da linguagem acompanha o soneto de Camões, um dos motivos porque ele continua a falar-nos, e a reflexão desencantada de Gastão Cruz termina sem resposta à interrogação inicial:

Não sei se má fortuna erros decerto / erros somente?…

Erros

Não sei se má fortuna erros decerto
erros somente? Pode o amor ardente,
algum tempo omitido, descoberto
cobrir de novo a pele neste presente,

que de pouco já serve a sua chama
lugar comum tão pobre e tão verídico
que sopras e apagas como a cama
negas ao corpo Foge o tempo mítico

em que tudo era eterno e só durou
o espaço da manhã do teu sorriso
como a rosa que tarde já chegou
e pousou devagar no corpo liso

e frio não de morte ou indiferença
frio só porque tudo tem um tempo
até as rosas e não há presença
nem chama do amor que o torne eterno

Para o caso de haver leitores a quem o soneto de Camões não seja familiar, ele aqui fica, sem comentários intrusivos.

Camões

Erros meus, má fortuna, amor ardente
em minha perdição se conjuraram;
os erros e a fortuna sobejaram,
que para mim bastava o amor somente.

Tudo passei; mas Tejo tão presente
a grande dor das cousas, que passaram,
que as magoadas iras me ensinaram
a não querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos;
dei causa que a Fortuna castigasse
as minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse que fartasse
este meu duro génio de vinganças!

A pintura, de Paul Klee, que abre o artigo, é de 1930.

Noticia bibliográfica

O poema Erros de Gastão Cruz inclui-se no livro Crateras, publicado em 2000, suponho. Esta transcrição foi feita a partir da poesia reunida do poeta OS POEMAS (1960-2006), ed. Assírio & Alvim, 2009.

O soneto de Camões, publicado pela 1ª vez em 1616, é aqui transcrito com actualização ortográfica de Maria de Lurdes Saraiva, e consta de Lírica Completa II, INCM, 1980.

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Da Antologia Palatina, O beijo

08 Sexta-feira Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga, Poesia Grega

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Antologia Palatina

porto-ramos-pintoÉ a Antologia Palatina, compilação de poesia grega antiga onde, como referi ontem, se reúnem poesias que se encontravam dispersas em livros de epigramas amorosos, morais, cómicos, etc…, de poetas de quem em geral pouco se sabe, que vou buscar este inebriante beijo escrito por alguém que até nós chegou anónimo.

Uma jovem beijou-me à tarde com seus lábios húmidos.
Era um néctar o seu beijo, pois a boca exalava néctar.
E fiquei ébrio com este beijo, por ter bebido a largos tragos o amor.

Anónimo

Tradução de Albano Martins, Antologia da Poesia Grega Clássica

Que o Carnaval em começo vos permita beber a largos tragos o amor.

Não vos maço mais com poesia. Escondo-me na pele do homem da capa negra e parto a gozar o Carnaval. Se algum leitor me encontrar venha de lá o cumprimento.

Sandeman anuncio original 1928

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Ó Noite, ó desejo de Heliodora – Meleagro de Gádaros

07 Quinta-feira Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Matisse, Meleagro de Gádaros

Matisse_Henri-Satyr_and_NymphMeleagro de Gádaros (séc. I a. C.) foi o organizador da que é hoje conhecida como Antologia Palatina, compilação de poesia grega antiga onde se reunem poesias  dispersas em livros de epigramas amorosos, votivos, funerários, morais, cómicos, etc…, de poetas de quem em geral pouco se sabe.

Atenho-me, no entanto, a um dos belos poemas de Meleagro de Gádaros (séc. I a. C.) dedicados à mulher amada, Heliodora.

Ó Noite, ó desejo de Heliodora que me tem acordado,
e vós, ó ancas travessas cuja lembrança penetrante
me solta as lágrimas, dizei-me: guarda ela
na lembrança uma fria imagem
do calor dos meus beijos? Tem ela no leito,
como eu, as lágrimas por companheiras
e beija e aperta contra o peito
o meu fantasma que lhe cativa a alma?
Ou ela tem um novo amor?
Ó lâmpada, não ilumines essas novas folias
e guarda apenas para mim
aquela que te confiei.

(in Antologia Palatina)

Tradução de Albano Martins

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Com Páladas, A vida é isto, apenas isto: a vida é prazer

06 Quarta-feira Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Matisse, Páladas

Matisse_Henri-Luxe_calme_et_voluptePerco-me muitas vezes nos livros de antiga poesia grega. Não conheço o grego e por isso leio em traduções disponíveis, o que são sempre aproximações limitadas pelos preconceitos dos tradutores e do seu tempo, sobretudo nas matérias em que o sexo espreita. Tomada em conta esta realidade, sobra a felicidade com que o tradutor conseguiu criar na língua de chegada qualquer coisa parecida com poesia, e às vezes acontece.

Acontece frequentemente com o poeta Alberto Martins no seu labor de tradução de poesia grega antiga, um verso ficar preso à memória e a uma segunda e terceira leitura permanecer o encanto.

Para hoje escolho, dentre as suas traduções, alguns poemas de Páladas, gramático da Caldeia, estabelecido em Alexandria no século IV e cuja poesia foi recolhida na Antologia organizada por Agátias, o Escolástico, no século VI, vivendo na corte de Justiniano.

O primeiro poema remete-nos com enorme acutilância para a vida dos gregos, hoje:

A vida é um sonho

Acaso morremos e só na aparência estamos vivos,
nós, os gregos, caídos em desgraça,
imaginando que a vida é um sonho?
Ou estamos vivos e foi a vida que morreu?

A realidade vivida na Grécia hoje, de que vamos tendo noticia, cola-se como uma luva a esta reflexão.

Concluo com dois poemas onde se retoma a perspectiva da fugacidade da vida já reflectida por Horácio na Ode a Leucónoe, que antes deixei, e apologiando Carpe Diem, agora na formula:

Sejamos felizes hoje, que o amanhã de ninguém é conhecido.

A vida

A vida é isto, apenas isto: a vida é prazer. Longe de nós os cuidados.
A existência humana é curta. Venham depressa o vinho,
depressa as danças e as coroas de flores, depressa as mulheres.
Sejamos felizes hoje, que o amanhã de ninguém é conhecido.

Terminemos com o convite do poeta: chorai a rapidez do tempo!

O fim

Ó breves prazeres da vida,
chorai a rapidez do tempo!
Estamos sentados e dormimos,
Trabalhando ou gozando o prazer.
Mas o tempo corre, corre para nós,
míseros mortais, pondo fim
à vida de cada um.

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Camões – reflexões poéticas sobre o desconcerto do mundo

05 Terça-feira Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Camões, o velho, Pieter Brueghel

Brueghel_Pieter_the_Elder-The_Triumph_of_Death_detailNum tempo que em Portugal é de horizontes bloqueados, quando o agravar de dificuldades atinge muitos, alguns há a quem a mofina não toca.

Vivem-se tempos de grande incerteza, onde a par das desigualdades o desejo de Justiça permanece,  gerando entre as gentes, se não revolta, pelo menos a perplexidade da sua existência.

Há uma espécie de desacerto nesta injustiça flagrante, como se o mundo não fizesse sentido. Isto mesmo nos diz Camões em relação ao seu tempo, na redondilha Ao desconcerto do mundo, e que hoje surge como que saída do nosso quotidiano:

Ao desconcerto do mundo

Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E, para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que, só para mim,
Anda o mundo concertado.

O poeta aborda ainda o assunto nas oitavas a dom António de Noronha, sobre o desconcerto do mundo, e interroga-se a abrir:

Quem pode ser do mundo tão quieto,
Ou quem terá tão livre o pensamento,
Quem tão experimentado e tão discreto,
Tão fora, enfim, de humano entendimento
Que, ou com publico efeito, ou com secreto,
Lhe não revolva e espante o sentimento,
Deixando-lhe o juízo quase incerto,
ver e notar do mundo o desconcerto?

Quem há que veja aquele que vivia
De latrocínios, mortes e adultérios,
Que ao juízo das gentes merecia
Perpétua pena, imensos vitupérios,
Se a Fortuna em contrário o leva e guia,
Mostrando, enfim, que tudo são mistérios,
Em alteza de estados triunfante,
Que, por livre que seja não se espante?

Quem há que veja aquele que tão clara
Teve a vida que em tudo por perfeito
O próprio Momo às gentes o julgara,
Ainda que lhe vira aberto o peito,
Se a má Fortuna, ao bem somente avara,
O reprime e lhe nega seu direito,
Que lhe não fique o peito congelado,
Por mais e mais que seja experimentado?

Num longo relato de perplexidades e juízos morais, expostos na forma interrogada, se desenvolve o poema ao longo de vinte e nove oitavas, ora interpelando o mundo ora interrogando a sua circunstância pessoal, e finalmente encaminhando o poema para os assuntos do amor com que termina:

Mas para onde me leva a fantasia?
Porque imagino em bem-aventuranças,
Se tão longe a Fortuna me desvia
Que inda me não consente as esperanças?
Se um novo pensamento Amor me cria
Onde o lugar, o tempo, as esquivanças
Do bem me fazem tão desamparado
Que não pode ser mais que imaginado?

Fortuna, enfim, co’o Amor se conjurou
Contra mim, porque mais me magoasse:
Amor a um vão desejo me obrigou,
Só para que a Fortuna me negasse.
A este estado o tempo me achegou,
E nele quis que a vida se acabasse;
Se há em mim acabar-se, que eu não creio;
Que até da muita vida me receio.

Ilustra o artigo um detalhe de O triunfo da morte, de 1562, pintura de Pieter Brueghel, o velho (1525/30-1569), eventualmente contemporânea dos poemas, e que incluí no artigo anterior com poesia de Kurt Heynicke.

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Carpe diem, Odes, Livro 1, 11, de Horácio, no 500º artigo do blog

03 Domingo Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Crónicas, Poesia Antiga

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Horacio, Picasso

Picasso_Pablo-Figures_on_a_BeachPublico hoje o quingentésimo artigo no blog. Longe de veleidades de especialista, e apenas como homem comum que encontra prazer nas matérias do intelecto e do corpo, tenho preenchido o blog com artigos ao sabor do que ao espírito me ocorre, flanando nos acasos de leituras e acontecimentos.

No propósito de atribuir um significado especial a este artigo, de alguma maneira simbólico deste escrever, escolhi a Ode a Leucónoe de Horácio (65 a.C.- 8 a.C.), ode nº11 do Livro 1 das Odes, conhecida pelo seu último verso:

carpe diem, quam minimum credula postero.

Esta ode tem, ao longo dos séculos, despedaçado os esforços daqueles que defendem uma vida de sacrifício em prol de um além de maravilhas. E a ode dirigida a uma mulher, Leucónoe, diz tão só: não sabemos que vida nos espera para além da morte, os deuses sabem o que nos convém ainda que o não entendamos, por isso, aproveita o dia que passa.

Isto é dito na concisão do latim, numa forma poética que não cessa de encantar gerações e a que as traduções apenas trazem uma pálida aproximação.

Antes de passar às traduções, e para o leitor poder saborear o verso, aqui fica o original em latim:

1 Tu ne quaesieris — scire nefas — quem mihi, quem tibi
2 finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios
3 temptaris numeros. Ut melius, quidquid erit, pati,
4 seu plures hiemes, seu tribuit Iuppiter ultimam,

5 quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare
6 Tyrrhenum: sapias, vina liques, et spatio brevi
7 spem longam reseces. Dum loquimur, fugerit invida
8 aetas: carpe diem, quam minimum credula postero.

Começo uma volta pelas traduções que conheço, com um fragmento da ode inserido em Literatura de Roma Antiga.

Não indagues — sacrílego é sabê-lo — que fim nos tenham, a mim e a ti, destinado os deuses
…
melhor será suportar o que vier
…

sê sábia, coa o vinho e encerra em curto espaço a longa esperança.
Ainda estamos a falar, e já o tempo malfazejo nos terá escapado:
colhe o hoje e preocupa-te o menos possível com o amanhã

Continuemos neste percurso com a versão, poeticamente conseguida, de David Mourão-Ferreira:

Não procures, Leucónoe — ímpio será sabê-lo —,
que fim a nós os dois os deuses destinaram;
não consultes sequer os números babilónicos:
melhor é aceitar! E venha o que vier!
Quer Júpiter te dê inda muitos Invernos,
quer seja o derradeiro este que ora desfaz
nos rochedos hostis ondas do mar Tirreno,
vive com sensatez destilando o teu vinho
e, como a vida é breve, encurta a longa esp’rança.
De inveja o tempo voa enquanto nós falamos:
trata pois de colher o dia, o dia de hoje,
que nunca o de amanhã merece confiança.

Sigo com duas traduções a que chamaria, talvez, filológicas, pela sua tentativa de devolver em português o significado literal das expressões do poema original.

Primeiro, a mais antiga, da ilustre e operosa professora Maria Helena da Rocha Pereira:

Não pudemos, Leucónoe, saber — que não é lícito — qual o fim
que os deuses a ti ou a mim quererão dar,
nem arriscar os cálculos babilónios. Quão melhor é sofrer o que vier,
quer sejam muitos os invernos que Jove nos der, quer seja o último
este, que agora atira o Mar Tirreno contra as roídas rochas.
Sê sensata, filtra o teu vinho e amolda a curto espaço
uma longa esperança. Enquanto falamos, terá fugido o invejoso tempo.
Colhe a flor do dia, pouco fiando do que depois vier a suceder.

Agora a recente tradução de Pedro Braga Falcão substancialmente devedora da anterior, sobretudo nos versos 6 e 7:

Tu não perguntes ( é-nos proibido pelos deuses saber) que fim a mim, a ti,
os deuses deram, Leucónoe, nem ensaies cálculos babilónicos.
Como é melhor suportar o que quer que o futuro reserve,
quer Júpiter muitos invernos nos tenha concedido, quer um último,

este que agora o Tirreno mar quebranta ante os rochedos que se lhe opõem.
Sê sensata, decanta o vinho, e faz de uma longa esperança
um breve momento. Enquanto falamos, já invejoso terá fugido o tempo:
colhe cada dia, confiando o menos possível no amanhã.

Colhendo a lição das traduções anteriores, termino a propor uma minha versão para tão intemporal poema:

Não indagues, Leucónoe — sacrílego é sabê-lo — que fim, a mim e a ti,
os deuses destinaram, nem astrológicas(*)
previsões procures. Melhor é suportar o que vier,
quer muitos invernos Júpiter nos dê, quer seja o último,
este, que agora desfaz nas gastas rochas, as ondas do mar Tirreno.
Sê sensata, decanta o vinho, amolda à vida breve
a longa expectativa. Nós falamos, e o invejoso tempo voa:
colhe cada dia, acredita pouco no que amanhã virá.

(*) nec Babylonios traduzível por cálculos babilónicos ou babilónios, refere-se à arte da astrologia desenvolvida na Babilónia, e muito em voga entre os romanos à época, daí a versão que preferi.

Noticia bibliográfica

Tradução de David Mourão-Ferreira in Vozes da Poesia Europeia I, Revista Colóquio Letras, nº163

Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira in ROMANA, 6ªedição aumentada, Guimarães, 2010

Tradução de Pedro Braga Falcão in Horácio, Odes, Livros Cotovia, 2008

Fragmento in Literatura de Roma Antiga, Direcção de Mario Citroni, FCG, 2006. A revisão da tradução da obra é de Walter de Sousa Medeiros

Duas notas sobre a ilustração do artigo

Só podiam ser obras de Picasso dando conta do prazer de viver, as ilustrações para o artigo. Pela obra do artista, uma permanente alegoria desse prazer, e pelo meu gosto pessoal, que nesta obra encontro fonte de recorrente felicidade. E nela, o hedonismo da praia, o mar, o corpo ao sol, afinal o prazer do hoje, na sedução do beijo da amada que abre o artigo, e a inocente brincadeira familiar com que o fecho.

Picasso_Pablo-On_the_Beach

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Lao Tse: Tao Te King, Cap. 33 e 44

29 Terça-feira Jan 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Jan Steen, Lao Tse, Tao Te King

Steen_Jan-Celebrating_the_BirthHoje, mais ou menos toda a gente ouviu falar do livro Tao Te King — Livro do Caminho e do Bom Caminho de Lao Tse. É um livro para a vida. O subtítulo na versão portuguesa dá dele a medida exacta: Livro do Caminho e do Bom Caminho. Meditá-lo a espaços ajuda a recentrar a nossa atenção e opções de vida no que é essencial e vale a pena para nos sentirmos de bem connosco e com o mundo.

Venho hoje com dois capítulos do livro na notável e belíssima versão de António Miguel de Campos a partir de fontes chinesas, onde a forma adoptada pelo tradutor ganha, por vezes, a altura da mais nobre poesia.

“Quem morre sem desaparecer vive uma longa vida.“

Cap. 33

Quem conhece os outros é inteligente.
Quem se conhece a si próprio é esclarecido.

Quem vence os outros é forte.
Quem se vence a si próprio é poderoso.

Quem se contenta om o que tem é rico.
Quem avança com determinação tem orça de vontade.

Quem não abandona o seu lugar perdura.
Quem morre sem desaparecer vive uma longa vida.

Cap.44

A reputação ou a vida, o que nos é mais querido?
A vida ou o dinheiro, o que é mais importante?
Ganhar ou perder, o que é mais doloroso?

A verdade é que
gostar demais leva a grandes despesas.
Acumular demais leva a consideráveis perdas.

Sabendo quanto nos basta, evitam-se desgraças.
Sabendo parar, não se correm perigos
e poderemos assim para sempre perdurar.

Edição Relógio D’Água, Lisboa 2010

Ilustra o artigo uma pintura de Jan Steen (1625-1679), celebrando um nascimento.

É uma daquelas pinturas de género em que alguns holandeses foram mestres, e onde a vida corre na aceitação da sua condição.

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