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vicio da poesia

Category Archives: Crónicas

Fausto, pretexto para dar a cara.

25 Quinta-feira Ago 2011

Posted by viciodapoesia in Cânone XXI, Crónicas, Poesia Antiga

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Fausto, Goethe

São múltiplos os pretextos porque regresso ao Fausto de Goethe.  Aproxima-me o fim de mais um ano biológico e com ele o involuntário balanço eivado de alguma melancolia, E apossa-se de mim uma olvidada/ Saudade desse reino calmo e grave / Dos Espíritos.

E é no poema Dedicatória  com que abre Fausto  que me revejo, a mim e à minha circunstância:

Surgis de novo, figuras fugidias / … / Trazeis imagens de outra felicidade,/ E ressurge muita sombra querida; / Voltam primeiro amores, velha amizade,/ Como uma antiga lenda, meio perdida; / Renasce a dor, a mágoa insiste e invade / A errância labiríntica da vida,

 

Eis o poema:

Dedicatória

Surgis de novo, figuras fugidias
Que ao turvo olhar vos mostrastes outrora.
Cabem em meu coração tais fantasias?
Serei capaz de vós reter agora?
Quereis entrar! Seja, reinai sem peias,
Vós, que subis das brumas da memória;
A minha alma renasce, emocionada
Pelo sopro mágico da vossa cavalgada.


Trazeis imagens de outra felicidade,
E ressurge muita sombra querida;
Voltam primeiro amores, velha amizade,
Como uma antiga lenda, meio perdida;
Renasce a dor, a mágoa insiste e invade
A errância labiríntica da vida,
E nomeia os amigos que a má sorte
Privou de gozos e entregou cedo à morte.


Não ouvem os meus cantos de agora
As almas para quem primeiro cantei;
Disperso o grupo da primeira hora,
Mudos os ecos que então despertei.
A turba ignota o meu canto devora,
E nem com seu aplauso me alegrei;
E os que os meus versos amaram a fundo,
Se ainda vivem erram por esse mundo.


E apossa-se de mim uma olvidada
Saudade desse reino calmo e grave
Dos Espíritos, e a minha ciciada
Canção, eólia harpa, é voo de ave;
Estremeço, ao pranto a lagrima ajuntada
O peito austero torna leve e suave:
O que possuo dilui-se na distância,
E o que fugira ganha forma e substância.

É uma dívida que os portugueses nunca pagarão, a que têm para com João Barrento,  e a sua actividade como tradutor, sobretudo a sublime tradução de Fausto de Goethe. Deixo-lhe aqui o meu enorme obrigado.

Noticia bibliográfica: Esta tradução do poema consta da edição de Fausto de Johann W. Goethe publicada por Relógio d’Água, em 1999, sendo a tradução, introdução e glossário de João Barrento.

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À hora do chá

23 Terça-feira Ago 2011

Posted by viciodapoesia in Crónicas

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Sou um inveterado bebedor de chá, bebo-o aos litros. Não desses chás de fantasia que invadem os cardápios dos lounge cafés da moda, mas o acre, forte e intensamente cheiroso chá preto  vindo do Ceilão/Sri Lanka. Não é fácil encontrá-lo e bebê-lo em locais públicos. Para minha enorme felicidade, nas proximidades do atelier existe uma casa que vende chás, incluindo desta qualidade, o que me faz lá ir quase todas as tardes aviar um bule de chá preparado com qualidade e profissionalismo. Ao quase fenómeno, acrescenta a loja um pátio nas traseiras, paredes meias com uma plantação de couve portuguesa, onde com o bom tempo são oferecidas mesas à sombra para longamente saborear a excelsa bebida. A conotação elitista de beber chá ao lanche e a localização da casa, faz com que muitos dos frequentadores sejam mulheres a quem a terceira idade há muito deixou para trás:

Lembram uvas-passa,

secas, mirradas, às vezes tão doces.

Levantam-se tarde, arranjam-se com vagar

comem uma torrada, um leite, uma papa

e fazem horas para sair

ir ao café, encontrar as amigas

se não chover, talvez olhar um pouco as montras, comprar qualquer coisa.

Chegam com cautelas no andar, passinhos curtos, vacilando,

olham em redor e sentam-se.

Entre longos silêncios conversam de mesa para mesa.

Às vezes, com o adiantar da tarde, juntam-se.

Normalmente apenas tagarelam.

Comentam os políticos, as noticias, a televisão,

distraem-se com os achaques da idade

referem pequenos nadas,

ao fim e ao cabo o que lhes enche os dias.

Vem à memória sobretudo a infância.

Recordam da meninice,

os pais, as brincadeiras, alguma aventura.

Se a conversa se torna intima as recordações saltam e iluminam as faces.

Tempos felizes.

Um vestido, uma cara, uma viagem,

algo que volte à lembrança traz um frémito de novo.

Ainda que seja só vida já vivida não importa,

enche a tarde e ajuda o dia a passar.

A vida deixou-as algures.

O marido morreu, os filhos desertaram,

gente sem tempo, vão-se tornando uma recordação difusa.

Ficou a casa, enorme, vazia.

Sobram recordações

e fazem por se convencer não estar apenas à espera da morte.

Carlos Mendonça Lopes 

 

 

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Camilo e o burro em três cartas memoráveis

14 Sábado Maio 2011

Posted by viciodapoesia in Crónicas

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Camilo Castelo-Branco

Faço hoje um parentesis na poesia para transcrever três bem-humoradas cartas de Camilo Castelo Branco (1825 – 1890) sobre a compra de um burro e sua devolução à procedência pois “revelou furias lascivas, dom-juanescas, a cada femia que encontrava”.

Conservei a ortografia da primeira edição das cartas, respeitadora do manuscrito.

 Meu presado Am.0

Se fôr capaz de ler esta carta sem se rir, está V. Ex.cia á prova do humorismo indigena.

Os meus medicos, suspeitosos de que as m.as pernas vão paralysar, mandam-me dar passeios a cavallo.

Eu tenho um, como recordação de bons tempos; mas já não me atrevo a montal-o. Aconselharam me a equitação em burro, pacifico, sem manhas, nem erothismos mto violentos. É impossivel encontrar no Minho um burro em taes condiçoens; por que, alguns que ainda existem, são abbades. Mandaram-me procural-o no campo de Coimbra, onde permanece ainda a raça do burro espirituoso e meio academico da Mealhada e dos Fornos.

Lido isto. V. Ex.cia encarrega um dos seus carreiros de me comprar um jumento, nas condiçoens therapeuticas acima referidas – burro que não exceda 6 ou 7 libras. Apalavrado que esteja, envio a V. Ex.cia a qta que me designar, e o burro vem pa Famalicão, tomar pte nas minhas contemplaçoens bucolicas por estas montanhas.

Pergunta-me agora V. Excia em que ponto da carta lhe cumpria rir-se? É na estouvanice de o ir distrahir das suas leituras pedindo-lhe que me compre um burro.

Vou ler o seu livrinho, na certeza de que encontro novidades.

Peço-lhe a finesa de depor aos pés de sua Exma Esposa os meus respeitos.

De V. Ex.

Velho am.o obg.do

Camillo Castello Br.o

19/3/1886


Meu exmo amigo

Vejo que é mais facil encontrar ahi e aqui uma dusia de viscondes do que um burro regular. Talvez se desse a evolução darwinista. A gente vê passar o visconde e não vê o burro incluso. Requer-se o olho scientifico, experimental que V. Ex. não tem nem eu.

Muito lhe agradeço o resultado das suas pesquisas. Hoje deve V. Ex.cia receber um vale de 24$ rs para pagar o meu companheiro de excursoens e travessias por estas serras.

O burro queira V. Ex. enviar-m’o pela viaferrea. Não vejo melhor meio de transporte, nem deveremos esperar a navegação aeria, salvo se V. Ex.cia vir que elle, batendo as azas do genio, pode esvoaçar até aqui, como o negro melro da cantiga. V. Ex.a terá a bonde de me avisar do dia em que o illustre peregrino chega a Famalicão para as auctorides o cumprimentarem na gare.

Dei-lhe o incommodo de responder ao meu teleg. e não pude ir a Coimbra. fui hontem ao Bom Jesus ver o Peito de Carv.o e regressei mto doente. Mal posso já sahir de casa. Se V. Ex.cia me quizer ver, tem de vir aqui.

Peço os meus respeitos para sua ex.ma Esposa, minha Senhora.

De V. Ex.cia

Amo obgm.o

Camillo Castello Br.o

8/4/1886


Meu presado Am.o e Ex.mo Sr.

Cá está o onagro. Não o posso ver porque estou de cama com rheumatismo; mas ouço-o ornear valentemt.e. Desde Famalicão  até aqui, não obstante ter passado mal a noite, revelou furias lascivas, dom-juanescas, a cada femia que encontrava. Logo que chegou, investiu para dois garranos que tenho. O deabo tem dentro d’elle o que quer que seja do Marquez de Vallada. Parece mmo um christão! Meu filho Nuno veio dizer-me á cama que não consentia que eu o montasse (o burro) em qto lhe durasse a crise erothica.

Assim farei pa não ser victima de paixoens que me escangalharam a mim, sem ser de todo burro.

Remetto-lhe, meu presado amigo, 2:250 rs. Vão inclusos n’essa qta fabulosa os teleg. apensos ao burro.

Mil agradecimentos e mil desejos de lhe provar qto sou

De V. Ex.

Am.o grato

Camillo Castello Bro

20/4/1886

E quatro dias depois foi o burro despachado à procedência por indecente e má figura, supõe-se:

Meu presado Amigo

e Ex.mo Sr.

Como supplemento ás Notas diplomaticas sobre o burro, salvo seja, vai esta como recibo das 5 libras, reis 22$500.

A posteride, alem de ver que fomos de boas contas, maravilhar-se-ha vendo quaes eram as preocupações de dois escriptores assas methaphisicos. Se V. Ex.cia conservar esse pachiderme, e elle render o espirito em sua casa, peço-lhe que o embalsame e lhe ponha entre as orelhas a nossa correspondencia. Elle fez gemer os arames do telegrapho, e promettia fazer-me gemer com as costelas fracturadas. Oxalá que a final V. Ex.cia não seja victima d’esse burro e nunca lhe sacrifique a dedicada jumenta do olho unico.

De V. Ex.cia

Velho Amigo

Camillo

26/4/1886

Não é este o burro da história mas provavelmente, com este olhar lânguido, semelha uma das fêmeas que provocou as fúrias eróticas do burro.

As cartas, dirigidas a Adelino das Neves e Melo, amigo de longa data e residente em Coimbra, foram publicadas pela primeira vez por J. M. Teixeira de Carvalho em 1922. Famosas desde então têm conhecido diversas edições.

Os problemas de saúde de Camilo, que acabaram por o levar ao suicidio, são bem conhecidos, mas à data das cartas não tinham ainda atingido os paroxismos que a correspondência de 1889 e 1890 revela.

Já antes desta operação de aquisição de burro, Camilo recebera o conselho médico de se exercitar a cavalo, e numa carta do ano anterior, datada de 10/4/1885 e dirigida ao amigo Manuel Negrão, vivendo à época em Mosteiró, surge o pedido de compra de “egua, cavallo, garrano etc.,”.

Diz a carta:

Meu Negrão.

A medicina manda-me cavalgar. Tenho um garrano de 20 annos, indigno de confiança. Ha muito que o jubilei com mais um terço do ordenado. Em feira não compro burro, porque o compral-o é espiga certa. Queria que tu por ahi me comprasses besta conhecida – egua, cavallo, garrano etc., coisa que se pareça comigo nos annos e na pacatez, e que não exceda 12 libras. Ha eguas abbaciais excellentes. Não discuto quanto ao tamanho, nem idade. Forte de pernas para prescindir da mão de rêdea, e nada de pulmoeira.

Lembras-te da orça que comprei ao José Augusto? Aquillo a cada passo, na angustia dos seus bofes, era uma trovoada… que não ha ahi dizel-o sem offensa do nariz.

…

Esta carta foi publicada pela primeira vez pelo Visconde de Villa-Moura em 1913 no livro Camillo Inédito, prefaciado e anotado pelo editor.

As cartas de Camilo são um mundo fascinante sobre o homem, sobre os seus contemporâneos e sobre a riqueza vocabular e expressiva da lingua. Enquanto tesouro da literatura portuguesa e retrato único do homem, aguardam uma edição crítica que as enquadre no tempo e na biografia do escritor.

Tendo sido publicadas de forma avulsa em revistas e colectâneas desde a morte do escritor e sobretudo no inicio do século XX, foram por duas vezes reunidas, uma por Alexandre Cabral para Livros Horizonte e outra por Justino Mendes de Almeida para a edição em papel biblia da Lello& Irmão Editores, sem que a totalidade das cartas conhecidas tenha sido incluida, nem, quando era possivel, a contraparte epistolográfica dos destinatários. Permanecem assim, ainda cheias de valor, algumas das edições avulsas anotadas e comentadas com preciosos detalhes sobre os personagens a as peripécias a que se referem.

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Gosto e memória e as estatísticas do blog

01 Sexta-feira Abr 2011

Posted by viciodapoesia in Crónicas

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Pensado o blog como um arquivo de gosto e memória, numa perspectiva inteiramente pessoal, fui sendo surpreendido ao longo do passado ano com o aumento gradual do número de visitas ao blog.

Tendo iniciado o blog em Janeiro de 2010, no mês de Fevereiro o blog tinha tido 25 visitas e durante todo o mês de Março, 50. E assim se manteve com pequenas oscilações, até que em Agosto do ano passado deu um salto para 188 visitas nesse mês. De então para cá o crescimento do número de visitantes tem sido exponencial.

Terminado o ano com 601 visitas em Dezembro de 2010  e um total no ano de 2010 de menos de 2500 visitas, decidi continuar o blog alargando os assuntos, como, de resto, já tinha esboçado em Dezembro.

E a surpresa aconteceu: se em Janeiro de 2011, com 629 visitas, o número de visitas esteve próximo de Dezembro de 2010, Fevereiro deste ano disparou para quase o dobro (1147 visitas) e Março atingiu provavelmente um pico que não voltará a acontecer: 2099 visitas.

Ou seja, neste Março 2011, o blog quase tantas visitas como em todo o ano de 2010.

Grande parte deste acréscimo deveu-se a o blog ter sido blog em destaque no wordpress, o que leva a reforçar a minha convicção de que os computadores gostam de poesia, e agora também, de fotografia e música.

Para quem chega ao blog é irrelevante esta audiência. Os 4 fiéis que seguem o blog quase desde o início concluirão que há mais gente a gostar de por aqui andar. Para mim tem sido um gosto escrever no éter e seguir, no anonimato das visitas, a forma como cada assunto encontra a quem interessar.

Quase invariavelmente, o que eu suponho interessar a pouca gente acaba por ter picos de procura.

Há um comportamento dos visitantes que me deixa especialmente satisfeito, e é, ver como alguém que em resultado de uma pesquisa no Google chegou ao blog, surpreendido aqui permanece, lendo um e outro artigo, procurando saber mais sobre o autor, em suma, navegando dentro do blog, que é para isso que ele existe.

Tendo como tema dominante a poesia, continuarei a alargar os assuntos para além do que já existe. Sempre sem preocupações de actualidade.

Obrigado pela companhia silenciosa que me dispensaram.

 

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Portas em Tavira e um poema de José Régio

21 Segunda-feira Mar 2011

Posted by viciodapoesia in Convite à fotografia, Crónicas, Poesia Portuguesa do sec. XX

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José Régio, Tavira

Razões familiares ligam-me a Tavira especialmente nas oitenta e duas Primaveras decorridas desde 21 de Março de 1928. É um pouco da história deste período que estas portas contam.

Enquanto acesso à entrada num mundo, qualquer que ele seja, a porta marca um corte entre um antes e um depois.

Entre o eterno e o efémero decorrem os dias de uma vida, no silencioso suceder das estações, qual fluir do rio que corre na minha cidade, ia dizer aldeia como Pessoa, ainda que a ligação do poeta a Tavira seja através de Álvaro de Campos e não do seu mestre Caeiro.

Afinal é em José Régio e no seu livro Música Ligeira que encontro o poema adequado a transmitir esta serenidade primaveril, satisfeita de uma vida vivida sem deliberadamente prejudicar ninguém:

Viver à beira da morte

No gosto de mais um dia,

Nem eu diria

Que tão pouco me conforte.

 

Mas para quem

Não tem senão esse pouco,

Seria louco

Perder o pouco que tem.

 

Gozar o que, sem futuro,

Perdura uns breves instantes,

Não era dantes,

Mas hoje, é o bem que procuro.

 

Mais uma vez brilha o Sol!

E é de prever que à tardinha

Desponte a Lua, vizinha

Do resplendor do arrebol.

 

Talvez que a noite comprida

Traga outra manhã, depois.

Um dia e outro, são dois.

Não são dois dias a vida?

 

Nem eu diria

Que tão pouco me conforte:

Viver à beira da morte

No gosto de mais um dia.

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Voltar a Veneza ao ler Kenneth Rexroth a pretexto de Gaspara Stampa

08 Terça-feira Mar 2011

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poesia Antiga, Poetas e Poemas

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Gaspara Stampa, Kenneth Rexroth

Enquanto a luz de Canaletto / e de Guardi se torna em luz de / Turner,…

Ler estes versos faz-me voar a memória. O Carnaval acabara e raras máscara passeavam ainda a nostálgia de um tempo irremediavelmente sem regresso.

Vinte e cinco anos tinham passado.

Chegados a Santa Luzia e deixado o comboio, lá vamos levados pela multidão e arrastando o trolley pela calçada a caminho da cidade. A paragem do vaporetto fica longe do hotel, é melhor ir a pé.

O cheiro da cidade, o colorido do mar e, sobretudo, a luz, são os mesmos. Os reflexos vindos dos canais, a atmosfera do lugar, tudo permanece igual à memória. Com Veneza as memórias são inevitáveis. E o desejo irreprimível de flanar, olhar o mar, as pessoas, as ruas, descer a S.Marcos ao pôr-do-sol, intacto aí está. A perenidade da paisagem dá-nos o sentido da eternidade.

Mas vamos à cidade. Acabado o Carnaval, turistas são poucos. O sol brilha a espaços, e o frio da laguna desperta todos os sentidos mal pomos pé fora do hotel.

De novo a luz. O deslumbre do olhar é a constante do dia. Ao longo das horas os mesmos locais mudam de atmosfera mantendo sempre o encanto inesquecível. São os jogos de reflexão na água  e a variação da luz nas fachadas e palácios que inebriam e encantam.

Em Veneza passear é ir ao sabor dos cheiros, dos pormenores das esquinas, e perder-se no labirinto de ruelas e pontes. Descobrir a cada passo o detalhe que comove e enche a alma do prazer de ser surpreendida. Depois, há as igrejas, anódinas na fachada e todas, sem excepção, repletas de tesouros no interior, tantos deles por descobrir, afastadas que estão dos guias que fazem correr os turistas. Como valem a descoberta!

Os museus desmancham quaisquer planos e a excitação aumenta com as descobertas. A pintura de Tintoreto, agora restaurada, resplandece na Scuola S. Rocco. Os retratos a pastel de Rosalba Carrera são a revelação. Afinal ainda há pintura a descobrir.

Outro dia é para a Galeria della Academia. Os olhos vêem, mas a mente não retém. É demasiada beleza concentrada. Temos que voltar.

E as pessoas. Os venezianos são poucos. Habitam a cidade, mantêm-na vida. Saturados dos turistas guardam educadamente as distâncias. É preciso tempo em Veneza para que ela e eles se deixem conhecer. Forasteiros são muitos. Alguns ficam presos para sempre. Outros desejam voltar a Veneza e morrer.

Para um melómano o ar de Veneza trás à lembrança Wagner, Stravinski, e sobretudo, Vivaldi de cuja musica, mesmo a religiosa, salta uma irreprimível vontade de viver. É a melhor associação que faço a Veneza.

Para o fotógrafo, Veneza é uma dádiva. As cambiantes da luz com o passar das horas, o inesperado dos pontos de vista e a irresistível paisagem, criam a urgência do regresso quando a partida é inevitável.

Voltar, ter tempo para estar, para olhar, para sentir, para descobrir.

A Veneza podemos voltar, mesmo quando lá fomos felizes. Sempre.

Mesmo quando

Tudo o que tenho por companhia / são as duas metades do meu coração.

Afinal comecei e acabei o texto com versos de um poema de Kenneth Rexroth (1905 – 1982), NUMA PÁGINA DAS “RIME” DE GASPARA STAMPA.

Poeta norte – americano, figura participante do grupo em torno de quem a Beat Generation se desenvolveu, é mal conhecido em Portugal.

É de novo pela mão de Jorge de Sena que nos chegam algumas traduções entre as quais as que aqui transcrevo.

 

NUMA PÁGINA DAS “RIME” DE GASPARA STAMPA

Enquanto a luz de Canaletto

e de Guardi se torna em luz de

Turner, e as cúpulas da Salute

começam a absorver a tarde,

bebo chocolate e Vecchia

Romagna, esse tão estimável

brandy, na esplanada do

Café Internacional,

e leio estas ardentes

páginas que se estorcem. O amor foi

também para ti uma agonia, Signora,

e deu em nada depois

de um preço tão terrível.

Envolto nos sussurros

do fim do dia nesta cidade quieta,

aonde o mais sonoro som humano

é o de passos, estou sozinho

com a minha vida. Na noite passada

tomei uma gôndola até além da Giudecca,

directamente dentro do luar.

Quando voltei os frades

cantavam as matinas em San Giorgio

Maggiore. E penso em se é possível

estar-se mais só do que numa gôndola

em Veneza, à luz da lua cheia

de Junho. Tudo o que tenho por companhia

são as duas metades do meu coração.

Depois do poema-pretexto para voltar a Veneza, mais dois poemas do autor em tradução de Jorge de Sena, acompanhadas dos respectivos originais.

O ABUTRE

São Tomás de Aquino pensava

que a fêmea era lésbica

e o vento a emprenhava.

Se buscas os factos da vida,

os intelectuais papistas

podem ser muito enganadores

Vulture
St. Thomas Aquinas thought
That vultures were lesbians
And fertilized by the wind.
If you seek the facts of life,
Papist intellectuals
Can be very misleading.

O LEÃO

É o chamado rei

dos animais. De hoje em dia

há tantos em jaulas

quantos os há fora delas.

Se te oferecem uma coroa, recusa.

Lion
The lion is called the king
Of beasts. Nowadays there are
Almost as many lions
In cages as out of them.
If offered a crown, refuse.

Saber mais sobre Kenneth Rexroth (1905 – 1982):

Na página http://www.bopsecrets.org/rexroth/ pode ser encontrada informação abundante e fiável sobre este notável autor, tradutor, e cultor de um espírito universalista raro em escritores norte-americanos.

Se do nosso poeta sabemos pouco em Portugal, que dizer da personalidade e da obra de Gaspara Stampa (1523 – 1554)?

Embora para os conhecedores de Rilke não seja um nome desconhecido, pois foi este quem a colocou como emblema dos amantes a quem a infelicidade fez maior que o próprio destino ao referi-la na Primeira Elegia de Duíno, e sobretudo nos Cadernos de Malte Laurids Brigge, onde a compara com Soror Mariana Alcoforado, encontrar a sua poesia traduzida em português é procurar agulha em palheiro.

Vasculhadas as antologias que encontrei à mão é  na insubstituível Rosa do Mundo p.877, que encontro a tradução do Soneto CCVIII de Gaspara Stampa da responsabilidade de Jorge Henrique Bastos:

O amor transformou-me em fogo vivo,

como uma nova salamandra no mundo,

tal como o animal menos raro

que no mesmo sitio nasce e morre.

 

Todo o meu prazer e o deleite

é viver ardendo e não sentir dor,

sem preocupar-me com quem me impele

se tem ou não alguma piedade de mim.

 

Apenas o primeiro ardor estava extinto

foi outro a incendiar o Amor, ainda mais vivo

e maior do que todos os que provei.

 

Não me arrependo de arder de Amor,

se alguém roubar de novo o meu coração

há-de ficar com o meu ardor satisfeito.

 

E a versão original em italiano:

Soneto CCVIII

Amor m’a fatto tal ch’io vivo in foco,

qual nova salamandra al mondo, e quale

l’altro di lei nom men stranio animale,

que vive e spira nel medesmo loco.

 

Le mie delizie son tutte e ‘l mio gioco

viver ardendo e non sentire il male,

e non curar ch’ei che m’induce a tale

abbia di me pietà molto ne poco.

 

A pena era anche estinto il primo ardore,

che accese l’altro Amore, a quel ch’io sento

fin qui per prova, più vivo e maggiore.

 

Ed io d’arder amando non mi pento,

pur che chi m’ha di novo tolto il core

resti de l’arder mio pago e contento.

A obra de Gaspara Stampa, morta aos trinta e um anos, foi publicada pela irmã no ano da sua morte. Consta de 311 sonetos, elegias e madrigais.

Ao que sei, apenas em italiano é possível encontrar em volume a obra completa, disponível em edição de bolso da Rizzoli.

Em francês, a edição de uma antologia bilingue com tradução de Sophie Basch, e uma modelar apresentação pela tradutora, é mais uma das pérolas da colecção Orphée publicada pela editora La Différence.

 

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A dificil arte do soneto segundo Lope de Vega, Alexandre O´Neill e Manuel Alegre

19 Sábado Fev 2011

Posted by viciodapoesia in Crónicas

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Desde a sua invenção nunca o soneto deixou de desafiar poetas.

Poema de 14 versos em verso decassílabo rimado, ordenado em quatro estancias geralmente de duas quadras com dupla rima seguidas de dois tercetos.

No seu desenvolvimento o soneto exige ser construido numa espécie de silogismo, como bem lembrava Manuel Borralho nas suas Luzes de Poesia (1724), partindo de premissa(s) e rematando com uma conclusão, sendo o último verso do soneto, a certa altura,  chamado de chave de ouro.

Apresentado o tema na primeira quadra, deverá o poema dar continuidade ao assunto que se propõe, desenvolvendo a ideia que lhe subjaz, e concluindo-se de forma coerente com o argumentado.

Sendo uma forma poética de meu especial agrado, e existindo na literatura portuguesa elevado número de sonetos belíssimos, tenho por diversas vezes falado e transcrito sonetos. Hoje reúno um conjunto especial em que o assunto é a própria dificuldade em escrever um soneto.

Começo por Lope de Vega (1562-1635) que assim respondeu a Violante quando lhe pediu um soneto:

 

Un soneto me manda hacer Violante / Um soneto me faz fazer Violante

Y en vida nom me he visto en tal aprieto; / Nunca na vida estive tão inquieto;

Catorce versos dicen que es soneto: / Catorze versos dizem que é soneto,

Burla burlando, van los tres delante. / Brinca brincando vão os três diante.


Yo pensé que no hallara consonante / Pensei que não achava consoante

E estoy a la mitad de otro cuarteto; / E a metade estou deste quarteto;

Mas, si me hallo en el primer terceto, / Mas, se me vejo no primeiro terceto,

No hay cosa en los quartetos que me espante. / Nada há nos dois quartetos que me espante.


Por el primer terceto voy entrando / pelo primeiro terceto vou entrando

Y aún presumo que entré por pie derecho, / E parece que entrei com o pé direito,

Pues fin con este verso le voy dando. / Pois fim com este verso lhe estou dando.


Ya estoy en el segundo y aún sospecho / No segundo já vou e até suspeito

Que estoy los trece versos acabando: / que estou os treze versos acabando;

Contad si son catorze, y esté hecho. / Contai se são catorze e já está feito.

Rima: (ABBA / ABBA / CDC / DCD)  /  (ABBA / ABBA / CDC / DCD)

No livro Abandono Vigiado publicado por Alexandre O’Neill (1924-1986) em 1960 encontro o soneto QUATORZE VERSOS tendo como epígrafe o primeiro verso deste soneto de Lope de Vega.

Deliberada homenagem a um poeta maior, pois o poema anterior é outra homenagem, essa a

João Cabral de Melo e Neto, / Você não se pode imitar, / mas incita a ver mais perto, / com mais atenção e vagar, / o que está como que em aberto, / …,

o soneto QUATORZE VERSOS brinca, também ele, com a arte de escrever sonetos, na qual O’Neill foi exímio como nestes SONETOS GARANTIDOS… páginas antes no mesmo livro, e que não resisto a transcrever:

SONETOS GARANTIDOS…

Sonetos garantidos por dois anos.

E é muito já, leitor que mos compraste

para encontrar a alma que trocaste

por rádios, frigorificos, enganos…


essa tristeza sobre pernas faz-te

temeroso e cruel e tonto e traste.

Nem pior nem melhor que outros fulanos,

não vês a Bomba e crês nos marcianos…


e é para ti que escrevo, é para ti

que um verso lanço – ó mão! – como o destino,

nel’ ponho mesura, desatino,


rasgo, invenção, lugar-comum protesto?

Antes para soldado ou para resto,

escroto de velho, ronco de suíno…

Mas voltanto à dificil arte do soneto temos então no soneto QUATORZE VERSOS uma eloquente demonstração:


QUATORZE VERSOS

O primeiro é assim: fica de parte.

No segundo já posso prometer

que no terceiro vai haver mais arte.

Mas afinal não houve… Que fazer?


Melhor será calar, pois que dizer

nem no sexto conseguirei destarte.

Os acentos errados é favor não ver;

nem os versos errados, que também sei hacer…


Ó nono verso porque vais embora

sem que eu te sublime neste décimo?

Ao décimo-primeiro dediquei uma hora.


Errei-o. Mas que importa se a poesia,

mesmo que o não errasse, já não vinha?

É este o último e, como os outros, péssimo…

Ficaria por aqui não fora Manuel Alegre (1936) no seu livro Sonetos do Obscuro Quê publicado em 1993, vir explicitamente a este soneto de O’Neill quando se debruçava sobre a arte de escrever poesia em forma de soneto. Temos então, agora de Manuel Alegre:

Desata-se-me o verso no primeiro

no segundo de vento vai vestido

no terceiro de mar e marinheiro

no quarto está perdido está perdido.


Recupero-o no quinto sem sentido

no sexto deito-o à sombra de um sobreiro.

No sétimo com dante digo:”Guido

sê tu no oitavo verso o companheiro”.


Porque não espero de voltar no nono

leva-me O’Neill no décimo a um terceto

que aponte já no onze o sul e o sal.


Ao décimo segundo chega o sono.

No treze está a chave do soneto

mas nem sempre o catorze é o final.

Vamos pois dormir, a conselho do poeta, não sem antes referir que a tradução do poema de Lope de Vega é de José Bento e que se lê com proveito, o artigo SONETO publicado no DICIONÁRIO DE LITERATURA, sob a direcção de Jacinto do Prado Coelho e assinado por António Coimbra Martins.

 

Nota final: Quatorze ou Catorze? Escolha o leitor. Apenas reproduzi o conteúdo das edições impressas que possuo. Antes do Acordo Ortográfico Quatorze seria para Portugal e Catorze para o Brasil.

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Outro dia, com Irene Lisboa

06 Domingo Fev 2011

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poetas e Poemas

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Irene Lisboa

Alguns escritores, talvez já aqui o tenha referido, desarmam-me quaisquer planos. É abrir-lhes um livro ao acaso e embalo na leitura, esquecido de compromissos ou obrigações. É o caso de Irene Lisboa.

Amanhecera azul num céu de Tiepolo e fui trabalhar de olhos cheios. A certa altura choveu sob o arco-iris e os suburbios-dormitório onde o trabalho me leva, ganharam um brilho transparente de cristal. Pareceram por momentos lugares onde apetecia viver.

Era dia de rua Irene Lisboa, e no infinito daquele subúrbio, lá apareceu entre lixo e grafitti, com edifícios pouco menos que degradados. Serão habitados por gente parente de quem a escritora fez a crónica, pensei.

Fiz o que precisava, e no regresso fui à sua poesia. Aqui fica apenas um poema:

outro dia

Ontem,

cansada, cansada,

cheguei a casa,

à noite.

O céu estava limpo.

Cheguei à porta e olhei,

antes de entrar.

Lá em baixo,

nem perto nem longe,

no escuro,

luziam uns pingos…

Caíam rectos

e brilhantes

na água…

Deixavam um rasto!

Os meus olhos riram,

vendo-os

imobilizaram-se.

E tive desejos

de seguir pelas ruas,

de cabeça no ar,

com um riso parado…

Mas subi as escadas.

Lisboa 1935

O poema encerra o livro um dia e outro dia…. A versão transcrita é a do vol I das Obras de Irene Lisboa organizada por Paula Morão e publicada pela Editorial Presença em 1991.

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Essa Negra Fulô e outros poemas de Jorge de Lima

03 Quinta-feira Fev 2011

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poetas e Poemas

≈ 3 comentários

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Jorge de Lima

 

Conheço mal a obra de Jorge de Lima. De muito novo acompanha-me Essa Negra Fulô dito na voz de João Villaret e gravado num recital no Teatro S. Luis em Lisboa, em 1957 se não erro, recital esse editado em dois discos de vinil.

 

Nota: Há pequenas trocas na ordem porque os versos são ditos por Villaret em relação à versão impressa do poema que possuo e que aqui transcrevo.

 

Poema de onde sai um mundo, é um mundo apenas aparentemente extinto.

Hoje são outras as práticas e outras as relações de domínio entre seres humanos, mas a sua verdade, tão pungentemente aqui descrita, permanece.

Essa Negra Fulô

Ora, se deu que chegou

(isso já faz muito tempo)

no bangüê dum meu avô

uma negra bonitinha,

chamada negra Fulô.

 

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!

 

Ó Fulô! Ó Fulô!

(Era a fala da Sinhá)

— Vai forrar a minha cama,

pentear os meus cabelos,

vem ajudar a tirar

a minha roupa, Fulô!

 

Essa negra Fulô!

 

Essa negrinha Fulô

ficou logo pra mucama,

pra vigiar a Sinhá

pra engomar pro Sinhô!

 

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!

 

Ó Fulô! Ó Fulô!

(Era a fala da Sinhá)

vem me ajudar, ó Fulô,

vem abanar o meu corpo

que eu estou suada, Fulô!

 

vem coçar minha coceira,

vem me catar cafuné,

vem balançar minha rede,

vem me contar uma história,

que eu estou com sono, Fulô!

 

Essa negra Fulô!

 

“Era um dia uma princesa

que vivia num castelo

que possuía um vestido

com os peixinhos do mar.

Entrou na perna dum pato

saiu na perna dum pinto

o Rei-Sinhô me mandou

que vos contasse mais cinco.”

 

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!

 

Ó Fulô? Ó Fulô?

Vai botar para dormir

esses meninos, Fulô!

“Minha mãe me penteou

minha madrasta me enterrou

pelos figos da figueira

que o Sabiá beliscou.”

 

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!

 

Ó Fulô? Ó Fulô?

(Era a fala da Sinhá

Chamando a negra Fulô.)

Cadê meu frasco de cheiro

Que teu Sinhô me mandou?

 

— Ah! Foi você que roubou!

Ah! Foi você que roubou!

 

O Sinhô foi ver a negra

levar couro do feitor.

A negra tirou a roupa.

 

O Sinhô disse: Fulô!

(A vista se escureceu

que nem a negra Fulô.)

 

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!

 

Ó Fulô! Ó Fulô!

Cadê meu lenço de rendas,

Cadê meu cinto, meu broche,

Cadê o meu terço de ouro

que teu Sinhô me mandou?

Ah! foi você que roubou.

Ah! foi você que roubou.

 

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!

 

O Sinhô foi açoitar

sozinho a negra Fulô.

A negra tirou a saia

e tirou o cabeção,

de dentro dêle pulou

nuinha a negra Fulô.

 

Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!

 

Ó Fulô! Ó Fulô!

Cadê, cadê teu Sinhô

que Nosso Senhor me mandou?

Ah! Foi você que roubou,

foi você, negra fulô?

Essa negra Fulô!

Poesia multifacetada, tantas vezes coloquial, culmina em A Invenção de Orfeu, longo poema publicado em 1952, pouco antes da morte do poeta, e do qual disse João Gaspar Simões:

Tudo entra no poema de Jorge de Lima concebido na febre que exalta, no sonho que dilata, no transe que confunde. E o passado junta-se ao presente. Memória e invenção, sonho e realidade, história e futuro, infância e ancestralidade confundem-se, como se, em verdade, o poeta formasse com o seu poema uma espécie de caos preparatório de onde surgirá um dia uma ordem ideal.

Nos anos 30 do século XX o poeta converteu-se ao catolicismo reflectindo-se na sua poesia essa dimensão religiosa.

Rasto dessa conversão são os 2 poemas escolhidos a seguir.

Primeiro este A mão enorme guiando a nau da existência num dos grandes poemas da lingua portuguesa, onde à cadência do verso se une a meditação teológica do destino.

A mão enorme

Dentro da noite, da tempestade,

a nau misteriosa lá vai.

o tempo passa, a maré cresce,

o vento uiva.

A nau misteriosa lá vai.

Acima dela

que mão é essa maior que o mar?

Mão de piloto?

Mão de quem é?

A nau mergulha,

o mar é escuro,

o tempo passa.

Acima da nau

a mão enorme

sangrando está.

A nau lá vai.

O mar transborda,

as terras somem,

caem estrelas.

A nau lá vai.

acima dela

a mão eterna

lá está.

E este singular Inverno, onde, numa ligação à terra e à natureza tão característica da poesia brasileira antiga, e é o eco de Glaura de Manuel Inácio da Silva Alvarenga que me ressoa nesta Zefa com quem o poeta fala, também aqui temos no final a marca da devoção religiosa:

Mas tudo isso, Zefa, / vamos dizer, / só com os poderes / de Jesus Cristo!


Inverno

Zefa, chegou o inverno!
Formigas de asas e tanajuras!
Chegou o inverno!
Lama e mais lama
chuva e mais chuva, Zefa!
Vai nascer tudo, Zefa,
Vai haver verde,
verde do bom,
verde nos galhos,
verde na terra,
verde em ti, Zefa,
que eu quero bem!
Formigas de asas e tanajuras!
O rio cheio,
barrigas cheias,
mulheres cheias, Zefa!
Águas nas locas,
pitus gostosos,
carás, cabojés,
e chuva e mais chuva!
Vai nascer tudo
milho, feijão,
até de novo
teu coração, Zefa!

Formigas de asas e tanajuras!
Chegou o inverno!
Chuva e mais chuva!
Vai casar, tudo,
moça e viúva!
Chegou o inverno
Covas bem fundas
pra enterrar cana:
cana caiana e flor de Cuba!
Terra tão mole
que as enxadas
nelas se afundam
com olho e tudo!
Leite e mais leite
pra requeijões!
Cargas de imbu!
Em junho o milho,
milho e canjica
pra São João!
E tudo isto, Zefa…
E mais gostoso
que tudo isso:
noites de frio,
lá fora o escuro,
lá fora a chuva,
trovão, corisco,
terras caídas,
córgos gemendo,
os caborés gemendo,
os caborés piando, Zefa!
Os cururus cantando, Zefa!
Dentro da nossa
casa de palha:
carne de sol
chia nas brasas,
farinha d’água,
café, cigarro,
cachaça, Zefa…
…rede gemendo…
Tempo gostoso!
Vai nascer tudo!
Lá fora a chuva,
chuva e mais chuva,
trovão, corisco,
terras caídas
e vento e chuva,
chuva e mais chuva!
Mas tudo isso, Zefa,
vamos dizer,
só com os poderes
de Jesus Cristo!

Termino a escolha com Este Poema De Amor Não É Lamento

Este poema de amor não é lamento
Nem tristeza distante, nem saudade,
Nem queixume traído nem o lento
Perpassar da paixão ou pranto que há de

Transformar-se em dorido pensamento,
Em tortura querida ou em piedade
Ou simplesmente em mito, doce invento,
E exalta visão da adversidade.

É a memória ondulante da mais pura
E doce face (intérmina e tranqüila)
Da eterna bem-amada que eu procuro;

Mas tão real, tão presente criatura
Que é preciso não vê-la nem possuí-la
Mas procurá-la nesse vale obscuro.

 

Em nota final refiro que o espectáculo O Grande Circo Místico, de Edu Lobo e Chico Buarque de Hollanda, foi baseado na obra do poeta.

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Pele escura e poesia portuguesa – uma digressão

30 Domingo Jan 2011

Posted by viciodapoesia in Crónicas

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Camões, Guerra Junqueiro, Júlio Diniz, Soror Maria do Céu

 

Suponho que as morenas hoje dispensam o encorajamento dos poetas do dia.


Não foi sempre assim.

Num tempo em que os padrões de beleza eram os a seguir figurados,

 

qualquer morena, por mais bela que fosse, acabava por se sentir na pele deste modelo.

 

Poetas condoidos, ou apreciando a beleza sem preconceito, louvaram a pele trigueira de morenas belas.

Desde logo Camões, na que há muito é considerada entre as melhores poesias portuguesas de sempre, canta em Endexas a uma cativa chamada Bárbara, os encantos, cuja Pretidão de amor[*], / Tão doce a figura, / que a neve lhe jura / que trocara a cor.

[*] Este verso tem feito correr rios de tinta com comentadores ao logo dos séculos indignados e a pretender demonstrar que a pretidão é apenas do cabelo. Outros concedem que Bárbara possa ser, talvez, morena.

Embora de longa data a brancura da pele tenha sido, nas sociedades de matriz católica, distintivo de classe e apanágio de beleza, já no virar do sec. XVII para o XVIII encontramos um poema que dá conta de uma realidade social onde a cor da pele determina o destino. Trata-se de um poema de Soror Maria do Céu (1658 – 1753) que, em A pérola e a pimenta, retrata o destino de duas donzelas, uma branca e uma preta, provavelmente meio-irmãs, filhas do mesmo pai como parece intuir-se do final do poema, em que a branca ficou por dama / a negra por cozinheira.


A PÉROLA E A PIMENTA

Companheira de jornada,

Duas donzelas havia,

Uma formosa e fria,

Outra feia e engraçada.

Uma tão negra se of’rece,

Que até carapinha tem,

A outra tão clara vem

Que filha da alva parce.

E olhando com desafogo

Nos efeitos que produz,

Uma tem cara de luz,

A outra entranhas de fogos.

Já acabada a carreira,

Ali onde a sorte as chama,

A branca ficou por dama,

A negra por cozinheira.

Uma e outra foi notada

Nesta jornada ou empresa,

Porque a dama ficou presa,

E a negra escalavrada.

Todos sabemos quem são

E as conhecemos bem,

Ainda que uma só tem

Árvore de geração.

E da outra não duvido

Venhais em conhecimento,

Porque é o seu nascimento

Claro, posto que escondido.

 

 

Avançando no tempo, é na segunda metade do século XIX que escolho dois poemas com a particularidade de terem sido seleccionados, por antologiadores de mérito, como representativos da poesia dos seus autores e se situarem entre os melhores da poesia portuguesa de sempre.

No primeiro, TRIGUEIRA,  Júlio Diniz (1839 – 1877) desdobra-se em argumentos de consolo:  Mais feia / Com essa cor te imaginas? / … / Pois serias tu mais linda, / Se tivesses outra cor?

ou ainda:

Tu, que assim fascinas / Com um só olhar dos teus!

…

Invejar a cor da rosa, / Em ti, é quase pecar.

…

Trigueira! Onde mais realça / O brilhar duns olhos pretos, / … / Do que numa cor assim?

 

Vamos então ao poema:

 

TRIGUEIRA

Trigueira! Que tem? Mais feia

Com essa cor te imaginas?

Feia! Tu, que assim fascinas

Com um só olhar dos teus!

Que ciumes tens da alvura

D’esses semblantes de neve!

Ai, pobre cabeça leva!

Que te não castigue Deus.


Trigueira! Se tu soubesses

O que é ser assim trigueira!

D’essa ardilosa maneira

Por que tu o sabes ser;

Não virias lamentar-te,

Toda sentida e chorosa,

Tendo inveja à cor da rosa,

Sem motivos para a ter.


Triguieira! Porque és trigueira

É que eu assim te quis tanto,

Daí provem todo o encanto

Em que me traz este amor.

E suspiras e murmuras!

Que mais desejavas inda?

Pois serias tu mais linda,

Se tivesses outra cor?


Trigueira! Onde mais realça

O brilhar duns olhos pretos,

Sempre húmidos, sempre inquietos,

Do que numa cor assim?

Onde o correr duma lágrima

Mais encantos apresenta?

E um sorriso, um só, nos tenta,

Como me tentou a mim?


Trigueira! E choras por isso!

Choras, quando outras te invejam

Essa cor, e em vão forcejam

Por, como tu, fascinar?

Ó louca, nunca mais digas,

Nunca mais, que és desditosa,

Invejar a cor da rosa,

Em ti, é quase pecar.


Trigueira! Vamos, esconde-me

Esse choro de criança.

Ai, que falta de confiança!

Que graciosa timidez!

Enxuga os bonitos olhos,

Então, não chores, trigueira,

E nunca dessa maneira

Te lamentes outra vez.

 

Este poema, cuja popularidade, hoje, desconheço, figurou entre as 100 Melhores Poesias (Líricas) da Língua Portuguesa, escolhidas por Carolina Michaelis de Vasconcellos em 1910. À poesia de Júlio Diniz hoje desaparecida das livrarias (suponho), regressarei por estes dias.

Entre estas 100 poesias figura, obviamente, Endexas a uma cativa chamada Bárbara de Camões.

 

O segundo poema sobre a cor da pele, MORENA, é de Guerra Junqueiro (1850 – 1923).

Aqui o tom é outro, brincalhão, e a morena a quem se dirige o poema é ainda alvo de atenções prévias do poeta

… / Pois pouco te importa / Que eu goste ou que não.

e não o consolo que Júlio Diniz escreveu.

Ao longo do poema desenvolvem-se comparações com flores … / Há rosas dobradas / E há-as singelas; / … / Mas rosas morenas, / Só tu, linda flor.

 

E de elogio em elogio termina no mais convincente(?):

E a Virgem Maria / Não sei… mas seria / Morena também.

…

Vê lá depois disto / Se ainda tens pena / Que as mais raparigas / Te chamem morena!

 

Finalmente o poema:

 

MORENA

Não negues, confessa

Que tens certa pena

Que as mais raparigas

Te chamem morena.


Pois eu não gostava,

Parece-me a mim,

De ver o teu rosto

Da cor do jasmim.


Eu não… mas enfim

É fraca a razão,

Pois pouco te importa

Que eu goste ou que não.


Mas olha as violetas

Que, sendo umas pretas,

O cheiro que têm!

Vê lá que seria,

Se Deus as fizesse

Morenas também!


Tu és a mais rara

De todas as rosas;

E as coisas mais raras

São mais preciosas.


Há rosas dobradas

E há-as singelas;

Mas são todas elas

Azuis, amarelas,


De cor de açucenas,

De muita outra cor;

Mas rosas morenas,

Só tu, linda flor.


E olha que foram

Morenas e bem

As moças mais lindas

De Jerusalém.

E a Virgem Maria

Não sei… mas seria

Morena também.


Moreno era Cristo,

Vê lá depois disto

Se ainda tens pena

Que as mais raparigas

Te chamem morena!

 

Sendo um poema conhecido na sua época, foi escolhido como representativo do estro de Guerra Junqueiro por Cabral do Nascimento para a antologia COLECTÂNEA DE VERSOS PORTUGUESES  do século XII ao século XX, publicada em 1964, onde figurava apenas um poema por poeta.

Nesta antologia permaneceu a representar a obra camoneana  Endexas a uma cativa chamada Bárbara, mas desapareceu qualquer poema de Júlio Diniz.

Nas voltas da moda ou da sensibilidade de cada época se fazem génios hoje, esquecidos amanhã.

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