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vicio da poesia

Monthly Archives: Agosto 2017

Um Devoto de Baccho — Anónimo do século XIX

30 Quarta-feira Ago 2017

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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David Teniers o Jovem

O consumo do vinho é desde tempos ancestrais companhia para ocasiões festivas, conduzindo sem dificuldade da euforia à embriaguês ligeira, e motivo de celebração poética  desde a longínqua China à Europa.

A dependência do álcool e os comportamentos a ela associados são muito menos frequentes na poesia, e encontram-se na poesia portuguesa quando esta adoptou um ponto de vista realista, acompanhado de um julgamento moral, por finais do século XIX. É dessa época o poema anónimo que no final transcrevo.

No poema lemos, não a alegria eufórica de uma embriaguês pontual, mas o recurso ao vinho como forma de evasão à dureza do quotidiano:

…

Com uma garrafa do fino,

Faço frente ao meu destino,

E o mundo… deixo-o correr!…

…

 

Surge depois a descolagem da responsabilidade pessoal induzida por uma total dependência do álcool:

…

E eu… no chão, mesmo, deitado,

Durmo… e não me dá cuidado

O que vai… nem e que veml…

 

Narrado na primeira pessoa, se por um lado é a ligeireza eufórica da embriaguês que no seu ritmo a linguagem do poema reflecte, por outro, no desenvolvimento narrativo  do poema passamos das dificuldades da vida à forma como o vinho as dilui: Sofri muito… mas embora… / Graças ao bom vinho, agora / Já p’ra mim não há paixões! / …, fazendo parecer que estas desaparecem. E à medida que a alcoolização se consolida lemos a entrega total à depêndencia:

…

Dinheiro… tendo-o p’ra vinho,

Tenho tudo… e sou feliz!

Nunca mais me vi faminto!

…

 

O julgamento moral do homem surge quando o poeta refere a situação familiar do protagonista e o seu alheamento em relação à responsabilidade da sua causa, no que foi um estereótipo à época, provavelmente ancorado numa realidade frequente:

 

Quando a mulher se consome,

Vendo os filhos a chorar…

Coitados… porque têm fome,

E não há pão p’ra lhes dar;

Eu bebo… e, depois de quente,

Vejo-me alegre e contente,

Julgo que tudo vai bem!

…

 

 

 

Poema

 

Um Devoto de Baccho

 

Oh vinho!… Licor famoso!

A ventura devo-a a ti!

Quanto hoje no mundo gozo,

Quanto outrora padeci!

Na mais afanosa lida,

Creio, só, que, em toda a vida,

Nunca tive indigestões!…

Fomes… sedes… chuvas… frios…

Tudo atacava os meus brios,

E andei sempre aos trambolhões!

Sofri muito… mas embora…

Graças ao bom vinho, agora

Já p’ra mim não há paixões!

 

Já não sou pobre e mesquinho…

– Do meu rosto a cor o diz –

Dinheiro… tendo-o p’ra vinho,

Tenho tudo… e sou feliz!

Nunca mais me vi faminto!

Chuva… se cai… não a sinto…

Nem tornei a arrefecer!

Sem chorar a minha sorte,

Contra os revezes sou forte,

Nenhum me pode abater!

Com uma garrafa do fino,

Faço frente ao meu destino,

E o mundo… deixo-o correr!…

 

Quando a mulher se consome,

Vendo os filhos a chorar…

Coitados… porque têm fome,

E não há pão p’ra lhes dar;

Eu bebo… e, depois de quente,

Vejo-me alegre e contente,

Julgo que tudo vai bem!

Dizem que o dinheiro é raro,

Que o milho corre tão caro,

Que lhe não chega ninguém…

E eu… no chão, mesmo, deitado,

Durmo… e não me dá cuidado

O que vai… nem e que veml…

 

Transcrito de uma Folha Volante sem data nem autor, presumivelmente de final do séc XIX, atendendo à ortografia.

Transcrição com ortografia modernizada.

Abre o artigo a imagem de um detalhe de uma pintura de David Teniers o Jovem (1610-1690) – Três fumadores e bebedores no interior de uma taberna de meados do século XVII.

 

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Em torno ao Livro de Rute

28 Segunda-feira Ago 2017

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Biblia, Else Lasker-Schüler, Gabriela Mistral, Livro de Rute, Poussin

Não sou conhecedor da Bíblia e muito menos um seu exegeta. Passeio por lá a espaços como por um livro de sabedoria. Paro muitas vezes no Livro de Rute, a história de uma mulher, ou antes uma história da mulher.

No Livro de Rute conta-se a história de Rute, estrangeira, viúva em terra do marido que morreu. Fez-se à vida, encontrou os homens, encontrou o homem a quem se entregou, e de quem recebeu o que procurava. É essa a história no seu essencial. Sendo embora uma história com valores, o bem e o mal surgem um pouco esbatidos, e quando o questionamento se coloca, são muitas as perguntas embaraçosas para a moral dos nossos dias.

Calo-me agora e deixo-vos com o que aconteceu, numa versão poética da sua parte final :

Agora não se diga mais entre nós “deixa-me”,
e nenhum dos nossos corações se afaste.
Eu irei para onde fores
e da tua morada faço também a minha.
Os teus irmãos e companheiros hoje recebo como meus,
o Deus da tua juventude, eu o amo profundamente.
E quando por fim a morte nos visitar
quero morrer na terra em que morreres
e ser sepultada perto de ti

O Senhor sabe: a vida me tratará com tristes rigores
se outra coisa que não a morte
esconda de meus olhos a graça do teu rosto
tão amado.
Tradução de José Tolentino de Almeida

O de Rute, é um destino de controvérsia há séculos, tal como contado neste livro de exemplos.

A peculiar forma como o casamento aqui é tratado, exigindo piruetas de interpretação para a fazer caber na indissolubilidade dos laços conjugais prosseguido pela igreja católica, não ajudou à sua leitura pacífica nas sociedades que a seguem, como a nossa.

Conta para a peculiaridade do Livro de Rute o exemplo de maternidade protagonizada pela sogra de Rute, Naomi, que a acolhe quando viúva, a aconselha sobre os homens, e mais tarde recebe como de sua família o filho de Rute e do novo marido, Boaz.

Temos em Rute o exemplo de uma Mulher que não se resigna à crueldade do destino, faz-se à vida e encontra de novo o homem com quem seguirá o resto do caminho.

Esta é uma história de integração social depois de ser uma história de integração familiar. A estrangeira, além do mais já “maculada” por um casamento, integra-se num clã onde é respeitada como igual. Como estamos afastados de praticas hindus em que a viúva era condenada a morrer com o marido na pira funerária.

É esta inclusão espelho de igual dignidade entre humanos. O caminho para integrar na nossa vida a dignidade humana tem sido longo, e o mais preocupante é não ser um valor adquirido pela humanidade, essa dignidade. A barbárie, a ganância, espreitam na esquina de qualquer distracção.

Esta simbólica mulher, Rute, tocou a imaginação poética de alguns e aqui vos deixo, primeiro um poema de Gabriela Mistral (1889-1957), no original em espanhol, onde se relata o encontro de Rute no caminho para a sua nova vida.

Ruth

I
Ruth moabita a espigar va a las eras,
aunque no tiene ni un campo mezquino.
Piensa que es Dios dueño de las praderas
y que ella espiga en un predio divino.

El sol caldeo su espalda acuchilla,
baña terrible su dorso inclinado;
arde de fiebre su leve mejilla,
y la fatiga le rinde el costado.

Booz se ha sentado en la parva abundosa.
El trigal es una onda infinita,
desde la sierra hasta donde él reposa,

que la abundancia ha cegado el camino…
Y en la onda de oro la Ruth moabita
viene, espigando, a encontrar su destino.

II
Booz miró a Ruth, y a los recolectores.
Dijo: “Dejad que recoja confiada”…
Y sonriendo los espigadores,
viendo del viejo la absorta Mirada…

Eran sus barbas dos sendas de flores,
su ojo dulzura, reposo el semblante;
su voz pasaba de alcor en alcores,
pero podía dormir a un infante…

Ruth lo miró de la planta a la frente,
y fue sus ojos saciados bajando,
como el que bebe en inmensa corriente…

Al regressar a la aldea, los mozos
que ella encontró la miraron temblando.
Pero en su sueño Booz fue su esposo…

III
Y aquella noche el patriarca en la era
viendo los astros que laten de anhelo,
recordó aquello que a Abraham prometiera
Jeová: más hijos que estrellas dio al cielo.

Y suspiró por su lecho baldío,
rezó llorando, e hizo sitio en la almohada
para la que, como baja el rocío,
hacia él vendría en la noche callada.

Ruth vio en los astros los ojos con llanto
de Booz llamándola, y estremecida,
dejó su lecho, y se fue por el campo…

Dormía el justo, hecho paz e belleza.
Ruth, más callada que espiga vencida,
puso en el pecho de Booz su cabeza.

Segue-se, para terminar, uma das baladas hebraicas de Else Lasker-Schüler (1869-1945) sobre Rute,3, em tradução de João Barrento.

Rute

E tu vens procurar-me às sebes
Oiço o soluçar dos teus passos
E os meus olhos são pesadas gotas escuras.

Na minha alma nascem as flores doces
Do teu olhar e ele enche-se
Quando os meus olhos se exilam para o sono.

Na minha terra,
Junto ao poço está um anjo:
Canta a canção do meu amor,
Canta a canção de Rute.

Estes poemas, ainda que muito belos, não esgotam de forma alguma os quatro capítulos do Livro de Rute, que integra o Antigo Testamento, e é, todo ele, um poema a justificar visita recorrente.

Para os leitores com curiosidade pela leitura do Livro de Rute, sugiro que procurem uma edição da Biblia, em tradução directa do hebraico, em detrimento da versão traduzida a partir da Vulgata Latina, e muito menos uma comentada versão por quaisquer padres da Igreja.

Nota Final

Este artigo foi inicialmente publicado aqui no blog em 23 de Outubro de 2012 e agora trazido outra vez ao encontro de novos leitores,

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Comigo me desavim… e mais poesia de Francisco Sá de Miranda

25 Sexta-feira Ago 2017

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Francisco Sá de Miranda, Perugino

Francisco Sá de Miranda (1481-1558) gozou em vida do apreço dos contemporâneos simultaneamente como homem e como poeta. Frequentemente voz austera contra os desmandos dos poderosos do mundo, e as suas sátiras em forma de carta com destinatário são o testemunho eloquente, foi, para a poesia que hoje nos toca, um penetrante observador das complexidades do eu no que aos afectos respeita. É famoso e permanece na memória de quem o leu, o verso:

Comigo me desavim
…

 

Tomara muitos poetas deixar para as gerações tão só um verso desta penetração reflexiva na economia da sua expressão, dando conta dos conflitos que tão frequentemente nos assaltam.

Faço agora uma curta visita a esta poesia. Com o propósito de aclarar algumas expressões antigas ou o sentido de algum verso, acompanho os poemas de uma que outra nota.

Sá de Miranda foi o introdutor em Portugal da forma poética soneto, depois duma demorada viagem por Itália com cuja produção se familiarizou.
Comecemos, pois, esta viagem com aquele que será, porventura, o seu soneto mais conhecido, e obra-prima da poesia portuguesa, O sol é grande, caem co’ a calma as aves.
Reflexão densa sobre as mudanças da vida tal como as mudanças do tempo. Só que, com estas, pelo seu carácter cíclico tudo se renova, mas na vida o envelhecimento é sem retorno.

 

Soneto

O sol é grande(1), caem co’ a calma(2) as aves
Do tempo em tal sazão(3) que soi(4) ser fria:
Esta água, que d’alto cai(5), acordar-me-ia
Do sono não, mas de cuidados graves.

Ó coisas todas vãs, todas mudaves
Qual é o coração que em vós confia?
Passando um dia vai, passa outro dia,
Incertos todos mais, que ao vento as naves!(6)

Eu vi já por aqui sombras e flores,
Vi águas e vi fontes e vi verdura,
As aves vi cantar todas d’amores.

Mudo e seco é já tudo e de mistura:
Também fazendo m’eu fui doutras cores(7)
E tudo o mais renova, isto é sem cura.

(1) Era Outono e a temperatura elevada
(2) Calor
(3) Estação do ano
(4) Costuma
(5) Perto de casa de Sá de Miranda existia uma cascata
(6) Como ao vento os navios
(7) Constata o próprio envelhecimento

 

Este soneto é a provável fonte de inspiração directa do famoso soneto de Camões: Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, …

Seguem-se, para concluir a visita, trovas à maneira antiga, ou seja à maneira da poesia recolhida no Cancioneiro de Garcia de Resende.

Comecemos com uma comovente reflexão sobre as saudades de quem se ama: Todos estes campos cheios / são de saudade e pesar, /.
Quando a distância, por maior que seja não permite esquecer, — até quão longe se estende / o vosso poder em mim! — não há beleza em redor que se sobreponha à tristeza desse afastamento.
Estas reflexões vivem na Cantiga feita nos grandes campos de Roma a seguir transcrita:

 

Cantiga feita nos grandes campos de Roma

Por estes campos sem fim,
onde a vista assim se estende,
que verei, triste de mim,
pois ver-vos se me defende (1)?

Todos estes campos cheios
são de saudade e pesar,
que vem para me matar
debaixo de céus alheios.
Em terra estranha e em ar,
mal sem meio e mal sem fim,
dor que ninguém não entende,
até quão longe se estende
o vosso poder em mim!

(1) se me defende – me é proibido

 

Na segunda trova reflecte o poeta sobre a vida despreocupada e as suas consequências: Tornou-se-me tudo em vento, / após tormento e tormento, / que eu passei cuidando em al(1);
Nela realça, com elegante concisão, como as suas consequências chegam bem antes da interiorização das más escolhas: enfim veo cedo o mal / e tarde o conhecimento.
Mas tem mais o poema: depois de olhar para si, o poeta olha em redor e diz: Vejo vir males maiores. / O tempo a que sou chegado!

 

**
Tornou-se-me tudo em vento,
após tormento e tormento,
que eu passei cuidando em al(1);
enfim veo cedo o mal
e tarde o conhecimento.
Eu assi desenganado,
Vejo vir males maiores.
O tempo a que sou chegado!
— que posso doer às dores,
e dar cuidado ao cuidado!

(1) outra coisa

 

Nesta outra trova, o poeta, desiludido do mundo e entregue à dor pessoal, contas feitas com a vida, apenas espera a morte: Em vão cá e lá cansei, / tudo me é tomado já; / agora descansarei, / ou me este mal matará; / se não… eu me matarei.

 

***
Mal, de que me eu contentei,
contas, rematadas já,
agora descansarei,
esta dor me matará;
se não… eu me matarei.

Nas cousas que não é meo (1)
é escusado cansar mais,
ir de receo em receo
e de sinais em sinais.
Em vão cá e lá cansei,
tudo me é tomado já;
agora descansarei,
ou me este mal matará;
se não… eu me matarei.

(1) Nas cousas que não podemos ultrapassar.

 

E finalmente a reflexão intemporal da luta consigo próprio e com a vida, obrigando a viver com as consequências das escolhas que pela vida fora se fazem.

 

****
Comigo me desavim,
sou posto em todo perigo;
não posso viver comigo
nem posso fugir de mim.

Com dor, da gente fugia,
antes que esta assi crecesse;
agora já fugiria
de mim, se de mim pudesse.
Que meo(1) espero ou que fim
do vão trabalho que sigo,
pois que trago a mim comigo,
tamanho imigo (2) de mim?

(1) mais
(2) inimigo

 

Abre o artigo um fragmento de uma pintura de Pietro Perugino (1450-1523), O combate entre amor e castidade.

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Um poema de Vladimir Holan

23 Quarta-feira Ago 2017

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Pierre Soulages, Vladimir Holan

Quando a “dor não é de tamanho natural, / é sempre maior que o homem / e no entanto, deve alojar-se no seu coração“, estamos perante tempos muito duros.
Frequentemente, o optimismo que impregna a natureza humana, mesmo com a mais negra realidade, faz emergir a esperança. Não é assim no poema de Vladimir Holan (1905-1980), Mas, que à frente mostro, escrito nos anos negros do pós-WWII na Checoslováquia. Tempo absolutamente sem esperança o que o poeta viveu, afinal, como tudo, também teve o seu fim, embora o poeta não tenha chegado a conhecer a liberdade pós-1989. Liberdade que possuímos hoje na Europa Ocidental, ainda que seja frequentemente ameaçada pelo terror. Mas feito o luto, a vontade de a viver tem sido sempre mais forte. É preciso que assim continue, e que a alegria de viver não seja nunca “uma ténue memória que ecoa em nós.“.

 

 

 

Mas

O deus do canto e do riso há muito
fechou as portas da eternidade atrás de si.
Desde então apenas de vez enquando
uma ténue memória ecoa em nós.
E desde então só a dor
não é de tamanho natural,
é sempre maior que o homem
e no entanto, deve alojar-se no seu coração.

 

Versão de Carlos Mendonça Lopes a partir da tradução inglesa.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Pierre Soulages (1919), The red list, de 1970.

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Odor di femina — soneto de Gonçalves Crespo

20 Domingo Ago 2017

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Gonçalves Crespo, Hans Baldung

Apenas aos curiosos são concedidas as alegrias do inesperado. Mas cuidado! Como é sabido, a curiosidade pode matar. Era de alguma forma o que estava na essência do romance de Umberto Eco, O Nome da Rosa: folhear o livro proibido envenena o corpo, além da alma.

O romantismo deu-nos uma imagem da idade média que a custo desde a segunda metade do século XX os historiadores têm tentado desmistificar. Uma dessa as imagens teve a ver com a forma como a mulher era olhada e integrada na sociedade: Evas que levavam o homem ao pecado e o condenavam ao inferno pela eternidade.

Na verdade, livros e interditos têm uma história entrelaçada, e no seu exagero lapidar, o soneto de Gonçalves Crespo (1846-1883) que à frente transcrevo, Odor di femina, dá disso mesmo conta. Através de um livro, não do seu texto mas do seu conteúdo, o poema ironiza sobre o fantasma diabólico da mulher, embora sem remeter directamente para a idade média, mas fazendo do protagonista do soneto, um frade, santo homem, e por isso mesmo educado nessa visão da mulher como transmissora de pecado mortal até ao último cabelo.
Simultaneamente, o título do poema remete o conhecedor para uma famosa fala de D. Giovanni no primeiro acto da ópera de Mozart do mesmo nome. E aqui temos, na sua multiplicidade de leituras, a memória do galã sedutor a quem nenhuma mulher escapa, e nada faria morrer a não ser a sua recusa ao arrependimento por matar, sem escrúpulos, alguém que se intrometeu na sua conquista feminil. Mas essa é história que outro dia virá. Agora deixo-vos com o fatal destino do santo frade apanhado na armadilha dos livros.

 

Odor di femina

Era austero e sisudo; não havia
Frade mais exemplar nesse convento;
No seu cavado rosto macilento
Um poema de lágrimas se lia.

Uma vez que na extensa livraria
Folheava o triste um livro pardacento,
Viram-no desmaiar, cair do assento,
Convulso e torvo sobre a lagea fria.

De que morrera o venerando frade?
Em vão busco as origens da verdade,
Ninguém ma disse, explique-a quem puder.

Conste que um bibliófilo comprara
O livro estranho, e que ao abri-lo achara
Uns dourados cabelos de mulher…

 

in Obras Completas, Tavares Cardoso & Irmão Editores, Lisboa, 1897.

 

Nota final

O soneto integra a escolha de Fidelino de Figueiredo, Os Melhores Sonetos da Língua Portuguesa desde Sá de Miranda, ed 1907.

Abre o artigo um fragmento de uma pintura de Hans Baldung (1480-1545), As sete idades da mulher.
Com efeito, nunca saberemos se seria nova, velha, ou de meia idade, a possuidora do cabelo que matou o desprevenido frade. Por outro lado, sabemos que a D. Giovanni, a idade das mulheres, para o interessarem, nunca foi relevante…

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O Viandante — poema de Carlos de Oliveira

18 Sexta-feira Ago 2017

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Carlos Oliveira

Há uma precisão cirúrgica na poesia de Carlos de Oliveira (1921-1981). As palavras cortam como estilete afiado, dilacerando o leitor com a realidade que devolvem. São frequentemente poemas onde o verso, na sua medida exacta, transmite o mais lídimo conceito de poesia, qual seja este poema O Viandante, que a seguir transcrevo.

 

O Viandante

Trago notícias da fome
que corre nos campos tristes:
soltou-se a fúria do vento
e tu, miséria, persistes.
Tristes notícias vos dou:
caíram espigas da haste,
foi-se o galope do vento
e tu, miséria, ficaste.
Foi-se a noite, foi-se o dia,
fugiu a cor às estrelas:
e, estrela nos campos tristes,
só tu, miséria, nos velas.

 

Se, felizmente, a realidade próxima, raíz deste poema, um certo Portugal até finais dos anos 50, desapareceu, esta miséria extrema de que o poema pungentemente fala, grassas pelo mundo, sobretudo em África, sem que os países desenvolvidos consigam contribuir para uma solução que a extinga.

No entanto, como em toda a poesia intemporal, multiplas são situações em que sentimos em nós o que o poeta refere a concluir o poema:

…

Foi-se a noite, foi-se o dia,
fugiu a cor às estrelas:
e, estrela nos campos tristes,
só tu, miséria, nos velas.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Florian Maiorescu – People IV 2008, de colecção particular.

 

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Camilo e os amigos

16 Quarta-feira Ago 2017

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Aristóteles, Camilo Castelo-Branco, Goya

A amizade é coisa séria, que em tempos de Facebook tanta gente trata com volubilidade, mas é no vai-vem da vida que a sua verdadeira qualidade se vê:

 

Amigos cento e dez, e talvez mais,
Eu já contei. Vaidades que eu sentia!
Pensei que sobre a terra não havia
Mais ditoso mortal entre os mortais.
…
Um dia adoeci profundamente.
Ceguei. Dos cento e dez houve um somente
Que não desfez os laços quase rotos.
…

 

Isto escreveu Camilo Castelo-Branco no soneto que à frente transcrevo.

 

 

Já antes trouxe ao blog uma curta reflexão de Aristóteles (384 a.C.-322a.C.) sobre a amizade, que em parte aqui retomo:

…
Os que têm a amizade com base na utilidade gostam uns dos outros pelo bem que os outros lhes fazem; os que têm uma amizade com base no prazer, gostam uns dos outros pelo próprio prazer que lhes dá.
…

 

Estas formas de amizade são, portanto, meramente acidentais. E são, sobretudo, as formas que frequentemente a amizade reflecte. Há, no entanto, relações de amizade bem mais profundas, sobre as quais Aristóteles reflecte na sua Ética a Nicómaco, as quais frequentemente surgem nos romance com o tempo qualificados de juvenis, e por vezes vemos plasmadas no cinema, ainda que na nossa vida pessoal delas não tenhamos a experiência.

No outro dia, de passagem, referi como em minha opinião Howard Hawks filmou a amizade como ninguém. No anterior artigo com Aristóteles, foram outros os filmes onde de amizade se tratava, o pretexto da reflexão. Hoje é um soneto irónico e amargo de Camilo Castelo-Branco (1825-1890) que reflecte sobre este sentimento precioso.

 

No soneto, a abrir, o poeta embala-se na multidão de amigos que tem, e em como tal facto o faz feliz. Segue-se a evidência de algum cansaço decorrente das exigências de alimentar tal fluxo de amizades (e como isto espelha tanto do comportamento de hoje em relação aos amigos do Facebook, e a quase obrigação de comentar frequentes inanidades). Infelizmente, ao autor aconteceu a tragédia que põe à prova as amizades verdadeiras. E de tantos amigos glorificados, apenas restou um, como o soneto refere em amarga e irónica conclusão.

 

 

Os Meus Amigos

Amigos cento e dez, e talvez mais,
Eu já contei. Vaidades que eu sentia!
Pensei que sobre a terra não havia
Mais ditoso mortal entre os mortais.
 
Amigos cento e dez, tão serviçais,
Tão zelosos das leis da cortesia,
Que eu, já farto de os ver, me escapulia
Às suas curvaturas vertebrais.
 
Um dia adoeci profundamente.
Ceguei. Dos cento e dez houve um somente
Que não desfez os laços quase rotos.

— Que vamos nós (diziam) lá fazer?
Se ele está cego, não nos pode ver…
Que cento e nove impávidos marotos!

 

 

Para o Luis que além do mais, me ajudou a localizar a publicação original do soneto.

 

 

Notícia bibliográfica

 

O soneto, inédito à data da morte de Camilo (1 de Junho de 1890), teve publicação póstuma nesse ano, na Revista Illustrada, (vol I, ano 1890, nº 11 de 15 Setembro, pág. 123).
A revista, quinzenal, iniciou publicação em Abril de 1890.
Informação do Camilianista Henrique Marques, Camilliana, ed. 1894.

 

 

Abre o artigo a imagem de um pormenor da pintura de Goya (1746-1828), A merenda à beira do Manzanares.

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Dois vilancetes e uma sentença de D. Francisco de Portugal

14 Segunda-feira Ago 2017

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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D. Francisco de Portugal, Irmãos Limbourg

Falar de amor e desejo, publicamente, através da poesia, no século XVI, tem as suas exigências de convenção, ainda que, sem grande subtileza espreite o eterno da atracção homem/mulher.
Vem isto a propósito de um vilancete de D. Francisco de Portugal ( 14??-1549), 1º Conde de Vimioso, que a seguir transcrevo. Nele o poeta recusa ousar o desejo que supostamente ofenderia o pudor da amada. A seguir diz-nos o poeta quanto esse desejo o incendeia, pois mesmo quando, por não o satisfazer, chama a morte como remédio, o desejo não parte, e permanece.

 

Vilancete

Meu amor, tanto vos amo,
Que meu desejo não ousa
Desejar nenhuma cousa

Porque se a desejasse
Logo a esperaria
E se a eu esperasse
Sei que vos anojaria.
Mil vezes a morte chamo
E meu desejo não ousa
Desejar-me outra cousa.

 

Agora, é a dor da ausência da amada o que o poeta sofre neste outro vilancete  de elegante versificação:

 

Vilancete

Meu bem sem vos ver
se vivo um dia
viver nam queria.

Caland’e sofrendo
meu mal sem medida,
mil mortes na vida
sinto não vos vendo.
E pois que vivendo
moiro todavia,
viver nam queria.

 

São poemas ao gosto de uma época que, na simplicidade da sua versificação, guardam o eterno do amor na ansiedade do desejo e dor do afastamento.

Termino esta pequena amostra da poesia de D. Francisco de Portugal com uma das suas sentenças rimadas:

 

Sentença

Que grande espanto é cuidar
Como se sustém o mundo.
Quam perto está de pasmar
Quem às cousas vê o fundo.

 

Publicado no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende.

Transcritos de Sentenças de D. Francisco de Portugal, 1º Conde de Vimioso,  seguidas das suas poesias publicadas no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, revistas e prefaciaras por Mendes dos Remédios, Coimbra, França Amado Editor, 1905.

Abre o artigo a imagem de um detalhe de uma iluminura dos Irmãos Limbourg (início sec. XV), Les Trés Riches Heures du Duc du Berry, cena cortês no mês de Abril.

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poetas de lisboa — letra para um fado por Vasco Graça Moura

12 Sábado Ago 2017

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Carlos Botelho, Vasco Graça Moura

Houvera em Portugal um apreço pelo cancioneiro musical popular como nos EUA se preza o denominado American Songbook, e nele um elevado número de fados teria lugar.
Há músicas de fado que têm atravessado gerações, e quando ouvidas uma e outra vez continuam a emocionar-nos, tal como nos nossos dias, muitas criações passam directamente da novidade à condição de clássico intemporal.
A poesia no fado, com as suas exigências particulares de vocalização, tem tido entre poetas maiores do Parnaso português alguns cultores. Outras vezes são os músicos de génio que afeiçoam a um poema especial uma música original. É a alguns desses poetas que Vasco Graça Moura (1942-2014) faz o elogio de memória no poema que a seguir transcrevo.
Cita Vasco Graça Moura: Cesário Verde, Fernando Pessoa, Alexandre O’Neill, David Mourão-Ferreira, Pedro Homem de Mello, José Carlos Ary dos Santos, Luís de Camões, Nicolau Tolentino.  Outros ficaram de fora, pois a escolha é sempre pessoal, mas as palavras que escreveram, cantadas na voz certa, continuam a despontar emoções pelo tempo fora.

 

poetas de lisboa — letra para um fado

é bom lembrar mais vozes pois lisboa
cidade com poético fadário
cabe toda num verso de cesário
e alguma em ironias de pessoa

para cada gaivota há um do o’neill
para cada paixão um do david
e há pedro homem de mello que divide
entre alfama e cabanas seu perfil

e há também o ary e muitos mais
entre eles o camões e o tolentino
ou tomando por fado o seu destino
ou dando de seu riso alguns sinais

muito do que escreveram e se canta
na música de fado que já tinha
o próprio som do verso sem asinha
assim do coração para a garganta

que bom seria tê-los a uma mesa
de café comparando as emoções
e a descobrirem novas relações
entre o seu fado e a língua portuguesa

 

Transcrito de Vasco Graça Moura, Letras do Fado Vulgar, Quetzal Editores, Lisboa, 2001.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Carlos Botelho (1899-1982), Lisboa, de 1969.

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Um sonho num epigrama de Macédonios

10 Quinta-feira Ago 2017

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga, Poesia Grega

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Macedónios, Picasso

Há pouco tempo transcrevi aqui no blog três sonhos descritos por Georg Trakl, mais pesadelos que sonhos memoráveis, dando conta de como os desastres da vida nos alucinam. Hoje viro-me para os prazeres que a vida também traz e dou aos leitores um lamento de Macédonios (c.550) por ver interrompido um sonho deleitoso e digno de memória. O poema, um epigrama, consta do volume V da Antologia Grega.

 

Epigrama

Tinha em meus braços, esta noite em sonho
Uma adolescente travessa e risonha.
Pouco preocupada em contrariar
Meus mínimos desejos, a tudo diz sim.
Mas Eros ciumento, que nos espiava
Cortando-me o sono pôs fim às delícias.
É assim que Amor, mesmo em nossos sonhos
Se mostra invejoso dos nossos prazeres.

 

Adaptação a partir da tradução francesa de Pierre Laurens por Carlos Mendonça Lopes.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Picasso, Dorminhocos, de 1965-7.

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