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Quando a “dor não é de tamanho natural, / é sempre maior que o homem / e no entanto, deve alojar-se no seu coração“, estamos perante tempos muito duros.
Frequentemente, o optimismo que impregna a natureza humana, mesmo com a mais negra realidade, faz emergir a esperança. Não é assim no poema de Vladimir Holan (1905-1980), Mas, que à frente mostro, escrito nos anos negros do pós-WWII na Checoslováquia. Tempo absolutamente sem esperança o que o poeta viveu, afinal, como tudo, também teve o seu fim, embora o poeta não tenha chegado a conhecer a liberdade pós-1989. Liberdade que possuímos hoje na Europa Ocidental, ainda que seja frequentemente ameaçada pelo terror. Mas feito o luto, a vontade de a viver tem sido sempre mais forte. É preciso que assim continue, e que a alegria de viver não seja nunca “uma ténue memória que ecoa em nós.“.

 

 

 

Mas

O deus do canto e do riso há muito
fechou as portas da eternidade atrás de si.
Desde então apenas de vez enquando
uma ténue memória ecoa em nós.
E desde então só a dor
não é de tamanho natural,
é sempre maior que o homem
e no entanto, deve alojar-se no seu coração.

 

Versão de Carlos Mendonça Lopes a partir da tradução inglesa.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Pierre Soulages (1919), The red list, de 1970.

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