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Apenas aos curiosos são concedidas as alegrias do inesperado. Mas cuidado! Como é sabido, a curiosidade pode matar. Era de alguma forma o que estava na essência do romance de Umberto Eco, O Nome da Rosa: folhear o livro proibido envenena o corpo, além da alma.

O romantismo deu-nos uma imagem da idade média que a custo desde a segunda metade do século XX os historiadores têm tentado desmistificar. Uma dessa as imagens teve a ver com a forma como a mulher era olhada e integrada na sociedade: Evas que levavam o homem ao pecado e o condenavam ao inferno pela eternidade.

Na verdade, livros e interditos têm uma história entrelaçada, e no seu exagero lapidar, o soneto de Gonçalves Crespo (1846-1883) que à frente transcrevo, Odor di femina, dá disso mesmo conta. Através de um livro, não do seu texto mas do seu conteúdo, o poema ironiza sobre o fantasma diabólico da mulher, embora sem remeter directamente para a idade média, mas fazendo do protagonista do soneto, um frade, santo homem, e por isso mesmo educado nessa visão da mulher como transmissora de pecado mortal até ao último cabelo.
Simultaneamente, o título do poema remete o conhecedor para uma famosa fala de D. Giovanni no primeiro acto da ópera de Mozart do mesmo nome. E aqui temos, na sua multiplicidade de leituras, a memória do galã sedutor a quem nenhuma mulher escapa, e nada faria morrer a não ser a sua recusa ao arrependimento por matar, sem escrúpulos, alguém que se intrometeu na sua conquista feminil. Mas essa é história que outro dia virá. Agora deixo-vos com o fatal destino do santo frade apanhado na armadilha dos livros.

 

Odor di femina

Era austero e sisudo; não havia
Frade mais exemplar nesse convento;
No seu cavado rosto macilento
Um poema de lágrimas se lia.

Uma vez que na extensa livraria
Folheava o triste um livro pardacento,
Viram-no desmaiar, cair do assento,
Convulso e torvo sobre a lagea fria.

De que morrera o venerando frade?
Em vão busco as origens da verdade,
Ninguém ma disse, explique-a quem puder.

Conste que um bibliófilo comprara
O livro estranho, e que ao abri-lo achara
Uns dourados cabelos de mulher…

 

in Obras Completas, Tavares Cardoso & Irmão Editores, Lisboa, 1897.

 

Nota final

O soneto integra a escolha de Fidelino de Figueiredo, Os Melhores Sonetos da Língua Portuguesa desde Sá de Miranda, ed 1907.

Abre o artigo um fragmento de uma pintura de Hans Baldung (1480-1545), As sete idades da mulher.
Com efeito, nunca saberemos se seria nova, velha, ou de meia idade, a possuidora do cabelo que matou o desprevenido frade. Por outro lado, sabemos que a D. Giovanni, a idade das mulheres, para o interessarem, nunca foi relevante…

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