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Não sou conhecedor da Bíblia e muito menos um seu exegeta. Passeio por lá a espaços como por um livro de sabedoria. Paro muitas vezes no Livro de Rute, a história de uma mulher, ou antes uma história da mulher.

No Livro de Rute conta-se a história de Rute, estrangeira, viúva em terra do marido que morreu. Fez-se à vida, encontrou os homens, encontrou o homem a quem se entregou, e de quem recebeu o que procurava. É essa a história no seu essencial. Sendo embora uma história com valores, o bem e o mal surgem um pouco esbatidos, e quando o questionamento se coloca, são muitas as perguntas embaraçosas para a moral dos nossos dias.

Calo-me agora e deixo-vos com o que aconteceu, numa versão poética da sua parte final :

Agora não se diga mais entre nós “deixa-me”,
e nenhum dos nossos corações se afaste.
Eu irei para onde fores
e da tua morada faço também a minha.
Os teus irmãos e companheiros hoje recebo como meus,
o Deus da tua juventude, eu o amo profundamente.
E quando por fim a morte nos visitar
quero morrer na terra em que morreres
e ser sepultada perto de ti

O Senhor sabe: a vida me tratará com tristes rigores
se outra coisa que não a morte
esconda de meus olhos a graça do teu rosto
tão amado.
Tradução de José Tolentino de Almeida

O de Rute, é um destino de controvérsia há séculos, tal como contado neste livro de exemplos.

A peculiar forma como o casamento aqui é tratado, exigindo piruetas de interpretação para a fazer caber na indissolubilidade dos laços conjugais prosseguido pela igreja católica, não ajudou à sua leitura pacífica nas sociedades que a seguem, como a nossa.

Conta para a peculiaridade do Livro de Rute o exemplo de maternidade protagonizada pela sogra de Rute, Naomi, que a acolhe quando viúva, a aconselha sobre os homens, e mais tarde recebe como de sua família o filho de Rute e do novo marido, Boaz.

Temos em Rute o exemplo de uma Mulher que não se resigna à crueldade do destino, faz-se à vida e encontra de novo o homem com quem seguirá o resto do caminho.

Esta é uma história de integração social depois de ser uma história de integração familiar. A estrangeira, além do mais já “maculada” por um casamento, integra-se num clã onde é respeitada como igual. Como estamos afastados de praticas hindus em que a viúva era condenada a morrer com o marido na pira funerária.

É esta inclusão espelho de igual dignidade entre humanos. O caminho para integrar na nossa vida a dignidade humana tem sido longo, e o mais preocupante é não ser um valor adquirido pela humanidade, essa dignidade. A barbárie, a ganância, espreitam na esquina de qualquer distracção.

Esta simbólica mulher, Rute, tocou a imaginação poética de alguns e aqui vos deixo, primeiro um poema de Gabriela Mistral (1889-1957), no original em espanhol, onde se relata o encontro de Rute no caminho para a sua nova vida.

Ruth

I
Ruth moabita a espigar va a las eras,
aunque no tiene ni un campo mezquino.
Piensa que es Dios dueño de las praderas
y que ella espiga en un predio divino.

El sol caldeo su espalda acuchilla,
baña terrible su dorso inclinado;
arde de fiebre su leve mejilla,
y la fatiga le rinde el costado.

Booz se ha sentado en la parva abundosa.
El trigal es una onda infinita,
desde la sierra hasta donde él reposa,

que la abundancia ha cegado el camino…
Y en la onda de oro la Ruth moabita
viene, espigando, a encontrar su destino.

II
Booz miró a Ruth, y a los recolectores.
Dijo: “Dejad que recoja confiada”…
Y sonriendo los espigadores,
viendo del viejo la absorta Mirada…

Eran sus barbas dos sendas de flores,
su ojo dulzura, reposo el semblante;
su voz pasaba de alcor en alcores,
pero podía dormir a un infante…

Ruth lo miró de la planta a la frente,
y fue sus ojos saciados bajando,
como el que bebe en inmensa corriente…

Al regressar a la aldea, los mozos
que ella encontró la miraron temblando.
Pero en su sueño Booz fue su esposo…

III
Y aquella noche el patriarca en la era
viendo los astros que laten de anhelo,
recordó aquello que a Abraham prometiera
Jeová: más hijos que estrellas dio al cielo.

Y suspiró por su lecho baldío,
rezó llorando, e hizo sitio en la almohada
para la que, como baja el rocío,
hacia él vendría en la noche callada.

Ruth vio en los astros los ojos con llanto
de Booz llamándola, y estremecida,
dejó su lecho, y se fue por el campo…

Dormía el justo, hecho paz e belleza.
Ruth, más callada que espiga vencida,
puso en el pecho de Booz su cabeza.

Segue-se, para terminar, uma das baladas hebraicas de Else Lasker-Schüler (1869-1945) sobre Rute,3, em tradução de João Barrento.

Rute

E tu vens procurar-me às sebes
Oiço o soluçar dos teus passos
E os meus olhos são pesadas gotas escuras.

Na minha alma nascem as flores doces
Do teu olhar e ele enche-se
Quando os meus olhos se exilam para o sono.

Na minha terra,
Junto ao poço está um anjo:
Canta a canção do meu amor,
Canta a canção de Rute.

Estes poemas, ainda que muito belos, não esgotam de forma alguma os quatro capítulos do Livro de Rute, que integra o Antigo Testamento, e é, todo ele, um poema a justificar visita recorrente.

Para os leitores com curiosidade pela leitura do Livro de Rute, sugiro que procurem uma edição da Biblia, em tradução directa do hebraico, em detrimento da versão traduzida a partir da Vulgata Latina, e muito menos uma comentada versão por quaisquer padres da Igreja.

Nota Final

Este artigo foi inicialmente publicado aqui no blog em 23 de Outubro de 2012 e agora trazido outra vez ao encontro de novos leitores,

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