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Houvera em Portugal um apreço pelo cancioneiro musical popular como nos EUA se preza o denominado American Songbook, e nele um elevado número de fados teria lugar.
Há músicas de fado que têm atravessado gerações, e quando ouvidas uma e outra vez continuam a emocionar-nos, tal como nos nossos dias, muitas criações passam directamente da novidade à condição de clássico intemporal.
A poesia no fado, com as suas exigências particulares de vocalização, tem tido entre poetas maiores do Parnaso português alguns cultores. Outras vezes são os músicos de génio que afeiçoam a um poema especial uma música original. É a alguns desses poetas que Vasco Graça Moura (1942-2014) faz o elogio de memória no poema que a seguir transcrevo.
Cita Vasco Graça Moura: Cesário Verde, Fernando Pessoa, Alexandre O’Neill, David Mourão-Ferreira, Pedro Homem de Mello, José Carlos Ary dos Santos, Luís de Camões, Nicolau Tolentino.  Outros ficaram de fora, pois a escolha é sempre pessoal, mas as palavras que escreveram, cantadas na voz certa, continuam a despontar emoções pelo tempo fora.

 

poetas de lisboa — letra para um fado

é bom lembrar mais vozes pois lisboa
cidade com poético fadário
cabe toda num verso de cesário
e alguma em ironias de pessoa

para cada gaivota há um do o’neill
para cada paixão um do david
e há pedro homem de mello que divide
entre alfama e cabanas seu perfil

e há também o ary e muitos mais
entre eles o camões e o tolentino
ou tomando por fado o seu destino
ou dando de seu riso alguns sinais

muito do que escreveram e se canta
na música de fado que já tinha
o próprio som do verso sem asinha
assim do coração para a garganta

que bom seria tê-los a uma mesa
de café comparando as emoções
e a descobrirem novas relações
entre o seu fado e a língua portuguesa

 

Transcrito de Vasco Graça Moura, Letras do Fado Vulgar, Quetzal Editores, Lisboa, 2001.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Carlos Botelho (1899-1982), Lisboa, de 1969.

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