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vicio da poesia

Monthly Archives: Agosto 2017

O namorado e o tempo num poema de Murilo Mendes

08 Terça-feira Ago 2017

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Fernando Botero, Murilo Mendes

Retomo uma vez mais o envelhecimento e o amor, dando conta desta circularidade que envolve a humanidade: amamos novos, a idade avança, e o amor transforma-se, desafiando-nos a uma aprendizagem constante do outro. A vida que o amor viveu é sempre outra quando o amor se vive. Não há repetições nem efeitos miméticos, apenas desafios no aconchegarmos-nos ao outro que agora é, e nos enche a alma.
Isto, sabido com a idade, nunca está presente nos começos de uma relação, quando apenas o esplendor do agora funciona como ignição, e justamente nos vem lembrar Murilo Mendes (1901-1975) no poema O namorado e o tempo.

 

 

 

O namorado e o tempo

 

O namorado contempla
o corpo da namorada
vê o corpo como está,
não vê como o corpo foi
nem com o corpo será.

Se aquele corpo amanhã
mudar de peso, de forma
mudar de ritmo e de cor,
o namorado, infeliz,
vai sofrer mesmo demais:
não calculou o futuro,
a mulher quebrou o encanto,
ele só vê a mulher
no momento em que a vê.

 

 

Trata-se de um poema sobre o óbvio que permanentemente esquecemos: o efémero da aparência física de cada um, e o implícito desejo da sua imutabilidade quando a atracção estética é o motor. Se o amor acontece, o encanto não se perde, apenas se transforma.

 

 

Poema transcrito de 366 poemas que falam de amor, antologia organizada por Vasco Graça Moura, Quetzal editores, Lisboa, 2003.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Fernando Botero (1932).

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Uma décima de António G. S. Malhão

05 Sábado Ago 2017

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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António G. S. Malhão

É certamente uma curiosidade de arqueólogo que me leva a deambular pelos livros de poesia antiga perturbando o merecido esquecimento a que a grande maioria tem direito. Mas uma irrefreável curiosidade sobre estes universos desaparecidos faz-me continuar apesar da extensão de irrelevâncias encontradas.
Enquanto captar a atmosfera de uma época é tarefa de historiador, para um amante de poesia trata-se de procurar a pérola perdida sob a poeira do tempo. É uma pesquisa raramente conseguida, mas o desafio permanece.

 

Hoje apresento aos leitores uma décima de António Gomes da Silveira Malhão (1758-1785) perdida entre os relatos da vida e feitos de seu irmão Francisco.

Trata-se de uma deliciosa galanteria ao rosto de uma donzela, escrita à medida do gosto de finais do século XVIII:

 

 

Décima

Quis um dia a natureza
Fazer uma cousa rara,
E consta que meditara
Mais de uma vez nesta empresa:
Da branca neve à beleza
Juntou do carmim a cor;
Pôs-lhe fogo abrasador,
Tudo o que é belo lhe uniu,
E desta massa saiu
O teu rosto encantador.

 

Transcrito de Vida e Feitos de Francisco Manuel Gomes da Silveira Malhão, Tomo III, Lisboa, 1797.

 

Deste mesmo António G. S. Malhão já antes transcrevi no blog uma original Ode sobre as perfeições da amada.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura a pastel de Rosalba Carriera (1675-1757).

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Três sonhos — ciclo de poemas de Georg Trakl

03 Quinta-feira Ago 2017

Posted by viciodapoesia in Crónicas

≈ 2 comentários

É da vida, realidade que parece pesadelo, incompreensão maior que o sonho, que nos fala este ciclo de três poemas sobre sonhos, escritos por Georg Trakl (1887-1914).

Os sonhos são o nosso quotidiano: no que nos motivam e entusiasmam, quando sonhadores acordados, no que nos perturbam quando no sono nos levam por mundos de incompreensão e estranheza.

…
Como estrela caindo, folha tombando,
Assim me via num vai-vem perdido,
Eternamente esse sonho ecoando —
Mas não sabia entender-lhe o sentido.

 

 

É sem preparação particular que lidamos com os sonhos desde a infância. E se o mundo risonho por vezes os atravessa, outras é o pesadelo do real que nos transtorna e alucina:

 

Da minh’alma nasceram céus de sangue
E púrpura ardendo em sóis gigantes,
Estranhos jardins povoados de brilhos
E delicias letais e sufocantes.
…

 

 

A vivência de experiências dolorosa impregna-nos a alma para lá de qualquer controle racional:

 

Vi cidades pelo fogo consumidas
E o cortejo de horrores pelo tempo fora,
E muitos povos a pó ser reduzidos,
Perder-se tudo no fundo da memória.
…

 

 

Quando a catástrofe é grande, esbate-se a fronteira entre realidade e sonho e acontece vermos:

 

… levantando-se do meio da podridão,
Crescer para novo dia nova vida.

Crescer para novo dia e logo morrer —
A tragédia que o mundo sempre finge
Compreender no acto de a viver,
…

 

 

Reportando-se estes poemas a uma realidade passada, há neles, infelizmente, muito do nosso mundo de hoje. Basta apenas olhar em redor de olhos abertos.

 

 

Três Sonhos

I
Vi-me num sonho de folhas caindo,
De lagos escuros num bosque perdido,
De tristes palavras ecoando —
Mas não sabia entender-lhes o sentido.

Vi-me num sonho de estrelas caindo,
De preces chorosas num olhar ferido,
De um sorriso que vinha ecoando —
Mas não sabia entender-lhe o sentido.

Como estrela caindo, folha tombando,
Assim me via num vai-vem perdido,
Eternamente esse sonho ecoando —
Mas não sabia entender-lhe o sentido.

 

 

II

No escuro espelho da minh’alma
Há imagens de mares nunca sentidos,
Terras tristes de trágicas visões,
Esvaindo-se em azuis indefinidos.

Da minh’alma nasceram céus de sangue
E púrpura ardendo em sóis gigantes,
Estranhos jardins povoados de brilhos
E delicias letais e sufocantes.

E o poço negro que é a minha alma
Gerou imagens de noites tenebrosas,
Animadas por anónimos cantos
E o sopro eterno de forças ominosas.

Treme-me a alma nas trevas da lembrança,
Como se em tudo se revisse enfim —
No insondável mistério de mares e noites
E em fundos cantos sem começo nem fim.

 

 

III

Vi cidades pelo fogo consumidas
E o cortejo de horrores pelo tempo fora,
E muitos povos a pó ser reduzidos,
Perder-se tudo no fundo da memória.

Vi deuses afundar-se em escuridão,
A mais sagrada harpa destruída
E, levantando-se do meio da podridão,
Crescer para novo dia nova vida.

Crescer para novo dia e logo morrer —
A tragédia que o mundo sempre finge
Compreender no acto de a viver,

E cuja dor nocturnal e demente
A doce glória da beleza cinge
Como universo de espinhos sorridente.

 

in Georg Trakl, Outono Transfigurado, ciclos e poemas em prosa, tradução e prefácio de João Barrento, Assírio & Alvim, Lisboa, 1992.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Anselm Kiefer (1945), Ich halte alle Indien in meiner Hand (Tenho todas as Índias na minha mão) de 1995.

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Fragmento de O Melro — poemeto de Guerra Junqueiro

01 Terça-feira Ago 2017

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Guerra Junqueiro

Madrugada cedo, ainda o dia mal desponta, acordo com o chilrear dos melros a entrar pela janela.
É uma alegria contagiosa, aquele chilrear, e por mais de uma vez, já completamente desperto e sem sono, me tenho lembrado do poemeto de Guerra Junqueiro (1859-1923), O Melro. Nele temos uma família de melros a cuidar da sobrevivência e um padre lavrador em guerra com os pássaros. O padre, homem prosaico e sem poesia, era, como o descreve o poeta,

 

… um velhote conservado
Malicioso, alegre, prazenteiro;
Não tinha pombas brancas no telhado,
Nem rosas no canteiro;
Andava às lebres pelo monte, a pé,
      Livre de reumatismos,
Graças a Deus, e graças a Noé.
…

 

que apenas vê dos melros o estrago na horta

…
— Nada, já não tem jeito! este ladrão
      Dá cabo dos trigais!
      Qual seria a razão
Porque Deus fez os melros e os pardais?!
…

 

 

O poemeto, longa digressão sobre valores, dando conta de um hedonismo apaziguador, acrescenta ao encanto da natureza, a serenidade transmitida pela imutabilidade do ciclo solar:

 

…

Vinha tombando a noite silenciosa;
E caía por sobre a natureza
Uma serena paz religiosa,
      Uma bela tristeza
Harmónica, viril, indefinida.
      A luz crepuscular
Infiltra-nos na alma dolorida
Um misticismo heróico e salutar.
As árvores, de luz inda doiradas,
Sobre os montes longínquos, solitários,
Tinham tomado as formas rendilhadas
      Das plantas dos herbários.

…

 

Revela-se ainda o poema uma alegoria sobre o valor da liberdade: Encarcerar a asa / É encarcerar o pensamento humano.

 

O poema foi à época, quando integrado em  A Velhice do Padre Eterno, vigorosa denúncia de atitudes de algum clero, incompatíveis com o sacerdócio que haviam escolhido, e neste poemeto ridicularizado no propósito do padre de fazer pagar aos melros o pecado de Eva:

 

… Andando no quintal um certo dia / … / Enxergou por acaso (que alegria! / Que ditoso momento!) / Um ninho com seis melros escondido / … / E ao vê-los exclamou enfurecido: / — A mãe comeu o fruto proibido; / Esse fruto era a minha sementeira; / … / Era o pão, e era o milho; / Transmitiu-se o pecado. / E, se a mãe não pagou, que pague o filho. / É doutrina da Igreja. Estou vingado!

 

 

Os combates anti-clericais do final da monarquia estão enterrados, mas do poema vale a pena reter a comovente descrição alegórica da perseguição e soçobro dos mais fracos na sua labuta de sobrevivência, bem como o vigoroso hino ao amor maternal na parte final.

 

 

O MELRO
[fragmento]

  O melro, eu conheci-o:
Era negro, vibrante, luzidio,
      Madrugador, jovial;
      Logo de manhã cedo
Começava a soltar d’entre o arvoredo
Verdadeiras risadas de cristal.
E assim que o padre cura abria a porta
      Que dá para o passal,
Repicando umas finas ironias,
      O melro d’entre a horta
      Dizia-lhe: — Bons dias!
      E o velho padre cura
Não gostava daquelas cortesias.
O cura era um velhote conservado
Malicioso, alegre, prazenteiro;
Não tinha pombas brancas no telhado,
Nem rosas no canteiro;
Andava às lebres pelo monte, a pé,
      Livre de reumatismos,
Graças a Deus, e graças a Noé.

 

O melro desprezava os exorcismos
      Que o padre lhe dizia:
Cantava, assobiava alegremente;
      Até que ultimamente
      O velho disse um dia:
— Nada, já não tem jeito! este ladrão
      Dá cabo dos trigais!
      Qual seria a razão
Porque Deus fez os melros e os pardais?!
      E o melro no entretanto,
      Honesto como um santo,
      Mal vinha no oriente
      A madrugada clara
Já ele andava jovial, inquieto,
Comendo alegremente, honradamente,
Todos os parasitas da seara
Desde a formiga ao mais pequeno insecto.
E apesar disto o rude proletário,
      O bom trabalhador,
Nunca exigiu aumento de salário.
Que grande tolo o padre confessor!

 

Foi para a eira o trigo;
      E armando uns espantalhos
      Disse o abade consigo:
— Acabaram-se as penas e os trabalhos.
Mas logo de manhã, maldito espanto!
      O abade, inda na cama,
Ouviu do melro o costumado canto;
      Ficou ardendo em chama;
      Pega na caçadeira
      Levanta-se dum salto,
E vê o melro a assobiar na eira
Em cima do seu velho chapéu alto!
      Chegou a coisa a termo
Que o bom do padre cura andava enfermo,
      Não falava nem ria,
Minado por tão intimo desgosto;
E o vermelho oleoso do seu rosto
Tornava-se amarelo dia a dia.
E foi tal a paixão, a desventura,
(Muito embora o leitor não me acredite)
      Que o bom do padre cura
      Perdera… o apetite!

 

Andando no quintal um certo dia
Lendo em voz alta o Velho Testamento
Enxergou por acaso (que alegria!
      Que ditoso momento!)
Um ninho com seis melros escondido
      Entre uma carvalheira.
E ao vê-los exclamou enfurecido:
— A mãe comeu o fruto proibido;
Esse fruto era a minha sementeira;
      Era o pão, e era o milho;
      Transmitiu-se o pecado.
E, se a mãe não pagou, que pague o filho.
É doutrina da Igreja. Estou vingado!
E engaiolando os pobres passaritos
      Soltava exclamações:
      — É uma praga. Malditos!
Dão-me cabo de tudo estes ladrões!
Raios os partam! andai lá que enfim…
E deixando a gaiola pendurada
Continuou a ler o seu latim
      Fungando uma pitada.

 

Vinha tombando a noite silenciosa;
E caía por sobre a natureza
Uma serena paz religiosa,
      Uma bela tristeza
Harmónica, viril, indefinida.
      A luz crepuscular
Infiltra-nos na alma dolorida
Um misticismo heróico e salutar.
As árvores, de luz inda doiradas,
Sobre os montes longínquos, solitários,
Tinham tomado as formas rendilhadas
      Das plantas dos herbários.
Recolhiam-se a casa os lavradores.
Dormiam virginais as coisas mansas:
      Os rebanhos e as flores,
      As aves e as crianças.
Ia subindo a escada o velho abade;
A sua negra, atlética figura
Destacava na frouxa claridade,
      Como uma nódoa escura.
E introduzindo a chave no portal
      Murmurou entre dentes:
      — Tal e qual… tal e qual!…
Guisados com arroz são excelentes.

 

Nasceu a lua. As folhas dos arbustos
Tinham o brilho meigo, aveludado
Do sorriso dos mártires, dos justos.
Um eflúvio dormente e perfumado
Embebedava as seivas luxuriantes.
Todas as forças vivas da matéria
Murmuravam dialogos gigantes
      Pela amplidão etérea.
São precisos silencios virginais,
Disposições simpáticas, nervosas,
Para ouvir estas falas silenciosas
      Dos mudos vegetais.
As orvalhadas, frescas espessuras
Pressentiam-se quasi a germinar.
Desmaiavam-se as cândidas verduras
Nos magnetismos brancos do luar

 

E nisto o melro foi direito ao ninho.
Para o agasalhar andou buscando
Umas penugens doces como arminho,
Um feltrozito assetinado e brando.
      Chegou lá, e viu tudo.
Partiu como uma frecha; e louco e mudo
Correu por todo o matagal; em vão!
Mas eis que solta de repente um grito
Indo encontrar os filhos na prisão.
— Quem vos meteu aqui?! O mais velhito
Todo tremente, murmurou então:
— Foi aquele homem negro. Quando veio
Chamei, chamei… Andavas tu na horta…
Ai que susto, que susto! Ele é tão feio!…
Tive-lhe tanto medo!… Abre esta porta,
E esconde-nos debaixo da tua asa!
Olha, já vão florindo as açucenas;
Vamos a construir a nossa casa
      Num bonito lugar…
Ai! quem me dera, minha mãe, ter penas
      Para voar, voar!
      E o melro alucinado
      Clamou:
             — Senhor! Senhor!
É por ventura crime ou é pecado
      Que eu tenha muito amor
      A estes inocentes?!
Ó natureza, ó Deus, como consentes
Que me roubem assim os meus filhinhos,
      Os filhos que eu criei!
Quanta dor, quanto amor, quantos carinhos,
      Quanta noite perdida
         Nem eu sei…
      E tudo, tudo em vão!
      Filhos da minha vida!
      Filhos do coração!!…
Não bastaria a natureza inteira,
Não bastaria o céu para voardes,
E prendem-vos assim desta maneira!…
      Covardes!
A luz, a luz, o movimento insano
Eis o aguilhão, a fé que nos abrasa…
Encarcerar a asa
É encarcerar o pensamento humano.
A culpa tive-a eu! quasi à noitinha
      Parti, deixei-os sós…
A culpa tive-a eu, a culpa é minha,
      De mais ninguém!… Que atroz!
      E eu devia sabê-lo!
Eu tinha obrigação de adivinhar…
Remorso eterno! eterno pesadelo!…

 

Falta-me a luz e o ar!… Oh, quem me dera
      Ser abutre ou ser fera
Para partir o cárcere maldito!…
E como a noite é límpida e formosa!
      Nem um ai, nem um grito…
Que noite triste! oh noite silenciosa!…

 

E a natureza fresca, omnipotente,
      Sorria castamente
Com o sorriso alegre dos heróis.
      Nas sebes orvalhadas,
Entre folhas luzentas como espadas,
      Cantavam rouxinóis

 

…
E entre a luz do luar e os sons e as flores,
Na atonia cruel das grandes dores,
      O melro solitário
Jazia inerte, exanime, sereno,
Bem como outrora a mãe do Nazareno
      Na noite do calvário!…
 

O Melro teve inicialmente publicação autónoma, sendo posteriormente integrado no livro A Velhice do Padre Eterno.

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