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É certamente uma curiosidade de arqueólogo que me leva a deambular pelos livros de poesia antiga perturbando o merecido esquecimento a que a grande maioria tem direito. Mas uma irrefreável curiosidade sobre estes universos desaparecidos faz-me continuar apesar da extensão de irrelevâncias encontradas.
Enquanto captar a atmosfera de uma época é tarefa de historiador, para um amante de poesia trata-se de procurar a pérola perdida sob a poeira do tempo. É uma pesquisa raramente conseguida, mas o desafio permanece.

 

Hoje apresento aos leitores uma décima de António Gomes da Silveira Malhão (1758-1785) perdida entre os relatos da vida e feitos de seu irmão Francisco.

Trata-se de uma deliciosa galanteria ao rosto de uma donzela, escrita à medida do gosto de finais do século XVIII:

 

 

Décima

Quis um dia a natureza
Fazer uma cousa rara,
E consta que meditara
Mais de uma vez nesta empresa:
Da branca neve à beleza
Juntou do carmim cor;
Pôs-lhe fogo abrasador,
Tudo o que é belo lhe uniu,
E desta massa saiu
O teu rosto encantador.

 

Transcrito de Vida e Feitos de Francisco Manuel Gomes da Silveira Malhão, Tomo III, Lisboa, 1797.

 

Deste mesmo António G. S. Malhão já antes transcrevi no blog uma original Ode sobre as perfeições da amada.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura a pastel de Rosalba Carriera (1675-1757).

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