Vindo das Mil e Uma Noites

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Continuamos com o inextinguível filão da poesia de amor nas suas diversas facetas.

Vindo dos tempos das Mil e Uma Noites, chegamos pela mão da sábia tradução de Jorge de Sena, a um poema de ABU NOVAS (c.750 – c. 813).

Tendo nascido na Pérsia, ABU NOVAS  viveu longamente em Bagdad na corte do califa Harun Al-Rashid (reinou entre 786 – 809), sendo considerado ainda hoje um dos maiores poetas do seu tempo, se não o maior, e um dos grandes da poesia árabe classica, nas palavras de Jorge de Sena.

A sua poesia dentro do formalismo extremamente calculado da poesia árabe clássica, trouxe uma desenvoltura extraordinária, um tom de anacreontica graciosidade e leveza, que não recua ante o mais licencioso e é o espelho de uma cultura que herdou, como a Europa cristã não, o hedonismo e a desinibição do mundo-greco-latino. É de novo Jorge de Sena quem assim escreve na notável antologia de poesia universal POESIA DE 26 SÉCULOS – De Arquíloco a Nietzche, de onde retirei o poema, e que ficará como um marco na bibliografia portuguesa.

Feitas as apresentações, vamos ao poema.

DEUS SABE QUE NINGUÉM TEM …

Deus sabe que ninguém tem

instrumento igual ao meu:

venham medi-lo e hão-de ver

o tesouro que El’me deu.

Tomai-o – isso! – na mão:

é meu timbre de valor.

Quem o gosto lhe descobre

sucumbe ao terno ardor.

Tão alto como um pilar

(como um pilar não encolhe)

visto ao longe na distância

de qualquer lado que se olhe.

Venham pegar, e apertá-lo

com força na vossa mão.

E  levai-o à vossa tenda,

entre onde os montes estão.

Sêde vós a lá guardá-lo

com vossa mão cuidadosa

Vêde quanto ergue a cabeça

como bandeira orgulhosa!

Nem dareis pela entrada,

tão corajoso ele avança!

Jamais pende como a vela

quando o vento se descansa.

Que el’ seja asa da panela

entre as pernas escondida,

tão vazia desde o fundo

até à borda cingida.

Venham ver a maravilha

que logo se ergue tão pronta!

Tão rara e tão portentosa,

tão rica de bens sem conta!

E vejam como endurece

tão forte e tão magistral:

É coluna dura e longa

de uma força sem igual.

Se quereis pega segura,

ou colher que bem remexa,

outra melhor não tereis

para panelas sem queixa.

Pegai nesta – que ela esteja

na vossa panela ardente,

lá onde só um instrumento

haverá que vos contente!

Nem sonhais – amores – o gosto

que vos dará tal espada,

mesmo em panela de cobre

ou de prata chapeada.


Amar! e Ser Poeta — Florbela Espanca

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Foi  levado pelo sucesso que teve a poesia de Fausto Guedes Teixeira no blog que decidi trazer a poesia de Florbela Espanca.

Confesso que não me comove por aí além a sua poesia.

É no livro “Charneca em Flor”, publicado postumamente, que alguns sonetos me impressionam. Aí escolhi os poemas que aqui deixo.

Na obra de Fausto Guedes Teixeira bebeu a poetisa a influência para a expressão exacerbada do sentimento e do eu, ainda que a própria lute inicialmente com o fantasma de António Nobre.

Há, evidentemente, mais e diferente na obra de Florbela Espanca. Na solaridade e no grito entusiasmado de viver que atravessa Charneca em Flor, ouve-se uma voz própria, inovadora e única, à época, na poesia portuguesa. Talvez por isso, este tenha sido o livro que a poetisa não editou e apenas saiu, com enorme sucesso, diga-se, após o seu suicídio em 1930, aos 36 anos.

Comecemos com o que é ser poeta para Flor Bela (é assim que consta o nome da poetisa na Certidão de Baptismo)

 

SER  POETA

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior

Do que os homens! Morder como quem beija!

É ser mendigo e dar como quem seja

Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

 

É ter de mil desejos o esplendor

E não saber sequer que se deseja!

É ter cá dentro um astro que flameja,

É ter garras e asas de condor!

 

É ter fome, é ter sede de Infinito!

Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…

É condensar o mundo num só grito!

 

E é amar-te, assim, perdidamente…

É seres alma, e sangue, e vida em mim

E dizê-lo cantando a toda a gente!

 

Vemos aqui, provavelmente, a que foi a primeira versão, do mais conhecido soneto da poetisa e que ocupa, por direito próprio, um lugar nas obras-primas da poesia portuguesa, AMAR!

Entre Ser poeta e Amar! quero crer que terá ocorrido o fim de uma paixão, pois se no primeiro soneto temos:

 

E é amar-te, assim, perdidamente…

 

passamos para Amar! e temos:

 

Eu quero amar, amar perdidamente!

 

mudando da reticencia que deixa o destinatário incógnito para a exclamação  sem destinatário, e estendendo a vontade de amar, de amar-te a  toda a gente, o mundo:

 

 

Amar só por amar: Aqui … além … / Mais este e Aquele, o outro e toda a gente … / Amar! Amar! E não amar ninguém!

 

Eis o soneto

 

 

AMAR!

Eu quero amar, amar perdidamente!

Amar só por amar: Aqui … além …

Mais este e Aquele, o outro e toda a gente …

Amar! Amar! E não amar ninguém!

 

Recordar? Esquecer? Indiferente!…

Prender ou desprender? É mal? É bem?

Quem disser que se pode amar alguém

Durante a vida inteira é porque mente!

 

Há uma primavera em cada vida:

É preciso cantá-la assim florida,

Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

 

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada

Que seja a minha noite uma alvorada,

Que me saiba perder … pra me encontrar …

 

Este amar, amar perdidamente não é de forma nenhuma platónico, se não, vejamos neste Passeio ao campo o convite

 

Meu Amor! Meu Amante! Meu amigo! / Colhe a hora que passa, hora divina,

 

e se dúvidas houvesse

 

Bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo!

 

Chega de conversa, aqui vai o poema:

 

PASSEIO AO CAMPO

Meu Amor! Meu Amante! Meu amigo!

Colhe a hora que passa, hora divina,

Bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo!

Sinto-me alegre e forte! Sou menina!

 

Eu tenho, Amor, a cinta esbelta e fina …

Pele doirada de alabastro antigo …

Frágeis mãos de madona florentina …

– Vamos correr e rir por entre o trigo! –

 

Há rendas de gramíneas pelos montes …

Papoilas rubras nos trigais maduros …

Água azulada a cintilar nas fontes …

 

E à volta, Amor … tornemos, nas alfombras

Dos caminhos selvagens e escuros,

Num astro só as nossas duas sombras …

 

Para terminar esta pequena volta pela poesia de Flor Bela,  incluo um poema com carícias junto ao mar.

 

TARDE NO MAR

A tarde é de oiro rútilo: esbraseia.

O horizonte: um cacto purpurino.

E a vaga esbelta que palpita e ondeia,

Com uma frágil graça de menino,

 

Poisa o manto de arminho na areia

E lá vai, e lá segue ao seu destino!

E o sol, nas casa brancas que incendeia,

Desenha mãos sangrentas de assassino!

 

Que linda tarde aberta palpitantes,

Vai deitando do céu molhos de rosas

Que Apolo se entretém a desfolhar …

 

E, sobre mim, em gestos palpitantes,

As tuas mãos morenas, milagrosas,

São as asas do sol, agonizantes …

Um amor hermafrodita no Cancioneiro de Resende

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O poema pretexto para este artigo encontra-se no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende.

Compilação monumental da poesia portuguesa de meados do sec. XV até 1516,  foi organizado ao tempo de D. Manuel por Garcia de Resende.

Possui 880 poemas em grande parte colectivos como era prática na época em que a poesia era uma actividade social.

Acabou-se de empremir o Cancioneiro Geeral, com previlegio do muito alto e muito poderoso rei Dom manuel nosso Senhor. Que nenhua pessoa o possa empremir nem trova que que nele vaa, sob pena de dozentos cruzados e mais perder todolos volumes que fizer. Nem menos o poderam trazer de fora do reino a vender, ahinda que lá fosse feito, sô a mesma pena atras escrita. Foi ordenado e emendado por Garcia de Resende, fidalgo da casa d’El-Rei nosso Senhor e escrivam da fazenda do Principe. Começou-se em Almeirim e acabou-se na muito nobre e sempre leal cidade de Lisboa, per Hermam de Campos, alemam, bombardeiro d’El-Rei nosso Senhor e empremidor, aos XXVIII dias de Setembro da era de Nosso Senhor Jesu Cristo de mil e quinhentos e XVI anos.

O poema trata das intimidades de uma Dama com D. Guiomar sobre a qual surge a suspeita de ser hermafrodita.

Estas intimidades são o motivo da indignação de D. João de Meneses

se vós sois macho. / Se o sois e nam sois dama, / é mui bem que o digais / e tambem deve sua ama / nam querer que vós jaçais / soo com ela em uma cama.

A esta indignação sucede a ironia de Fernão da Silveira, o Moço

Dous gostos podeis levar, / senhora, desta maneira,  / pois sabeis de tudo usar: / ser macho pera Guiomar / e femea pera Nogueira.

Segue-se a justiça draconiana de Dom Rodrigo de Castro

Lancem-vos fora do paço, / ou vos levem a Lisboa / ou vos dêm outra machoa / com que percais o raivaço. / ou vos mandemos capar; / porqu’outra forma nom acho


Continua o poema com a participação de  Dom Pedro da Silva que nos diz como resolve a incógnita sobre se se trata de homem ou mulher

Pera parecer donzela / cousas tendes bem que farte,

mas com mui gentil despacho / vos hei-d’ir arregaçar / e oulhar, / se sois femea ou macho.


Para  Fernam da Silveira, o Regedor não há dúvidas, é masculino o sexo dominante da dama

Com estes tratos d’amor, / com estes beijos maa hora / vos nom ham ja por ser senhora, /

mas por um fino senhor.

E o mesmo termina com as razões da sua certeza

Dona Joana de Sousa, / dizem qu’ee prenhe de vós!

Pelo que só há uma solução

mandai um deles cortar /  ou tapar, / e ficai femea ou macho.


Leiamos então o poema


DE DOM JOAM DE MENESES A

UMA DAMA QUE REFIAVA

E BEIJAVA DONA

GUIOMAR DE

CRASTO


Senhora eu vos nam acho

rezam para rafiar

e beijar tam sem empacho

Dona Guiomar,

salvante se vós sois macho.


Se o sois e nam sois dama,

é mui bem que o digais

e tambem deve sua ama

nam querer que vós jaçais

soo com ela em uma cama.

Confessai-nos que sois macho

ou que folgais de beijar,

que doutra guisa nam acho

rezam de antrepernar

tal dama tam sem empacho.


Ajuda de Fernam da Silveira


Dous gostos podeis levar,

senhora, desta maneira,

pois sabeis de tudo usar:

ser macho pera Guiomar

e femea pera Nogueira.

E por isso nam vos tacho,

antes vos quero louvar;

nos trajos em que vos acho

podereis vós emprenhar

outra molher como macho.


Dom Rodrigo de Castro.


Lancem-vos fora do paço,

ou vos levem a lisboa

ou vos dêm outra machoa

com que percais o raivaço.

Lancem-vos um barbicacho

ou vos mandemos capar;

porqu’outra forma nom acho

pera poder escapar

Dona Guiomar;

pois sáfirma que sois macho.


Dom Pedro da Silva.


Pera parecer donzela

cousas tendes bem que farte,

mas chamardes vós muela

a beiços de dama bela

nam vos vem de boa parte.

D’hoje avante nom me agacho

nem mais hei assi d’andar;

mas com mui gentil despacho

vos hei-d’ir arregaçar

e oulhar,

se sois femea ou macho.


Fernam da Silveira,

o Regedor.


Com estes tratos d’amor,

com estes beijos maa hora

vos nom ham ja por ser senhora,

mas por um fino senhor.

Tambem trazês um recacho

e um som de galear,

que beijais tem sem empacho

Dona Guiomar,

que vos ham todos por macho.


Outra sua e cabo


Uma mui estranha cousa

se ruge caa antre nós

porque laa convosco pousa

Dona Joana de Sousa,

dizem qu’ee prenhe de vós!

Tambem diz cum mochacho

vos foi nam sei quem topar!

Havei eramaa empacho,

mandai um deles cortar

ou tapar,

e ficai femea ou macho.


Tal como na generalidade das composições colectivas do Cancioneiro, podemos assistir neste poema à variedade de pontos de vista sobre o mesmo assunto a à sua diferente expressão poética.

Ao transcrever este poema quis iluminar um tema que não se repete na poesia portuguesa antiga que conheço.


Noticia bibliográfica:

Para o leitor não especializado a leitura é dificil. Necessitaria ser acompanhada por dicionário, o qual é incompativel com esta estrutura de blog.

Usei o texto fixado por Aida Fernanda Dias na edição do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende publicada pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda em 4 volumes em 1993. O poema traz o nº 586 desta edição e vem inserido no seu vol. III.

A nota erudita sobre a poesia do Cancioneiro de Resende não tem aqui lugar pois este é um blog de não-especialista. A bibliografia é vasta e acessivel. Deixo apenas uma pequena nota sobre as dificuldades que enfrenta quem se aventura pelos textos dos especialistas.

Pertence este poema ás Cousas de Folgar do Cancioneiro na classificação do próprio Garcia de Resende. O verbete Cancioneiro Geral incluído no Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa, assinado por M. Vieira Mendes, é um modelo de informação e síntese.

Sobre o autor do poema, D. João de Meneses, o mencionado Dicionário refere apenas um autor com este nome num verbete assinado por C. Almeida Ribeiro, identificando este autor com o Mordomo-Mor de D. João II e de D.Manuel, que terá sido Conde de Tarouca e Grão-prior do Crato.

Por outro lado, Aida F. Dias, editora do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, menciona 2 poetas no Cancioneiro com o nome D. João de Meneses. Identificando um como D. João de Meneses [Tarouca] (será o conde do Dicionário?) e outro como D. João de Meneses [Cantanhede], e faz a atribuição do poema a este último.

Até aqui tudo bem, não fora o Dicionário atribuir ao primeiro a autoria da extensa intervenção na controvérsia Cuidar e Suspirar incluída no início do Cancioneiro, enquanto Aida F. Dias atribui esta intervenção ao segundo.

Para um não especialista é confusão a mais. Fiquemos com o poema.

Floriram os jacarandás – Viagem na poesia de Sophia

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No suave caminhar deste ano de crise chega Junho e de repente o uniforme da paisagem da cidade enche-se de azul.

Numa surpresa encantada exclamamos:

– Floriram os jacarandás!


É a Sophia que vou buscar a emoção mais próxima deste encantamento primaveril:

Como um fruto que se mostra

Aberto pelo meio

A frescura do centro


Assim é a manhã

Dentro da qual eu entro


e daqui outra manhã recordo:


Na manhã recta e branca do terraço

Em vão busquei meu pranto e minha sombra

*

O perfume do oregão habita rente ao muro

Conivente da seda e da serpente

*

No meio da praia o sol dá-me

Pupilas de água mãos de areia pura

*

A luz me liga ao mar como a meu rosto

Nem a linha das águas me divide

*

Mergulho até meu coração de gruta

Rouco de silencio e roxa treva

*

O promontório sagra a claridade

A luz deserta e limpa me reune


levando-me à infância, quando no Algarve havia amendoeiras.

Por final de Janeiro o inverno fazia uma pausa e subitamente as amendoeiras floriam. Eram extensões a perder de vista de encostas floridas em branco e rosa desafiando o azul do céu. Organizavam-se passeios de domingo para ir ver as amendoeiras em flor.

Esta comunhão com a beleza da natureza acompanha-me e


Mergulho no dia como em mar ou seda

Dia passado comigo e com a casa

Perpassa pelo ar um gesto de asa

Apesar de tanta dor e tanta perda


Pois é! A realidade não dá tréguas, A cidade dos outros  / Bate à nossa porta ainda que um desejo de Oasis permaneça:

Penetramos no palmar

A água será clara o leite doce

O calor será leve o linho branco e fresco

O silencio estará nu – o canto

Da flauta será nítido no liso

Da penumbra


Lavaremos nossas mãos de desencontro e poeira

………………………………………………………………….


Escuto mas não sei

Se o que ouço é silêncio

Ou deus



E por quinze dias a cidade ganha uma atmosfera de azul num efémero que faz os dias belos.

Garvaia e um poema talvez esquecido de Alexandre O’Neill

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Na poesia de Alexandre O’Neill, tantas vezes surpreendente e quase sempre genial, encontramos o retrato mordaz que nos define, frequentemente salpicado de uma ternura conivente.

Os exemplos da sua escrita que me apetecia escolher são imensos. No entanto, fiel ao propósito do blog de seguir caminhos menos frequentados, escolhi um poema que não encontrei recolhido nas obras recentemente publicadas com poemas dispersos do Autor, daí o talvez do título.

O poema, Requeixa de Taveirós, inclui-se numa obra colectiva e comemorativa, dedicada à canção medieval Garvaia.

Como refere o editor da obra, Garvaia é nome de manto real e deu nome a um poema. A esta cantiga de amor ou de escárneo se atribuiram diversas autorias e sobre ela se teceram as mais diversas interpretações. Foi-lhe concedida e retirada a honra de ser considerada a primeira poesia portuguesa e há até quem pense estar ela incompleta.

Actualmente atribuida a Pai Soares de Taveirós, eis a canção:

Cantiga da Garvaia

No mundo nom me sei parelha

mentre me for como me vai,

ca ja moiro por vós e ai!

mia senhor branca e vermelha,

queredes que vos retraia

quando vos eu vi em saia.

Mao dia me levantei

que vos entom nom vi fea!


E, mia senhor, des aquelha

me foi a mi mui mal di’ai!

E vós, filha de dom Paai

Moniz, e bem vos semelha

d’aver eu por vós guarvaia,

pois eu, mia senhor, d’alfaia

nunca de vós ouve nem ei

valia d’ua correa.

É tomando como glosa este poema que O’Neill escreveu Requeixa de Taveirós tornando explicito, o que o poema nos conta e transtorna a humanidade desde sempre ou, como escreve o poeta, entreve e entretem / mortos e vivos, com o propósito de possuir vossa carne / e arrastar-vos, empós, / ao tumulto dos sentidos .

Requeixa de Taveirós

Como eu, mais nenhum outro

foi tão crédulo e tão louco

de me confiar em vós,

senhora branca e vermelha.


Franzis-me essa sobrancelha

com altivez e altavoz.

Nem por isso possuís

razão por vós.


Nem de razão é o assunto,

mas de coração, talvez.

Aqui não entra bestunto,

por esta vez.


Dizeis-me, o que eu já sabia,

que é melhor sofrer poesia,

pensando em vós,

que alimentar veleidade

de possuir vossa carne

e arrastar-vos, empós,

ao tumulto dos sentidos

que entreve e entretem

mortos e vivos.


E quem assim desassisa

a Deus pede que o assista.

Rogai por nós!



Noticia bibliográfica

No âmbito das jornadas de História Medieval realizadas em Junho de 1985, A Altamira e a Quetzal-Funchal promoveram a edição luxuosa em 150 exemplares + 50 exemplares fora do mercado, da Cantiga da Garvaia extraída do Cancioneiro da Ajuda e acompanhada por 2 serigrafias de Vespeira e poemas de Alexandre O’Neill, David Mourão-Ferreira, Eugénio de Andrade, Natália Correia, Nuno Júdice, Pedro Tamen, Vasco Graça Moura.

O poema foi retirado do exemplar 19/150.

Lua cheia – um fragmento de Safo em 4 versões

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Numa volta do caminho no regresso a casa  deixo para trás o ruído de luzes e faróis e súbito surge pela frente, plácida, esplendorosa,  a lua, cheia.

Perco a urgência de chegar e de mansinho deslizo por aquele caminho iluminado saboreando o azul cerúleo do céu e a língua de prata sobre o rio. Sonho com passeios mão-na-mão e beijos da amada à beira-mar. É o fragmento 34 de Safo que a memória me trás:

 

Lua Cheia

As estrelas ao redor

da lua bela

longe o brilho escondem

quando,

plena de fulgor,

mais ela

se entorna

cheia

pela terra.

 

Escrito há talvez mais de 2600 anos, mostra bem como o sortilégio perene da  natureza torna homens e mulheres iguais para além do tempo e do espaço.

Esta versão do poema grego é de Pedro Alvim, e foi publicada com outros fragmentos da poetisa pela Editora Vega em 1991.


São várias em português as versões deste poema. Deixo aqui  outras 3 versões de desigual resultado na transmissão da emoção do original grego.


Em redor da formosa

lua, as estrelas

de novo escondem

seu rosto brilhante

quando ela, cheia,

brilha sobre a terra

em todo o seu fulgor.


Versão de Albano Martins publicada em 1986  pela Imprensa Nacional – Casa da Moeda em O essencial de ALCEU E SAFO.


A Lua

As estrelas, em volta da formosa Lua,

de novo ocultam a sua vista esplendente,

quando a Lua cheia brilha mais, argêntea,

sobre toda a terra.


Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira publicada em Hélada – Antologia da Cultura Grega, Edições ASA, 8ªedição 2003.


E agora, talvez a mais bela versão em português deste fragmento. A versão de Frederico Lourenço, publicada por Livros Cotovia em 2006, e incluída na sua antologia Poesia Grega.


A lua

Os astros em torno da bela lua

escondem seu aspecto cintilante

quando na sua plenitude ela ilumina

a terra.


Tendo vivido em Lesbos, ilha grega do mar Egeu, nos finais do século VII a. C., gosto de pensar que uma paisagem como a da fotografia desta crónica terá estado na origem deste belo fragmento.


Da poesia de Safo restam hoje apenas fragmentos, e tal com na escultura grega admiramos a sua beleza mutilada, nesta poesia saboreamos com comoção e embevecimento os restos que nos embalam a imaginação.

E agora José?

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Lembram-se do Zé tornado famoso na televisão? Foi título de um livro de histórias de Cardoso Pires, mas antes foi poema de Carlos Drummond de Andrade.

José

E agora José? / A festa acabou, / a luz apagou / o povo sumiu, / a noite esfriou, / e agora José? / e agora você? / você que é sem nome, / que zomba dos outros, / você que faz versos, / que ama, protesta? / e agora José?

Está sem mulher, / está sem discurso, / está sem carinho, / já não pode beber, / já não pode fumar, / cuspir já não pode, / a noite esfriou, / o dia não veio, / o bonde não veio, / o riso não veio, / não veio a utopia / e tudo acabou / e tudo fugiu / e tudo mufou, / e agora José?

E agora José? / sua doce palavra, / seu instante de febre, / sua gula e jejum, / sua biblioteca, / sua lavra de ouro, / seu terno de vidro, / sua incoerência, / seu ódio – e agora?

Com a chave na mão / quer abrir a porta, / não existe porta; / quer morrer no mar, / mas o mar secou; / quer ir para Minas, / Minas não há mais. /  José, e agora?

Se você gritasse, / se você gemesse, / se você tocasse / a valsa vienense, / se você dormisse, / se você cansasse, / se você morresse… / mas você não morre, / você é duro, José!

Sozinho no escuro / qual bicho-do-mato, / sem teogonia, / sem parede nua / para se encostar, / sem cavalo preto / que fuja a galope, / você marcha, José! / José, para onde?

Carlos Drummond de Andrade dispensa apresentação. É dos raros poetas brasileiros cuja obra tem sido regularmente editada em Portugal.

Senhor de uma inspiração singular, estilista maior da língua portuguesa, no aparente nada do dia-a-dia encontra a inspiração para nos fazer ver a beleza em que constantemente tropeçamos sem reparar:


Foi no Rio.

Eu passava na Avenida quase meia-noite.

Bicos de seios batiam nos bicos de luz estrelas inumeráveis.

Havia a promessa do mar

e bondes tilintavam,

Havia a promessa do mar –   que verso lindo.


Ou aquele outro Poema de sete faces

O bonde passa cheio de pernas:

pernas brancas pretas amarelas.

Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.

Porém meus olhos não perguntam nada.


Sigo por esta poesia com a Confidência do Itabirano

A vontade de amar, que me paraliza o trabalho,

vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.

E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,

é doce herança itabirana.

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.

Hoje sou funcionário público

Itabira é apenas uma fotografia na parede.

Mas como dói!


E termino por agora com os versos de abertura do poema A mesa, gigantesco quadro da vida na sua beleza e contradições.


E não gostavas da festa…

Ó velho, que festa grande

hoje te faria a gente.

A bunda, que engraçada — poema de Carlos Drummond de Andrade

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Há imagens indeléveis que nos acompanham e no inesperado de um momento assaltam a memória.

Subia eu as escadas do metro e à minha frente flutuava, levitava, tornava-se imponderável no seu andar dançante, uma negra de ancas opulentas, lá vai sorrindo a bunda pensei.

Num flash voltou-me a imagem daquele filme absoluto sobre a adolescência – Amarcord – quando Gradiska, escultura de curvas em movimentos, quais esferas harmoniosas sobre o caos, surgia e desaparecia entre montes de neve onde o vermelho rompia o branco imaculado.

Não contente ainda, deixei rolar a memória cinéfila até Quanto mais Quente Melhor e revi Marilyn no autocarro da orquestra a caminhar de costas ao longo do corredor, fazendo soar todas as trombetas do desejo na caricia de ser e balançar.

Como o poeta tem razão!

 

A bunda, que engraçada.

Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

 

Não lhe importa o que vai

pela frente do corpo. A bunda basta-se.

Existe algo mais? Talvez os seios.

Ora – murmura a bunda – esses garotos

ainda lhes falta muito estudar.

 

A bunda são duas luas gemeas

em rotundo meneio. Anda por si

na cadência mimosa, no milagre

de ser duas em uma, plenamente.

 

A bunda se diverte

por conta própria. E ama.

Na cama agita-se. Montanhas

avolumam-se, descem. Ondas batendo

numa praia infinita.

 

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz

na caricia de ser e balançar.

Esferas harmoniosas sobre o caos.

 

A bunda é a bunda,

redunda.

 

Notícia Bibliográfica:

O poema é de Carlos Drummond de Andrade e encontrei-o num livro em tempos oferecido por uma amiga querida – Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século. Foi editado em 2001 pela Editora Objectiva do Rio de Janeiro.

 

Gravidez acidental num poema de Sidónio Muralha

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Integrada que está no quadro social português, a interrupção voluntária da gravidez, dificilmente nos apercebemos hoje, e apenas quem o viveu saberá, quais eram os caminhos para interromper uma gravidez não desejada.

O tema é raro na poesia portuguesa. No poema Romance regista-se com pudor, e num lirismo admirável, uma gravidez acidental e o aborto forçado pelas conveniências sociais.

Romance

Depois daquela noite os teus seios incharam;

as tuas ancas alargaram-se;

e os teus parente admiraram-se

e falaram, falaram…


Porque falaram duma coisa tão bela,

tão simples, tão natural?

Tu não parias uma estrela,

nem uma noite de vendaval…


Mas tudo terminou porque falaram.

Tu fraquejaste e tudo terminou.

– Os teus seios desincharam;

só a tristeza ficou.


Ficou a tristeza duma coisa tão bela,

tão simples, tão natural…


– Tu não parias uma estrela,

nem uma noite de vendaval…

Noticia bibliográfica:

O poema Romance é de Sidónio Muralha, poeta para mim menor, no que dele conheço, mas com algumas fulgurações, e foi publicado em 1942 no livro “Passagem de Nível”.


Esta crise é uma grande crise!… e poemas de Manuel Alegre

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Passou o 25 de Abril, passou o 1º de Maio, passou o Dia da Mãe, temos o Papa à porta e o silencio no blog permaneceu. Devo uma explicação aos fiéis e desconhecidos leitores que perseverantemente voltaram ao blog de forma insistente neste longo período.

O que inicialmente foi uma brincadeira com constipação até à metafísica cresceu bem para lá de qualquer faculdade de julgar levando-me a febre ao delírio onde acabei por me perder em conjecturas e refutações, para afinal concluir que é à medida que a vida corre que percebemos como ela é uma busca inacabada.

Aqui chegados instala-se a dúvida, já nem metódica, mas sistemática, e acabamos por tomar decisões apenas com a certeza do incerto.

Como se compreende, com tamanha barafunda, a poesia, que é sobretudo matéria do sonho, ficou sem espaço enquanto circulei por este país da lógica, apesar de a certa altura um poeta ter anunciado, sem poesia, como resolver a crise. Tenho para mim que a crise não se vence com poetas nem sobretudo com poesia, porque a poesia não vence nada, a não ser o desanimo, devolvendo ás vezes o gosto de estar vivo.

Mas esta crise é uma grande crise, toda a gente o diz! Têm certamente razão. Muita gente a dizer a mesma coisa transforma qualquer fantasia em convicção profunda. Não fora assim e não haveria religiões. Mas a religião da crise é outra. É a do dinheirinho. Dinheirinho para cá, dinheirinho para lá, dinheirinho que não há. E afinal a poesia mete-se nela na forma de um poeta-candidato com a palavra certa no estrondo da voz.

PRESENÇAS

Eles estão por dentro. Nas

palavras

e nos actos.


Nas cadeiras

nas gavetas

nos cabides e nos fatos.


Quando menos se espera

fogem

dos retratos.


Tem cuidado quando te calças

eles podem esconder-se

nos sapatos.


Na sopa e na maçã

quem sabe se

no vinho.


Vê bem por onde vais

eles gostam das curvas

do caminho.


Na cama onde te deitas

nas camisas

e nas meias


no lençol com que te enxugas

no remédio que tomas para

desentupir as veias


no garfo sobre a mesa

nos copos

e nos pratos


eles estão por dentro e estão por fora.

Podes crer que nunca ficam

nos retratos.


O BURACO DA AGULHA

Vou de camelo pelo buraco de uma agulha

vou de camelo e não encontro o reino.


A porta é estreita mas os ricos

estão a comprar passagem e estão a entrar.


Vou de camelo pela oferta e a procura

e há quem pense que o céu também tem preço.


Tens de vir outra vez para dizer

que não pode servir-se a dois senhores.


Vou de camelo pela porta estreita

vou de camelo e não consigo entrar.


Tens de vir outra vez que os fariseus

não nos deixam passar não nos deixam passar.


UM PERFUME DE NARDO

Em verdade te digo: Não

espero a eternidade. E sei

que nenhum verso vence a morte.


Procuro apenas um sinal

um ritmo que me restitua

a imperceptivel respiração da terra.


Talvez os cabelos de Maria

irmã de Marta

a enxugar-me os pés.


Porque todos os poemas são mortais

e o que fica é talvez

um perfume de nardo. E nada mais.

Seguimos nesta escolha, primeiro, a visão poética da percepção do incompreensível na realidade, seguida de um apelo à justiça de Deus e terminando com a interrogação do poeta sobre o seu lugar no mundo.

Ficaria a selecção incompleta sem o tema central das escolhas deste blog – o amor e o corpo.

NÃO SEI DE AMOR SENÃO

Não sei de amor senão o amor perdido

o amor que só se tem de nunca o ter

procuro em cada corpo o nunca tido

e é esse que não pára de doer.

Não sei de amor senão o amor ferido

de tanto te encontrar e te perder.


Não sei de amor senão o não ter tido

teu corpo que não cesso de perder

nem de outro modo sei se tem sentido

este amor que só vive de não ter

o teu corpo que é meu porque perdido

não sei de amor senão esse doer.


Não sei de amor senão esse perder

teu corpo tão sem ti e nunca tido

para sempre só meu de nunca o ter

teu corpo que me doi no corpo ferido

onde não deixou nunca de doer

não sei de amor senão o amor perdido.


Não sei de amor senão o sem sentido

deste amor que não morre por morrer

o teu corpo tão nu nunca despido

o teu corpo tão vivo de o perder

neste amor que só é de não ter sido

não sei de amor senão esse não ter.


Não sei de amor senão o não haver

amor que dure mais que o nunca tido.

Há um corpo que não pára de doer

só esse é que não morre de tão perdido

só esse é sempre meu de nunca o ser

não sei de amor senão o amor ferido.


Não sei de amor senão o tempo ido

em que o amor era amor de puro arder

tudo passa mas não o não ter tido

o teu corpo de ser e de não ser

só esse é meu por nunca ter ardido

não sei de maor senão esse perder.


Cintilante na noite um corpo ferido

só nele de o não ter tido eu hei-de arder

não sei de amor senão amor perdido.

Noticia bibliográfica: Os poemas, de Manuel Alegre, poeta-candidato, pertencem à 1ªedição do LIVRO DO PORTUGUÊS ERRANTE publicado em Fevereiro de 2001 por Publicações Dom quixote, Lda.