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O poema pretexto para este artigo encontra-se no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende.

Compilação monumental da poesia portuguesa de meados do sec. XV até 1516,  foi organizado ao tempo de D. Manuel por Garcia de Resende.

Possui 880 poemas em grande parte colectivos como era prática na época em que a poesia era uma actividade social.

Acabou-se de empremir o Cancioneiro Geeral, com previlegio do muito alto e muito poderoso rei Dom manuel nosso Senhor. Que nenhua pessoa o possa empremir nem trova que que nele vaa, sob pena de dozentos cruzados e mais perder todolos volumes que fizer. Nem menos o poderam trazer de fora do reino a vender, ahinda que lá fosse feito, sô a mesma pena atras escrita. Foi ordenado e emendado por Garcia de Resende, fidalgo da casa d’El-Rei nosso Senhor e escrivam da fazenda do Principe. Começou-se em Almeirim e acabou-se na muito nobre e sempre leal cidade de Lisboa, per Hermam de Campos, alemam, bombardeiro d’El-Rei nosso Senhor e empremidor, aos XXVIII dias de Setembro da era de Nosso Senhor Jesu Cristo de mil e quinhentos e XVI anos.

O poema trata das intimidades de uma Dama com D. Guiomar sobre a qual surge a suspeita de ser hermafrodita.

Estas intimidades são o motivo da indignação de D. João de Meneses

se vós sois macho. / Se o sois e nam sois dama, / é mui bem que o digais / e tambem deve sua ama / nam querer que vós jaçais / soo com ela em uma cama.

A esta indignação sucede a ironia de Fernão da Silveira, o Moço

Dous gostos podeis levar, / senhora, desta maneira,  / pois sabeis de tudo usar: / ser macho pera Guiomar / e femea pera Nogueira.

Segue-se a justiça draconiana de Dom Rodrigo de Castro

Lancem-vos fora do paço, / ou vos levem a Lisboa / ou vos dêm outra machoa / com que percais o raivaço. / ou vos mandemos capar; / porqu’outra forma nom acho


Continua o poema com a participação de  Dom Pedro da Silva que nos diz como resolve a incógnita sobre se se trata de homem ou mulher

Pera parecer donzela / cousas tendes bem que farte,

mas com mui gentil despacho / vos hei-d’ir arregaçar / e oulhar, / se sois femea ou macho.


Para  Fernam da Silveira, o Regedor não há dúvidas, é masculino o sexo dominante da dama

Com estes tratos d’amor, / com estes beijos maa hora / vos nom ham ja por ser senhora, /

mas por um fino senhor.

E o mesmo termina com as razões da sua certeza

Dona Joana de Sousa, / dizem qu’ee prenhe de vós!

Pelo que só há uma solução

mandai um deles cortar /  ou tapar, / e ficai femea ou macho.


Leiamos então o poema


DE DOM JOAM DE MENESES A

UMA DAMA QUE REFIAVA

E BEIJAVA DONA

GUIOMAR DE

CRASTO


Senhora eu vos nam acho

rezam para rafiar

e beijar tam sem empacho

Dona Guiomar,

salvante se vós sois macho.


Se o sois e nam sois dama,

é mui bem que o digais

e tambem deve sua ama

nam querer que vós jaçais

soo com ela em uma cama.

Confessai-nos que sois macho

ou que folgais de beijar,

que doutra guisa nam acho

rezam de antrepernar

tal dama tam sem empacho.


Ajuda de Fernam da Silveira


Dous gostos podeis levar,

senhora, desta maneira,

pois sabeis de tudo usar:

ser macho pera Guiomar

e femea pera Nogueira.

E por isso nam vos tacho,

antes vos quero louvar;

nos trajos em que vos acho

podereis vós emprenhar

outra molher como macho.


Dom Rodrigo de Castro.


Lancem-vos fora do paço,

ou vos levem a lisboa

ou vos dêm outra machoa

com que percais o raivaço.

Lancem-vos um barbicacho

ou vos mandemos capar;

porqu’outra forma nom acho

pera poder escapar

Dona Guiomar;

pois sáfirma que sois macho.


Dom Pedro da Silva.


Pera parecer donzela

cousas tendes bem que farte,

mas chamardes vós muela

a beiços de dama bela

nam vos vem de boa parte.

D’hoje avante nom me agacho

nem mais hei assi d’andar;

mas com mui gentil despacho

vos hei-d’ir arregaçar

e oulhar,

se sois femea ou macho.


Fernam da Silveira,

o Regedor.


Com estes tratos d’amor,

com estes beijos maa hora

vos nom ham ja por ser senhora,

mas por um fino senhor.

Tambem trazês um recacho

e um som de galear,

que beijais tem sem empacho

Dona Guiomar,

que vos ham todos por macho.


Outra sua e cabo


Uma mui estranha cousa

se ruge caa antre nós

porque laa convosco pousa

Dona Joana de Sousa,

dizem qu’ee prenhe de vós!

Tambem diz cum mochacho

vos foi nam sei quem topar!

Havei eramaa empacho,

mandai um deles cortar

ou tapar,

e ficai femea ou macho.


Tal como na generalidade das composições colectivas do Cancioneiro, podemos assistir neste poema à variedade de pontos de vista sobre o mesmo assunto a à sua diferente expressão poética.

Ao transcrever este poema quis iluminar um tema que não se repete na poesia portuguesa antiga que conheço.


Noticia bibliográfica:

Para o leitor não especializado a leitura é dificil. Necessitaria ser acompanhada por dicionário, o qual é incompativel com esta estrutura de blog.

Usei o texto fixado por Aida Fernanda Dias na edição do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende publicada pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda em 4 volumes em 1993. O poema traz o nº 586 desta edição e vem inserido no seu vol. III.

A nota erudita sobre a poesia do Cancioneiro de Resende não tem aqui lugar pois este é um blog de não-especialista. A bibliografia é vasta e acessivel. Deixo apenas uma pequena nota sobre as dificuldades que enfrenta quem se aventura pelos textos dos especialistas.

Pertence este poema ás Cousas de Folgar do Cancioneiro na classificação do próprio Garcia de Resende. O verbete Cancioneiro Geral incluído no Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa, assinado por M. Vieira Mendes, é um modelo de informação e síntese.

Sobre o autor do poema, D. João de Meneses, o mencionado Dicionário refere apenas um autor com este nome num verbete assinado por C. Almeida Ribeiro, identificando este autor com o Mordomo-Mor de D. João II e de D.Manuel, que terá sido Conde de Tarouca e Grão-prior do Crato.

Por outro lado, Aida F. Dias, editora do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, menciona 2 poetas no Cancioneiro com o nome D. João de Meneses. Identificando um como D. João de Meneses [Tarouca] (será o conde do Dicionário?) e outro como D. João de Meneses [Cantanhede], e faz a atribuição do poema a este último.

Até aqui tudo bem, não fora o Dicionário atribuir ao primeiro a autoria da extensa intervenção na controvérsia Cuidar e Suspirar incluída no início do Cancioneiro, enquanto Aida F. Dias atribui esta intervenção ao segundo.

Para um não especialista é confusão a mais. Fiquemos com o poema.

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