Visita a Gonçalves Crespo

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Se alguém levado pela curiosidade de um nome de rua quiser conhecer a poesia de Gonçalves Crespo, encontrará as maiores dificuldades.

Ao que julgo saber, a última edição em Portugal das  suas OBRAS COMPLETAS foi feita em 1913, há quase cem anos, portanto. E no entanto, no seu tempo, muitas das suas poesias foram conhecidas de cor nos salões de Portugal. Como por exemplo aquela   A SESTA em que uma crioula repousa na rede enquanto o negro que a embala a come com os olhos.

Lido o poema em voz alta, a suave dolência do quadro e o embalar da cena saltam do andamento dos versos numa simbiose perfeita.

Ora experimente:

A  SESTA

Na rede, que um negro moroso balança,

Qual berço de espumas,

Formosa crioula repousa e dormita,

Enquanto a mucamba nos ares agita

Um leque de plumas

 

Na rede perpassam as trémulas sombra

Dos altos bambus;

E dorme a crioula de manso embalada,

Pendidos os braços da rede nevada

Mimosos e nus.

 

A rede, que os ares em torno perfuma

De vivos aromas,

De súbito pára, que o negro indolente

Espreita lascivo da bela dormente

As túmidas pomas.

 

Na rede suspensa dos ramos erguidos

Suspira e sorri

A lânguida moça cercada de flores;

Aos guinchos dá saltos na esteira de cores

Felpudo saguí.

 

Na rede, por vezes, agita-se a bela,

Talvez murmurando

Em sonhos as trovas cadentes, saudosas,

Que triste colono por noites formosas

Descanta chorando.

 

A rede nos ares de novo flutua,

E a bela a sonhar!

Ao longo nos bosques escuros, cerrados,

De negros cativos os cantos magoados

Soluçam no ar.

 

Na rede olorosa, silêncio! Deixai-a

Dormir em descanso!…

Escravo balança-lhe a rede serena;

Mestiça, tem leque de plumas acena

De manso, de manso…

 

O vento que passa tranquilo, de leve,

Nas folhas do ingá;

As aves que abafem seu canto sentido;

As rodas do engenho não façam ruído,

Que dorme a Sinhá!

Este ambiente de sanzala, recordação da infância no Brasil, não é temática exclusiva da sua poesia, mas é destas memórias que saem alguns dos seus mais belos poemas, como nesteoutro poema, AS VELHAS NEGRAS, onde, num registo diferente, realçando a paz da noite envolvente da sanzala,

Na floresta rumorosa / Esparge a lua formosa / A clara luz tropical.

nos fala do lazer magoado dos negros cativos:

Que noite de paz! que noite! / Não se ouve o estalar do acoite, / Nem as pragas do feitor! / E as pobres negras, coitadas, / Pendem as frontes cansadas N’um letárgico torpor!

Na elegância que a caracteriza, fazendo fluir o verso com natural suavidade, somos levados para aquele mundo de contrastes violentos entre senhores e escravos, apenas com uma palavra aqui outra acolá, pintando um quadro onde as velha negras meditam a vida:

Conheceram muito dono: / Embalaram tanto sono / De tanta sinhá gentil! / Foram mucambas amadas, / E agora inuteis, curvadas, / N’uma velhice imbecil!

Eis o poema:

 

AS VELHAS NEGRAS

 

As velhas negras, coitadas,

Ao longe estavam sentadas

Do batuque folgazão.

Pulam creoulas faceiras

Em derredor das fogueiras

E das pipas de alcatrão.

 

Na floresta rumorosa

Esparge a lua formosa

A clara luz tropical.

Tremeluzem pirilampos

No verde escuro dos campos

E nos côncavos do val.

 

Que noite de paz! que noite!

Não se ouve o estalar do acoite,

Nem as pragas do feitor!

E as pobres negras, coitadas,

Pendem as frontes cansadas

N’um letárgico torpor!

 

E cismam: outrora, e d’antes

Havia também descantes,

E o tempo era tam feliz!

Ai! que profunda saudade

Da vida, da mocidade

Nas matas do seu país!

 

E ante o seu olhar vazio

De esperanças, frio, frio

Como um véu de viuvez,

Ressurge e chora o passado

– Pobre ninho abandonado

Que a neve alagou, desfez…

 

E pensam nos seus amores

Efémeros como as flores

Que o sol queima no sertão…

Os filhos quando crescidos,

Foram levados, vendidos,

E ninguém sabe onde estão.

 

Conheceram muito dono:

Embalaram tanto sono

De tanta sinhá gentil!

Foram mucambas amadas,

E agora inuteis, curvadas,

N’uma velhice imbecil!

 

No entanto o luar de prata

Envolve a colina e a mata

E os cafezais em redor!

E os negros mostrando os dentes,

Saltam lépidos, contentes,

No batuque estrugidor.

 

No espaçoso e amplo terreiro

A filha do fazendeiro,

A sinhá sentimental,

Ouve um primo recém-vindo,

Que lhe narra o poema infindo

Das noites de Portugal.

 

E ela avista, entre sorrisos,

De uns longínquos paraísos

A tentadora visão…

No entanto as velhas, coitadas,

Cismam ao longe sentadas

Do batuque folgazão…

 

É de Teixeira de Queiroz, companheiro de uma vida, desde estudante em Coimbra até à véspera da morte, que me socorro para transmitir um retrato do poeta, senhor de um riso de bondade e de uma ironia travessa e inofensiva:

No seu quarto de estudo[em Coimbra]… entrava todo o mundo e todo o mundo era bem acolhido. A força de simpatia que este excelente rapaz resumia era um tesouro. Os neófitos da literatura procuravam-no animosamente sem o conhecerem, e em poucos minutos de conversação, quase se transformavam em íntimos amigos do poeta. Este traço vivo do seu carácter, conservou-o toda a vida, mesmo quando já era um nome laureado. Muitas vezes, no seu gabinete da Travessa de Santa Catarina, em Lisboa, encontrei indivíduos totalmente desconhecidos, que o Crespo me apresentava como notáveis poetas, romancistas e dramaturgos e que, afinal de contas, eram somente apreciáveis cavalheiros do Rio Grande do Sul, de Macau, ou do Alentejo, os quais ele conhecera pela primeira vez nesse dia, o que não obstava a tratarem-se reciprocamente como companheiros de colégio.

(in Prólogo de Teixeira de Queiroz à 3ª edição de MINIATURAS em 1884, publicada após a morte do poeta. Este é o retrato fascinante de uma personalidade, escrito num português cuja elegância o excerto evidencia)

e continuo a citar:

O segredo do seu proverbial poder de atracção compunha-se de elementos bem diversos. Alguns vinham do seu talento de poeta, outros da sua ciência de conversar, outros finalmente da sua distinção pessoal. Combinava-os a todos instintivamente… A voz insinuante, o olhar vivo de míope, tendo doçuras e lampejos, iluminava-lhe a palavra persuasiva; os dentes brancos, iguais como os dum pente de marfim, sobressaiam na cor escura do seu rosto, dando a esta fisionomia singular uma expressão que rarissimamente se encontra. Crespo não tinha nada da vulgaridade dos homens formosos, nem mesmo do ridículo dos homens bem parecidos; porém todas as pessoas que se aproximavam dele confessavam que era um rosto atraente e de uma mobilidade cativante.

Crioulo, nascido no Rio de Janeiro de pai português, aos 10 (14?) anos veio para Portugal, que adoptou como Pátria e onde foi deputado (legislaturas de 1879 e 1882). Licenciado em Direito em Coimbra em 1875, onde estudou e foi condiscípulo de João Penha e Guerra Junqueiro, entre outras personalidade de menor memória, casou com Maria Amália Vaz de Carvalho, influente personalidade da época, e ao Brasil nunca mais voltou.

Como refere Maria Amália Vaz de Carvalho, foi o livro MINIATURAS que a levou ao casamento, ou nas suas palavras “Pareceu-me que era um poeta como aquele, que eu positivamente tinha esperado havia muito, e que ele chegara;”.

É em Maria Amália Vaz de Carvalho que encontro uma caracterização penetrante da poesia de Gonçalves Crespo, referindo-se a essa poesia como parnasiana a qual junta: “a suavidade, a melodia, a correcção do metro, ao sentimento profundo, à compreensão clara,… da alma contemporânea”.

Possa a escolha poética que fiz traduzir a verdade destas considerações.

Vamos então a mais poesia.

Depois das recordações tropicais aproximemo-nos desta poesia de salão com as várias sínteses do amor vivido em sociedade, e contado com a suavidade apanágio do autor:

 

UM NUMERO DO INTERMEZZO

 

Ria, tomando chá em torno à mesa,

Da sociedade a flor;

E no campo de estéticas opostas

Discutia-se o amor.

 

“O amor deve ser etéreo e puro,!

O conselheiro diz.

Sorrindo, a conselheira um ai! abafa

Com gestos de infeliz.

 

Diz i cónego: “ O amor destrói, mas quando

Sensual, já se vê!”

A donzela pergunta ingenuamente:

“Reverendo, porquê?”

 

A condessa murmura em voz dolente:

“O amor é uma paixão”

E lânguida uma chávena oferece

Ao pálido barão.

 

Era vago um lugar em torno à mesa;

Era o teu, minha flor!

Tu, só tu, poderias, se o quisesses,

Dizer o que era amor!

 

Num contrate surpreendente com este suave amor de salão, aí vai o desejo solitário da paixão de uma negra por um branco no poema A NEGRA:

Nas esteiras, à noite, o teu corpo estiras / E com ânsias sem fim, / Levas aos seios nus, beijas e aspiras / Um cândido jasmim…

É uma força primordial que rompe neste retrato de mulher em desejo onde o poeta vê não apenas a fêmea: Teu corpo é forte, elástico, nervoso, mas também o ser humano apaixonado: Mas andas triste, inquieta e distraída / .. E no escuro das matas, escondida, / Soltas magoados ais…

 

A  NEGRA

Teus olhos, ó robusta creatura,

Ó filha tropical!

Relembram os pavores de uma escura

Floresta tropical!

 

És negra sim, mas que formosos dentes,

Que pérolas sem par

Eu vejo e admiro em rubidos crescentes

Se te escuto falar!

 

Teu corpo é forte, elástico, nervoso,

Que doce a ondulação

Do teu andar, que lembra o andar gracioso

Das onças do sertão!

 

As lânguidas sinhás, gentis, mimosas,

Desprezam tua cor,

Mas invejam-te as formas gloriosas

E o olhar provocador.

 

Mas andas triste, inquieta e distraída;

Foges dos cafezais

E no escuro das matas, escondida,

Soltas magoados ais…

 

Nas esteiras, à noite, o teu corpo estiras

E com ânsias sem fim,

Levas aos seios nus, beijas e aspiras

Um candido jasmim…

 

Amas a lua que embranqueou os matos,

Ó negra jurity!

A flor da laranjeira, e os níveos catos

E tens horror de ti!…

 

Amas tudo o que lembre o branco, o rosto

Que viste por teu mal,

Um dia que saías, ao sol posto,

De um verde taquaral…

Vai longo o artigo. Haveria mais alguns poemas a merecer inclusão como Alguém e outros. Termino com este soneto à lacrimosa estátua da amargura, provavelmente a mãe, de quem se despediu uma vez, para não voltar a ver.

Poema de despedida, na praia de todos os adeus o esplendor da natureza indiferente mostra Dos céus a curva tranquila e pura.

 

MATER DOLOROSA

Quando se fez ao largo a nave escura

Na praia essa mulher ficou chorando,

No doloroso aspecto figurando

A lacrimosa estátua da amargura.

 

Dos céus a curva era tranquila e pura:

Das gementes alciones o bando

Via-se ao longe, em círculos voando

Dos mares sobre a cérula (*) planura.

 

Nas ondas se atufara o sol radiosos,

E a lua sucedera, astro mavioso,

De alvor banhando os alcantis das fragas…

 

E aquela pobre mãe, não dando conta

Que o sol morrera, e que o luar desponta,

A vista embebe na amplidão das vagas…

(*) azul

 

Noticia e minudências bibliográficas:

São dois os livros publicados em vida por Gonçalves Crespo: Miniaturas, ainda solteiro e no tempo de Coimbra, em 1870, e Nocturnos, já casado com Maria Amália Vaz de Carvalho.

A edição das OBRAS COMPLETAS, preparada pela viúva, saiu em Lisboa, em 1897, com alguns poemas inéditos e textos em prosa. A edição foi de TAVARES CARDOSO & IRMÃO – EDITORES.

À margem comento que, como vem sendo costume, asneira que surja na net em site que deveria ter responsabilidade, propaga-se como cogumelos depois da chuva. É consultar o Google e ver por todo o lado a data de edição das OBRAS COMPLETAS ser 1887. Acontece que o volume que possuo tem lá escrito 1897. Onde foi esta gente buscar a data de 1887?

Mas voltemos à obra do poeta.

Existem noticias de colaboração dispersa por jornais através de artigos de comentário, nomeadamente. A ajuizar pela prosa incluída em OBRAS COMPLETAS, onde a graça se associa à elegância do estilo e à penetração da observação, valeria certamente a pena a sua leitura.

Os juízos sobra a obra do poeta que circulam pelas diferentes histórias da literatura e dicionários que consultei lêem-se uns aos outros sem visitar a obra do poeta. Entretidos com a conversa de Parnasianismo, segmentam e tresleem sem ter lido.

Porque citam sem ler, nos artigos sobre o poeta, que a edição das OBRAS COMPLETAS saída em 1897 é prefaciada por Teixeira de Queiroz e Maria Amália Vaz de Carvalho, tanto Urbano Tavares Rodrigues no DICIONÁRIO DE LITERATURA dirigido por Jacinto do Prado Coelho, Figueirinhas 1983, como A. S. Fernandes Viegas no DICIONÁRIO DO ROMANTISMO LITERÁRIO PORTUGUÊS coordenado por Helena Carvalhão Buescu, Caminho 1997, como Etelvina Santos no DICIONÁRIO DE LITERATURA PORTUGUESA dirigido por Álvaro Manuel Machado, Editorial Presença 1996, aproveito para precisar que as “OBRAS COMPLETAS” são “precedidas de uma advertência prévia” [sic] por JOSÉ DE SOUSA MONTEIRO, segue-se-lhe o Prólogo de Teixeira de Queiroz que acompanhou a 3ªedição de MINIATURAS em 1884 e no final de MINIATURAS encontra-se  um ESTUDO CRÍTICO  de Maria Amália Vaz de Carvalho, escrito depois da morte do poeta, por volta de 1887 e que a mesma editou previamente no seu livro “Alguns Homens do Meu Tempo” em1889.

Todos os artigos  destes dicionários referem 1871 como data da 1ªedição de Miniaturas. Não tive oportunidade de consultar um exemplar dessa edição, pelo que não posso confirmar esta data, sendo que M.A. Vaz de Carvalho no citado ESTUDO CRÍTICO  refere 1870 como data desta 1ªedição, tal como Mendes dos Remédios na sua História da Literatura Portuguesa. Este último acrescenta que a melhor edição de MINIATURAS é a 6ª de 1923, sem adiantar qualquer motivo. É edição que não conheço e não vi mencionada por mais ninguém.

Todos os artigos que referi citam Gonçalves Crespo e António Feijó como os únicos representantes em Portugal do Parnasianismo, movimento poético que floresceu em França no 3º quartel do século XIX. Talvez seja verdade, e estes poetas sejam seus lídimos representantes no Portugal de oitocentos. Quem sou eu para duvidar. Lida a obra tanto de um como de outro, obras que prezo especialmente, encontro lá mais que seguimento de escola  E fora apenas esse o caso, a obra tanto de um como do outro bem merecia uma edição crítica e uma nova leitura informada e despreconceituada que a trouxesse para junto de novos leitores, eventualmente agradecidos. Neste blog, o artigo sobre António Feijó teve picos de leitura à data da sua publicação.

Filha ou não de qualquer escola francesa, é uma poesia a que vale a pena voltar uma vez por outra.

Num bairro poético — A Musa em Férias e Guerra Junqueiro

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A profissão levou-me a um bairro poético. Moradias isoladas repousavam entre o silencio de pinheiros centenários dando aos seus moradores a tranquilidade de ruas com nomes de livros de poesia.

São livros que hoje ninguém lê – Campo de Flores – Folhas Soltas – Luar de JaneiroA Musa em Férias e mais alguns.

Na diversidade dos seus autores são livros onde se espraia um olhar nostálgico pela natureza saída da criação divina, e onde a presença do homem tantas vezes entra em conflito com essa harmonia primordial.

Releio alguns poemas de A Musa em Férias onde esse contraste ressalta.

É um Guerra Junqueiro (1850 – 1923), nos antípodas do combatente politico pela dignidade humana cantada em longo e sonoros alexandrinos, quem, embalado em quadras singelas numa toada musical da palavra, cruza a ironia cáustica do feroz crítico social com um encanto deslumbrado da natureza.

IDÍLIO

Ah, que inefável pureza! / Que candura imaculada!…

Dir-se-ia que a Natureza / Nasceu esta madrugada!…

 

A primavera opulenta, / Estremecendo d’amores,

Palpita, anseia, rebenta / Em cataclismos de flores.

 

Os velhos sátiros nus / Correm atrás das bacantes…

A cor, o perfume e a luz / Dão saturnais deslumbrantes.

 

O olhar d’oiro das boninas / Contempla o azul; ao vê-las,

Dir-se-ia que nas campinas / Cairam chuvas de estrelas.

 

Uns feitos para a batalha, / Com a guerra por destino,

Puseram cotas de malha / De aço e bronze e d’oiro fino.

 

Outros, artistas mimosos, / Vestem librés refulgentes

Dos veludos mais preciosos / Das rendas mais transparentes.

 

Não sei que orgia incorpórea / Embebeda o pensamento…

A natureza é a glória; / O azul, um deslumbramento.

 

Tudo ri e brilha e canta / Neste divino esplendor:

O orvalho, o néctar da planta, / O aroma, a lingua da flor.

 

Enroscam-se aos troncos nus / As verdes cobras da hera.

Radiosos vinhos de luz / Cintilam pela atmosfera.

 

Entre os loureiros das matas, / Que crescem para os heróis,

Dá o luar serenatas / Com bandas de rouxinóis.

 

É a terra um paraíso. / E o céu profundo lampeja

Com o inefável sorriso / Da noiva – ao sair da igreja.

 

E o homem – verme do asfalto, / Que traz deus na consciencia,

O homem que está no alto / Da montanha da existência,

 

Que faz entre as harmonias / Deste esplendoroso assombro?

– Vai ouvir as cotovias, / Levando a espingarda ao ombro.

 

Funcionando como um corte vital, esta visita às fontes é uma recusa deliberada das práticas poéticas anteriores, talvez reflexos dum cansaço temporário da luta – Eu venho cheio de mágoa, / Venho triste, ó meus amores, / Como uma fonte sem água, / Como uma jarra sem flores.onde uma componente biográfica certamente explica a mutação. Os poemas não são datados, pelo que os conflitos e a luta interior que conduziram o poeta a aderir ao Partido Progressista no ano da publicação deste livro não são neles escrutináveis. Fica-nos este louvor panteísta que continua:

CONVALESCENÇA

Ó verde bosque tranquilo, / O Natureza ridente,

Venho pedir-te um asilo, / Um quarto para um doente.

 

Chego morto de cansaço, / Triste como um lord inglês;

Pôs-me o Terreiro do Paço / No estado em que tu me vez.

 

O meu espirito anda / Como nem tu imaginas…

Lisboa, é verdade, manda / Recados para as boninas.

 

Eu venho cheio de mágoa, / Venho triste, ó meus amores,

Como uma fonte sem água, / Como uma jarra sem flores.

 

Esta frescura remoça / As anemias do asfalto.

Olha um melro a fazer troça, / Brejeiro, ao meu chapéu alto!

 

A floresta não precisa / As etiquetas das valsas:

As ninfas não têm camisa, / E os faunos não usam calças.

 

Silenos gordos e calvos, / A rir com um riso estranho

Espreitam os corpos alvos / Das loiras ninfas no banho.

 

Um deles, que traz muletas, / E a quem já falta um chavelho,

Segreda coisas facetas / Que têm pimentão vermelho.

 

Os faunos adolescentes, / Ouvindo pilhérias tais,

Abraçam-se, que indecentes!, / Aos troncos dos salgueirais!…

 

E um loiro silenozinho, / Guloso de bons segredos,

Dilata o róseo focinho, / A rir e a morder nos dedos…

 

Rosas, lírios, mocidade, / Abri-vos, cantai agora!

Dê salvas de hilaridade / O rubro canhão da aurora!,

 

Que além vem graciosa e nua / Vénus! Que esplendido seio!

São dois requeijões de Lua / Com dois morangos no meio!…

 

***

 

Deixemos por um instante / As coisas graves e sérias;

Declaro-me um estudante / Com quinze dias de férias.

 

Ando dispéptico, exangue, / Para as veias esfalfadas

Quero a transfusão do sangue / Ridente das madrugadas.

 

Despindo a guerreira farda, / A farda dos generais,

Licenceio a velha guarde / Das minhas odes marciais.

 

Doidas estrofes leoninas, / Amazonas impetuosas,

Carregai-me essas clavinas / De aurora e botões de rosas.

 

Carnificinas, deixá-las. / Hoje as hostes inimigas,

Em vez de as matar com balas / Picá-las-ei com ortigas.

 

Vamos! Riam, contem casos / Alegres, bons, maganões;

E dos elmos façam vasos / Para pôr manjericões.

 

Deixem os ultramontanos / Nas suas negras roupetas;

Depois de caçar tiranos / Vamos caçar borboletas.

 

Toca a fazer um idílio / À sombra dum castanheiro

Desçam dos corcéis; Virgílio / Que os vá deitar ao lameiro.

 

Pendurem as velhas lanças / Nos troncos dos salgueirais,

E riam como as crianças, / Ou como os melros joviais.

 

Entre os aromas dos buxos / Eu quero que os meus soldados,

Em vez de morder cartuchos, / Mordam pêssegos doirados.

 

Encravem-me em dois minutos / Esses canhões assassinos

De bombardear os redutos / Com bombas de alexandrinos.

 

E enfim largando as espadas, / Com toda a fúria guerreira

Levem-me entre gargalhadas, / D’assalto – uma cerejeira!

Embora querendo-se isolado e gozando Deste esplendoroso assombro, a cidade não o deixa e, implacável de ironia, lá vai esta resposta:

SEGUNDA CARTA

(A UM AMIGO QUE CONTINUA A PEDIR-ME VERSOS)

Não peças mais versos, não! / Não faças com que eu me zangue;

A teta da inspiração / Ordenho-a— e já bota sangue.

Deixa-me estar sossegado; / Eu a luta abandonei-a;

Tive baixa de soldado / E vim viver para a aldeia.

Levo a existência pacata / Dos grandes bonacheirões;

E arrumei a um canto a lata / Com que eu fabrico os trovões.

Pedes-me estrófes purpúreas! / Que coisa me pedes tu!

Guardei na gaveta as fúrias, / E os raios no meu baú.

Falo aos burgueses das tendas, / Cumprimento a vizinhança,

E arranjo às vezes merendas / Nos bosques, com Sancho Pança.

Meninas sérias, esguias, / Dizem-me já com amor:

– Doutor, como vai? Bons dias! / Tem feito versos, Doutor? –

Entrando eu não sei onde / Disse um banqueiro opulento:

– “Li nos jornais, senhor conde, / Que este rapaz tem talento”. –

E um discreto conselheiro / Murmurou do seu lugar:

“Quem é?” – É o Guerra Junqueiro. –  / “Ah! Sim… já ouvi falar.” –

A minha vida é a mesma / Que teve, dormindo ao sol,

Diógenes – essa lesma / Na pipa – esse caracol.

Deito-me às ave-marias / Co’a consciencia regalada,

E tiro todos os dias / O meu chapéu à alvorada.

E enfim nas ervas do prado, / Nas tenras ervas felizes

Rolo o corpo ensanguentado, / Coberto de cicatrizes.

E, farto de ver abrolhos, / E de ter desassossegos,

Deixo pastar os meus olhos / No azul – como dois borregos.

É possivel que isto mude; / Sim é possivel talvez:

O génio é irmão da saúde, / Eu tenho saúde há um mês.

Andar num trabalho eterno / Quebra o corpo mais viril;

Sai do descanso do inverno / Todo o murmúrio d’ Abril

Até Hércules descansa: / Além anda neste instante

A rir como uma criança / Na encosta, esse bom gigante.

Olha: deitou-se ao comprido / Nas frescas ervas mimosas.

Junto dele anda Cupido / Contando histórias às rosas.

E enquanto o gigante dorme / Entre as roseiras vermelhas,

E vêm ao seu corpo enorme / Poisar sem medo as abelhas,

Na clave grosseira e bruta / Que a tronco enorme equivale,

Cupido co’a mão astuta, / Sorrindo escreveu – Onfale.

E, apesar da inscrição terna, / Co’a mesma clave no entanto,

Matará a hidra de Lerna / E o javali de Erimanto.

Precisa depois do Outono / Repouso a terra mais forte.

Eu creio que este meu sono / Não é ainda o da morte.

Dormir faz bem às canseiras / Dos grandes trabalhadores;

Quem é que viu amendoeiras / Sempre cobertas de flores?

Além vai o Deus romântico, / Já murchos os seus lauréis,

À grande pia do Atlântico / Dar de beber aos corcéis.

Pobres corcéis! Vão de rastros, / Retalhados pelo açoite,

Comer a aveia dos astros / Nas manjedoiras da noite.

Mas amanhã romperão / De novo do sorvedoiro,

Iluminando a amplidão / No azul – com as crinas de oiro!

Haveria mais, haveria sobretudo outra poesia para saborear. Fica para outra oportunidade.

Noticia Bibliográfica:

Obra de um moço de 29 anos, A Musa em Férias foi publicado em 1ªedição em 1879, ano que viu também a publicação de O Melro, obra-prima da poesia portuguesa e poemeto simultâneamente anti-clerical, de enorme dimensão humana e com nítida inspiração panteísta, a qual, de forma menos eloquente, perpassa nas poesias aqui deixadas. A Musa em Férias é um livro onde falta a unidade temática comum às restantes obras do poeta, o que o título evidencia. Em 1893 a obra conheceu uma 3ª edição corrigida e aumentada de 5 novos poemas.

Na transcrição utilizámos a edição da Lello & Irmão com actualização ortográfica.

Poeta do Panteão Nacional, a sua obra aguarda ainda a edição crítica que expurgue das edições em circulação, as gralhas tipográficas que muitas vezes maculam a irrepreensível metrificação de Junqueiro.

Mimnermo – O que é a vida? O que é o prazer, sem a dourada Afrodite?

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O que é a vida? O que é o prazer, sem a dourada Afrodite?

 

– espinafres, sopa de espinafres…

– os espinafres fazem muito bem …

– e o ovo, comprei ovos…

– para pessoas que trabalham…

– e quatro iogurtes…

– não sei como conseguem…

– e leite vigor…

– com filhos e tudo…

– há ali ao lado do talho…

– sempre a correr…

– comprei dois…

– a gente vê-os e não percebe que…

– oitenta e cinco cêntimos…

– talvez seja do tempo…

– o rapaz do talho…

– tenho vindo ao supermercado…

– e os pães de leite…

– encontrei-a e não consigo saber…

–  para o jantar…

– foi baratíssimo, e água…

– é uma pena que se enerve…

– pois vamos na segunda e não…

– isto prolonga-se até…

– se calhar é um bom passeio…

– mas vão arranjar os pés a uma senhora…

– espero que o tempo ajude…

– e ficou sem pinga de sangue…

– ela gostava muito…

– eu respeito muito aquela ideia…

– mas como a filha casou…

– não podem votar mulheres…

– então ela virou-se e disse…

– só pode ir a festas com o marido…

– e fez operação a uma vista…

– esteve dois anos desempregado, dois anos…

– e seis meses depois fez outra…

– mas a gasolina está…

– não, ele quis ir-se embora e arranjou casa…

– pensei que mostrava a arrecadação…

– ela fez o que pôde…

– pago quase 20 contos, quase 100 euros…

– o filho disse-lhe “não tens dinheiro para…

– dantes, quando não estava…

– há pessoas que são assim, eu não sei…

– quando ele disse “agora que já…

– é muito diferente…

– ela, concerteza estava a gozar…

– desde que aquele meu primo…

– comecei a andar sempre sozinha…

– e ressonava que era um horror…

– havia a minha irmã, que já faleceu…

– ele sabia que não podia…

– ela dizia-me assim…

– uma pessoa voltando a ver…

– quase que não acreditava…

– mas ela, só que…

– não tem força, está desfeita…

– então não sei muito bem como é…

– e quis que lá ficasse no quarto…

– é como a Maria do Rosário…

– assobiava que sei lá…

– hoje acordei cedo…

– ouvi tocar o telefone…

– para Algés vou só…

– de maneira que me levantei e fui…

– comprei, até foi em Espanha…

– de tal maneira que é impossível…

– e ela disse hoje que sim…

– quarta-feira a oito dias…

– então até amanhã.

– Até amanhã. Ainda bem que conversámos, fiquei tão aliviada!

Assim áspera foi a velhice que o deus impôs.

 

A este quadro de mesa de café junto a reflexão de Mimnermo, poeta grego do sec VII a. C. Na forma de elegia:

 

O que é a vida? O que é o prazer, sem a dourada Afrodite?

Que eu morra, quando estas coisas já não me interessarem:

o amor secreto, as suaves ofertas e a cama,

que são flores da juventude sedutoras

para homens e mulheres. Mas quando chega a dolorosa

velhice, que faz até do homem belo um homem repulsivo,

tristes preocupações sempre lhe moem os pensamentos

e já não sente prazer em contemplar a luz do sol,

mas é odiado pelos rapazes e desonrado pelas mulheres.

Assim áspera foi a velhice que o deus impôs.

 

 

A tradução é de Frederico Lourenço e vem na preciosa antologia POESIA GREGA  de Álcman a Teócrito, publicada por livros Cotovia em 2006.

Trabalhos e Dias

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É urbana a minha memória dos cheiros da terra. São, nos mercados as bancas da hortaliça se por acaso entre elas despontam ervas aromáticas: coentro, salsa, hortelã; que me devolvem aquela espécie de segurança despreocupada apanágio da infância.

Quando, chegado Outubro, acontecia a feira anual de sementes, frutos secos e gado, bujigangas e figurinhas de barro para o presépio à mistura,  em grandes sacos de serrapilheira lá estavam –  peros: vermelhos, raiados, verdes, bravo d’esmolfe; e então, era a alegria num odor inebriante, talvez perdido para sempre.

É em vão que da prateleira do supermercado levo para casa bolinhas verdes a que chamam peros bravo d’esmolfe, pois aberto o saco, cheiro não há, e o sabor é vago a qualquer coisa indistinta.

Na volta do fim da tarde passei à porta da preciosa charcutaria de bairro e havia, em caixotes, cheirosos, peros bravo d’esmolfe. Entrei e comprei. As tâmaras da Tunísia e Israel, os figos da Turquia, nada disso ainda chegou, mas já há as frutas em açucar da abençoada fábrica Convento da Serra, de Elvas. Se até há uns anos eram as ameixas deles a minha perdição, desde que apareceram figos, não resisto. Com a minha paixão por figos em qualquer estádio, frescos, secos, com açucar, cristalizados, recheados  ou em doces os mais diversos, quase me sinto perto dos deuses do Olimpo de quem se diz alimentarem-se a figos e mel.

Na verdade é uma paixão vinda da mais tenra infância. Voltava eu da escola de aprender a ler, mal feitos os três anos, e ao passar em casa da bisavó corria para as algibeiras daqueles saiões rodados onde sempre havia figos secos e torrados. Mais tarde, era o caixote de madeira providenciado anualmente pelo meu avô para o inverno, cheio de figos arrumados às camadas separadas por pauzinhos de funcho, a fonte das delicias. Interrompia brincadeiras para amiúde ir buscar 1 ou 2 figos e o caixote com custo ultrapassava o Natal.

Como algures aqui escrevi, sou decididamente uma criatura do mediterrãneo. Neste folhear de memórias ocorre-me o prazer com que descobri o mercado das Ramblas em Barcelona, espectáculo único para os sentidos de qualquer gourmet, ou os passeios há 30 anos pelos mercados de rua nas cidades italianas, de Veneza a Nápoles, hoje praticamente inexistentes por milagre da nossa senhora da união.

O acaso das leituras cruzadas destes últimos dias conduziu-me ao mediterrâneo. Leio Orlando Ribeiro numa viagem fascinada pela paisagem, gentes e cultura. De um fôlego li a última história de mestre Camileri deambulada na Sicilia, e demoradamente caminho na edição de José Ribeiro Ferreira de Trabalhos e Dias de Hesíodo.

Na documentação que acompanha a tradução de Trabalhos e Dias encontro o esquema do arado descrito por Hesíodo e usado há mais de 2600 anos na Grécia. Na página seguinte do livro aparece o esquema do arado usado em pleno século XX na freguesia onde nasci e cresci em tudo semelhante ao arado grego da antiguidade.

Estas continuidades devolvem-me um sentido único de pertença a um mundo do qual gosto de guardar e transmitir a herança.

É Outubro, é mês de lavoura, tempo da passagem do grou pela Grécia vindo dos países nórdicos a caminho de África para aí hibernar e nos Trabalhos e Dias Hesíodo recomenda para esta altura:


Presta atenção, quando escutares o grito do grou,             448

no alto, entre nuvens, ele que seu lamento, ano a ano, repete:

dá-te o sinal do trabalho de lavra, a estação do inverno                   450

te anuncia, pluviosa, e punge o coração do que não tem bois.

Então engorda os bois de chifres recurvos, em casa.

Pois é fácil dizer: “empresta-me a junta de bois e o carro”;

mas fácil é também recusar: “ já há trabalho para os meus bois”.

O homem rico fala, em espírito, em construir um carro;                   455

louco, nem sequer sabe que cem são as peças desse carro,

as quais deve ele, primeiro, ter o cuidado de reunir em casa.

Logo que brilha para os mortais o tempo da lavoura,

aprestai-vos então em conjunto, escravos e tu próprio,

a arar a terra, seca ou húmida em cada estação da lavoura,           460

esforçando-te desde manhã, para que os campos produzam.


 


Talvez nesta eterna viagem algum dos grou de Hesíodo tenha transportado Nils Holgerssons na sua viagem maravilhosa.

Uma vez por outra sabe bem voltar à infância.

 

Noticia bibliográfica:

O fragmento transcrito do poema Trabalhos e Dias, de Hesíodo, foi retirado da edição conjunta de Teogonia e Trabalhos e Dias de Hesíodo, publicada pela Imprensa Nacional – Casa da Moeda em 2005 na colecção Biblioteca de Autores Clássicos e da responsabilidade de Ana Elias Pinheiro – Teogonia , e José Ribeiro Ferreira – Trabalhos e Dias.

 

As canções de Bilitis

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Continuo com a biblioteca em grande parte encaixotada, o que cria as maiores dificuldades em alimentar esta conversa que nos entretém.

Regressado de férias, uma rotura na tubagem de água quente obrigou-me a empacotar à pressa os livros.

Passadas as obras e seus percalços, rearrumar os livros é tarefa de remontar bicicleta depois de desmanchada, sobram sempre peças, ou seja, sobram livros, ou o espaço encolheu.

Empurrados que estavam em várias camadas, tantas vezes arrumados por tamanhos para preencher qualquer espaço vazio, agora, ao retirá-los das caixas deu-me a veleidade de os dispor com critério e acessíveis. Consequência: a menos de metade das caixas esvaziadas tenho as estantes cheias e olho com impotência para as pilhas das que continuam fechadas cada vez que uma dúvida ou a verificação de um detalhe relacionado com o que queria escrever me faz ir à procura de um livro e deparo com aquele branco em colunas do chão ao tecto. A coisa não tem fim fácil à vista, e para alimentar o meu gozo de escrever para o blog e satisfazer a curiosidade dos visitantes, estreito o leque de ideias ao tamanho da informação acessível.

Hoje bem gostaria de envolver As Canções de Bilitis sobre que tenciono debruçar-me, com considerações a propósito de outras obras eróticas de Pierre Louys publicadas em português, mas não me posso fiar na memória para questões factuais, e os livros encontram-se prisioneiros das caixas brancas. Seria uma edição francesa ilustrada de Afrodite e uma recente tradução portuguesa da obra, seria o Manual de Civilidade para Meninas ilustrado de forma saborosa e original por Pedro Proença, seriam dois outros textos eróticos publicados pela Teorema há um ror de anos, de que não me recordo do título em português e eventualmente algum outro que agora à memória não me ocorre.

Temos, pois, que Les Chansons de Bilitis (1894) foram agora publicadas na integra pela Relógio D’Água em edição bilingue com tradução de Maria Gabriela Llansol, e o peregrino título de O Sexo de Ler de Bilitis.

Qual lésbica que timidamente se desnuda, no prefácio a tradutora pretende ensinar-nos a ler o que vem a seguir. No entanto parece ser dela que nos fala e de como o sexo a perturba “mas houve sempre outras – um rosto de que apenas se vê um olhar a olhar-nos no rectrovisor da sua beleza, dedos que seguram uma alça deslizante e que, a deslizar, desnudaria um seio firme de garça inocente, o estádio final das formas opulentas, outrora tão frágeis que nos vergavam ao seu desejo” nesta deliberadamente hermética prefação com que faz acompanhar a sua excelente tradução.

Apresentados lado a lado o poema original à esquerda e a respectiva tradução à direita, podemos acompanhar e saborear as soluções encontradas e fruir, no enlevo de uma noite, o sabor do sexo de ler.

Começamos por acompanhar Bilitis e encontramos o seu retrato no poema XXXVIII

BILITIS

Uma mulher veste-se de lã branca. Outra

veste-se de seda e ouro. Uma outra cobre-se

de flores, de folhas verdes e de cachos d’uva.


Eu só sei viver nua. Meu amante, toma-me como sou:

sem roupas, jóias ou sandálias. Eis a tua Bilitis toda,

desmunida e só.


Meus cabelos são negros de seu negro, e meus lábios

carmins de seu carmim. Meus caracóis flutuam

à volta de mim, livres e redondos como penas.


Toma-me tal como minha mãe me fez, numa noite

de amor longínqua. E se te agradar como sou,

não te esqueças de mo dizer.



Na criança e adolescente que lemos crescer desde o inicio, encontramos mais tarde a presença do desejo naquele poema XLIV  A NOITE

... Aurora que despontas, ó nefasta claridade, já estás aí?

Em que covil eternamente nocturno, em que prado subterrâneo,

nos poderemos amar sem fim e perder, enfim,

a memória de que existe lá fora?


Também aqui amar é … perder a memória de que existe lá fora.

Três destes poemas foram musicados por Debussy e são uma obra-prima do reportório clássico. No entanto raramente se ouvem em concerto, o que não é difícil de perceber.

Imagine-se a austeridade de um piano de cauda num palco despojado, uma senhora vestida de gala em pé frente ao piano perante uma plateia as mais das vezes snob e empertigada, a certa altura cantar … entrares em mim como o meu sonho.

Não é qualquer cantora que se atreve, conhecido que é o contexto do desejo manifestado. Daí que quem gosta destas canções fique remetido ao disco onde, diga-se, as interpretação também não abundam.

Levado pela leitura dos poemas fui-me às prateleiras dos discos à procura das canções, sempre uma pequeníssima parte dos programas gravados. Sabia que a minha adorada Cathy Berberian tinha a coragem de incluir nos seus recitais, a maior parte das vezes, estas canções, e na verdade encontrei-as num recital de 1975 e noutro de 1980. Ambos quase sem alterações interpretativas a menos da voz um pouco gasta em 1980. Em pouco mais de 8 minutos são emoção pura concentrada, de resto como tudo o que esta fabulosa voz cantava.

Musa da Beat Genetration e da Pop Art nova-iorquina de finais dos anos 60, foi campeã das vanguardas musicais da época, tanto na musica nova como na musica antiga que então se redescobria com novas e “autenticas” práticas interpretativas, e onde deu voz às heroinas de Monteverdi, então quase desconhecidas e hoje tão familiares.

Ouvi-lhe a voz pela primeira vez na rádio a cantar uma Sequenza de Berio, com quem foi casada, suponho, e que lhe foi dedicada. Tenho hoje ainda presente a estupefacção da minha reacção ao passar ao lado do rádio, ouvir, e ficar parado, de pé, enquanto durou. Regressei aos seus discos agora com o encanto maravilhado de outrora.

Mas voltemos a Bilitis.

Os acontecimentos sucedem-se à medida que avançamos no livro  Pouco depois do desejo manifestado acima, temos um encontro de conselhos no poema L:


OS CONSELHOS

Então Syllikmas entrou e, vendo-nos tão à vontade,

sentou-se num banco. Sentou Glótis num dos seus joelhos,

e Kisé, no outro. Disse:


“Chega aqui, pequena.” Mas eu, se longe estava, longe fiquei.

Ela insistiu: “tens medo de nós? Aproxima-te:

estas duas adoram-te. Ensinar-te-ão o que ignoras.

o mel das caricias de uma mulher.


O homem é violento e preguiçoso.

Não é coisa que ignores, certamente. Odeia-o.

Tem o peito achatado, a pele áspera, os cabelos rapados,

os braços peludos. As mulheres, pelo contrário,

são belas dos pés à cabeça.


Só as mulheres sabem amar. Fica connosco,

Bilitis, não te vás embora. E, se tiveres uma alma intensa,

verás, como num espelho, tua beleza projectada

no corpo das que te amarem”.


A aprendizagem da vida pelo sexo prossegue até ao Último epitáfio (poema CLVIII), eu suspendo aqui o passeio.

P.S. Os poemas postos em musica por Debussy foram os nºs XXX, XXXI e XLVI.

Dá o desejo poesia – O Japão no feminino

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Atrai-me e confunde-me a arte japonesa. Para um gosto formado na estética ocidental há uma sensibilidade plástica que nos é estranha mas mantém uma enorme sedução.

A literatura, e sobretudo a poesia, para um leitor desconhecedor do japonês e da sua cultura, revela-se ora inacessível ora deslumbrante, dependendo de quem e como a transpôs para a língua em que a encontramos.

Faço hoje uma viagem no tempo pela mão das traduções de Luísa Freire, poetisa ela própria e tradutora notável dos poemas ingleses de Fernando Pessoa, visitando a poesia japonesa escrita no feminino entre os séculos IX e XI.

 

São poemas de duas poetisas, ONO NO KOMACHI (834? – ?) e ISUMI SHIKIBU (974? – 1034?), a primeira uma figura lendária na história literária do Japão, a segunda a maior poeta  do país – nas palavras da tradutora

 

Os poemas dispensam comentários e saboreiam-se sem mediação interpretativa. A escolha é pessoal e aí vai:

 

ONO NO KOMACHI (834? – ?)

O meu desejo de ti

é forte para contê-lo –

assim ninguém vai culpar-me

se à noite for ter contigo

pela estrada de meus sonhos.

 

Não há como vê-lo

nesta noite sem luar –

estou deitada e desperta,

os seios ardendo em desejo

e o coração em chamas.

 

 

Pensei ter colhido

a flor do esquecimento [*]

só para mim mesma;

mas encontrei-a a crescer

também no coração dele.

 

[*] wasuregusa, a palavra japonesa do poema que significa “flor do esquecimento” é o equivalente inglês de “forget-me-not” ou do português “amor-perfeito” – a subtileza decorrente da duplicidade do sentido do poema consoante seja lido na sua literalidade de metáfora ou na significação do real, é um exemplo esplendoroso da beleza inspirada desta poesia onde a concisão se desdobra numa multiplicidade de emoções e sentimentos.

 

 

Escolho agora de ISUMI SHIKIBU (974? – 1034?) apenas alguns poemas de solidão e desejo, com uma que outra amarga reflexão, deixando de fora poemas onde a presença do efémero na natureza transmite, de forma singular, a vulnerabilidade do viver:

 

Se o cavalo dele

tivesse sido domado

pela minha mão –

eu tê-lo-ia ensinado

a não seguir mais ninguém.

 

 

Mesmo quando um rio

de lágrimas atravessa

e molha este corpo,

não chega para apagar

todo o fogo do amor.

 

 

Porque não terei

pensado nisto já antes?

Este corpo meu

ao recordar tanto o teu

tem a marca que deixaste.

 

 

Penso: “nos meus sonhos

poderemos encontra-nos” …

Virando a almofada,

eu ando às voltas na cama

incapaz de adormecer.

 

 

Consumi o corpo

a desejar o regresso

do que não voltou.

É agora um vale profundo

o que foi meu coração

 

Deixada aqui

a envelhecer no mundo

sem ti ao meu lado,

as flores perdem a beleza

tingidas de negra cor.

 

 

A forma poética de todos os poemas é conhecida como TANKA – poema de 31 sílabas em japonês, mais extensa que HAIKU com apenas 17 sílabas.

Como informa a tradutora, às 31 sílabas japonesas de apresentação vertical dos TANKA, fez corresponder uma tradução – a partir da versão inglesa dos poemas – de 5 versos metricamente alternantes de 5, 7, 5, 7, 7 sílabas, tentando corresponder ao registo sonoro original

 

Os poemas encontram-se no livro  O Japão no Feminino – I – Tanka  poesia dos séculos IX a XI, publicado por Assírio & Alvim  em 2007 com organização e versão portuguesa de Luísa Freire.

 

Para o leitor curioso lembro o link Gravura Japonesa disponível no BLOGROLL  com um pequeno grupo de gravura japonesa, o qual, sempre que a disponibilidade o permitir, acrescentarei com alguma novidade.

 

Entre a Idade Média e Jorge de Sena, uma questão de lingua

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A linguagem do amor tem na língua o seu principal trunfo e por vezes um grande problema, isto quando, por vergonha, gestos de proverbial eficácia são afastados do horizonte da comunicação. Raramente apenas a linguagem dos dedos constitui um substituto eficaz. No entanto, a combinação de ambos pode traduzir-se num sortilégio de afrodisíaco efeito.

O detalhe do percurso da língua é seguramente mais adequado para um menu e aqui pretenderemos apenas abordar questões de léxico, sem procurar pôr em evidência a sumptuosa satisfação que o sabor da língua pode provocar.

Há palavras que se deixam pronunciar melhor que outras, e do encontro de línguas resulta muitas vezes uma linguagem de desejo em que o fogo surge, qual fósforo sobre palha seca, conseguindo mesmo humedecer zonas onde a língua depois passeia com efeito avassalador.

Muitas vezes não há palavras para descrever o êxtase, outras, a conotação obscura inibe os protagonistas do uso da lingua de as aplicar.

Um inventário exaustivo de palavras portuguesas de origem erudita ou vulgar para retratar todas estas actividades do amor, reduz-se ao parco conjunto que todos conhecem. Menos lhes conhecerão a antiguidade.

Na verdade, depois das palavras antigas, usadas sem alteração durante séculos, apenas a lingua francesa trouxe alguma frescura e sofisticação a uma actividade que vivia quase sem palavras.

Socorro-me de dois poemas de João Garcia de Guilhade incluídos no Cancioneiro Medieval – Cantigas de Escarnio e Maldizer, para ilustrar a antiguidade de cono e foder

Poema 166

Martim jograr, que gram cousa:

já sempre com vosco pousa

vossa molher!


Vedes m’andar morrendo,

e vós jazedes fodendo

vossa molher!


De meu mal nom vos doedes,

e moir’eu, e vós fodedes

vossa molher!



Poema 167

Martim jograr, ai Dona Maria,

jeita-se vosco já cada dia,

e lazero-m’eu mal


And’eu morrend’e morrendo sejo,

e el tem sempr’o cono sobejo,

e lazero-m’eu mal


Da mia lazeira pouco se sente;

fod’el bom con[o] e jaz caente,

e lazero-m’eu mal.


Acrescento este outro de João Soares Coelho a propósito de impotência masculina, talvez causada por doença venérea como defende o trovador:

Poema 198

Luzia Sánchez, jazedes em gram falha

comigo, que nom fodo mais nemigalha [nemigalha/d’ua vez – nunca mais de uma vez]

d’ua vez; e, pois fodo, se Deus mi valha

fiqu’end’afrontado bem por tercer dia.

Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,

se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.


Vejo-vos jazer migo muit’aguada,

Luzia Sánchez, porque nom fodo nada;

mais se eu vos per i houvesse pagada,

pois eu foder nomposso, peer-vos-ia.   [peer – peidar]

Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,

se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.


Deu-mi o Demo esta pissuça cativa,

que já nom pode sol cospir saíva

e, de pram, semelha mais morta ca viva,

e se lh’ardess’a casa, nom s’ergeria.

Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,

se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.


Deitarom-vos comigo os meus pecados;

cuidades de mi preitos tam desguisados,

cuidades dos colhões, que tragu’inchados,

ca o som com foder e é com maloutia  [doenças (venéreas)]

Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,

se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.


e aqui encontramos “aguada” para tesão e colhões sem modificação. Aparece-nos ainda “pissuça” para pénis, provavelmente forma anterior da piça de hoje que os franceses também aproveitam levando mais longe o termo com o verbo “pisser” para urinar.

As palavras são poucas mas o acervo é vasto pelo que apenas transcrevo mais um poema deste mesmo João Soares Coelho em que parece tratar de um adultério, ainda que a controvérsia exista entre especialistas

Poema 192

Joam Fernándiz, mentr’eu vosc’houver

aquest’amor que hoj’eu com vosqu’hei,

nunca vos eu tal cousa negarei

qual hoj’eu ouço pela terra dizer:

dizem que fode quanto mais foder

pode o vosso mouro a vossa molher.


[E] pero que foss’este mouro meu

já me teria eu por desleal,

Joam Fernándiz, se vos negass’eu

atal cousa qual dizem que vos faz:

ladinho como vós jazedes, jaz

com vossa molher, e m’end’é mal.


E direi-vos eu quant’en vimos nós:

vimos ao vosso mouro filhar

a vossa molher e foi-a deitar

no vosso leit’; e mais vos eu direi

quant’eu do mour[o] aprendi e sei:

fode-a como a fodedes vós.


Perante tantas das palavras dos poemas modificadas ou caídas em desuso com a evolução da língua, espanta como em mais de 700 anos, esta meia-duzia ligada ao sexo permanece inalterada.

Na verdade, no que à linguagem do amor respeita, existem no português moderno tanto limitações de léxico como limitações de formas verbais.

Os verbos enquanto formas linguísticas de expressão da acção, são não só poucos como insuficientes para cobrir em português todas as praticas sexuais conhecidas, deixando assim a língua impossibilitada de transmitir aspectos essenciais da actividade humana com a ênfase, o rigor e a precisão adequados.

Exemplificarei algumas dessas limitações com a actividade sexual mais vulgar, a união dos sexos de duas pessoas. Chamam-lhe pudicamente (?) “fazer amor”. Ora quem ama sabe que o amor não se faz. Nasce, surge, acontece, existe e extingue-se, mas não se faz. Ao que em português agora se chama fazer amor deveria dar-se outro nome.

Escrever a frase  “depois daquela tragédia precisava fazer amor não importava com quem” ou a frase “depois daquela tragédia precisava foder não importava com quem” não são uma e a mesma frase. Em amor, o que importa é com quem. É até a única coisa que importa, daí a desadequação da expressão neste contexto.

A expressão poderá ser aceite em poucas situações. Por exemplo: em publico, dois amantes entreolham-se e a intimidade do olhar permitirá dizer – Vamos fazer? Amor. E aqui “fazer” substitui “foder” num contexto de obsceno interdito.

O problema com a palavra foder para designar esta actividade prende-se com o significado de insulto que também reveste na expressão “vai-te foder” que mancha a união sexual voluntária de duas pessoas com um estigma soez.

Regresso  às Cantigas de Escárnio e Maldizer e a João Garcia de Guilhade para ilustrar estes dois significados de foder – fornicar e lixar. De acordo com Graça Videira Lopes o significado “lixar” deve até ser a primeira leitura do poema:

Poema 164

Elvira lópez, que mal vos sabedes

vós guardar sempre daqueste peom

que pousa vosc[o], e há coraçom

de tousar vosqu’, e vós nom lh’entendedes;

hei mui gram medo de xi vos colher

algur senlheira; e se vos foder, [senlheira – sózinha]

o engano nunca lho provaredes.


O peom sabe sempr’u vós jazedes,

e nom vos sabedes dele guardar

siquer poedes [em] cada logar

vossa maeta o quanto tragedes; [maeta – maleta]

e dized’ora, se Deus vos perdom:

se de noite vos foder o peom,

contra qual parte o demandaredes?


Direi-vos ora como ficardes

deste peom, que tragedes assi

vosco, pousando aqui e ali:

e vós já quando que ar dormiredes

e o peom, se coraçom houver

de foder, foder-vos-á, se quiser,

e nunca del[e] o vosso haveredes.


Ca vos diredes: – Fodeu-m’o peom!

E el dirá: – Boa dona, eu nom!

E u las provas que [vós] lhi daredes?


Tratados que estamos com a antiguidade do foder, temos ainda o caso da palavra fornicação, ou do verbo fornicar, ou então a palavra coito, da qual nem sei se se aplica coitar, pois coito reveste um significado de passado ex: ”houve coito ou não?” e aí é quase uma inquirição policial. Imagine-se o leitor a pensar “esta noite vou coitar com o meu amor”, que tal?

Voltando a fornicação ou fornicar são qualquer delas palavras monstruosas para referir uma actividade magnífica.

Não obstante  fornicação evocar algum contorcionismo, falta-lhe, no entanto, o calor envolvente que caracteriza o acto. Dificilmente se consegue aceitar “que boa fornicação” e então “esta noite sonhei que fornicava a Marylin Monroe” não é sonho que se descreva por estas palavras.

Mas este deambular trazia como propósito a elucidação de que felizmente o francês nos socorreu com a adequada palavra para a actividade sexual envolvendo a língua, sendo certamente incerto que alguém, mesmo com propensão erudita, manifeste em voz alta desejo daquele cunilinguus de tão dificil pronuncia. A tempo o francês  com a sua minette resolveu-nos o problema da forma que Jorge de Sena nos esclarece como segue:

EM LOUVOR DA LÍNGUA PORTUGUESA

Tão forte e tão hipócrita que até

usa nome francês para dizer

o que – heroicamente – faz

todos os dias

à cona da mãe.

É a esta actividade que durante largo tempo a humanidade ocidental chamou “beijo impudico” ainda que não deixasse de o praticar. E é de novo das Cantigas de Escárnio e Maldizer que me socorro  para deixar aqui um poema sobre este mesmo cunilinguus chamado, desta vez da autoria de João Airas de Santiago


Poema 144

Dom Beeito, home duro,

foi beijar pelo obscuro

a mia senhor.


Come home aventurado,

foi beijar pelo furado

a mia senhor.


Vedes que gran desventura:

beijou pela fendedura

a mia senhor.


Vedes que moi grand’abaco:

foi beijar polo buraco

a mia senhor.


A editora do poema aventa a qualificação de home duro feita pelo trovador a D. Beito como hipótese de ironia à sua impotência. É provavelmente uma interpretação restritiva na medida em que desconhecemos qual a conotação em termos da imagem da masculinidade, que o “beijo impudico” revestia, não obstante a controvérsia entre trovadores sobre o assunto conhecida como “affaire Cornilh (1161)”, a qual modernas interpretações defendem que afinal respeita ao desejo de Madame Ayma ser primeiro lambida no cu para conceder os seus favores a Bernatz de Cornilh.

Sabendo que questões de língua devem ser um prazer interminável e não uma sensaboria fico-me por aqui, esquecendo controvérsias de especialistas e questões teóricas em torno da leitura destes poemas.

Uma leitura mais profícua exige um comentário em contexto com as características e temas destas composições. Os leitores interessados encontram-nos nas publicações de especialistas. Neste artigo apenas a curiosidade da linguagem ditou a escolha. Deixo agora a nota bibliográfica que é de justiça.

Noticia bio-bibliográfica

Encontramos noticia sobre a vida e obra dos nossos trovadores no Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa, publicado em 2ª edição pela Editorial Caminho em 2000.

Aí, sob as entradas Johan Airas de Santiago e Johan Garcia de Guilhade, encontramos detalhada informação sobre a obra de ambos e algumas circunstância biográficas conhecidas.

Importa aqui reter que ambos são poetas vivendo no sécul XIII, a compor ao tempo de Afonso X de Castela e do nosso rei D.Dinis, sendo substancialmente mais novos que este. De Johan Garcia de Guilhade sabe-se que é já adulto em 1239.

Nas trancrições  dos poemas medievais usei a edição de Graça Vieira Lopes das Cantigas de Escárnio e Maldizer, publicada pela Editorial Estampa em 2002, no âmbito da colecção Obras Clássicas da Literatura Portuguesa. A numeração que identifica os poemas neste artigo é a atribuída nesta edição.

O poema de Jorge de Sena integra o ciclo “EM LOUVOR DA BOA LINGUAGEM” publicado postumamente em 1980 por Moraes Editores na sua colecção Circulo de Poesia, e inserido no livro SEQUÊNCIAS.

Em nota final deixo a versão de Natália Correia do poema 166 em português moderno publicado por esta em 1965, na nunca demais elogiada Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica:

Martim jogral, que defeita,

sempre convosco se deita

vossa mulher!


Vedes-me andar suspirando;

e vós deitado, gozando

vossa mulher!


Do meu mal não vos doeis;

morro eu e vós fodeis

vossa mulher!

Isto é amor, vejamos o que é ciúme

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Se não nos assustarmos com a austeridade das edições ou encadernações vetustas, podemos ser brindados com deliciosas surpresas.

Num poema da primeira metade do século XVII vamos encontrar uma saborosa metáfora em que carícias a um manjericão nos falam dos sábios trabalhos de mão e do que ela faz gozar:

Que o manjericão contente / … / Cair deixava a semente; / Mas era trabalho vão / Porque tornava a espigar / Em lhe dando outra demão, / Que tanto pode o gozar / Senhora da vossa mão.

E continua

Se assim, menina, se assim / Gostais desse doce ofício, / Mudai a mão para mim / E tereis largo exercício / Que há bem que fazer aqui;


Vamos então ao poema:

Mote

Tomara por ser capado

Senhora da vossa mão

Ser vosso mangericão


Glosa

Capáveis com tanto ar,

Menina, o manjericão,

Que eu vos chego a confessar

Que do meneio da mão

Namorou-me o seu capar;

Se favor tão envejado

Eu lograra possuido,

Não quisera mais do fado

Tanto que todo o partido

Tomara por ser capado


Cortáveis tão docemente

A semente a cada espiga,

Que o manjericão contente

Per vos dar menor fadiga

Cair deixava a semente;

Mas era trabalho vão

Porque tornava a espigar

Em lhe dando outra demão,

Que tanto pode o gozar

Senhora da vossa mão.


Se assim, menina, se assim

Gostais desse doce ofício,

Mudai a mão para mim

E tereis largo exercício

Que há bem que fazer aqui;

Mais mereço eu essa mão

Pois vos amo tão constante,

Não queirais que digam, não,

Que é mais que ser vosso amante

Ser vosso manjericão.

O poema foi muito popular à época pois chegaram até nós diversas versões em cancioneiros de mão.

O seu autor foi António Barbosa Bacelar (1610 – 1663) e o poema encontra-se incluído na edição das Obras Poéticas preparada por Mafalda Ferin Cunha e publicado em Outubro de 2007,  em 500 exemplares, pela Fundação Calouste Gulbenkian na sua colecção de Cultura Portuguesa.

Em vida o poeta apenas publicou 1 poema. No entanto foi um poeta reputado pois  os seus poemas circularam manuscritos em grande quantidade e são inúmeras as paródias ou sátiras a versos seus em obras dos contemporâneos. A edição das Obras Poéticas dá disso conta, referindo as variantes encontradas nas diferentes cópias manuscritas.

O único poema publicado em vida, foi escrito em castelhano como alguns outros e era próprio da época em que os poetas eram bi-lingues, e  encontra-se incluído numas “MEMORIAS FVNEBRES. SENTIDAS PELLOS INGENHOS Portuguefes, na morte da fenhora Dona Maria de Attayde. OFFERECIDAS A SENHORA DONA LVIZA MARIA DE FARO CONDESSA DE PENAGVIAM”, livro publicado em Lisboa no Anno 1650.

À parte esta edição, e os poemas publicados no SEC. XVIII, na antologia Fenix Renascida,  até hoje apenas foi publicado, e há alguns anos pela Assírio & Alvim, o poema “O Desafio Venturoso”. Estamos assim perante um poeta praticamente desconhecido, com obra vasta e de qualidade média muito elevada.

Alguns dos sonetos do autor destacam-se entre o melhor que a herança maneirista produziu numa clara memória da lírica de Camões.

E acrescento nesta memória da poesia de Camões, entre outras,  uma longa e belissima glosa ao soneto Alma minha gentil que te partiste, ao fim e ao cabo assunto tão recorrente que até bem perto de nós o encontramos na canção de Gilbert Becaud “Et maintenant”.

Os assuntos do amor são frequentes nesta poesia, nos tons mais variados, da brejeirice pura, ainda que sem obscenidades e tantas vezes enunciada de forma metafórica, aos aspectos mais reflexivos sobre o sentimento.

Transcrevo agora o soneto:

A um Amante alcançando posse da sua dama, mas não podendo fazer o que queria

Perdido aqui o leme, a esperança

Naufragava em tormentos de rigores,

Quando propicia a sorte a meus temores

Se renova a tormenta com a bonança.


Toca ao porto o desejo e quando alcança

Tocar os ramos e apanhar as flores,

Ao gozar da esperança e dos favores

Deu em seco o desejo com a tardança.


Assim, quando seguro mais perdido,

De minha infausta sorte a lei ordena

Que não goze a vitória entre a vitória.


Oh portentoso caso nunca ouvido,

Que quando cansa de afligir-me a pena

Se conjure em meu dano a mesma glória!


Deixo por fim mais uma definição de amor, tão cara à poesia deste período, com a originalidade de definir também o seu reverso, o ciúme.

Nesta espécie de poema-ensaio terminando em silogismo, desenvolve o autor os argumentos sobre o conceito de amor, o papel da ausência na permanencia do amor, a inevitabilidade do ciúme e conclui que

Amor é um costume / De ver o que se ama,


e como tal:

Que raro amor escape de uma ausência.


Talvez abra o apetite a algum leitor para mais sabendo que:

Amor é um desejo / De fermosura amada, / … / Começa com afeição, passa a cuidado, / … / Depois se faz costume; / Isto é amor, vejamos o que é ciúme.


É mais à frente que encontramos a opinião do poeta sobre o que é o ciúme:

Da alma o mais perigoso desatino,

ainda que:

Este mesmo ciúme que me inflama, / … / Faz-me mais doce a chama, / Faz-me maior a dita, / Logo é justa razão, justo costume, / Que raro amor acabe de um ciúme.


Visto que está como o ciúme não põe fim ao amor, veremos o que acaba com ele.

Para o nosso poeta é a ausência  que começa por provocar a saudade, ou seja:


Abranda o sentimento / De uma amante vontade;

e no final acaba com ele.


Com a saudade e a ausência chega uma palavra em desuso enquanto substantivo – um descustume – e quão adequada aqui está:


De um deixar de ver, um descustume / De não ver o que via / Quem da vista de uns olhos só vivia.


Vamos então, os corajosos,  ao poema:

Amor é um desejo

De fermosura amada,

È paixão dentro da alma radicada

De lograr o que amo e o que vejo.

Ao príncipio é agrado,

Começa com afeição, passa a cuidado,

Ânsia é depois e logo arrojamento,

Crece a dor, sobe o fogo e sempre é vento,

Depois se faz costume;

Isto é amor, vejamos o que é ciúme.


Ciúme é um receio mal siguro

De que outrem logre o prémio que eu procuro,

Um escrúpulo ousado,

Um medo mal nascido

De que saia na graça preferido

Quem não é nos desvelos igualado;

Tanto pois se acredita

Esta fúria cobarde,

Que só para estrovar-lhe aquela dita

Em novas chamas arde,

Arde igualmente e cia, [ciar: ter receio, ter ciúmes]

O que antes era amor se faz profia,

Só com maior violência

O desejo se passa a competência.

Logo, inda que o ciúme é um tormento

Que imprime o mais custoso sentimento

E, como diz o oráculo divino,

Da alma o mais perigoso desatino,

Não é muito que seja

Novo de amor motivo,

Que há de ficar por força amor mais vivo

Crescendo a leis de amor a leis de enveja.


Murcha o ciúme a esperança verde,

Mas amor mais se anima,

Que como não se estima

Senão o que se perde,

A beleza ciada

Crece nova razão para adorada,

Que torna a ser de novo apetecida

Só porque este receio a faz perdida;

Até já representa a fermosura

Este tormento activo

E dá novo motivo,

Na perda que afigura,

Para ser com mais ansias desejada

Do coração que fino a galanteia,

Que é parecer alheia;

Que muito pois que seja mais sobejo

Da beleza o desejo,

Se cuida que outro a goza

E crece o ser alheia ao ser fermosa.


Amo de Cloris bela a fermosura,

Aos meus olhos parece que é vintura

Lograr daquela graça o doce riso,

Mas não sei se se engana o meu juizo;

Este temor me esfria;

Vendo pois que outro busca o que eu queria,

Achando a mesma chama em outro peito,

Fico da minha escolha satisfeito.


O coração sangrado em seu tormento

O ciúme acredita ao sentimento,

Não só ama a vontade

Mas também o juizo a persuade,

Idolatrando mais fino o belo rosto

Tanto já por razão como por gosto.


Este mesmo ciúme que me inflama,

Como também a escolha me acredita,

Faz-me mais doce a chama,

Faz-me maior a dita,

Logo é justa razão, justo costume,

Que raro amor acabe de um ciúme.


Vamos a saudade,

Que, inda que lisonjeia,

Abranda o sentimento

De uma amante vontade;

Inda que é doce afago do tormento,

Dela mais se receia

Quem sabe que periga mal sigura

Às mãos da saudade a fé mais pura;

Esta pena, que ausência se nomeia,

Um acto é negativo

De um coração mal vivo

De um deixar de ver, um descustume

De não ver o que via

Quem da vista de uns olhos só vivia.


É siguro argumento

Que o fim responde sempre ao nascimento;

Qualquer acto que teve a existência

Numa certa influência,

A razão ordenada lhe distina

Em os Astros contrários a ruina;

Quem de quente recebe o ser amigo,

Lá no frio lhe aguarda o seu perigo,

Quem do frio recebe o ser primeiro,

Lá no quente lhe espera o derradeiro.


Amor é um costume

De ver o que se ama,

Logo esta ardente chama

Há de acabar às mãos do descostume,

Traz este descostume a saudade;

Amor é um custume da vontade,

Logo com razão mostra a experiência

Que raro amor escape de uma ausência.

ABÛ ‘UTHMÂN – meu conterrâneo

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Sabemos quem somos quando atentamos no que gostamos, sobretudo no que gostamos de comer. É algo que todos os dias fazemos e onde procuramos prazeres repetidos.

O que eu gosto de figos, meu Deus, e de uvas, e de mel, e de tâmaras, e de amêndoas, e a lista não acaba.Sou decididamente uma criatura do sul. Contemplo o branco e o azul na paisagem e descubro aquela harmonia do mundo que faz sentir qual é o lugar a que pertencemos.

E o mundo é um lugar de prazeres inesperados ainda que viver seja cruzar um deserto de morte, como diz o nosso poeta de hoje.

Desculpo-me da longa ausência junto dos fiéis leitores de blog que não desarmaram perante o demorado silêncio e espero apreciem o que hoje aqui deixo.É a memória da minha, talvez, costela árabe a falar.

São poemas luso-árabes anteriores à conquista cristã, e abro com o meu conterrâneo, ABÛ ‘UTHMÂN, nascido em Tavira provavelmente ao aproximar de 1200, pois em 1229 com a conquista de Aragão pelos cristãos, retirou-se para Minorca e aí fundou um pequeno reino cuja corte funcionou como um cenáculo literário.

O assunto do poema é a eterna guerra entre o sexo e intelecto, ou pelo menos o coração puro empenhado no bem fazer.

Talvez para o nosso poeta o gosto do sexo seja incompatível com o bem fazer. Será?


como são bizarros certos reis,

transformados em escravos do prazer.

apenas desejam duas coisas:

bocetinhas e bocas de mulher!

se o espírito mais lhes interessasse,

poriam de lado a fornicação

fruindo no amor puro a união.

passa o tempo, continuam reis do mundo:

oxalá que eles passem num segundo!

se viver é cruzar um deserto de morte

aborrecer tais prazeres é o meu norte.

o meu fito neste mundo

é apenas ter puro o coração:

assim o guardo da corrupção

na via do Bem profundo.


Ainda que pudesse ficar por aqui, não resisto a acrescentar a presença do grande AL-MU’TAMID, nascido numa família de poetas em Beja em 1040.

Tendo governado Silves, ocupou o trono de Sevilha em 1069, de onde foi destronado e exilado para o interior de Marrocos, vindo aí a morrer na miséria.

Deste infortúnio extraiu elegias de grande beleza e é ainda hoje objecto de homenagens no seu túmulo em Aghmat.


Começo com um belo retrato de uma mulher amada:

um sol é seu rosto / e palmeira é ela / de ancas opulentas. …

em encanto não tem / rival tal senhora, / e, fora do sonho, / quem tão bela fora?


Pretendendo o nosso poeta o costume, lançou o convite:

dá paz ao ardor / de quem te deseja. / contenta o amor / e faz dom de ti, / vamos, sorri, / quando a boca beija.


Respondeu-lhe a bela, olhos de gazela e corpo de palmeira:

pecar me refreia


Mas o nosso poeta não se calou:

respondi-lhe: ora, / não é coisa feia!


Afinal o receio de pecar deve ter sido apenas negativa a dizer que sim, pois a seguir parece que:

uma vez era noite / de bem longa festa.


e a bela nem deixou o poeta dormir como lhe apetecia.

Talvez o nosso poeta fosse daqueles homens que, acabado o sexo e já quase ressonam, quem sabe?


E agora chega de conversa, aí vai o poema.

 

0

quem vive dos ardis da ilusão

e, assim, se aparta do amigo

poderá encontrar consolação?

I

quando será que estarei

livre de desdém tão fero

cujos fortes esquadrões

me dão guerra que não quero.

desvio, assim, é injusto.

juro pela luz altaneira

que em suas tranças se divisa:

não sou cobra traiçoeira

das que mudam de camisa.

II

de negras madeixas

amo uma gazela

um sol é seu rosto

e palmeira é ela

de ancas opulentas

existe em seus lábios

do néctar o gosto.

ó sede se intentas

sua boca beijar

não o vais lograr.

III

em encanto não tem

rival tal senhora,

e, fora do sonho,

quem tão bela fora?

qual espada seus olhos

lhe brilham e rosas

lhe enfeitam a face

na sombra vistosas

mas se as vais olhar

fá-la-ás murchar.

IV

dá paz ao ardor

de quem te deseja.

contenta o amor

e faz dom de ti,

vamos, sorri,

quando a boca beija.

me disse na hora:

pecar me refreia

respondi-lhe: ora,

não é coisa feia!

V

uma vez era noite

de bem longa festa.

adormeci. me disse

me acordando com esta:

teu sono vai longo

toca a levantar!

então me beijou

e eu pus-me a cantar:

fazem reviver

teus lábios a arder!    [que lábios serão?]


Termino com esta bela declaração de amor na distância da amada.


Invisível a meus olhos,

trago-te sempre no coração

Te envio um adeus feito paixão

e lágrimas de pena com insónia.

Inventaste como possuir-me

e eu, indomável, submisso vou ficando!

Meu desejo é estar contigo sempre,

oxalá se realize tal vontade!

Assegura-me que o juramento que nos une

nunca a distancia o fará quebrar.

Doce é o nome que é o teu

e aqui fica escrito no poema: ‘Itimad.



Noticia bibliográfica: os poemas e as notas biográficas foram retirados da antologia “O meu coração é árabe”  da responsabilidade de Adalberto Alves, e publicada pela Assírio & Alvim em 3ªedição revista e aumentada em 1999.

Homenagem de Almada a Camões

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Comemorar Camões é ler-lhe a poesia, fazê-la nossa, brincar com ela.

Passam hoje 440 anos sobre a sua morte, e o poeta continua vivo, na nossa companhia, permitindo-nos o prazer quase quotidiano da sua poesia.

É de Almada Negreiros, esse português sem mestre como Augusto-França lhe chamou, que me socorro para assinalar a data.

No tom brincado que é ás vezes o seu, aqui temos a aventura de Camões e da poesia em Portugal.


LUÍS, O POETA

SALVA A NADO O POEMA


Era uma vez / um português / de Portugal.

O nome Luis / há-de bastar / toda a nação / ouviu falar.

Estala a guerra / e Portugal / chama Luis / para embarcar.

Na guerra andou / a guerrear / e perde um olho / por Portugal.

Livre da morte / pôs-se a contar / o que sabia / de Portugal.

Dias e dias / grande pensar / juntou Luis / a recordar.

Ficou um livro / ao terminar / muito importante / para estudar.

Ia num barco / ia no mar / e a tormenta / vá d’estalar.

Mais do que a vida / há-de guardar /o barco a pique / Luis a nadar.

Fora da água / um braço no ar / na mão o livro / há-de salvar.

Nada que nada / sempre a nadar / livro perdido / no alto mar.

– Mar ignorante / que queres roubar? / a minha vida / ou este cantar?

A vida é minha / ta posso dar / mas este livro / há-de ficar.

Estas palavras / hão de durar / por minha vida / quero jurar.

Tira-me as forças / podes matar / a minha alma / sabe voar.

Sou português / de Portugal / depois de morto / não vou mudar.

Sou português / de Portugal / acaba a vida / e sigo igual.

Meu corpo é Terra / de Portugal / e morto é ilha / no alto mar.

Há portugueses /a navegar / por sobre as ondas / me hão-de achar.

A vida morta / aqui a boiar / mas não o livro / se há-de molhar.

Estas palavras / vão alegrar / a minha gente / de um só pensar.

À nossa terra / irão parar / lá toda a gente / há-de gostar.

Só uma coisa / vão olvidar: / o seu autor / aqui a nadar.

É fado nosso / é nacional / não há portugueses / há Portugal.

Saudades tenho / mil e sem par / saudade é vida / sem se lograr.

A minha vida / vai acabar / mas estes versos / hão-de gravar.

O livro é este / é este o cantar / assim se pensa / em Portugal.

Depois de pronto / faltava dar / a minha vida / para o salvar.

Escrito em Madrid. Dezembro de 1931.


Como é sabido, a poesia lírica de Camões não foi publicada em livro em vida do autor, a menos de poucas peças incluídas em obras de terceiros, nem são conhecidos manuscritos autógrafos dos poemas.

Corre a lenda a partir de palavras de Diogo do Couto na Década VIII, que enquanto o poeta preparava Os Lusídas para edição, “foi escrevendo muito em um livro que ia fazendo, que intitulava Parnaso de Luis de Camões, livro que lhe furtaram e nunca pude saber no reino dela, por muito que inquiri, e foi furto notável …”.

Tal Parnaso … nunca foi encontrado. Os poemas circulavam de mão em mão e quando em 1595, 15 anos após a morte do poeta, Manuel de Lima preparou a 1ªedição das Rhythmas de Luís de Camões para o editor Estêvão Lopes, na ausência de manuscritos autógrafos, os editores socorreram-se das cópias que circulavam, sem segura atribuição de proveniência. Esta edição contemplou os poemas que à data conseguiram reunir.

A 2ªedição 3 anos depois, em 1598, acrescentou 63 novas composições e suprimiu 3. Uma 3ª edição em 1616 incluiu novas peças.

Na 4ª edição das Rimas em 1668 voltam a ser acrescentadas 60 obras poéticas de diversos géneros.

Faria e Sousa, em edição póstuma (1685-1689), acrescentou ao que era tomado pelo cânone da Lírica de Camões, 76 novas poesias. A novidade desta edição prende-se com o circunstanciado comentário que acompanha cada poesia, fazendo da obra, ainda hoje, uma aliciante experiência de leitura.

A admiração apaixonada de Faria e Sousa pela obra de Camões, levou-o a reconhecidos exageros de atribuição de autoria com o caso mais notável de erro em relação a Diogo Bernardes.

Não pararam aqui os acréscimos à obra do poeta.

A chamada edição Jorumenha no séc. XIX (1860-1869) duzentos anos depois da edição Faria e Sousa, traz mais 50 sonetos e 52 peças de géneros diversos.

A este conjunto sobre o qual se debruçam os especialistas questionando a autoria de algumas poesias, porque anteriormente publicadas em nome de outros, ou com características de estilo não atribuíveis a Camões, acrescentou-se o conhecimento público em 1922 do que é conhecido como Cancioneiro Fernandes Tomás, ainda hoje por estudar aprofundadamente e onde abundam composições atribuídas expressamente a Camões. Outros Cancioneiros têm sido entretanto estudados ao sabor das curiosidades e estratégias pessoais dos investigadores.

Passaram mais de 4 séculos sobre a morte de Luís de Camões e hoje está ainda longe de existir qualquer edição da Lírica que possa ser tomada como canónica. É uma vergonha que o país, para o seu poeta nacional, não tenha encontrado os meios, as vontades e recursos, para fixar de forma incontroversa o conjunto da obra do poeta, e que até hoje ninguém tenha conhecido e estudado tão profundamente a obra de Camões como Faria e Sousa no século XVII.

Que panorama triste para situação da obra do poeta com quem Portugal se comemora.

Algumas edições da Lírica surgiram ao longo de século XX. Nenhuma compulsou com critérios legitimados, a obra conhecida e as criações dispersas pelos Cancioneiros de mão que dormem nas bibliotecas do mundo, com vista a apurar o que é de Camões, o que não é de Camões e o que talvez seja.

Para o curioso leitor, em minha opinião de apaixonado pela Lírica camoneana, a mais proba das edições com grafia modernizada, é a LÍRICA COMPLETA DE LUÍS DE CAMÕES, em 3 volumes, publicada em 1980/81 pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda e preparada por Maria de Lurdes Saraiva.

É uma edição inclusiva onde se publica tudo o que alguma vez foi atribuído a Camões, com excepções mínimas justificadas em prefácio. O conjunto vem separado e anotado entre o que tem sido considerado de autoria genuína, e aqueles poemas cuja autoria tem sido controvertida, independentemente da opinião da organizadora, deixando esta em  notas circunstanciadas as suas opiniões.

Esta edição apresenta pela primeira vez uma tentativa de organização cronológica das poesias, agrupadas estas por géneros líricos.

A edição estará provavelmente esgotada, como é costume, mas como teve tiragem elevada (10.000ex.) é talvez facil ao interessado encontrá-la em alfarrabista por módica quantia.