Etiquetas

 

 

É urbana a minha memória dos cheiros da terra. São, nos mercados as bancas da hortaliça se por acaso entre elas despontam ervas aromáticas: coentro, salsa, hortelã; que me devolvem aquela espécie de segurança despreocupada apanágio da infância.

Quando, chegado Outubro, acontecia a feira anual de sementes, frutos secos e gado, bujigangas e figurinhas de barro para o presépio à mistura,  em grandes sacos de serrapilheira lá estavam –  peros: vermelhos, raiados, verdes, bravo d’esmolfe; e então, era a alegria num odor inebriante, talvez perdido para sempre.

É em vão que da prateleira do supermercado levo para casa bolinhas verdes a que chamam peros bravo d’esmolfe, pois aberto o saco, cheiro não há, e o sabor é vago a qualquer coisa indistinta.

Na volta do fim da tarde passei à porta da preciosa charcutaria de bairro e havia, em caixotes, cheirosos, peros bravo d’esmolfe. Entrei e comprei. As tâmaras da Tunísia e Israel, os figos da Turquia, nada disso ainda chegou, mas já há as frutas em açucar da abençoada fábrica Convento da Serra, de Elvas. Se até há uns anos eram as ameixas deles a minha perdição, desde que apareceram figos, não resisto. Com a minha paixão por figos em qualquer estádio, frescos, secos, com açucar, cristalizados, recheados  ou em doces os mais diversos, quase me sinto perto dos deuses do Olimpo de quem se diz alimentarem-se a figos e mel.

Na verdade é uma paixão vinda da mais tenra infância. Voltava eu da escola de aprender a ler, mal feitos os três anos, e ao passar em casa da bisavó corria para as algibeiras daqueles saiões rodados onde sempre havia figos secos e torrados. Mais tarde, era o caixote de madeira providenciado anualmente pelo meu avô para o inverno, cheio de figos arrumados às camadas separadas por pauzinhos de funcho, a fonte das delicias. Interrompia brincadeiras para amiúde ir buscar 1 ou 2 figos e o caixote com custo ultrapassava o Natal.

Como algures aqui escrevi, sou decididamente uma criatura do mediterrãneo. Neste folhear de memórias ocorre-me o prazer com que descobri o mercado das Ramblas em Barcelona, espectáculo único para os sentidos de qualquer gourmet, ou os passeios há 30 anos pelos mercados de rua nas cidades italianas, de Veneza a Nápoles, hoje praticamente inexistentes por milagre da nossa senhora da união.

O acaso das leituras cruzadas destes últimos dias conduziu-me ao mediterrâneo. Leio Orlando Ribeiro numa viagem fascinada pela paisagem, gentes e cultura. De um fôlego li a última história de mestre Camileri deambulada na Sicilia, e demoradamente caminho na edição de José Ribeiro Ferreira de Trabalhos e Dias de Hesíodo.

Na documentação que acompanha a tradução de Trabalhos e Dias encontro o esquema do arado descrito por Hesíodo e usado há mais de 2600 anos na Grécia. Na página seguinte do livro aparece o esquema do arado usado em pleno século XX na freguesia onde nasci e cresci em tudo semelhante ao arado grego da antiguidade.

Estas continuidades devolvem-me um sentido único de pertença a um mundo do qual gosto de guardar e transmitir a herança.

É Outubro, é mês de lavoura, tempo da passagem do grou pela Grécia vindo dos países nórdicos a caminho de África para aí hibernar e nos Trabalhos e Dias Hesíodo recomenda para esta altura:


Presta atenção, quando escutares o grito do grou,             448

no alto, entre nuvens, ele que seu lamento, ano a ano, repete:

dá-te o sinal do trabalho de lavra, a estação do inverno                   450

te anuncia, pluviosa, e punge o coração do que não tem bois.

Então engorda os bois de chifres recurvos, em casa.

Pois é fácil dizer: “empresta-me a junta de bois e o carro”;

mas fácil é também recusar: “ já há trabalho para os meus bois”.

O homem rico fala, em espírito, em construir um carro;                   455

louco, nem sequer sabe que cem são as peças desse carro,

as quais deve ele, primeiro, ter o cuidado de reunir em casa.

Logo que brilha para os mortais o tempo da lavoura,

aprestai-vos então em conjunto, escravos e tu próprio,

a arar a terra, seca ou húmida em cada estação da lavoura,           460

esforçando-te desde manhã, para que os campos produzam.


 


Talvez nesta eterna viagem algum dos grou de Hesíodo tenha transportado Nils Holgerssons na sua viagem maravilhosa.

Uma vez por outra sabe bem voltar à infância.

 

Noticia bibliográfica:

O fragmento transcrito do poema Trabalhos e Dias, de Hesíodo, foi retirado da edição conjunta de Teogonia e Trabalhos e Dias de Hesíodo, publicada pela Imprensa Nacional – Casa da Moeda em 2005 na colecção Biblioteca de Autores Clássicos e da responsabilidade de Ana Elias Pinheiro – Teogonia , e José Ribeiro Ferreira – Trabalhos e Dias.

 

Anúncios