Soneto de Ludovico Ariosto

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É conhecido em moderna tradução portuguesa o monumental poema Orlando Furioso de Ludovico Ariosto (1474-1533). São menos conhecidos os seus sonetos.

Arquivo no blog mais um daqueles retratos de mulher contido no soneto XXV, desta vez de uma traidora amante, cuja beleza física é laudatoriamente descrita para acentuar o contraste no fecho do soneto:

E embora seja tudo assim perfeito, / permiti que vos diga ousadamente: / mais perfeita era a fé que em vós eu tinha.

Soneto XXV

Que bela sois, senhora! Tanto, tanto,

que por mim nunca vi cousa mais bela!

Contemplo a fronte e penso que uma estrela

a meu caminho dá seu brilho santo.

Contemplo a boca e pairo no encanto

do sorriso tão doce que é só dela;

olho o cabelo de ouro e vejo aquela

rede que amor me impôs com terno canto.

É de terso alabastro o colo, o peito,

os braços mais as mãos, e finalmente

quanto de vós se vê ou se adivinha.

E embora seja tudo assim perfeito,

permiti que vos diga ousadamente:

mais perfeita era a fé que em vós eu tinha.

Tradução de David Mourão-Ferreira

Soneto XXV (original italiano)

Madonna, sète bella e bella tanto,

ch’io non veggio di voi cosa più bella;

miri la fronte o l’una e l’altra stella

che mi scorgon la via col lume santo;

miri la bocca, a cui sola do vanto

che dolce ha il riso e dolce ha la favella,

e l’aureo crine, ond’Amor fece quella

rete che mi fu tesa d’ogni canto;

o di terso alabastro il collo e il seno

o braccia o mano, e quanto finalmente

di voi si mira, e quanto se ne crede,

tutto è mirabil certo; nondimeno

non starò ch’io non dica arditamente

che più mirabil molto è la mia fede.

A pintura é obra de BARTOLOMEO VENETO 1502-31, dos anos 1520-25. Pintor de quem pouco se sabe, e a quem são atribuídos alguns requintados e notáveis retratos.

Veneza de Alfred de Musset

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Veneza é paixão de quem a visita, e na poesia abundam as obras com Veneza como fundo ou pretexto, sendo talvez a maior, o conjunto de epigramas venezianos de Goethe. Acrescem outras poesias espalhados pela obra de poetas das mais variadas épocas. Para hoje escolhi um poema de Alfred de Musset (1810-1857), cuja poesia é nos nossos dias pouco conhecida em Portugal, que eu saiba.

Este Venise (Veneza) é uma poesia dos vinte anos incluída no seu primeiro livro, Contes d’Espagne et d’Italie. Contém este livro poesias, plenas de verve, de um jovem a quem os prazeres levaram a escrever a famosa obra licenciosa Gamiani, ou duas noites de excessos. A sua vida aparece contida, ao que se diz, em toda a obra, da qual La Confession d’un Enfant du Siècle permanece um documento notável sobre a juventude culta da primeira metade do século XIX em França. Pela sua poesia, de uma deliciosa musicalidade, foi chamado “o poeta da juventude”.

Para a biografia fica a relação escandalosa com George Sand e depois da rotura, com a Malibran, diva cara aos melómanos, para quem várias obras-primas da ópera foram compostas, e a quem há poucos anos Cecília Bartoli dedicou um espectacular disco, concerto dvd e museu itinerante.

Veneza

Em Veneza a vermelha,
Nenhum barco aparelha;
Nem pescador, no mar,
Se vê pescar.

Só, sobre o cais sentado,
Vela o leão do Estado,
Que ao horizonte adianta
A brônzea planta.

Ao seu redor, qual bando
De cisnes repousando,
Alinham, numerosas,
Naves airosas.

Dormem na água, que fuma,
E cruzam sob a bruma,
Em leves convulsões,
Os pavilhões.

A Lua, que perpassa,
Desmaia a fronte baça,
De uma nuvem ‘strelada
Meio velada …

— Como de Santa Cruz
A madre o seu capuz,
Sobre o rosto descai,
Que lho retrai.

E os palácios vetustos,
Os pórticos augustos,
Dos grande as escadas
Ornamentadas,

Mais as ruas, as pontes,
As estatuas e as fontes,
E o golfo, que o vento
Faz turbulento,

São mudos! … Só os guardas,
De longas alabardas,
Vão e vêm nos portais
Dos arsenais.

— Ah! quanta bela, agora,
Moço gentil que adora
Espera na janela
Que venha vê-la …

Outras ao espelho, entanto,
A mascarilha e o manto,
Para o baile a que vão,
Ajeitarão.

No leito perfumado,
O amante idolatrado
Vanina abraça ainda
Dormindo, linda.

Narciso, a louca altiva,
Na gôndola, lasciva,
Aturde-se na orgia
Até ser dia.

Mas quem, na Italia, um pouco,
Oh Céus! não tem de louco?
Quem não dá ao amor
Da vida a flor?

No palácio do doge,
Conte a hora que foge
O relógio cansado,
Em tom magoado …

Deixemo-lo, formosa!
E em tua boca sequiosa
Contemos beijos dados …
Ou perdoados.

Contemos teus encantos
E mais os doces prantos
Das horas de langor
Do nosso amor!

Venise (original em francês)

Dans Venise la rouge,
Pas un bateau qui bouge,
Pas un pêcheur dans l’eau,
Pas un falot.

Seul, assis à la grève,
Le grand lion soulève,
Sur l’horizon serein,
Son pied d’airain.

Autour de lui, par groupes,
Navires et chaloupes,
Pareils à des hérons
Couchés en ronds,

Dorment sur l’eau qui fume,
Et croisent dans la brume,
En légers tourbillons,
Leurs pavillons.

La lune qui s’efface
Couvre son front qui passe
D’un nuage étoilé
Demi-voilé.

Ainsi, la dame abbesse
De Sainte-Croix rabaisse
Sa cape aux larges plis
Sur son surplis.

Et les palais antiques,
Et les graves portiques,
Et les blancs escaliers
Des chevaliers,

Et les ponts, et les rues,
Et les mornes statues,
Et le golfe mouvant
Qui tremble au vent,

Tout se tait, fors les gardes
Aux longues hallebardes,
Qui veillent aux créneaux
Des arsenaux.

Ah ! maintenant plus d’une
Attend, au clair de lune,
Quelque jeune muguet,
L’oreille au guet.

Pour le bal qu’on prépare,
Plus d’une qui se pare,
Met devant son miroir
Le masque noir.

Sur sa couche embaumée,
La Vanina pâmée
Presse encor son amant,
En s’endormant ;

Et Narcissa, la folle,
Au fond de sa gondole,
S’oublie en un festin
Jusqu’au matin.

Et qui, dans l’Italie,
N’a son grain de folie ?
Qui ne garde aux amours
Ses plus beaux jours ?

Laissons la vieille horloge,
Au palais du vieux doge,
Lui compter de ses nuits
Les longs ennuis.

Comptons plutôt, ma belle,
Sur ta bouche rebelle
Tant de baisers donnés…
Ou pardonnés.

Comptons plutôt tes charmes,
Comptons les douces larmes,
Qu’à nos yeux a coûté
La volupté !

Acompanham o artigo três pinturas de Bernardo Canal dito Canaletto (1697-1768), veneziano que pintou a cidade como nenhum outro.

A tradução do poema é de Pedro da Silveira e encontra-se no livro Mesa de Amigos, Angra do Heroísmo, 1986.

Cinquenta mil visitas ao blog assinaladas com a universalidade da poesia

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Passados que estão pouco mais de dois anos e meio, é com surpresa e perplexidade que conto 50.000 visitas ao blog. Aventura de incerta regularidade, lida com avidez por alguns, nela persistirei contando e dando conta de prazeres e descoberta onde a teia da cultura se tece.

É a poesia a manifestação primeira, e por excelência, da humanidade que fala e escreve. Antes da escrita, e nas sociedades onde ela foi desconhecida, tal como nas outras que a praticaram e praticam, foi a poesia transmitida entre gerações o veiculo para dar continuidade a uma identidade cultural. Entre nós cabe a Os Lusíadas o papel maior. Desse mosaico por gerações tecido somos hoje herdeiros, e de pequeníssima parte dele vou dando conta no blog.

Entendo a prática da poesia num sentido lato, qual concepção humana do universo, como cosmologia, dando-nos tanto o detalhe pessoal como a visão abrangente do homem na sua circunstância ou ancorado numa tradição ou passado histórico, com isto encerrando em si uma cosmosofia ou sabedoria do mundo.

Num percurso temporal e geográfico abrangente, preenchi o blog procurando afinidades às artes plásticas em leituras ora de continuidade ora de confronto, num desafio que, espero, tenha sido estimulante para alguns.

Não são artigos fáceis, os que aqui escrevo, na medida em que pressupõem a disponibilidade do leitor para procurar noutras fontes o que de pouco claro encontrar. Ao escrever é difícil estabelecer a fronteira entre o que hoje é conhecimento generalizado para as diversas gerações, normalmente adquirido na escola, e aquele conjunto de saberes ou informações que apenas uma atenção curiosa ou direccionada mais tarde adquiriu. Na tentativa de equilíbrio navego.

Dando conta da universalidade que acima referi, transcrevo uma versão em português de um poema cosmogónico atribuído aos Fulani (Mali(?)).
O poema foi publicado a abrir ROSA DO MUNDO, a preciosa e quase enciclopédica antologia de poesia com que Porto Capital Europeia da Cultura em 2001 quis assinalar a sua existência, para nossa eterna gratidão.

(Mito da criação)

No principio existia uma enorme gota de leite.
Então chegou Doondari e criou a pedra.
A pedra criou o ferro;
E o ferro criou o fogo;
E o fogo criou a água;
E a agua criou o ar.
Então Doondari desceu pela segunda vez.
Juntou os cinco elementos
E moldou-os num homem,
Mas o homem era orgulhoso.
Então Doondari criou a cegueira e a cegueira derrotou o homem.
Mas quando a cegueira se tornou demasiado orgulhosa,
Doondari criou o sono, e o sono derrotou a cegueira;
Mas quando o sono se tornou demasiado orgulhoso,
Doondari criou a preocupação, e a preocupação derrotou o sono;
Mas quando a preocupação se tornou demasiado orgulhosa,
Doondari criou a morte, e a morte derrotou a preocupação.
Quando a morte se tornou demasiado orgulhosa,
Doondari desceu pela terceira vez.
E ele veio como Gueno, o Eterno,
E Gueno derrotou a morte.

Tradução de Vasco David

Figos: prazer e memória com poesia de Eugénio de Andrade

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Ardidos que estão milhares de hectares de arvoredo na tragédia do incêndio de ontem, no seu rescaldo, a dureza da perda levará as gentes a um esforço redobrado de recuperação, e a paisagem agora nua e calcinada reverdecerá, como pelos séculos em que estas terras têm sido habitadas, a espaços aconteceu. De toda a vegetação queimada, são as figueiras perdidas que mais lamento.

A Figueira

Este poema começa no verão,
os ramos da figueira a rasar
a terra convidavam a estender-me
à sua sombra. Nela
me refugiava como num rio.
A mãe ralhava: A sombra
da figueira é maligna, dizia.
Eu não acreditava, bem sabia
como cintilavam maduros e abertos
seus frutos aos dentes matinais.
Ali esperei por essas coisas
reservadas aos sonhos. Uma flauta
longínqua tocava numa écloga
apenas lida. A poesia roçava-
me o corpo desperto até ao osso,
procurava-me com tal evidência
que eu sofria por não poder dar-lhe
figura: pernas, braços, olhos, boca.
Mas naquele céu verde da Agosto
apenas me roçava, e partia.

Apenas aflorados neste poema de Eugénio de Andrade (1923-2005), os figos frescos são fruta frágil com exigências caprichosas no seu amadurecimento e apanha, pelo menos para os aficionados. A hora ideal para os apanhar e comer directamente da árvore é o alvorecer, quando a “brandura” derramada pela noite ainda permanece. Apanhados e comidos durante o dia ou mesmo ao entardecer de uma daquelas tardes de verão do Sul, onde o calor brilha no restolho dourado, ao som do zumbido das cigarras, são receita certa para problemas intestinais. Ao entrever as delicias das próximas férias, é neles que penso, e pouco mais. Mar e nadar, certamente. Mas a incerteza sobre a multidão mitiga-me o entusiasmo. Num horizonte de nada fazer, à oportunidade de reencontrar as comidas de boa memória, redobra-me o entusiasmo de partir.
Alimento de excelência no Sul, prepará-los e gozá-los ao longo do ano foi matéria de invenção das gentes onde o figo abunda. Por exemplo, associo o Dia de Todos-os-Santos sobretudo aos figos. Nas terras do Sul foi desde que me recordo um dia festivo, ficando para o dia seguinte, 2 de Novembro, a celebração dos mortos, no que se chamava Dia de Finados. Finados, aqueles para quem a vida chegou ao fim, Apenas recentemente o Dia de Finados se sobrepôs ao Dia de Todos-os-Santos.
Como qualquer dia festivo também o Dia de Todos-os-Santos tinha, e tem para quem ainda pratica, as suas comidas de celebração, e neste dia, no meu berço Natal, são os figos, e os doces com figo, os reis: figos cheios (figos recheados com chocolate, açúcar e canela e ligeiramente torrados no forno), bombons de figo (pasta de figo moído, açúcar, canela e algo mais que faz o segredo da receita), enrolado em pequenas bolas guardadas em papel colorido, e estrelas (figos abertos em três pontas unidos dois a dois com miolos de amêndoa na extremidade e passados ligeiramente pelo calor do forno para colar). Estas especialidades da época, que felizmente a minha mãe não dispensa e continua a fazer, remetem-me para o tempo da despreocupada infância.
São os figos que me trazem a única memória de uma bisavó.
Comecei na escola paga quando fiz três anos. Era a escola da menina Emília. Não existindo infantários, as primeiras letras eram ensinadas aos meninos e meninas naqueles anos cinquenta, em casas particulares, por uma senhora que organizava esta escola doméstica, paga chamada, pois este ensino tinha uma mensalidade, ao contrário do ensino oficial e obrigatório a partir dos sete anos, que era gratuito. Nas famílias com mais necessidades as crianças apenas começavam a aprendizagem das letras nesta escola oficial, e assim se fazia a diferenciação para a vida. Quando cheguei ao ensino oficial lia, escrevia e sabia a matemática elementar (tabuada) como apenas a outra meia dúzia na minha situação o sabiam entre cerca de 30 rapazes.
Voltando à bisavó, morava na mesma rua da menina Emília. A escola ficava ao cimo da rua do Malfor, perto da passagem de nível, ou seja, do cruzamento da rua com a linha de comboio. A casa da bisavó era um pouco mais abaixo. Quando terminada a escola regressava à tarde a casa, passava-lhe junto à porta. Habitualmente estava à janela e muitas vezes chamava-me para lanchar. Nestas visitas, o prémio que recordo era tentar tirar-lhe de dentro dos bolsos das saias alguns figos secos ou torrados que sempre lá estavam, e que ela na brincadeira esquivava. Não sei de outros que, comidos depois, me soubessem melhor.

Despeço-me de toda esta evocação, onde afinal foi do passar do tempo que falei, com Prato de Figos, poema de Eugénio de Andrade em que uma metáfora do envelhecimento se escreve.

Prato de Figos

Também a poesia é filha
da necessidade —
esta que me chega um pouco já
fora do tempo
deixou de ser a sumarenta alegria
do sol sobre a boca;
esta, perdida a fresca
e nacarada pele adolescente,
mais parece um desses figos
secos ao sol de muitos dias
que num inverno sempre se encontram
postos num prato
para comeres junto ao fogo.

Vai o artigo acompanhado pelas apetitosas pinturas de Giovanna Garzoni (1600-1670).

Filosofia do amor (Love’s Philosophy) segundo P. B. Shelley

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Ontem deixei um soneto de John Keats, hoje convido-vos a procurar o poema Adonais com que P. B. Shelley (1792-1822) homenageou Keats depois da morte. Amigo e contemporâneo de John Keats, Percy Bisshe Shelley, que também morreu jovem, considerava Adonais o seu melhor poema.
A extensão de Adonais e sua tradução são incompatíveis com o formato do blog pelo que vos sugiro o procureis na net, pelo menos o original. De Shelley, e em alternativa, deixo esta leitura da filosofia do amor, sorrindo com o que naqueles tempos era preciso fazer para conseguir um beijo, ainda que seja evidente ser outra coisa o que o poeta pretendia.

Filosofia do amor (Love’s Philosophy)

Todas as fontes com o rio se fundem
E os rios com o oceano;
Os ventos, pelos ares, uns aos outros se unem
Com fragrante emoção;
Nada fica sozinho neste mundo;
Tudo, por fado antigo,
Entre si se mistura e se confunde:—
Porque não eu consigo?

Olha! As montanhas beijam o firmamento,
A onda, a onda enlaça;
Nenhuma flor-irmã tem valimento
Se o irmão não abraça;
A luz do Sol envolve a terra à roda,
Raios do luar beijam os mares: —
Mas toda esta ternura que me importa
Se tu não me beijares?

Tradução de Herculano de Carvalho

Acrescento o original inglês para os leitores fluentes na língua de Shakespeare.

Love’s Philosophy

The fountains mingle with the river
And the rivers with the ocean,
The winds of heaven mix for ever
With a sweet emotion;
Nothing in the world is single;
All things by a law divine
In one spirit meet and mingle.
Why not I with thine?—

See the mountains kiss high heaven
And the waves clasp one another;
No sister-flower would be forgiven
If it disdained its brother;
And the sunlight clasps the earth
And the moonbeams kiss the sea:
What is all this sweet work worth
If thou kiss not me?

Abre o artigo com A Confissão de Amor de Jean-Honoré Fragonard (1732-1806). A pintura pertence a um pequeno ciclo actualmente conhecido por Os Progressos do Amor. Aproveito e reúno-os sob esta bandeira poética de Shelley.

Temos primeiro A Perseguição ou A Insistência, como se preferir.

Segue-se-lhe O Encontro.

Temos depois A Confissão de Amor, mostrada a abrir o artigo, e finalmente surge-nos O Amor Coroado.

Esta pintura, reflexo e retrato de um mundo em extinção, goza hoje de pouca reputação, mais por razões ideológicas que estéticas. Olhada sem preconceito vê-se como a atmosfera de um mundo feliz reina nela para a eternidade, e sobre quem olha derrama um banho de prazer.

Há evidentemente a abordagem escolástica: pintura característica do período rococó bla, bla. Os interessados encontram as considerações em qualquer manual de iniciação à história da pintura e poupo os leitores à redundância. Apenas chamo a atenção para o equilíbrio na composição das massas pictóricas de onde provém o dinamismo e movimento que dá às pinturas uma vivacidade perene.

Amanhã haverá outro assunto.

Paisagens campestres de John Constable (1776-1837) e soneto de John Keats (1795-1821)

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Embalado pela atmosfera campestre exalada dos poemas de Bulhão Pato que li para a escolha anterior, convido os leitores à poesia das paisagens pintadas por John Constable (1776-1837). Pintura herdeira da escola holandesa do século XVII onde a gente humilde ganha direito de cidadania, é a harmonia da vida campestre que aqui se faz assunto.
A algumas das pinturas de John Constable acrescento um detalhe especialmente eloquente da sua atmosfera poética.

Sendo esta pintura contemporânea da poesia de John Keats (1795-1821), o génio que morreu jovem, aproveito e transcrevo o seu soneto XVII.

Happy is England! I could be content
To see no other verdure than its own;
To feel no other breezes than are blown
Through its tall woods with high romances blent:

Yet do I sometimes feel a languishment
For skies Italian, and an inward groan
To sit upon an Alp as on a throne,
And half forget what world or worldling meant.

Happy is England, sweet her artless daughters;
Enough their simple loveliness for me,
Enough their whitest arms in silence clinging:

Yet do I often warmly burn to see
Beauties of deeper glance, and hear their singing,
And float with them about the summer waters.

Veja-se agora o detalhe. do motivo central.

Detalhe do motivo à direita.

Nesta pintura de 1810 é já a pincelada de Claude Monet que se insinua.

Termina aqui esta bucólica viagem pela vida no campo inglês no início do século XIX.

Bulhão Pato no Monte da Caparica

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Apenas parcialmente reunida em livro, é vasta a produção poética de Bulhão Pato (1828-1912) espalhada pelas mais diversas publicações. O poeta aguarda ainda o antologiador sem preconceitos, que com gosto e munido de paciência, vasculhe a obra dispersa e dê a ler ao leitor de hoje aquele punhado de poemas que garantem ao autor um lugar na poesia portuguesa.

Da poesia que conheço de Bulhão Pato (1828-1912), e não é fácil conhece-la toda, tão dispersa ela se encontra, o melhor guarda-se no Livro do Monte publicado em 1896, e neste, os poemas arrumados em Geórgicas.

De Livro do Monte (e refere-se a Monte da Caparica onde o poeta viveu retirado os últimos anos de vida) escolho apenas dois poemas, e com eles espero abrir a curiosidade ao leitor para uma obra de qualidade desigual onde abundam as banalidades poéticas, mas onde uma mão cheia de poemas existem que apetece conhecer.

Deliberada homenagem a Virgílio, mas onde sobretudo o eco de Hesíodo e do seu Trabalhos e Dias se ouve, tanto os poemas escolhidos, como outros, são poemas sobre a terra e os homens. Sementeiras e colheitas, trabalhos e actividades de sobrevivência fazem a matéria poética das obras. Comovem e surpreendem, sobretudo quando se constata a constância do clima e prevalência das dificuldades das gentes na vida agarrada ao húmus.

Estiagem

O mar quieto. — Apenas vem
A vaga da maré cheia,
Na Costa, que fica além,
Roçar a espuma na areia.

Rufando as penas doiradas,
Vão as calhandras, palreiras,
Preando insectos, coitadas,
Por não ter um grão nas leiras!

O azul é denso; a luz viva.
O sol referve no mar,
Como na estação estiva.
Virá o tempo a mudar?

O lavrador pensativo –
Menos triste co’a esperança
Que este calor excessivo
Traga, de facto, a mudança.

Mas, quando rompeu o dia,
Era nítido o recorte
Do sol, e uma aragem fria
Vinha do lado do norte!

A lua, nas pontas curvas,
Não t em um ligeiro véu.
E nunca as estrelas turvas!
E sempre lúcido o céu!

Depois de passado Abril,
D’um ano assim não me lembro;
Nem a orvalhada subtil
Cai! — E vamos em Novembro!

Levou a ferocidade
Da canícula fatal
A minguada novidade
Da vinha e mais do olival!

É que o sol triunfador,
Em seis meses de estiagem,
Vai, como um conquistador,
Devastando na passagem.

*

O ganhão da Beira alpestre
Chegou da nativa serra,
Para o trabalho campestre.
Mas como amanhar a terra?

Não entra com ela o arado!…
Queimado o tojal nos montes!
Morto à fome e à sede o gado!
Secas ribeiras e fontes!

O sol alto a dardejar
Abrasou o prado e a selva!
E o cordeirito a balar
Sem ter um palmo de relva!

Não se ouvem cantar as noras…
Nem, no alfobre, umas verduras!…
Vêm repontando as auroras,
E cada em vêm mais puras!

*

O frio aumenta. Já silva,
Às refregas, o aquilão!
Nem no valado uma silva,
Para o cabrito saltão!

Atrás da vaca a novilha,
Já não pula na lezíra!
A mãe não sustenta a filha
Que o leite se lhe exaurira!

O boi bravo, na campina
Erguendo a fronte, pareçe
Que à Providência Divina,
Mugindo faz uma prece!

E até se dirá que tem,
Claramente, proferido
O próprio nome da mãe,
No doloroso mugido!

Sempre coisas misteriosas
Nas mais triviais verdades!…
Porque são joviais as rosas,
E tão tristes as saudades?

Canta, à tarde, um passarito —
E aquele singelo idílio,
Quem lho inspirou, do infinito,
Como um poema a Virgílio?

Trezentos mil eruditos,
Bem debruados de ateus,
Pondo esforços inauditos,
Não deitam abaixo Deus!

*

O lavrador crê e espera!
Hoje o sol ao mergulhar,
Levava enturvada a esfera,
E ao largo bradava o mar!

Morto o vento, de repente!
Tejo dentro, a calmaria!
Uma barra no ponente,
E, do nascente, a lestia!

Já retoiçaram na areia
Os maçaricos da praia.
Trouxe um circo a lua cheia:
Não tarda que a chuva caia!

Novembro de 1890

Inverno

Rondou o vento ao Sul, e é ríspida a lufada!
Temos, não há que ver, a invernia pegada!

Se nos fins do Verão caíram as brandiras,
Nem meia enxada d’água entrou nas terras duras.

Aqui há chão barroso, e chão tão apertado,
Que, sem água a fartar, não vai nem a machado!

Em baixo, ao rés da Costa, às folhas salgadias,
Qualquer chuva lhes basta, — e mau, se a s ventanias
Começam de puxar, que as vagas altaneiras
Alagam, no junção, vinhas e sementeiras!

Nas cepas, isso então — e mais depois das cavas —
É praga que lhes dá, o sal das ondas bravas!

Bem raro o lavrador tem dias sem cuidados;
No monte o tempo é um, outro nos descampados.
Só lhe leva a melhor, no rude labutar,
O marinheiro audaz, nas solidões do mar!

Mas no campo, contudo, há dias prazenteiros:
Agora o céu nublado, e os fortes aguaceiros,
São para o agricultor como manhã de rosas!

Venham chuvas ainda, e venham mais copiosas.
Por todo esse Alentejo, aos novos chaparrais,
Águas a desabar, são rara vez de mais!

Pode a cheia inundar os prados da lezíra;
Índa que venha a flux, por enquanto, não tira;

Com que respeite o gado, e deixe bom nateiro,
Não é nunca fatal antes de entrar Janeiro!

Cogitando em tudo isto, o lavrador, agora,
Alegre esfrega as mãos — e caia chuva, embora!

Porém o cavador, que vive só a enxada,
Como se há de amanhar, faltando-lhe a soldada?

Na casa do ganhão é que a invernia é séria!…
Uns dias sem trabalho… e basta! Entra a miséria!

Na cidade, no campo, enfim, seja onde for,
Para os pobres, a vida é quase sempre a dor!

Vamos a espairecer! Saltou o vento ao norte;
É lâmina da serra, e do mais fino corte!

Lá vem abrindo o sol! Toda a amplidão domina!
Só do vale o saúda o incenso da neblina!

Que animação no campo! A rápida caudal
Serpeia, pela encosta, em cobras de cristal!

No mimoso da várzea, e nas viçosas faldas,
Abrem floritas d’ouro, em chão que é d’esmeraldas!

Os cavalos beirões, de guizos chocalheiros,
Vêm de Sesimbra à venda; atrás os recoveiros.

Tiram o arado os bois. Nos altos e chapadas,
Desbravando o torrão, fuzilam as enxadas!

O passaredo alegre a revoar em bando;
Ao rés da choupanita as crianças brincando;
A mãe, sempre a lidar, ao sol corando as roupas,
Batidas ao sopé das desfolhadas choupas!

O carro gémeos chega dos estevais,
Carregado de tojo e ramas de pinhais.

As vacas no relvão, cabrilhas pelas fragas,
E toda azul ferrete, ao longe, a flor das vagas!

No escuro d’esta lua, a caça entra de certo.
Já saltou galinhola! O mato fica perto.

Deixai que alteie o sol, senão, com a geada,
Vão-se as ventas dos cães, e não fazemos nada!

Anos, e labutar, e lagrimas!… embora!
Auras da juventude, aspiro-vos agora!
Parece que, rompendo o sol na imensidade,
Rompe dentro de mim o sol da mocidade!

*

Na jardia e no souto, a entrada não foi grande;
Nem um pombo trocaz a procurar a glande!

Porém não falta ensejo,— até à Conceição,
Para entrada real, é próspera a sazão!

Agora palestrar, em volta da lareira,
Ao grato crepitar dos tors da azinheira!

Aperta, lá por fora, o límpido nordeste;
Caça de arribação gosta do tempo agreste.

Com sessenta e mais quatro, e quatro bem contados,
Inda rompo com alma os matagais fechados!

Quero que encham ver amanhã, praguentos,
Como bate o montado, a minha Tullia, a ventos!

Novembro de 1895

Rostos do século XVI por Lucas Cranach o Velho (1472-1553)

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Mestre singular, Lucas Cranach o Velho (1472-1553), transporta-nos, com a sua pintura, a um mundo social peculiar para o homem do século XXI. Nos gestos, feições e adereços dos retratados surge-nos uma humanidade que estranhamos possa ter existido. Deixo-vos com alguns desses personagens.

Depois desta colecção de beldades chega a vez dos homens. Haverá leitoras do blog capazes de se apaixonar por algum deles? Se tal acontecer, façam-mo saber, por favor!

E que me dizeis do imperador Carlos V, dono do mundo enquanto viveu?

Diz o ditado e é provavelmente verdade: cada ovelha encontra a sua parelha, e os casais que vêem a seguir só podem ter sido felizes.

Encerro esta viagem com os retratos dos Duques da Saxónia em 1514. O duque, garboso moço no seu fato listrado com boina, de fazer inveja à mais delirante moda dos nossos dias, e a duquesa uma santa senhora, certamente, a julgar pelo olhar que nos envia. O conjunto acompanhado por cães a condizer!

Sem mais comentários!

A prostituição na poesia (5) – Niquita de Flandres, meretriz egrégia: poema de António Beccadelli, o Panormita (1394-1471)

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A mais antiga profissão do mundo tem sido assunto poético, de que o século XIX deixou numerosos exemplos, muitos deles de um moralismo repelente. As referências poéticas mais antigas à prostituição feminina são raras.
Este poema de António Beccadelli (1394-1471) dito o Panormita por ter nascido em Palermo na Sicília, conta-nos, pela vós da protagonista, do orgulho de uma profissão onde os juízos morais estão ausentes: apenas a ênfase no gosto de sexo por dinheiro se nota. Leia-se então este Epitáfio de Niquita de Flandres, meretriz egrégia

Se te demoras lendo estes gravados versos,
conhecerás a croia que é sepulta aqui.
Da pátria em que nasci, por vãs promessas falsas,
raptada fui, donzela, em tenra idade, um dia.
A Flandres me gerou, andei o mundo inteiro
até estabelecer-me nesta Siena plácida.
Meu nome, e conhecido, era Niquita. Fui
a estrela do bordel, entre as demais primeira.
Fui bela e fui graciosa, e perfumada, e tinha
mais alvo do que a neve o deslumbrante corpo.
Taís nenhuma em Siena melhor que eu movia
em sábios movimentos as vibrantes ancas.
Os homens minha língua em beijos exauria
dados ainda depois de consumado o gozo.
Coberto era o meu leito de uma colcha vasta,
e a minha mão aos nervos percutia branda.
Para lavar-me tinha uma bacia sempre,
e os flancos me lambia cadelinha mansa.
Uma noite, assaltou-me um bando de rapazes,
que me teve cem vezes, sem me saciarem.
Fui doce e amena, e a muitos minha arte era grata.
Mas mais doce me foi o quanto me pagavam.

Tradução de Jorge de Sena.

Entre os grandes mestres da pintura ocidental antiga, foi o nosso já conhecido Lucas Cranach o Velho (1472-1553), quem deixou algumas pinturas figurando a prostituição. Uma abre o artigo, com outras o fecho.

Termino com o que é um caso raro na pintura ocidental, a figuração provável da prostituição maculina.

As Mulheres – versão de Gabriele D’Annunzio

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Depois de tão longa ausência, regresso com As Mulheres, fonte de tanta da nossa alegria, contadas pela poesia de Gabriele D’Annunzio (1863-1938).

Serenas, alumiadas, tão frágeis, outras reacendendo-se de amor até à medula, de todas nos fala o poema, E maravilhosamente / eu as conheci.
(ao lembrá-lo ainda as veias me tremem de ternura) diz-se no poema com que esta evocação inominada termina.

As Mulheres

Houve mulheres serenas,
de olhos claros, infinitas
no seu silêncio,
como largas planícies
onde um rio ondeia;
houve mulheres alumiadas
de ouro, émulas do Estio
e do incêndio,
semelhantes a searas
luxuriantes
que a foice não tocou
nem o fogo devora,
sequer o dos astros sob um céu
inclemente;
houve mulheres tão frágeis
que uma só palavra
as tornava escravas,
como no bojo de uma taça
emborcada
se aprisiona uma abelha;
outras houve, de mãos incolores,
que todo o excesso extinguiam
sem rumor;
outras, de mãos subtis
e ágeis, cujo lento
passatempo
era o de insinuar-se entre as veias,
dividindo-as em fios de meada
e tingindo-as de azul marinho;
outras, pálidas, cansadas,
devastadas pelos beijos,
mas reacendendo-se de amor
até à medula,
com o rosto em chamas
entre os cabelos oculto,
as narinas como
asas inquietas,
os lábios como
palavras de festa,
as pálpebras como
violetas.
E houve outras ainda.
E maravilhosamente
eu as conheci.

Depois desta evocação passemos à memória de um especial encontro relatado nesta primeira elegia romana:

[Da Primeira Elegia Romana]

Quando (ao lembrá-lo ainda as veias me tremem de ternura)
meio ébrio saí de sua casa amada,

através de ruas efervescentes dos últimos labores do dia,
de rumores, carruagens, roucos gritos,

súbito senti, do fundo peito, toda a alma elevar-se,
cupidamente, e no alto vi, sobre os estreitos muros,

romper a ígnea zona por onde o crepúsculo do Outono,
céu húmido e vastas nuvens, incendiava Roma.

Nem da hora nem dos lugares me sentia consciente. Seria
um sonho falaz a possuir-me? Ou todas minhas cônscias

alegrias eram coisas a produzir em torno um insólito lume?
Não o sabia. Mas todas as coisas produziam lume.

Imóveis, ardiam as nuvens, e, qual sangue de monstros
assassinados, de seus flancos rompam rubros rios.

Abre o artigo com uma reprodução de O nascimento de Vénus de Sandro Botticelli (1445-1510), êxtase primeiro de uma remota visita em 1978 à Galeria Uffizi em Florença.

A pretexto, ou provocado por ela, escreveu Jorge de Sena os Quatro sonetos a Afrodite Anadiómena publicados a fechar o livro Metamorfoses (Lisboa, 1963) e que convido o leitor a procurar.

Termino o artigo com 2 detalhes desta deslumbrante pintura:

Primeiro a personificação de Vénus (ou Afrodite para os Gregos), a deusa do amor,

depois o par  Zéfiro e Aura soprando a suave brisa que empurra para terra a deusa e a faz reinar entre os homens.

Noticia bibliográfica

Os poemas de Gabriele D’Annunzio (1863-1938) são traduções de David Mourão-Ferreira, publicados no volume III de Vozes da Poesia Europeia, Colóquio Letras nº165.

Sobre a vida e a obra de Sandro Botticelli, continua sem rival o estudo de Ronald Lightbown, publicado pela primeira vez em 1978 e sucessivamente reeditado, possuindo algumas das edições luxuoso complemento fotográfico.

Este Nascimento de Vénus possui 172,5 x 278,5 cm e terá sido pintado entre 1484-86.