As Feiticeiras de Teócrito

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Ando agora bastante de metro e por estes dias o anúncio agressivo de uma popular revista feminina tem-me retido o olhar enquanto espero o comboio.

O cartaz publicita a capa do número mais recente. Suponho até que a revista tem lugar cativo naquele placard pois já lá têm estado anunciadas outras capas.

A publicação parece ser dirigida à mulher desinibida(?) de hoje, e traz habitualmente três chamadas de capa para assuntos interiores: um sobre o trabalho, outro sobre o corpo e a moda, e um terceiro sobre sexo e relações amorosas; o que também acontece nesta capa.

Para este último tópico temos então no cartaz que agora me ocupa, a afirmação de que a magia negra existe mesmo.

Assim afixado, não tenho duvidas! De resto, como acontece com todos os assuntos humanos, é ou foi, também ele, matéria de poesia. Ilustro a afirmação com Teócrito, poeta alexandrino que viveu no século III a.C.. No seu poema As Feiticeiras temos o assunto poeticamente abordado.

O pretexto para a magia negra é no poema, tal como agora será na maior parte dos casos, suponho, um abandono incompreendido e não aceite:

Que foi que se passou? Sei que tudo perdi,
e que sou, para ele, ainda menos que nada.

E perante esta incompreensão desenvolve-se um forte desejo de reencontro:

Ave, traze até mim o jovem meu amado.

É desse desejo que surge a tentação de tudo fazer para recuperar o objecto amado:

Vou queimar lentamente este ramo de louro:
vede como crepita! Ei-lo já todo em brasa…
Assim fique também aquele por quem morro!
E que eu o veja ardendo, aqui, em minha casa!

Não sei se a magia negra de que a revista fala se limitará a queimar ramos de louro, ou caminhará por ingredientes de maior poder sugestivo, mas para o caso pouco importa. Quero apenas realçar nesta conversa, continuidades culturais que mostram quanto estamos próximo da humanidade distante, e para as quais nem sempre nos encontramos despertos, embrulhados nos gadjets do nosso quotidiano, com a ilusão de progresso à nossa volta.

Vamos então a As Feiticeiras numa tradução de David Mourão-Ferreira.

Traze-me os filtros, anda! E as folhas de loureiro.
Envolve-me essa taça em lã avermelhada,
a ver se encanto assim o cruel estrangeiro
que há doze dias já me deixa abandonada…

Ave, traze até mim o jovem meu amado.

Vou queimar lentamente este ramo de louro:
vede como crepita! Ei-lo já todo em brasa…
Assim fique também aquele por quem morro!
E que eu o veja ardendo, aqui, em minha casa!

Ave, traze até mim o jovem meu amado.

Derreter esta cera? Assim me ajude a lua,
para que se derreta a sua própria alma!
Ou que eu o veja então rondar a mina rua,
como nas minhas mãos esta onda não pára!

Ave, traze até mim o jovem meu amado.

Já o mar se calou; já o vento caiu…
Mas a dor, no meu peito, é que nunca se cala.
Que foi que se passou? Sei que tudo perdi,
e que sou, para ele, ainda menos que nada.

Ave, traze até mim o jovem meu amado.

Esta formosa versão de David Mourão-Ferreira traduz apenas o inicio do poema e não ficaria satisfeito comigo se vos deixasse apenas com ela.

O poema na sua totalidade cobre a gama emocional em torno da paixão e da perda, onde o recurso à magia negra é o instrumento para garantir o ancestral desejo de absoluto no amor: se não é para mim, não será para mais ninguém. Antes mutilado ou morto. E para o conseguir, os recursos de feitiço são variados como se espera.

O poema desenvolve a narrativa em duas partes: na primeira seguimos as etapes da processo de feitiço e na segunda tomamos conhecimento do desenvolvimento da paixão até ao desenlace que provoca esta busca do sobrenatural.

Aí vai toda a história, vertida em português por Albano Martins.

As feiticeiras

Onde estão os meus ramos de loureiro? Téstilis, vai buscá-los!
Onde estão os filtros? Coroa a taça
de fina lã de ovelha tingida de púrpura,
e assim prenderei o amado que me tortura.
Há já doze dias que o miserável
não vem ver-me, nem se preocupa
em saber se estou morta ou viva…

Alvéola, traz a minha casa aquele homem!

Primeiro consome-se a farinha no fogo.
Espalha-a, Téstilis. Desgraçada, onde tens a cabeça?
Também para ti, ó infame, sou motivo de troça?
Espalha e diz ao mesmo tempo:”Espalho
os ossos de Délfis”.

Alvéola, traz a minha casa aquele homem!

Délfis desgosta-me, e eu, por causa de Délfis,
queimo loureiro. Tal como este crepita
ao contacto com o fogo e arde tão rapidamente
que nem sequer vemos a cinza, que assim
se consuma na chama a carne de Délfis.

Alvéola, traz a minha casa aquele homem!

Tal como derreto esta cera com a ajuda da deusa,
que assim o mínimo Délfis se derreta de paixão.
E como este disco de bronze gira,
movido por Afrodite, que assim
ele venha a girar à minha porta.

Alvéola, traz a minha casa aquele homem!

Já se calou o mar, calaram-se os ventos, mas não se cala
a dor no meu peito. Ardo completamente
por aquele que, pobre de mim, me fez, não sua esposa,
mas mulher má e desonrada.

Alvéola, traz a minha casa aquele homem!

Délfis perdeu esta franja da sua capa; agora
desfio-a e atiro-a ao fogo destruidor.
Aí, terrível Eros, porque sugaste
todo o sangue negro do meu corpo
como sanguessuga do pântano?

Alvéola, traz a minha casa aquele homem!

Esmagarei um lagarto e amanhã levar-lhe-ei
uma poção venenosa. Téstilis, vai agora
apanhar as ervas, amassa-as na soleira
da sua casa, antes que a noite acabe, cospe nelas
e diz:”Esmago os ossos de Délfis!”

Alvéola, traz a minha casa aquele homem!

Agora que estou só, como hei-de chorar o meu amor?
Por onde hei-de começar? Quem me trouxe este mal?…

Diz-me, soberana Lua, donde veio o meu amor.

Eu vi-o, e logo o delírio me tomou, logo se me sobressaltou
e feriu o coração, infeliz. A minha beleza murchou
e não prestei mais atenção àquela procissão.
Não sei como voltei para casa: um mal devorador
destroçou-me e estive prostrada no leito
durante dez dias e dez noites.

Diz-me, soberana Lua, donde veio o meu amor.

A minha tez tinha frequentemente
A cor do açafrão, os cabelos caíam-me todos
da cabeça, só me restavam
os ossos e a pele. A quem não recorri ou que casa
de que velha feiticeira não visitei? Mas nada
me aliviou, e o tempo passava, fugaz.

Diz-me, soberana Lua, donde veio o meu amor.

E assim revelei à escrava os meus verdadeiros propósitos:
“Vai, Téstilis, e arranja-me um remédio
para este penoso mal. O míndio apossou-se de mim
completamente, pobre de mim. Vai pois espreitar
a palestra de Timageto. Ele costuma ir lá,
ele gosta de estar ali.

Diz-me, soberana Lua, donde veio o meu amor.

E, quando o vires sozinho, faz-lhe um sinal
às escondidas e diz-lhe: “Simeta chama-te”,
e trá-lo aqui. Assim lhe disse, ela foi
e trouxe o reluzente Délfis a minha casa. E eu,
mal o vi transpor com pé ligeiro
a soleira da minha porta,

(Diz-me, soberana Lua, donde veio o meu amor.)

fiquei toda mais fria do que a neve,
da fronte escorreu-me um suor
semelhante a húmidas gotas de orvalho,
não conseguia articular palavra
nem sequer esses balbúcios que as crianças
pronunciam no sono, quando falam com as mães.
E o meu belo corpo ficou tão rígido
como o duma boneca.

Diz-me, soberana Lua, donde veio o meu amor.

Este homem insensível viu-me, fixou os olhos no chão,
sentou-se no mediu leito e, já sentado, disse
“Na verdade, Simeta, não te antecipaste mais
do que eu mesmo um dia destes me antecipei na corrida
ao encantador Filino: recebi o convite para vir a tua casa
no momento em que vinha para cá”.

Diz-me, soberana Lua, donde veio o meu amor.

…Assim ele falou. E eu, ingénua, pegando-lhana mão,
Fi-lo reclinar-se no macio leito. Em breve os nossos corpos
em contacto um com o outro, aqueceram, as nossas caras
tornaram-semais quentes do que antes
e cochichávamos docemente. Enfim,
para não alongar a história, querida Lua,
o mais importante aconteçeu
e atingimos ambos o que desejávamos.

E agora? Há já doze dias que não o vejo.
Não será que tem outros prazeres
e se esqueçeu de mim?
Mas hoje vou prendê-lo com os meus filtros.
Se insistir em fazer-me sofrer,
às portas do Hades – pelas Moiras! – terá que chamar.
Tal é, declaro-o, o poder dos venenos
que para ele guardo numa caixinha
e que, ó soberana, me ensinou um estrangeiro da Assíria.

Mas tu, radiante, ó soberana, dirige os teus potros para o Oceano.
Eu carregarei o meu fardo como até aqui.
Saúdo-te, ó Lua de face resplandecente! E saúdo também
as outras estrelas, que acompanham o carro da Noite tranquila.

Não se esgota a poesia de Teócrito, neste poema. Criador do bucolismo em poesia, de tão numerosos e belos exemplos entre nós, aos seus idílios um dia virei. Como qualifica Frederico Lourenço: “Teócrito é o poeta do travo amargo que o amor deixa na boca de quem ama“. Com este As feiticeiras a afirmação é verdadeira. Veremos mais tarde como com outros poemas se confirma.

Abre o artigo com uma famosa pintura de Richard Hamilton (1922) – O que é que faz as nossas casas hoje tão diferentes, tão atractivas, expoente do movimento popart que pelos anos 60 tomou conta do mercado de arte nos EUA e um pouco por todo o ocidente. Deixo a(o) leitor(a) o cuidado da ligação ao objecto pretexto da feitiçaria do poema, ou até da magia negra de hoje.

Tratou-se o popart de um movimento estético em resposta às formas de comunicação vindas das artes gráficas, num percurso porventura inverso ao seguido nos anos 20 e 30, em que as vanguardas estéticas com o construtivismo e a influência da Bauhaus à cabeça, ditaram novas formas na comunicação gráfica.

São exemplo desta influência algumas das primeiras capas da revista Vogue, que tão decisiva viria a ser numa certa ideia da mulher sobre si própria, ao longo do século XX.

A natureza efémera destas publicações fá-las hoje objectos pouco conhecidos. Aqui vos deixo uma pequena amostra.

Um epigrama de Marcial

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Foi no reboliço intelectual que acompanhou e precedeu a reforma protestante, que o nu integral surgiu na pintura do norte da Europa: Alemanha, Flandres e Holanda. É então que as pinturas com Adão e Eva, das quais já arquivei no blog algumas de Lucas Cranach, se tornam frequentes. No entanto, a que parece ser a primeira figuração moderna da mulher em nu frontal é a pintura que abre este artigo e representará, não Adão e Eva, mas Neptuno e Anfitrite, datada de 1516 e pintada por Jan Gossaert (1462/70-1533/41).

Como se vê, se a mulher surge nua, o homem ainda aparece com os genitais cobertos por um estojo peniano de conforto duvidoso, digo eu. Passarão poucos anos para que o homem, nu, figurando Adão, surja na pintura ocidental, para de novo voltar a desaparecer até aos nossos dias.

A propósito de estojos penianos, vale talvez a pena referir que Claude Levi-Strauss no seu belo livro Saudades do Brasil, mostra um habitante de uma aldeia Bororo, junto ao rio São Lourenço (afluente do rio Cuiabá) usando um estojo equivalente. E refere ainda como em dias de festa este estojo se ornamentava com um mosaico de plumas e uma bandeirola de palha brasonada com os sinais distintivos do clã do portador. É sempre fascinante percorrer as oscilações históricas dos costumes em torno do corpo.

Na conversa que aqui deixei ontem a propósito da argumentação clássica acerca da posição “cavalo de Heitor” mais nenhum aspecto das actividades em torno do sexo foi tratado. Mas os prazeres de mão também contam e o nosso professor Forberg a eles não se eximiu:

Não despraz tampouco aos que no vigor da idade e aptos a acariciar as raparigas, ter amantes cujas mãos não fiquem preguiçosas na cama e cujos dedos saibam o que têm a fazer nessa regiões onde Amor esconde as suas setas.

Cita Aristófanes, passa a Ovídio (43a.C.-18(?)d.C.), e da sua obra Amores dá-nos:

A esta coisa aqui, a minha amada não se furtou, mesmo,
a despertá-la, com doces movimentos da sua mão
Livro III, 7, 73-74

e de seguida, referindo-se a Ulisses no epigrama 104 do Livro XI, de Marcial, transcreve:

e, embora o Ítaco roncasse, a púdica Penélope
sempre lá no sítio costumava ter a mão.

Neste epigrama de Marcial dá-se conta de uma lista de queixas sobre o que a mulher não lhe faz por comparação com o que gozam casais notáveis.

No outro dia, ao ver o filme Terapia a dois, com Meryl Streep e Tommy Lee Jones, numa das cenas de consultório quando o psicólogo se virou para Tommy Lee Jones e lhe perguntou: que desejos tem que a sua mulher não satisfaz?, esperei que saísse uma lista semelhante ao cardápio de Marcial. Afinal não, só gostava, e queria, que ela lhe chupasse o pénis, o que a partir daí condiciona o desenvolvimento da história, é bem de ver.

Mas voltando a Marcial, a lista é mais longa e aí a têm:

Livro XI, Epigrama 104

Põe-te a andar, mulher, ou partilha os meus hábitos:
eu não sou nenhum Cúrio nem Numa nem Tácio
Eu aprecio as noites passadas entre alegres copos:
tu sais à pressa da mesa, sisuda, mal bebes a água.
Tu gostas do escuro: a mim agrada-me brincar
com a lâmpada a ver e romper as ilhargas com luz a entrar.
Faixas e túnicas e negros mantos te escondem,
mas comigo mulher alguma está nua o bastante.
Cativam-me os beijos que imitam a doçura das pombas:
tu dás-me os mesmos que dás à tua avó pela manhã.
Nem com meneios nem palavras nem dedos te dignas
ajudar ao acto – é como se servisses incenso ou vinho puro;
masturbavam-se atrás da porta os escravos frígios,
sempre que a esposa montava Heitor a cavalo
e, embora o Ítaco roncasse, a púdica Penélope
sempre lá no sítio costumava ter a mão.
Não deixas que te encabe: mas Cornélia dava-o a Graco,
Júlia a Pompeio, e Pórcia a ti, Bruto,
quando o Dardânio não misturava ainda, como escanção,
as doces bebidas, Juno fazia de Ganimedes para Jove.
Se gostas de austeridade, deixo-te ser Lucrécia até mesmo
o dia inteiro: mas à noite quero uma Laís.

 

Noticia bibliográfica

A tradução do epigrama de Marcial é de Delfim Ferreira Leão e pertence ao tomo IV dos Epigramas de Marcial publicados por Edições 70, Lisboa 2004.

A tradução dos dois versos de Amores, de Ovídio, é de Carlos Ascenso André, na edição de Livros Cotovia, Lisboa 2006

A propósito de “Cavalo de Heitor” com Ovídio e Apuleio

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Vale sempre a pena regressar aos clássicos, e agora, quando As cinquenta sombras de Grey provoca tamanha excitação, mais razões se conjugam.

Um filosofo alemão, Friedrich-Karl Forberg (1770-1848), discípulo e colaborador de Fichte, o filósofo do Idealismo Alemão, entreteve as horas de ócio compondo uma curiosa obra em latim, De figuris Veneris, que poderia traduzir livremente por As posições do Amor, onde compilou com o método e zelo proverbiais aos alemães, um catálogo extenso das posições documentadas na literatura clássica para a pratica do sexo. Do livro fez uma pequena e cuidada edição que ofereceu a amigos.
Tão erudito, saboroso e estimulante livro, não sei se faria hoje as delicias dos leitores de Grey, mas a prática de muito do que lá se contém leva ao paraíso quem a ela se decidir. O nosso circunspecto professor, com a ironia com que escreve todo o livro, avisa-nos a abrir:

Pretendemos passar em revista as diversas metamorfoses de Vénus: não todas, na verdade; como seria possível enumerar as mil invenções (Ovídio, Arte de Amar, I, 433-434), as mil posições a que ousa recorrer a engenhosa satisfação do prazer? mas pelo menos as que, atendo-se a géneros determinados, se prestam facilmente a uma classificação metódica. Não vá, leitor curioso, criar falsas expectativas. Não somos homem em busca de gloria, desvendando o resultado de experiências pessoais, ou de ensaios novamente tentados neste género de esgrima: nem fizemos ainda a nossa própria aprendizagem.

Não vou evidentemente transladar o livro para aqui, o que transformaria o blog num êxito comparável às ditas sombras, mas apenas apresentar uma posição que aprecio especialmente. Chama-lhe o professor “Cavalo de Heitor” e descreve-a do seguinte modo:

Chegamos agora à figura segundo a qual o homem deitado de costas tem comércio com a mulher curvada sobre ele. A mulher, estando os papeis trocados, faz então a função de cavaleiro, o homem a de cavalo. Chamava-se a esta posição o cavalo de Heitor.

Cita, primeiro Marcial (40-102(?)), com o epigrama 104 do Livro XI

sempre que a esposa montava Heitor a cavalo

e continua o nosso autor, passando a Ovídio (43a.C.-18(?)d.C.) e à sua Arte de Amar, dando conta de que esta posição não poderia dar prazer a Andrómaca (a amazona (esposa) que montava Heitor) por esta ser de grande estatura, motivo porque duvida que tal posição lhe fosso agradável ou mesmo possível. É às mulheres de pequena estatura que a posição convém, sublinha.

Da minha experiência posso dizer que a estatura não tem sido impedimento de prazer sublime.

Mas voltando a Ovídio, a quem tal consideração se deve, temos então os versos 779-780 do Livro III de Arte de Amar:

a de baixa estatura deve montar como a cavalo; por ser muito alta, nunca
a tebana [Andrómaca] casada com Heitor adoptou a posição do cavaleiro;

Duvido que o poeta lá tivesse estado para ver. Deve estar a falar por puro preconceito.

Ainda tratando desta posição para o amor, continua o nosso filósofo a viagem pelos autores clássicos que a referiram, e passa a Horácio e a uma das suas sátiras. Avança depois por Aristófanes (447a.C. – 383a.C.) e no verso 677 de Lisistrata encontra a afirmação:

A mulher gosta de montar a cavalo, e aí mantêm-se firme.

Concluímos esta equitação amorosa com Apuleio (125-170) e uma cena entre Lúcio e Fótis extraída de O burro de ouro, Livro 2, 16. 4:

… subiu para o leito, instalou-se devagar sobre mim e começou a manobrar rapidamente para cima e para baixo, agitando o ágil torso com movimentos lúbricos, até saciar-me com o fruto desta Vénus de baloiço.

Feita esta viagem pela posição de cavalgada, tantas vezes heróica, não me despeço sem convidar o leitor(a) a um pouco de Arte de Amar de Ovídio, mais precisamente aos versos 703 e seguintes do Livro II da obra, com a convicção de que nas obras de que aqui tratei se fala com a sabedoria que a experiência acumulou, do que à humanidade mais importa.

Eis que um leito acolheu, cúmplice, dois amantes;
diante das portas fechadas da alcova, ó Musa, sustém o passo!
Espontaneamente, sem a tua ajuda, palavras mil hão-de ser ditas,
e não se quedará inerte no leito a mão esquerda;
hão-de os dedos inventar que fazer naqueles sítios
em que às escondidas, mergulha as suas setas o Amor.
Isto mesmo fez outrora em Andrómaca o valente Heitor;
não era apenas para a guerra que ele tinha préstimo;
fazia-o, também, na sua cativa de Lirnesso, o grande Aquiles,
quando se deixava cair, cansado de inimigos, sobre a suavidade do leito;
com aquelas mãos, ó Briseida, consentias tu que te tocasse,
elas que estavam sempre encharcadas de sangue frígido;
era isso mesmo, porventura, ó mulher desregrada, que te dava prazer?
Que o teu corpo o percorressem mãos triunfantes?
Acredita no que te digo: não vê apressar-se o prazer de Vénus,
mas sim, discretamente, fazer por retardá-lo e demorá-lo.
Quando descobrires o ponto onde a mulher se excita ao ser tocada,
não seja o pudor a impedir-te de o tocar;
Verás os seus olhos a brilhar de fogo cintilante,
Como, tantas vezes, o sol reflecte a luz na superfície da água;
far-se-ão ouvir queixumes, far-se-á ouvir um encantador sussurro
e doces gemidos e palavras apropriadas ao prazer.
Mas não deixes para trás a tua parceira, desfraldando mais largas velas,
nem seja mais rápido o ritmo dela que o teu;
avançai para a meta ao mesmo tempo; então, será pleno o prazer,
quando, par a par, jazerem, vencidos, a mulher e o homem.
Esta é a prática que deves cultivar, sempre que te seja dado desfrutar livremente
do ócio, e o medo te não forçar a aventuras furtivas;

Sábios conselhos, e quem os seguir garante uma vida de prazer. Limitam-se a dizer em verso antigo o que a moderna sexologia escreve em espessos tratados.

Noticia bibliográfica

Para O burro de ouro, Livro 2, 16. 4, a tradução é de Delfim Leão;
Para Arte de amar, a tradução é de Carlos Ascenso André
Ambos os livros são edição de Livros Cotovia, Lisboa

Para a obra do professor Forberg não conheço nenhuma edição disponível, encontrando-se a que possuo de há muito esgotada.

O Expresso do Oriente

 

Em maré de policiais, ocorrem-me algumas aventuras com cenário no celebérrimo comboio Expresso do Oriente de que vos falaria com deleite, não fora o adiantado da hora. Por exemplo, Oriente-Expresso na tradução de Jorge de Sena do romance de Graham Greene, Stamboul Train, prodígio de suspense e emoção na pintura dos desenganos da vida, ou o romance de Agatha Christie do mesmo nome, naquele crime colectivo de fazer justiça pelas próprias mãos, quando a legalidade jurídica se mostrou incapaz de a concretizar, ou ainda no encantatório filme de Hitchcock, A Desaparecida, espionagem entertecida de ingénua história de amor, encanto do meu filho desde os quatorze anos. Iria por aí adiante mas paro em A Máscara de Dimitrius, romance inesquecivel de Eric Ambler e filme de Jean Negulesco com o personagem sinistro de Peter Lorre que pelos anos 30 e 40 deu corpo ao medo em cinema desde M de Fritz Lang. Longas histórias de mundos imaginados em torno de um comboio lendário, umas vezes personagem de parte inteira, outras apenas presença de passagem, como em Single & Single de LeCarré, e que aqui evoco com estes posters convidativos ao sonho de nele viajar, procurando os posters uma atmosfera nos antípodas das histórias que antes lembrei.

 

Outono enfermiço (doente) de Guillaume Apollinaire

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Os livros têm destes acasos...
O Outono mostrou-se hoje em Lisboa, quando já vai avançado no calendário. Para entreter a chuva que caía tirando-me a vontade de sair, procurei um policial como remédio.
Nem todas as traduções de policiais são legíveis, algumas há que precisamos largar à segunda página, e por isso vasculhei por um qualquer título em tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, laboriosa tradutora a quem devo largas horas de prazer de leitura em português, graças a traduções escorreitas e tanto quanto possível, fieis ao original. Calhou encontrar um livro com epígrafe do Wozzeck (Alban Berg), coisa assaz rara, que me espevitou a curiosidade.
Termina o livro com um poema de Guillaume Apollinaire (1880-1918), Automne malade, perfeitamente adequado ao dia e por isso o transcrevo numa tradução da poetisa Maria Gabriela Llansol (1931-2008).

Outono mortiço e adorado
Morrerás quando o furacão soprar nos rosais
Quando nos vergéis
Tiver nevado

Pobre outono
Morres em brancura e em riqueza
De neve e de frutos maduros
No fundo do céu
Planam gaviões
Sobre os nixes ingénuos e anões de cabelos verdes
Que nunca amaram

Nas orlas de lá longe
Os veados bramiram

Oh! estação não sabes quanto gosto dos teus rumores
Os frutos caindo sem serem apanhados
O vento e a floresta que choram folha a folha
Todas as suas lágrimas no outono

As folhas
Que pisam
Um comboio
Que passa
A vida
Que se vai

Perante esta tradução vale a pena conhecer o original, e para os leitores que dominem o francês, aqui fica:

Automne malade

Automne malade et adoré
Tu mourras quand l’ouragan soufflera dans les roseraies
Quand il aura neigé
Dans les vergers

Pauvre automne
Meurs en blancheur et en richesse
De neige et de fruits mûrs
Au fond du ciel
Des épreviers planent
Sur les nixes nicettes au cheveux verts et naines
Qui n’ont jamais aimé

Aux lisières lointaines
Les cerfs ont bramé

Et que j’aime ô saison que j’aime tes rumeurs
Les fruits tombant sans qu’on les cueille
Le vent et la forêt qui pleurent
Toutes leurs larmes en automne feuile à feuille

Les feuilles
Qu’on foule
Un train
Qui roule
La vie
S’écoule

O poema de Llansol é quase um novo poema, e as subis alterações acabam por criar em português uma magia nova que o francês talvez nem tenha. Apenas um exemplo:

Aux lisières lointaines  /  Nas orlas de lá longe

A tradução de Fernanda Pinto Rodrigues no policial (Tsing-Boum de Nicolas Freeling) é fragmentada, pois limita-se a traduzir o que do poema o romance contém. No entanto, como é tão mais fiel em português, aqui a arquivo.

Para o exemplo citado atrás, traduz Fernanda Pinto Rodrigues:

Aux lisières lointaines  / Nos bosques longínquos

o que mostra eloquentemente a diferença entre traduzir e escrever poesia em tradução, parece-me.

Vejamos então a tradução próxima do literal:

Outono doente e adorado
Morrerás quando a borrasca soprar nos roseirais
Quando tiver nevado
Nos pomares

Pobre Outono
Morres em brancura e opulência
De neve e frutos maduros…
Alto no céu
Pairam gaviões

Nos bosques longínquos
Os cervos bramaram…

Como eu amo, ó estação, como amo os teus rumores
Os frutos a cair sem serem colhidos
O vento e a floresta a chorar
Todas as lágrimas no Outono, folha a folha

Noticia bibliográfica

A tradução de Maria Gabriela Llansol e transcrição do original do poema encontram-se em MAIS NOVEMBRO QUE SETEMBRO, edição bilingue de poemas de Guillaume Apollinaire publicado por Relógio d’Água, Lisboa 2001

A tradução de Fernanda Pinto Rodrigues encontra-se em Herança de um Inferno, nº289 da colecção Vampiro, Livros do Brasil, Lisboa, s/d.

LISBOA por Sophia de Mello Breyner Andresen

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Regressa a poesia ao blog com Lisboa no olhar e poemas de Sophia.

Nestes dias em que a raiva ameaça explodir, se

Ao virar da esquina de súbito avistamos
Irisado o Tejo:
Então se tornam
Leve o nosso corpo e a alma alada

e talvez por isso, as manifestações percorrem as ruas no sossego de uma indignação comedida, deixando o pasmo no olhar de quem as segue na televisão.

TEJO

Aqui e além em Lisboa – quando vamos
Com pressa ou distraídos pelas ruas
Ao virar da esquina de súbito avistamos
Irisado o Tejo:
Então se tornam
Leve o nosso corpo e a alma alada

Julho de 1994

O sortilégio da cidade a que não resiste quem, vindo do sul,  a vê surgir do cimo das pontes, ou do barco que cruza o rio, conta-o Sophia em LISBOA.

LISBOA

Digo:
“Lisboa”
Quando atravesso – vinda do sul – o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do seu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão noturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas –
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construida ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
– Digo para ver

1977

Os poemas foram transcritos de OBRA POÉTICA, Edição de Carlos Mendes de Sousa, Editorial Caminho, Lisboa, 2011.

Coligem-se pela primeira vez nesta edição poemas dispersos por antologias e revistas. Entre eles surge esta obra-prima, onde a magia da palavra faz a musica do “poema” quase absoluto “Pura paixão que não conhece olvido”:

Oblíquo Setembro de equinócio tarde
Que se alonga e depara e vê e mira
Tarde que habita o estar do seu parado
Sol de Sul pelo sal detido

Assim o estar aqui e o haver sido
Quasi a mesma que sou no tão perdido
Morar aberto de um Setembro antigo
Com o mar desse morar em meu ouvido

Pura paixão que não conhece olvido

 

Revelação e Obrigado – 2 poemas Pedro Homem de Melo

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Nestas coisas de amor quando a adolescência floresce, a confusão com a revelação do sexo instala-se, e deslindar sentimentos e prazer de descoberta nem sempre é tarefa fácil e bem conseguida.
Não será o caso neste primeiro poema da inspiração de Pedro Homem de Melo (1904-1984), Revelação: a duvida não existe. O poema é apenas um acto de agradecimento à mulher que o fez, adolescente, entrar no paraíso.

Revelação

Tinha quarenta e cinco… e eu, dezasseis…

Na minha fronte, indómitos anéis

Vinham da infância, saltitando ainda.

 

Contavam dela: — Já falou a Reis!

Tinha quarenta e cinco… e eu, dezasseis…

 Formosa? Não. Mais que formosa: linda.

 

Seu olhar diz: Seja o que o Amor quiser

A verdade planta que os meus dedos tomem!

 

Pela última vez foste mulher…

E eu, pela vez primeira, fui um homem!

No poema que segue não há confusão entre amor e sexo. É amor sem sexo:

Pela ausência da carne em teu afecto,

e o poeta agradece com um

Obrigado

Por teu sorriso anónimo, discreto,
(O meu país é um reino sossegado…)
Pela ausência da carne em teu afecto,
Obrigado!

Pelo perdão que o teu olhar resume,
Por tua formosura sem pecado,
Por teu amor sem ódio e sem ciúme,
Obrigado!

Por no jardim da noite, a horas más,
A tua aparição não ter faltado,
Pelo teu braço de silêncio e paz,
Obrigado!

Por não passar um dia em que eu não diga
— Existo, sem futuro e sem passado.
Por toda a sonolência que me abriga…
Obrigado!

E tu, que hoje és meu íntimo contraste,
Ó mão que beijo por me haver cegado!
Ai! Pelo sonho intacto que salvaste,
Obrigado! Obrigado! Obrigado!

Por aqui fica a poesia hoje, no delicado recorte de um poeta mal-amado.

Aniversário — o poema e a canção de Patxi Andión

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Quando a poesia fala do amor que se extinguiu, poucas vezes lemos a desolação do que resta como nestes versos:

que al igual que tu y que yo

ni se importan … ni se estorban

se soportan amistosas,

mas… mas no son… no son una cancion.

É um desencanto quase patético o que nos transmite este Aniversario, poema de Patxi Andión (1947), por ele cantado de forma pungente e tornado famoso nos anos setenta.

Para a sua leitura e audição vos convido. Na sua concisão está lá tudo. Mais palavras são supérfluas.

Aniversario

Veinte años de estar juntos

esta tarde se han cumplido.

Para ti… flores… perfumes,

para mi… algunos libros.

No te he dicho grandes cosas

porque… porque no me habrian salido,

ya sabes… cosas de viejos…

requemor de no haber sido.

Hace tiempo que intentamos

abonar nuestro destino.

Tu… tu bajabas la persiana

Yo… yo apuraba mi ultimo vino.

Hoy, en esta noche fria,

casi… como ignorando el sabor

del la soledad compartida,

quise hacerte una cancion

para cantar… despacito,

como se duerme a los niños.

Y… y ya ves, solo… palabras

sobre notas me han salido

que al igual que tu y que yo

ni se importan … ni se estorban

se soportan amistosas,

mas… mas no son… no son una cancion.

Que helada que está esta casa…

Sera… sera que esta cerca el rio…

o… o es que estamos en invierno

y estan llegando… estan llegando

los frios.

Dois sonetos de Louise Labé com pasteis de Rosalba Carriera

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Acompanhando ainda este tempo de verão, tempo de amor em que o desejo se incendeia, trago as palpitações contadas por Louise Labé (1524-1566):

Eu vivo, eu morro: e ardo e arrefeço;
com extremo calor tremo de frio;

Para depois nos dizer dos extremos da paixão:

E tal como jubilo me entristeço;
no prazer o tormento ludibrio;

Incluída na história da literatura entre as grandes amorosas por Rainer Maria Rilke, Louise Labé (1524-1566), é poetisa de obra curta (24 sonetos, 3 elegias) e  é pouco conhecida entre nós.

Com biografia hipotética, levantam hoje alguns especialistas a dúvida sobre quem escreveu os seus sonetos, um pouco à semelhança do que aconteceu com a prosa erótica atribuída à nossa Luísa Sigea. Mas neste último caso a mulher existiu, a obra é que não é de sua autoria.
Um dia, talvez lá vá, a esse gineceu que foi a corte da Infanta D. Maria onde Luisa Sigea viveu. Hoje fiquemos com dois sonetos de Louise Labé (1524-1566), em tradução de David Mourão-Ferreira, e respectivos originais.

Eu vivo, eu morro: e ardo e arrefeço;
com extremo calor tremo de frio;
do mundo ora me espanto ora me rio;
no meio da alegria me aborreço.

E tal como jubilo me entristeço;
no prazer o tormento ludibrio;
meu bem não dura mais que um arrepio;
e seco de repente, e reverdeço.

Assim me arrasta o inconstante Amor:
e quando penso que é maior a dor,
sem saber como sinto-me liberta.

Mas do alto a que subo deslumbrada
novamente me vejo despenhada,
quando julgo a fortuna mais que certa.

Original

Je vis, je meurs: je me brûle et me noie,
J’ai chaud extrême en endurant froidure;
La vie m’est et trop molle et trop dure,
J’ai grands ennuis entremélés de joie.

Tout en un coup je ris et je larmoie,
Et en plaisir maint grief tourment j’endure,
Mon bien s’en va, et à jamais il dure,
Tout en un coup je sèche et je verdoie.

Ainsi Amour inconstamment me mène
Et, quand je pense avoir plus de douleur,
Sans y penser je me trouve hors de peine.

Puis, quand je crois ma joie être certaine,
Et être en haut de mon désiré heur,
Il me remet en mon premier malheur.

Outro soneto

Ó belos olhos, ó cílios descidos,
Ó suspiros, ó lagrimas choradas,
Ó negras noites em vão tão esperadas,
Ó dias vãos em vão tão repetidos!

Ó tristes prantos, ó tempos perdidos,
Ó desejos, ó penas sufocadas,
Ó mil mortes em redes enlaçadas,
Ó males p’ra meu mal acontecidos!

Ó riso, ó fronte, ó braços, mãos e dedos!
Ó alaúde, ó viola dos enredos:
Archotes sois para uma fêmea arder!

De ti me queixo, que tais fogos tendo,
Só a mim afinal deixas ardendo,
Sem faúlha nenhuma te atingir!

Original

Ô beaux yeux bruns, ô regards détournés,
Ô chauds soupirs, ô larmes épandues,
Ô noires nuits vainement attendues,
Ô jours luisants vainement retournée !

Ô tristes plaints, ô désirs obstiné,
Ô temps perdu, ô peines dépendues,
Ô milles morts en mille rets tendues,
Ô pires maux contre moi destiné !

Ô ris, ô front, cheveux bras mains et doigts !
Ô luth plaintif, viole, archet et voix !
Tant de flambeaux pour ardre une femelle !

De toi me plains, que tant de feux portant,
En tant d’endroits d’iceux mon coeur tâtant,
N’en ai sur toi volé quelque étincelle.

Abre o artigo com uma alegoria ao Verão de Rosalba Carriera (1675-1757), um retrato feminino a pastel.
Foi uma grata surpresa a descoberta dos retratos de Rosalba Carriera, certa tarde em Veneza, quando, na minha estultícia, julgava já não haver pintura a descobrir.
A fragilidade do pastel e a textura particular da superfície pintada, dão aos retratos um vivacidade e presença que quase nos apetece começar a falar com quem nos olha. A obra da pintora não é vasta e ao que conheço restringe-se ao retrato. Acrescento para quem a não conhece as restantes estações do ano no pastel da pintora.
São sempre mulheres de seio à vista, e é uma alegoria correcta, pois são elas quem nos acompanha em todas as estações da vida. Em realidade ou em fantasia.

Primavera

Outono

Inverno

Termino com o belo Apolo para consolo das leitoras do blog

 

Homenagem a Gogol por Marc Chagall

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Quem conheça a obra de Nicolau Gogol (1806-1852) apreciará a eloquência com que esta se encontra condensada na pintura que Marc Chagall (1887-1985) lhe dedicou. Encontramos nela o indizível da surpresa e de non sense que os textos de Gogol nos dão, numa harmonia de colorido em que ao amarelo solar da envolvente, que é ao fim e ao cabo o efeito da escrita no leitor,  se acrescenta o negro do humor com que o personagem pintado se veste.
Há na pintura uma atmosfera de ternura poética que emana da delicada elegância da figura humana, na sua imponderável curvatura, a que a surpresa da escala do palácio, suportado na ponta do sapato, acrescenta a dimensão de absurdo que a escrita do mestre contém.