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Acompanhando ainda este tempo de verão, tempo de amor em que o desejo se incendeia, trago as palpitações contadas por Louise Labé (1524-1566):

Eu vivo, eu morro: e ardo e arrefeço;
com extremo calor tremo de frio;

Para depois nos dizer dos extremos da paixão:

E tal como jubilo me entristeço;
no prazer o tormento ludibrio;

Incluída na história da literatura entre as grandes amorosas por Rainer Maria Rilke, Louise Labé (1524-1566), é poetisa de obra curta (24 sonetos, 3 elegias) e  é pouco conhecida entre nós.

Com biografia hipotética, levantam hoje alguns especialistas a dúvida sobre quem escreveu os seus sonetos, um pouco à semelhança do que aconteceu com a prosa erótica atribuída à nossa Luísa Sigea. Mas neste último caso a mulher existiu, a obra é que não é de sua autoria.
Um dia, talvez lá vá, a esse gineceu que foi a corte da Infanta D. Maria onde Luisa Sigea viveu. Hoje fiquemos com dois sonetos de Louise Labé (1524-1566), em tradução de David Mourão-Ferreira, e respectivos originais.

Eu vivo, eu morro: e ardo e arrefeço;
com extremo calor tremo de frio;
do mundo ora me espanto ora me rio;
no meio da alegria me aborreço.

E tal como jubilo me entristeço;
no prazer o tormento ludibrio;
meu bem não dura mais que um arrepio;
e seco de repente, e reverdeço.

Assim me arrasta o inconstante Amor:
e quando penso que é maior a dor,
sem saber como sinto-me liberta.

Mas do alto a que subo deslumbrada
novamente me vejo despenhada,
quando julgo a fortuna mais que certa.

Original

Je vis, je meurs: je me brûle et me noie,
J’ai chaud extrême en endurant froidure;
La vie m’est et trop molle et trop dure,
J’ai grands ennuis entremélés de joie.

Tout en un coup je ris et je larmoie,
Et en plaisir maint grief tourment j’endure,
Mon bien s’en va, et à jamais il dure,
Tout en un coup je sèche et je verdoie.

Ainsi Amour inconstamment me mène
Et, quand je pense avoir plus de douleur,
Sans y penser je me trouve hors de peine.

Puis, quand je crois ma joie être certaine,
Et être en haut de mon désiré heur,
Il me remet en mon premier malheur.

Outro soneto

Ó belos olhos, ó cílios descidos,
Ó suspiros, ó lagrimas choradas,
Ó negras noites em vão tão esperadas,
Ó dias vãos em vão tão repetidos!

Ó tristes prantos, ó tempos perdidos,
Ó desejos, ó penas sufocadas,
Ó mil mortes em redes enlaçadas,
Ó males p’ra meu mal acontecidos!

Ó riso, ó fronte, ó braços, mãos e dedos!
Ó alaúde, ó viola dos enredos:
Archotes sois para uma fêmea arder!

De ti me queixo, que tais fogos tendo,
Só a mim afinal deixas ardendo,
Sem faúlha nenhuma te atingir!

Original

Ô beaux yeux bruns, ô regards détournés,
Ô chauds soupirs, ô larmes épandues,
Ô noires nuits vainement attendues,
Ô jours luisants vainement retournée !

Ô tristes plaints, ô désirs obstiné,
Ô temps perdu, ô peines dépendues,
Ô milles morts en mille rets tendues,
Ô pires maux contre moi destiné !

Ô ris, ô front, cheveux bras mains et doigts !
Ô luth plaintif, viole, archet et voix !
Tant de flambeaux pour ardre une femelle !

De toi me plains, que tant de feux portant,
En tant d’endroits d’iceux mon coeur tâtant,
N’en ai sur toi volé quelque étincelle.

Abre o artigo com uma alegoria ao Verão de Rosalba Carriera (1675-1757), um retrato feminino a pastel.
Foi uma grata surpresa a descoberta dos retratos de Rosalba Carriera, certa tarde em Veneza, quando, na minha estultícia, julgava já não haver pintura a descobrir.
A fragilidade do pastel e a textura particular da superfície pintada, dão aos retratos um vivacidade e presença que quase nos apetece começar a falar com quem nos olha. A obra da pintora não é vasta e ao que conheço restringe-se ao retrato. Acrescento para quem a não conhece as restantes estações do ano no pastel da pintora.
São sempre mulheres de seio à vista, e é uma alegoria correcta, pois são elas quem nos acompanha em todas as estações da vida. Em realidade ou em fantasia.

Primavera

Outono

Inverno

Termino com o belo Apolo para consolo das leitoras do blog

 

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