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Ando agora bastante de metro e por estes dias o anúncio agressivo de uma popular revista feminina tem-me retido o olhar enquanto espero o comboio.

O cartaz publicita a capa do número mais recente. Suponho até que a revista tem lugar cativo naquele placard pois já lá têm estado anunciadas outras capas.

A publicação parece ser dirigida à mulher desinibida(?) de hoje, e traz habitualmente três chamadas de capa para assuntos interiores: um sobre o trabalho, outro sobre o corpo e a moda, e um terceiro sobre sexo e relações amorosas; o que também acontece nesta capa.

Para este último tópico temos então no cartaz que agora me ocupa, a afirmação de que a magia negra existe mesmo.

Assim afixado, não tenho duvidas! De resto, como acontece com todos os assuntos humanos, é ou foi, também ele, matéria de poesia. Ilustro a afirmação com Teócrito, poeta alexandrino que viveu no século III a.C.. No seu poema As Feiticeiras temos o assunto poeticamente abordado.

O pretexto para a magia negra é no poema, tal como agora será na maior parte dos casos, suponho, um abandono incompreendido e não aceite:

Que foi que se passou? Sei que tudo perdi,
e que sou, para ele, ainda menos que nada.

E perante esta incompreensão desenvolve-se um forte desejo de reencontro:

Ave, traze até mim o jovem meu amado.

É desse desejo que surge a tentação de tudo fazer para recuperar o objecto amado:

Vou queimar lentamente este ramo de louro:
vede como crepita! Ei-lo já todo em brasa…
Assim fique também aquele por quem morro!
E que eu o veja ardendo, aqui, em minha casa!

Não sei se a magia negra de que a revista fala se limitará a queimar ramos de louro, ou caminhará por ingredientes de maior poder sugestivo, mas para o caso pouco importa. Quero apenas realçar nesta conversa, continuidades culturais que mostram quanto estamos próximo da humanidade distante, e para as quais nem sempre nos encontramos despertos, embrulhados nos gadjets do nosso quotidiano, com a ilusão de progresso à nossa volta.

Vamos então a As Feiticeiras numa tradução de David Mourão-Ferreira.

Traze-me os filtros, anda! E as folhas de loureiro.
Envolve-me essa taça em lã avermelhada,
a ver se encanto assim o cruel estrangeiro
que há doze dias já me deixa abandonada…

Ave, traze até mim o jovem meu amado.

Vou queimar lentamente este ramo de louro:
vede como crepita! Ei-lo já todo em brasa…
Assim fique também aquele por quem morro!
E que eu o veja ardendo, aqui, em minha casa!

Ave, traze até mim o jovem meu amado.

Derreter esta cera? Assim me ajude a lua,
para que se derreta a sua própria alma!
Ou que eu o veja então rondar a mina rua,
como nas minhas mãos esta onda não pára!

Ave, traze até mim o jovem meu amado.

Já o mar se calou; já o vento caiu…
Mas a dor, no meu peito, é que nunca se cala.
Que foi que se passou? Sei que tudo perdi,
e que sou, para ele, ainda menos que nada.

Ave, traze até mim o jovem meu amado.

Esta formosa versão de David Mourão-Ferreira traduz apenas o inicio do poema e não ficaria satisfeito comigo se vos deixasse apenas com ela.

O poema na sua totalidade cobre a gama emocional em torno da paixão e da perda, onde o recurso à magia negra é o instrumento para garantir o ancestral desejo de absoluto no amor: se não é para mim, não será para mais ninguém. Antes mutilado ou morto. E para o conseguir, os recursos de feitiço são variados como se espera.

O poema desenvolve a narrativa em duas partes: na primeira seguimos as etapes da processo de feitiço e na segunda tomamos conhecimento do desenvolvimento da paixão até ao desenlace que provoca esta busca do sobrenatural.

Aí vai toda a história, vertida em português por Albano Martins.

As feiticeiras

Onde estão os meus ramos de loureiro? Téstilis, vai buscá-los!
Onde estão os filtros? Coroa a taça
de fina lã de ovelha tingida de púrpura,
e assim prenderei o amado que me tortura.
Há já doze dias que o miserável
não vem ver-me, nem se preocupa
em saber se estou morta ou viva…

Alvéola, traz a minha casa aquele homem!

Primeiro consome-se a farinha no fogo.
Espalha-a, Téstilis. Desgraçada, onde tens a cabeça?
Também para ti, ó infame, sou motivo de troça?
Espalha e diz ao mesmo tempo:”Espalho
os ossos de Délfis”.

Alvéola, traz a minha casa aquele homem!

Délfis desgosta-me, e eu, por causa de Délfis,
queimo loureiro. Tal como este crepita
ao contacto com o fogo e arde tão rapidamente
que nem sequer vemos a cinza, que assim
se consuma na chama a carne de Délfis.

Alvéola, traz a minha casa aquele homem!

Tal como derreto esta cera com a ajuda da deusa,
que assim o mínimo Délfis se derreta de paixão.
E como este disco de bronze gira,
movido por Afrodite, que assim
ele venha a girar à minha porta.

Alvéola, traz a minha casa aquele homem!

Já se calou o mar, calaram-se os ventos, mas não se cala
a dor no meu peito. Ardo completamente
por aquele que, pobre de mim, me fez, não sua esposa,
mas mulher má e desonrada.

Alvéola, traz a minha casa aquele homem!

Délfis perdeu esta franja da sua capa; agora
desfio-a e atiro-a ao fogo destruidor.
Aí, terrível Eros, porque sugaste
todo o sangue negro do meu corpo
como sanguessuga do pântano?

Alvéola, traz a minha casa aquele homem!

Esmagarei um lagarto e amanhã levar-lhe-ei
uma poção venenosa. Téstilis, vai agora
apanhar as ervas, amassa-as na soleira
da sua casa, antes que a noite acabe, cospe nelas
e diz:”Esmago os ossos de Délfis!”

Alvéola, traz a minha casa aquele homem!

Agora que estou só, como hei-de chorar o meu amor?
Por onde hei-de começar? Quem me trouxe este mal?…

Diz-me, soberana Lua, donde veio o meu amor.

Eu vi-o, e logo o delírio me tomou, logo se me sobressaltou
e feriu o coração, infeliz. A minha beleza murchou
e não prestei mais atenção àquela procissão.
Não sei como voltei para casa: um mal devorador
destroçou-me e estive prostrada no leito
durante dez dias e dez noites.

Diz-me, soberana Lua, donde veio o meu amor.

A minha tez tinha frequentemente
A cor do açafrão, os cabelos caíam-me todos
da cabeça, só me restavam
os ossos e a pele. A quem não recorri ou que casa
de que velha feiticeira não visitei? Mas nada
me aliviou, e o tempo passava, fugaz.

Diz-me, soberana Lua, donde veio o meu amor.

E assim revelei à escrava os meus verdadeiros propósitos:
“Vai, Téstilis, e arranja-me um remédio
para este penoso mal. O míndio apossou-se de mim
completamente, pobre de mim. Vai pois espreitar
a palestra de Timageto. Ele costuma ir lá,
ele gosta de estar ali.

Diz-me, soberana Lua, donde veio o meu amor.

E, quando o vires sozinho, faz-lhe um sinal
às escondidas e diz-lhe: “Simeta chama-te”,
e trá-lo aqui. Assim lhe disse, ela foi
e trouxe o reluzente Délfis a minha casa. E eu,
mal o vi transpor com pé ligeiro
a soleira da minha porta,

(Diz-me, soberana Lua, donde veio o meu amor.)

fiquei toda mais fria do que a neve,
da fronte escorreu-me um suor
semelhante a húmidas gotas de orvalho,
não conseguia articular palavra
nem sequer esses balbúcios que as crianças
pronunciam no sono, quando falam com as mães.
E o meu belo corpo ficou tão rígido
como o duma boneca.

Diz-me, soberana Lua, donde veio o meu amor.

Este homem insensível viu-me, fixou os olhos no chão,
sentou-se no mediu leito e, já sentado, disse
“Na verdade, Simeta, não te antecipaste mais
do que eu mesmo um dia destes me antecipei na corrida
ao encantador Filino: recebi o convite para vir a tua casa
no momento em que vinha para cá”.

Diz-me, soberana Lua, donde veio o meu amor.

…Assim ele falou. E eu, ingénua, pegando-lhana mão,
Fi-lo reclinar-se no macio leito. Em breve os nossos corpos
em contacto um com o outro, aqueceram, as nossas caras
tornaram-semais quentes do que antes
e cochichávamos docemente. Enfim,
para não alongar a história, querida Lua,
o mais importante aconteçeu
e atingimos ambos o que desejávamos.

E agora? Há já doze dias que não o vejo.
Não será que tem outros prazeres
e se esqueçeu de mim?
Mas hoje vou prendê-lo com os meus filtros.
Se insistir em fazer-me sofrer,
às portas do Hades – pelas Moiras! – terá que chamar.
Tal é, declaro-o, o poder dos venenos
que para ele guardo numa caixinha
e que, ó soberana, me ensinou um estrangeiro da Assíria.

Mas tu, radiante, ó soberana, dirige os teus potros para o Oceano.
Eu carregarei o meu fardo como até aqui.
Saúdo-te, ó Lua de face resplandecente! E saúdo também
as outras estrelas, que acompanham o carro da Noite tranquila.

Não se esgota a poesia de Teócrito, neste poema. Criador do bucolismo em poesia, de tão numerosos e belos exemplos entre nós, aos seus idílios um dia virei. Como qualifica Frederico Lourenço: “Teócrito é o poeta do travo amargo que o amor deixa na boca de quem ama“. Com este As feiticeiras a afirmação é verdadeira. Veremos mais tarde como com outros poemas se confirma.

Abre o artigo com uma famosa pintura de Richard Hamilton (1922) – O que é que faz as nossas casas hoje tão diferentes, tão atractivas, expoente do movimento popart que pelos anos 60 tomou conta do mercado de arte nos EUA e um pouco por todo o ocidente. Deixo a(o) leitor(a) o cuidado da ligação ao objecto pretexto da feitiçaria do poema, ou até da magia negra de hoje.

Tratou-se o popart de um movimento estético em resposta às formas de comunicação vindas das artes gráficas, num percurso porventura inverso ao seguido nos anos 20 e 30, em que as vanguardas estéticas com o construtivismo e a influência da Bauhaus à cabeça, ditaram novas formas na comunicação gráfica.

São exemplo desta influência algumas das primeiras capas da revista Vogue, que tão decisiva viria a ser numa certa ideia da mulher sobre si própria, ao longo do século XX.

A natureza efémera destas publicações fá-las hoje objectos pouco conhecidos. Aqui vos deixo uma pequena amostra.

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