Veneza pelo pincel de Francesco Guardi

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São irresistíveis as pinturas de Francesco Guardi (1712-1793) sobre Veneza. Fazendo uso daquele peculiar colorido que transforma as vistas de Veneza em imagens de sonho, a técnica de pintura, em que edifícios e gente são apenas insinuados na sua mancha identificável, transmite simultaneamente o prazer do reconhecimento e da estranheza, convidando o olhar a demoradamente nelas passear. Deixo-vos com uma pequena escolha.

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Veneza em 2 poemas de Aleksandr Blok e pintura de Canaletto

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Canaletto - 1732 a

À imagem iconográfica de Canaletto (1697-1768) com que abre o artigo, dando a ver a Veneza do século XVIII, que em grande parte hoje se conserva, acrescento 2 poemas de Aleksandr Blok (1880-1921), poeta russo, o mais velho daquela geração que sucumbiu ao avançar da revolução soviética para o estalinismo, triturando todos os movimentos artísticos de vanguarda que a revolução permitira e desenvolvera.

Veneza II

Pelas lagunas, frio vento.
Gôndolas – mudas tumbas.
Esta noite, jovem e doente,
Sob a coluna do leão sucumbes.

Na torre, com uma canção de chumbo,
Os gigantes dão a hora noturna.
Na laguna lunar Marcos mergulha
Sua iconóstase soturna.

Nas sombras das galerias dos palácios,
À palidez da lua –  passos.
Salomé, esgueirando-se, passeia
Minha cabeça em sangue nos seus braços.

Tudo dorme – palácios, canais, gente.
Só o passo deslizante da princesa
Só – sobre o peito negro – uma cabeça
Contempla a treva em torno com tristeza.

Veneza III

O barulho da vida já não dura.
A maré de inquietudes se quebranta.
E no veludo negro o vento canta
Minha vida futura.

Talvez despertarei noutro lugar,
Quem sabe nesta terra entristecida,
E algumas vezes hei de suspirar
Pensando em sonho nesta vida?

Mercador, padre, arrais, neto de um doge,
Quem me fará viver? Que criatura
Há de forjar com minha mãe futura
Na noite escura a vida que me foge?

Quem sabe até, ao escutar o canto
Da jovem veneziana, comovido,
O meu futuro pai por entre o encanto
Da canção já me tenha pressentido?

Quem sabe em algum século vindouro
A mim, criança, a sorte me consente
Abrir as pálpebras, tremulamente,
Junto à coluna do leão de ouro?

Mãe, o que canta este áfono instrumento?
Talvez a fantasia já te embale
E me protejas com teu santo xale
Da laguna e do vento?

Não! O que é, o que foi – tudo está vivo!
Fantasias, visões, ideias – tudo!
A onda do oceano recidivo
As despeja na noite de veludo!

Traduções de Augusto de Campos, in poesia da recusa, Perspectiva, São Paulo, 2006.

Apenas a biografia e a peculiar disposição do poeta Aleksandr Blok explica esta atmosfera de morte que percorre os seus poemas evocando Veneza, os quais integram os Versos Italianos de 1909.

Provavelmente a cidade que ele conheceu não foi a Veneza que em meados dos anos 70 conheci e me apaixonou como a mais bela das cidades, onde a ausência de ruído automóvel e o som dos passos no empedrado de calçadas e pontes fazia o mundo parecer de uma magia fora do meu tempo.

Hoje, a avalanche turística permanente fez desaparecer grande parte dessa magia, mas há um encanto que permanece e faz desejar voltar a Veneza, sempre.

Termino com mais 3 vistas de Veneza pelo pincel mágico de Canaletto.

Canaletto - 1728

Canaletto - 1732 b

Canaletto - 1732

Mulheres na pintura de Ingres (II) e ainda Le violon d’Ingres

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Ingres_Jean-Auguste-Dominique-Half-figure_of_a_Bather

Porque a vida não é apenas metafísica, tenho que confessar uma fraqueza: a contemplação na cama de uma mulher nua, de costas, onde as formas dos ombros à anca se desenvolvem como se de um violoncelo se tratasse, é música para os meus olhos, e todo o corpo vibra. As mãos percorrem em caricias aquelas suaves curvas e o concerto em que tudo termina deixo à vossa imaginação adivinhar.

Sendo a natureza naturalmente diversa e pródiga, permitindo este encanto musical em muitas das suas belas criaturas, há no entanto uma fotografia famosa de Man Ray (1890-1976) que consagra este esplendor da forma feminina, talvez de forma definitiva,

Man Ray - Le violon d'Ingres

e que não por acaso, o mestre, em homenagem às belas mulheres pintadas por Ingres, chamou Le violon d’Ingres.

A homenagem é justíssima pois à harmonia de formas, pose e colorido de cada uma das pinturas que a seguir arquivo, só falta o nosso “arco” para fazer a música soar.

Olhai e sentí:

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-The_Bather

Certamente encantado com a obra, ei-la de novo com outro fundo:

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-The_Small_Bather

e como o que realmente importa é o que está na frente, aí ficam alguns inspiradores resultados.

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-Study_for_Roger_freeing_Angelica

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-The_Birth_of_Venus

Como O Banho Turco e A Fonte podem ser encontrados algures no blog, termino com A Grande Odalisca

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-The_Grand_Odalisque

Uma nota a propósito da foto de Man Ray, Le violon d’Ingres de 1924

Le violon d’Ingres era, não sei se ainda em uso, uma expressão idiomática francesa para exprimir ocupação de ócio, ou hobby.

A foto, cuja modelo é Kiki de Montparnasse, pode oferecer a leitura a partir do título, de que se o hobby de Ingres era tocar violino, o de Man Ray seria ocupar o tempo livre com Kiki, de resto modelo de outras fabulosas fotos do mestre. De caminho, cada um de nós pode embalar a imaginação nesta espécie de ocupação do tempo livre, tocando as cordas de quem mais lhe apetecer.

 

A parábola dos cegos de Pieter Brueghel o Velho, e o poema de William Carlos Williams

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Parábola dos cegos 01A par dos valores intrinsecamente plásticos na pintura de Pieter Brueguel o Velho (1525-1569), que nos encantam o olhar pelo movimento e colorido das cenas pintadas, existe um lado documental sobre aquele mundo do século XVI longe a vida da corte, que transforma a contemplação desta pintura num mergulho na história e vicissitudes da condição humana.

Escolho para hoje a ilustração da parábola dos cegos, que no terrível da sua representação nos compunge e empurra para a reflexão sobre o que nos nossos dias de semelhante existe.

Enquanto leitura metafórica, a pintura remete-nos para a cegueira com que cada homem caminha na vida, seguindo os outros e não buscando por si o seu caminho, num percurso em que o tropeçar nos erros e no desconhecido é inevitável. Esta cegueira metafórica, no contexto da época do pintor, é sobretudo moral e religiosa, a qual conduz à miséria da vida terrena.

O poeta norte-americano William Carlos Williams (1883-1963) reflectiu em poesia, num famoso livro de 1962, e prémio Pulitzer, Pictures from Brueghel and Other Poems, sobre esta obra. No final transcrevo o poema no original, The Parable of the Blind, desconhecendo se existe alguma versão portuguesa dele.

Agora alguns detalhes de tão fabuloso quadro.

Parábola dos cegos 03

Parábola dos cegos 091

Parábola dos cegos 08

Parábola dos cegos 09

Parábola dos cegos 092

The Parable of the Blind

This horrible but superb painting
the parable of the blind
without a red

in the composition shows a group
of beggars leading
each other diagonally downward

across the canvas
from one side
to stumble finally into a bog

where the picture
and the composition ends back
of which no seeing man

is represented the unshaven
features of the des-
titute with their few

pitiful possessions a basin
to wash in a peasant
cottage is seen and a church spire

the faces are raised
as toward the light
there is no detail extraneous

to the composition one
follows the others stick in
hand triumphant to disaster

 

Um poema de Wu-ti em versão de António Ramos Rosa

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Archipenko - Torso no espaço

Aí, Senhora minha,
que deixei de ouvir
o roçar da seda
do vosso vestido.

Já o pó se acama
sobre o chão dos pátios
do palácio onde
não mais passeais.

As folhas mortas
vão-se amontoando
diante da porta
p’ra sempre fechada.

E o silêncio do
palácio nunca mais
será quebrado pelo
lindo riso vosso.

Meu pobre coração
não encontra sossego
e, sem esperança alguma,
em vão por vós chama.

Versão de António Ramos Rosa (1924), in Rosa do Mundo, 2001 poemas para o futuro.

Embora sem informação editorial nesta versão, suponho que se trata de um poema do 6º imperador da dinastia Han, Wu-ti, que viveu entre 157-87 a. C, e não de c. 200 como assinalado na edição portuguesa.

O poema terá sido escrito em lembrança da sua amante Li Fu-jen, quando esta morreu.

Acrescento a versão inglesa do poema por Arthur Waley, a qual, no confronto com o português, permite saborear melhor a beleza da versão de António Ramos Rosa, na quase imponderável leveza do vocabulário, transmitindo-nos aquela espécie de silêncio que a ausência convoca.

LI FU-JEN

The sound of her silk skirt has stopped.
On the marble pavement dust grows.
Her empty room is cold and still
Fallen leaves are piled against the doors.
Longing for that lovely lady
How can I bring my aching heart to rest?

A imagem que abre o artigo mostra uma pintura/colagem de Archipenko – Torso no espaço.

Archipenko (1887-1964), conhecido sobretudo como escultor do Construtivismo soviético, possui também algumas belas obras de pintura/tecnica mista que noutro artigo arquivarei.

 

O desejo, canção da Grécia, em versão de Herberto Hélder

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Rune T 02É numa linguagem de oráculo que Herberto Hélder (1930) nos dá a versão dum poema da Grécia arcaica, originário de Epiro, a que chamou O DESEJO.
Podemos escolher entre os versos e desdobrá-los de significados, e a cada leitura novas leituras se nos oferecem, nesta ansiedade de amor:

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu, / eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.

Continuamos a leitura, e ouro, vermelho, maçã, são as palavras/imagens por onde o desejo se espraia.

Ler o poema é penetrar um pouco no mistério do desejo e na dificuldade da sua verbalização.

O DESEJO
(Canção)

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

Versão de Herberto Hélder, in Rosa do Mundo, 2001 poemas para o futuro.

Mulheres na pintura de Ingres (I)

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Ingres_Jean-Auguste-Dominique-Madame_MoitessierEm viagem a Londres, anos vai, aconteceu estar em exibição um vasto conjunto de pintura de retrato de Ingres.

Ingres (1780-1867) era para mim, até ver as obras nessa exposição, um pintor que pouco me chamava, parecendo-me os seu retratos um tudo-nada decorativos.

A demorada observação do detalhe fez-me compreender a importância daquele preciosismo pictórico no impacto da imagem. Aquelas mulheres olham-nos de frente quase sempre, senhoras de si e da sua condição e falam connosco. Há uma verdade humana nestas pinturas que não condescende com hipotéticos cânones de beleza feminina, e são mulheres de carne, osso e sentimento que nos são reveladas. Ora vejam:

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-Portrait_of_Madame_Gonse

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-Portrait_of_Delphine_Ingres-Ramel

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-Madame_Jacques-Louis_LeBlanc

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-Portrait_of_Baronne_James_de_Rothschild

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-Princess_de_Broglie

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-Portrait_of_Madame_Moitessier_Standing

Ingres_Jean-Auguste-Dominique-Portrait_of_Madame_Marcotte_de_Sainte-MariePoderia fazer-se, a partir de cada um destes retratos, e não conhecendo nada da biografia das retratadas, uma história de vida, de sentimentos e condição social, enquadrada, está bem de ver, na sociedade francesa da primeira metade do século XIX. Estes retratos são bem o contraponto pictórico de algumas heroínas de Balzac e da sua Comédia Humana.

Ingres é também autor da pintura de alguns dos mais belos nus da tradição ocidental. Mostrá-los fica para outro dia.

Erros meus… com Camões e a glosa de Gastão Cruz

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Klee_Paul-SiblingsPor muito que estejamos convencidos do acerto das nossas escolhas, uma vez por outra ou o desânimo, ou as contrariedades, ou a constatação pela evidência do erro, conduzem-nos a reflexões próximas das de Camões no famoso soneto que hoje trago, sem que, evidentemente, as consigamos expressar com a elegante inspiração do nosso génio maior.

As escolhas, os enganos, a sorte, tudo lá está, na concisão que o soneto exige, servido pela admirável simplicidade de uma linguagem que nos faz participar desse destino.

Na perpétua releitura a que os clássicos convidam, os nossos poetas, por vezes, encontram aí inspiração. É o caso, hoje, de Gastão Cruz (1941) que ao famosíssimo soneto de Camões

[Erros meus, má fortuna, amor ardente]

foi buscar âncora para a glosa que o seu poema Erros traduz.

É num diálogo com o soneto de Camões que o poema de Gastão Cruz se inicia, ganhando rapidamente o caminho da interrogação própria do poeta, atendo-se apenas às perplexidades do amor e que o tempo se encarrega de esgotar:

em que tudo era eterno e só durou / o espaço da manhã do teu sorriso

frio só porque tudo tem um tempo / até as rosas…

A simplicidade da linguagem acompanha o soneto de Camões, um dos motivos porque ele continua a falar-nos, e a reflexão desencantada de Gastão Cruz termina sem resposta à interrogação inicial:

Não sei se má fortuna erros decerto / erros somente?

Erros

Não sei se má fortuna erros decerto
erros somente? Pode o amor ardente,
algum tempo omitido, descoberto
cobrir de novo a pele neste presente,

que de pouco já serve a sua chama
lugar comum tão pobre e tão verídico
que sopras e apagas como a cama
negas ao corpo Foge o tempo mítico

em que tudo era eterno e só durou
o espaço da manhã do teu sorriso
como a rosa que tarde já chegou
e pousou devagar no corpo liso

e frio não de morte ou indiferença
frio só porque tudo tem um tempo
até as rosas e não há presença
nem chama do amor que o torne eterno

Para o caso de haver leitores a quem o soneto de Camões não seja familiar, ele aqui fica, sem comentários intrusivos.

Camões

Erros meus, má fortuna, amor ardente
em minha perdição se conjuraram;
os erros e a fortuna sobejaram,
que para mim bastava o amor somente.

Tudo passei; mas Tejo tão presente
a grande dor das cousas, que passaram,
que as magoadas iras me ensinaram
a não querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos;
dei causa que a Fortuna castigasse
as minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse que fartasse
este meu duro génio de vinganças!

A pintura, de Paul Klee, que abre o artigo, é de 1930.

Noticia bibliográfica

O poema Erros de Gastão Cruz inclui-se no livro Crateras, publicado em 2000, suponho. Esta transcrição foi feita a partir da poesia reunida do poeta OS POEMAS (1960-2006), ed. Assírio & Alvim, 2009.

O soneto de Camões, publicado pela 1ª vez em 1616, é aqui transcrito com actualização ortográfica de Maria de Lurdes Saraiva, e consta de Lírica Completa II, INCM, 1980.

No lugar dos palácios desertos com Álvaro de Campos

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Jean-Leon Gerome Turkish BathAinda a propósito do Dia dos Namorados, e agora que percorro o Algarve, onde os ecos da ocupação islâmica, dos seus poetas e das moiras encanadas, vitimas ou carrascos de amores funestos, permanece, ocorre-me um poema de Álvaro de Campos(?), inventado poeta por Fernando Pessoa, nascido em Tavira, sonhando estes ou outros amores:

 

No lógar dos palacios desertos e em ruínas
Á beira do mar,
Leiamos, sorrindo, os segredos das sinas
De quem sabe amar.

Qualquer que elle seja, o destino d’aquelles
Que o amor levou
Para a sombra, ou na luz se fez a sombra d’elles,
Qualquer fôsse o vôo.

Por certo elles fôram mais reaes e felizes

Noticia bibliográfica

O poema, sem atribuição de autoria no espólio, foi atribuído a Álvaro de Campos pela edição da Ática, e retirado do corpus do heterónimo por Teresa Rita Lopes.

Na transcrição segui a ortografia da edição crítica a cargo de Cleonice Berardinelli, publicada por INCM, Lisboa 1990. Esta edição da obra de Álvaro de Campos coloca o poema em Apêndice entre os “poemas éditos, anteriormente atribuídos a Álvaro de Campos”.

Todas as cartas de amor são ridiculas — Álvaro de Campos

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WITZ, Konrad - O rei Salomão e a Rainha do SabáA propósito do comercialmente festivo Dia de S. Valentim, que agora por cá também se comemora, ocorreu-me arquivar no blog o conhecido poema de Fernando Pessoa, assinado Álvaro de Campos cujo inicio reza assim:

Todas as cartas de amor são / Ridiculas.

Há na biografia de Pessoa vasta pastagem sobre a ambivalência da paixão deste por Ofélia Queiroz, a quem escreveu conhecidas cartas de amor, encarregando o heterónimo Álvaro de Campos do contraponto de dúvida sobre essa paixão.

Como habitualmente em Fernando Pessoa, nada é simples, e neste poema sublima-se no propósito de dizer uma coisa e o seu contrario, entregando ao leitor a dúvida, e a escolha da solução.

Não fujo a uma resposta, e antes de vos deixar o poema deixem-me dizer: Felizes os que recebem ridículas cartas de amor. Para esses, todos os dias são Dia dos Namorados, e aqui os felicito.

Vamos ao poema:

Todas as cartas de amor são
Ridiculas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridiculas.

Tambem escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridiculas.

As cartas de amor, se ha amor,
Têm de ser
Ridiculas.

Mas, afinal,
Só as creaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridiculas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridiculas.

A verdade é que hoje
As minhas memorias
D’essas cartas de amor
É que são
Ridiculas.

(Todas as palavras esdruxulas,
Como os sentimentos esdruxulos,
São naturalmente
Ridiculas.)

21/10/1935

Conservei na transcrição a ortografia e acentuação da edição de Teresa Rita Lopes na Edição Critica da poesia de Álvaro de Campos, Editorial Estampa, Lisboa 1993.

Nota sobre a imagem de abertura

Trata-se da imagem de uma pintura de Konrad Witz a reprodução que abre o artigo. Nela representam-se, supostamente, o rei Salomão e a rainha do Sabá.

Não consta da lenda que envolve estes personagens qualquer paixão ou relação amorosa.

A pintura dá-nos conta do momento em que a rainha viajante entrega um opulento presente ao seu real hospedeiro. Revelam as suas expressões um respeito atento e cortês entre iguais e foi a ideia dessa relação de igualdade o motivo porque a escolhi ao assinalar este dia de namorados no blog.