Después del amor – poema erótico de Vicente Aleixandre

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Continuo em viagem pela obra de Vicente Aleixandre (1898-1984) e desta vez com um poema erótico para o qual não encontrei tradução portuguesa, pelo que apenas vos deixo o poema no original.

O poema pertence ao livro História del Corazón publicado em 1954 com poemas escritos entre 1945 e 1953.

Después del amor

Tendida tú aquí, en la penumbra del cuarto,
como el silencio que queda después del amor,
yo asciendo levemente desde el fondo de mi reposo
hasta tus bordes, tenues, apagados, que dulces existen.
Y con mi mano repaso las lindes delicadas de tu vivir retraído.
Y siento la musical, callada verdad de tu cuerpo, que hace un instante, en desorden, como lumbre cantaba.
El reposo consiente a la masa que perdió por el amor su forma continua,
para despegar hacia arriba con la voraz irregularidad de la llama,
convertirse otra vez en el cuerpo veraz que en sus límites se rehace.

Tocando esos bordes, sedosos, indemnes, tibios, delicadamente desnudos,
se sabe que la amada persiste en su vida.
Momentánea destrucción el amor, combustión que amenaza
al puro ser que amamos, al que nuestro fuego vulnera,
solo cuando desprendidos de sus lumbres deshechas
la miramos, reconocemos perfecta, cuajada, reciente la vida,
la silenciosa y cálida vida que desde su dulce exterioridad nos llamaba.
He aquí el perfecto vaso del amor que, colmado,
opulento de su sangre serena, dorado reluce.
He aquí los senos, el vientre, su redondo muslo, su acabado pie,
y arriba los hombros, el cuello de suave pluma reciente,
la mejilla no quemada, no ardida, cándida en su rosa nacido,
y la frente donde habita el pensamiento diario de nuestro amor, que allí lúcido vela.
En medio, sellando el rostro nítido que la tarde amarilla caldea sin celo,
está la boca fina, rasgada, pura en las luces.
Oh temerosa llave del recinto del fuego.
Rozo tu delicada piel con estos dedos que temen y saben,
mientras pongo mi boca sobre tu cabellera apagada.

Para outras considerações e notícia bibliográfica sobre a obra de Vicente Aleixandre, convido os leitores a consultar o artigo anterior:

Plenitude do amor – poema de Vicente Aleixandre

Plenitude do amor – poema de Vicente Aleixandre

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Os poetas Nobel de língua castelhana (homens) têm uma obra onde o amor é assunto maior.

De todos me apetecia falar longa e desenvolvidamente, cometimento despropositado neste formato de blog. Assim, atenho-me a esporádicos poemas.

No caso de Vicente Aleixandre (1898-1984), Nobel de 1977, é procedimento particularmente ingrato, pois cada livro do poeta contém uma unidade intrínseca em que a disposição sequencial dos poemas conduz o leitor a uma mais densa e aprofundada leitura.

O poema de hoje, Plenitude do amor, integra o livro Sombra del Paraíso com poemas escritos no imediato pós-guerra civil, (1939-1943), e por isso mesmo, de alguma forma consequência dessa experiência.

Sobre o livro escreveu o poeta:

… canto de aurora do mundo, vista a partir do homem presente, cântico de luz a partir da consciência de escuridão (tal contraponto permanente creio que dá a esta obra o seu fundo patético). (…) O tema paradisíaco principal é completado, por um lado, pela visão do cosmos, na sua glória, antes do aparecimento do homem e, com ele, da dor e da limitação.

Deixo-vos com o poema, esperando pelo acontecer com que o poema termina:

Depois do amor, da felicidade activa do amor, repousado,
deitado, imitando descuidadamente um regato,
reflicto em mim as nuvens, os pássaros, as futuras estrelas,
a teu lado, oh recente, oh viva, oh entregada;
e olho-me em teu corpo, em tua forma branda, dulcíssima, apagada,
como se contempla a tarde que transbordante termina.

ParmigianinoPlenitude do amor

Que fresco e novo encanto,
que doce perfil louro emerge
da tarde sem neblina?
Quando julguei que a esperança, a ilusão, a vida,
desviava o seu rumo para Oriente
em triste e vã procura do prazer.
Quando eu vira vogar pelos céus
imagens sorridentes, doces corações cansados,
espinhos que atravessavam belos lábios,
e um fumo quase dolorido
onde palavras enamoradas se desfaziam como o hálito do amor sem destino…

Apareceste leve como a árvore,
como a brisa cálida que uma vaga envia do meio-dia, envolta
nos sais febrís, como nas frescas águas do azul.

Uma árvore jovem, sobre um curvo horizonte,
horizonte palpável para beijos apaixonados;
uma árvore nova e verde que melodiosamente move sual folhas altivas
louvando a ventura do seu vento nos braços.

Um peito alegre, um coração simples como a preia-mar distante
que herda sangue, espuma, de outras regiões vivas.
Uma enorme vaga lúcida sob o vasto sol aberto,
desdobrando a plumagem de um mar inspirado;
plumas, aves, espumas, mares verdes ou cálidos:
toda a mensagem viva de um peito rumoroso.

Eu sei que o teu perfil sobre o azul recente do crepúsculo intacto,
não finge vaga nuvem criada por um sonho.
Que forte fronte doce, que bela pedra viva,
acesa de beijos sob o sol melodioso,
é tua fronte beijada por uns lábios livres,
jovem ramo belíssimo que um ocaso arrebata!

Ah, a verdade tangível de um corpo que estremece
entre os braços vivos de teu amante arrebatado,
que beija vivos lábios, brancos dentes, ardores
e um colo como uma água calidamente alerta!

Por um torso nu giram tépidos fios.
Que risada de chuva sobre o teu peito ardente!
Que fresco ventre puro, onde sua curva oculta
leve musgo de sombra rumoroso de peixes!

Coxas de terra, barcas onde vogar um dia
pelo harmonioso mar do amor enturvado,
onde fugir libérrimos, rumo aos altos céus
em que a espuma nasce de dois corpos que voam.

Ah, a maravilha lúcida do Teu corpo a cantar,
faiscante de beijos sobre tua pele desperta:
resplandecente abóbada, nocturnamente bela,
que humedece o meu peito de estrelas ou de espumas!

Já distante a agonia, a solidão gemente,
as torpes aves baixas que gravemente roçaram minha fronte nos sombrios dias dolorosos.
Já longe os mares ocultos que enviavam suas águas
pesadas, densas, lentas, sob a extinta zona da luz.

Regressado à tua claridade não é difícil, agora,
reconhecer os pássaros matinais que gorgeiam,
nem descobrir nas faces os impalpáveis véus da Aurora,
como é possível sobre as suaves rugas da terra
divisar o forte, vivo, generoso corpo nu do dia,
que mergulha os pés velozes em águas transparentes.

Deixai-me então, vagas preocupações de ontem,
abandonar meu lento vestuário sem música,
qual uma árvore que depõe o seu luto rumoroso,
seu pálido adeus à tristeza,
para exalar feliz suas folhas verdes, suas campânulas azuis
e essa espuma feliz que se encapela em sua copa
quando pela primeira vez a invade a ridente Primavera.

Depois do amor, da felicidade activa do amor, repousado,
deitado, imitando descuidadamente um regato,
reflicto em mim as nuvens, os pássaros, as futuras estrelas,
a teu lado, oh recente, oh viva, oh entregada;
e olho-me em teu corpo, em tua forma branda, dulcíssima, apagada,
como se contempla a tarde que transbordante termina.

Tradução do poema de José Bento

Segue-se o original em castelhano.

Plenitud del amor

Qué fresco y nuevo encanto,
qué dulce perfil rubio emerge
de la tarde sin nieblas?
Cuando creí que la esperanza, la ilusión, la vida,
derivaba hacia oriente
en triste y vana busca del placer.
Cuando yo había visto bogar por los cielos
imágenes sonrientes, dulces corazones cansados,
espinas que atravesaban bellos labios,
y un humo casi doliente
donde palabras amantes se deshacían como el aliento
del amor sin destino…
Apareciste tú, ligera como el árbol,
como la brisa cálida que un oleaje envía del mediodía, envuelta
en las sales febriles, como en las frescas aguas del azul.

Un árbol joven, sobre un limitado horizonte,
horizonte tangible para besos amantes;
un árbol nuevo y verde que melodiosamente mueve sus hojas altaneras
alabando la dicha de su viento en los brazos.

Un pecho alegre, un corazón sencillo como la pleamar remota
que hereda sangre, espuma, de otras regiones vivas.
Un oleaje lúcido bajo el gran sol abierto,
desplegando las plumas de una mar inspirada;
plumas, aves, espumas, mares verdes o cálidas:
todo el mensaje vivo de un pecho rumoroso.

Yo sé que tu perfil sobre el azul tierno del crepúsculo entero
no finge vaga nube que un ensueño ha creado.
¡Qué dura frente dulce, qué piedra hermosa y viva,
encendida de besos bajo el sol melodioso,
es tu frente besada por unos labios libres,
rama joven bellísima que un ocaso arrebata!

¡Ah, la verdad tangible de un cuerpo estremecido
entre los brazos vivos de tu amante furioso,
que besa vivos labios, blancos dientes, ardores
y un cuello como un agua cálidamente alerta!

Por un torso desnudo tibios hilillos ruedan.
¡Qué gran risa de lluvia sobre tu pecho ardiente!
¡Qué fresco vientre terso, donde su curva oculta
leve musgo de sombra rumoroso de peces!

Muslos de tierra, barcas donde bogar un día
por el músico mar del amor enturbiado,
donde escapar libérrimos rumbo a los cielos altos
en que la espuma nace de dos cuerpos volantes.

¡Ah, maravilla lúcida de tu cuerpo cantando,
destellando de besos sobre tu piel despierta:
bóveda centelleante, nocturnamente hermosa,
que humedece mi pecho de estrellas o de espumas!

Lejos ya la agonía, la soledad gimiente,
las torpes aves bajas que gravemente rozaron mi frente
en los oscuros días del dolor.
Lejos los mares ocultos que enviaban sus aguas,
pesadas, gruesas, lentas, bajo la extinguida zona de la luz.

Ahora vuelto a tu claridad no es difícil
reconocer a los pájaros matinales que pían,
ni percibir en las mejillas los impalpables velos de la aurora,
como es posible sobre los suaves pliegues de la tierra
divisar el duro, vivo, generoso desnudo del día,
que hunde sus pies ligeros en unas aguas transparentes.

Dejadme entonces, vagas preocupaciones de ayer.
abandonar mis lentos trajes sin música,
como un árbol que depone su luto rumoroso.
su mate adiós a la tristeza,
para exhalar feliz sus hojas verdes, sus azules campánulas
y esa gozosa espuma que cabrillea en su copa
cuando por primera vez le invade la riente primavera.

Después del amor, de la felicidad activa del amor, reposado,
tendido, imitando descuidadamente un arroyo,
yo reflejo las nubes, los pájaros, las futuras, estrellas,
a tu lado, oh reciente, oh viva, oh entregada;
y me miro en tu cuerpo, en tu forma blanda, dulcísima, apagada,
como se contempla la tarde que colmadamente termina.

Noticia bibliográfica

A tradução do poema, de José Bento, integra a Antologia de Vicente Aleixandre, Porto, Editorial Inova s/d (1977/78)

Para a obra poética de Vicente Aleixandre, a edição da editora Visor Libros de Madrid, Poesías Completas, preparada por Alexandre Duque Amusgo, é sem preço e companhia para a vida. A 2ªedição publicada em 2005, inclui um novo livro póstumo e poemas dispersos até aí inéditos.

O mundo harmonioso dos publicitários e poema de Paul Celan

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Sabemos todos, ainda que nos apeteça esquecer, que a mensagem publicitaria, no melhor dos casos, faz da parte boa o todo que nos anuncia.

Ao ver as fotos que pessoa amiga me enviou hoje de Luzern (Lucerna), na Suíça, recordei uma campanha publicitária que na tentativa de vender uma imagem de paraíso da Suíça, um publicitário imaginou para a promoção turística do país associada a um fabricante de relógios e joalharia. Imaginou ele, neste caso ela, o mundo de brincar que vos mostro hoje, pretendendo fazer crer que aquela atmosfera lá se encontra. Será?

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Estes publicitários são uns exagerados, dizia há anos um deles.

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Termino com o poema de Paul Celan (1920-1970) Gelo, Éden.

Gelo, Éden

Num País Perdido andou
a lua pelo juncal,
e o que connosco gelou
vê e arde como um sol.

Vê, tem olhos como os mais,
dois mundos claros de esperança.
Noite, noite, pantanais,
vê, tem olhos, a criança.

Vê, vê, nós estamos a vê-lo,
vejo-te a ti, tu a mim.
Ressuscitará o gelo
antes da hora do fim.

O poema pertence ao livro A Rosa de Ninguém em tradução de João Barrento.

Os desenhos são de Malika Favre, designer francesa, e foram concebidos para uma campanha “Velo chic” do grupo Bucherer em 2012.

Amamentar – Pintura de Mary Cassatt

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Mary Cassatt 03

No gesto de amamentar consubstancia-se, provavelmente, o que de mais íntimo conhece a ligação mãe-filho. Estranho que sou a esta ligação física, é apenas com uma visão exterior que dela falo. O indizível desta relação salta-me ao olhar vendo algumas pinturas de Mary Cassatt (1844-1926), onde o aleitamento se retrata.

Há nestas mães um misto de perplexidade e prazer ao olhar aquele “para lá de si” que de alguma forma ilumina o mistério da ligação mãe-filho, e da abnegação que tantos e tantos relatos nos dão conta.

Mary Cassatt 04

Mary Cassatt maternidade 1890

A liturgia católica conserva e transmite esta perene ligação da mãe ao filho através do Stabat Mater, relato-poema da dor de perder um filho, ainda que Deus feito homem, e que aqui deixei na passada Sexta-Feira da Paixão.

Artigo com o texto do poema Stabat Mater

Para Maria, como para qualquer mãe, o seu filho é, até ao fim, o seu menino.

Termino com esta representação imaginada na renascença italiana, de Maria a amamentar, da autoria de Bernardino LUINI (1480-1522), seguidor de Leonardo da Vinci.

Bernardino LUINI - Maria a amamentar c 1520

Nos 120 anos do nascimento de Almada Negreiros

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Auto-retrato

Entre documento e memória se tem feito a evocação da poesia de Almada Negreiros (1893-1970) aqui no blog.

No momento em que a atenção mediática, e com ela a dos leitores, se volta para a obra do genial mestre, encurto caminho aos interessados em ler o que por aqui há.

Desde logo um documento sonoro histórico: a leitura pelo próprio do Manifesto Anti-Dantas, acrescentado da revelação dos pormenores em torno da sua criação e edição.

almada-negreiros – manifesto anti-dantas lido pelo poeta

Depois, uma pagina de memória pessoal onde a sua presença se cruza.

Mulher sentada

Entre Almada Negreiros e Bicesse – Memória de Carnaval

Encontra-se também a associação entre o mestre e o génio de Camões, no tom brincado que é às vezes o seu, onde nos conta a aventura de Camões e da poesia em Portugal no poema LUÍS, O POETA SALVA A NADO O POEMA.

Luis de CamõesHomenagem de Almada Negreiros a Camões

De cada vez que a vida me leva à estação do Metro do Saldanha, em Lisboa, decorada com obras e frases de Almada Negreiros, paro sempre a pensar numa frase, escrita na parede, e na sua justeza sobre o que fazemos com o tempo, a única coisa que na verdade, nesta vida nos pertence, a qual abre o texto poético, A invenção do Dia Claro, e pode ser lida aqui.

Pausa

Fragmento de A Invenção do Dia Claro

É de novo sobre o tempo e o que com ele fazemos, a reflexão entre o serio e o irónico onde um cheiro de Pessoa surge, que nos traz este Momento de Poesia, com que termino.

Momento de Poesia

Se me ponho a trabalhar
e escrevo ou desenho,
logo me sinto tão atrasado
no que devo à eternidade,
que começo a empurrar pra diante o tempo
e empurro-o, empurro-o à bruta
como empurra um atrasado,
até que cansado me julgo satisfeito;
e o efeito da fadiga
é muito igual à ilusão da satisfação!
Em troca, se vou passear por aí
sou tão inteligente a ver tudo o que não é comigo,
compreendo tão bem o que não me diz respeito,
sinto-me tão chefe do que é fora de mim,
dou conselhos tão bíblicos aos aflitos
de uma aflição que não é minha,
dou-me tão perfeitamente conta do que
se passa fora das minhas muralhas
como sou cego ao ler-me ao espelho,
que, sinceramente não sei qual
seja melhor,
se estar sozinho em casa a dar à manivela do mundo,
se ir por aí a ser o rei invisível de tudo o que não é meu.

Escrito em 14 de Dezembro de 1941.

A Sesta

As imagens que acompanham este artigo são variações digitais sobre a obra do Mestre.

Insónia de fim-de-semana com poema de Juan Ramón Jiménez

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Nu a meio corpo - inicio sec XX

Quando leio e aqui transcrevo os exaltados êxtases poéticos da rapaziada de inicio do século XX, interrogo-me sobre qual seria o aspecto das mulheres que os entusiasmavam.

Por exemplo, para Juan Ramón Jiménez (1881-1958), o Nobel espanhol, quando escreve no seu poema A mulher nua:

Limite exacto da vida, / perfeito continente, / harmonia formada, único fim, / definição real da beleza, / mulher nua:

que mulher veria?

É uma pergunta para a qual nunca terei resposta, mas apraz-me aceitar que a beleza fotografada a meio corpo que vos trago a abrir poderia estar entre essas deusas de levar à loucura os mancebo da época. Ou então, esta outra menininha com frio apenas nas pernas que prazenteira se mostra, com mais delicadeza e charme que suas netas ou bisnetas que hoje fazem os fólios centrais das revistas de tudo e nada.

Nu vintage inicio sec XXQuerereis conhecer o poema na totalidade? Ele aqui fica.

A mulher nua 

Humana fonte bela,
repuxo de delicia entre as coisas,
terna, suave água redonda,
mulher nua: um dia,
deixarei de te ver,
e terás de ficar
sem estes assombrados olhos meus,
que contemplavam tua beleza plena,
com a insaciável plenitude do seu olhar?

(Estios; verdes frondas,
águas entre as flores,
luas alegres sobre o corpo,
calor e amor, mulher nua!)

Limite exacto da vida,
perfeito continente,
harmonia formada, único fim,
definição real da beleza,
mulher nua: um dia,
quebrar-se-á a minha linha de homem,
terei que difundir-me
na natureza abstracta;
não serei nada para ti,
árvore universal de folhas perenes
concreta eternidade!

Poema de Juan Ramón Jiménez

Tradução de José Bento

Não estando ao alcance de todos belezas de primeira água como as anteriores, havia a fantasia de sonhar com as divas do cinema já na época, e não muito diferente da primeira, é a foto de Louise Brooks (1906-1985), inesquecível Lulu no cinema mudo e diva dos anos 20 do século XX, com que fecho esta pequena nota de fim-de-semana.

Louise Brooks

Fragmentos de Álvaro de Campos

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Bust of a Man - 1972-2

Ora até que enfim…, perfeitamente…
Cá está ela!
Tenho a loucura exactamente na cabeça.

Meu coração estourou como uma bomba de pataco,
E a minha cabeça teve o sobressalto pela espinha acima…

*

Arrumar a vida, pôr prateleiras na vontade e na acção.
Quero fazer isto agora, como sempre quis, com o mesmo resultado;
Mas que bom ter o propósito claro, firme só na clareza, de fazer qualquer coisa!

Vou fazer as malas para o Definitivo,
Organizar Álvaro de Campos,
E amanhã ficar na mesma coisa que antes de ontem – um antes de ontem que é sempre…
Sorrio do conhecimento antecipado da coisa-nenhuma que serei.
Sorrio ao menos; sempre é alguma coisa o sorrir…
Produtos românticos, nós todos…
E se não fôssemos produtos românticos, se calhar não seríamos nada.
Assim se faz a literatura…
Santos Deuses, assim até se faz a vida!

*
Não sei. Falta-me um sentido, um tacto
Para a vida, para o amor, para a glória…

Ainda que seja pouco adequado transcrever de um poema apenas um seu fragmento, cortando-lhe eventualmente o sentido que o conjunto revela, há versos que nos tocam por vezes como faíscas e queimam à flor da pele.

Alguns desses que no acaso do folhear, a leitura foi soltando, resolvi aqui transcrever, com as minhas desculpas aos puristas que considerem tal feito um atentado às obras. A totalidade de cada poema pode ser sempre encontrada a partir do primeiro verso, trancrito, em qualquer edição da obra de Alvaro de Campos.

Dia e Destino de Poeta – dois poemas de Octavio Paz

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Dia

Estreio no blog a poesia de Octavio Paz (1914-1998), Nobel mexicano e poeta gigantesco entre os grandes das letras hispânicas.

Sábio nas coisas da vida e do amor, é no desprendimento da matéria que medita o dia, o efémero e o passar do tempo no poema Dia:

Dia feito de tempo e de vazio: / desabitas-me, apagas / meu nome e o que sou, / enchendo-me de ti: luz, nada.

Entrego-vos à tradução do poeta Luís Pignatelli (1935-1993).

Dia

De que céu caído,
oh insólito,
imóvel solitário na onda do tempo?
És a duração,
o tempo que amadurece
num instante enorme, diáfano:
flecha no ar,
branco embelezado
e espaço já sem memória de flecha.
Dia feito de tempo e de vazio:
desabitas-me, apagas
meu nome e o que sou,
enchendo-me de ti: luz, nada.

E flutuo, já sem mim, pura existência.

Día

¿De qué cielo caído,
oh insólito,
inmóvil solitario en la ola del tiempo?
Eres la duración,
el tiempo que madura
en un instante enorme, diáfano:
flecha en el aire,
blanco embelesado
y espacio sin memoria ya de flecha.
Día hecho de tiempo y de vacío:
me deshabitas, borras
mi nombre y lo que soy,
llenándome de ti: luz, nada.
              
Y floto, ya sin mí, pura existencia.

Antes de terminar, arquivo o famoso Destino de Poeta, evidência e síntese do falar poético:

Destino de Poeta

Palavras? Sim, de ar,
e no ar perdidas.
Deixa-me perder entre palavras,
deixa-me ser o ar nuns lábios,
um sopro vagabundo sem contornos
que o ar desvanece.

Também a luz em si mesma se perde.

Destino de poeta

¿Palabras? Sí, de aire,
y en el aire perdidas.
Déjame que me pierda entre palabras,
déjame ser el aire en unos labios,
un soplo vagabundo sin contornos
que el aire desvanece.

También la luz en sí misma se pierde.

A tradução é de novo de Luís Pignatelli. Ambas as traduções foram publicadas em Antologia Poética, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1984.

Os poemas integraram o livro Libertad bajo palabra (1958).

Dirceu – O poeta Tomás António Gonzaga

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Continuo a desafiar os leitores do Blog para a poesia antiga.

Publicado este artigo num tempo em que a audiência do blog se contava por meia dúzia de leitores, o artigo tem permanecido escondido entre o mais de meio milhar de artigos do arquivo do blog. Resolvi despertá-lo, na tentativa de encontrar novos leitores para um poeta maior que dá gosto ler.

Hoje, o autor é conhecido e lendária a paixão por Marília. Será a sua poesia assim conhecida?

Despida dos convencionalismos arcádicos que pululam na maior parte da poesia portuguesa da segunda metade do sec. XVIII, é a nobreza e verdade do sentimento o que nos comove ao lê-la.

Do lirismo do tempo de Coimbra ainda com sabor ao soneto quinhentista, à variedade poética com que envolve a sua paixão por Marília, temos um conjunto de belíssima poesia de que escolho quase ao acaso alguns poemas.

 

Antes de Marília

Vamos com o jovem poeta do sonho de riqueza ao coração dividido por dois amores

I

Num fértil campo do soberbo Douro,

Dormindo sobre a relva, descansava,

Quando vi que a fortuna me mostrava,

Com alegre semblante, o seu tesouro.

 

De uma parte, um montão de prata e ouro

Com pedras de valor o chão curvava;

Aqui um ceptro, ali um trono estava,

Pendiam coroas mil de grama e louro.

 

– Acabou-se – diz-me então – a desventura:

De quantos bens te exponho qual te agrada,

Pois benigna o concedo, vai, procura.

 

Escolhi, acordei, e não vi nada:

Comigo assentei logo que a ventura

Nunca chega a passar de ser sonhada.

 

II

É gentil, é prendada a minha Altéia;

As graças, a modéstia do seu rosto

Inspiram no meu peito maior gôsto

Que ver o próprio trigo quando ondeia.

 

Mas, vendo o lindo gesto de Dircéia,

A nova sujeição me vejo exposto;

Ah! Que é mais engraçado, mais composto

Que a pura esfera, de mil astros cheia!

 

Prender as duas com grilhões estreitos

É uma acção, ó deuses, inconstante,

Indigna dos sinceros nobres peitos.

 

Cupido, se tens dó de um triste amante,

Ou forma de Lorino dous sujeitos,

Ou forma desses dous um só semblante.

 

Retrato e paixão por Marília

Primeiro o retrato.

Os olhos:

ao sol se excedem / na luz que dão,

o resto di-lo o poema.

 

Depois a paixão com um poema que nos dá conta do que sente o apaixonado sem remédio.

se não vivera /

uma esperança / no peito seu, /

já morto estava / o bom Dirceu.

 

III

A minha amada / é mais formosa

que branco lírio, / dobrada rosa,

que o cinamomo,  / quando matiza / co’a folha a flôr.

Vénus não chega / ao meu amor.

 

Vasta campina, / de trigo cheia,

quando na sesta / co vento ondeia,

ao seu cabelo, / quando flutua, / não é igual.

Tem a cor negra, / mas quanto val!

 

Os astros, que andam / na esfera pura,

quando cintilam  / na noite escura,

não são, humanos, / tão lindos como / seus olhos são,

que ao sol se excedem / na luz que dão.

 

Às brancas faces / ah! Não se atreve

jasmim de Itália, / nem inda a neve,

quando a desata / o sol brilhante / com seu calor.

São neve, e causam / no peito ardor.

 

Na breve boca / vejo enlaçadas

as finas per’las / com as granadas;

a par dos beiços, / rubis da India / têm preço vil.

Neles se agarram / amores mil.

 

Se não lhe desse / compadecido,

tanto socorro / o deus Cupido;

se não vivera / uma esperança / no peito seu,

já morto estava / o bom Dirceu.

 

Vê quanto pode / teu belo rosto,

e de gozá-lo / o vivo gosto!

Que submergido / em um tormento / quase infernal,

porqu’inda espero, / resisto mal.

 

IV

Não sei, Marília, que tenho, / Depois que vi o teu rosto,

Pois quanto não é Marília / Já não posso ver com gosto.

Noutra idade me alegrava, / Até quando conversava

Com o mais rude vaqueiro: / Hoje, ó bela, me aborrece

Inda o trato lisonjeiro / Do mais discreto pastor.

Que efeitos são os que sinto?

Serão efeitos de amor?

 

Saio da minha cabana / Sem reparar no que faço;

Busco o sítio aonde moras / Suspendo defronte o passo.

Fito os olhos na janela; / Aonde, Marília bela,

Tu chegas ao fim do dia; / Se alguém passa e te saúda,

Bem que seja cortesia, / Se acende na face a cor.

Que efeitos são os que sinto?

Serão efeitos de amor?

 

Se estou, Marília, contigo, / Não tenho um leve cuidado;

Nem me lembra se são horas / De levar à fonte o gado.

Se vivo de ti distante, / Ao minuto, ao breve instante

Finge um dia o meu desgosto; / Jamais pastora te vejo

Que em teu semblante composto / Não veja graça maior.

Que efeitos são os que sinto?

Serão efeitos de amor?

 

Ando já com o juizo, / Marília, tão perturbado,

Que no mesmo aberto sulco / Meto de novo o arado.

Aqui no centeio pego, / Noutra parte em vão o sego;

Se alguém comigo conversa, / Ou não respondo, ou respondo

Noutra coisa tão diversa, / Que nexo não tem menor.

Que efeitos são os que sinto?

Serão efeitos de amor?

 

Se geme o bufo agoureiro, / Só Marília me desvela,

Enche-se o peito de mágoa, / E não sei a causa dela.

Mal durmo, Marília, sonho / Que fero leão medonho

Te devora nos meus braços: / Gela-se o sangue nas veias,

E solto do sono os laços / À força de imensa dor.

Ah! Que os efeitos, que sinto,

Só são efeitos de amor!

 

O namoro e a explicação do sexo

Brincadeiras, ciúme, e como se fazem meninos com exemplos colhidos na natureza.

 

V

Num sitio ameno, / cheio de rosas, / de brancos lírios / murtas viçosas.

Dos seus amores / na companhia / Dirceu passava / alegre o dia.

Em tom de graça, / ao terno amante / manda Marília / que toque e cante.

Pega na lira, / sem que a tempere, / a voz levanta, / e as cordas fere.

Cos doces pontos / a mão atina, / e a voz iguala / à voz divina.

Ela, que teve / de rir-se a ideia, / nem move os olhos, / de assombro cheia.

Então Cupido / aparecendo, / à bela fala, / assim dizendo:

– Do teu amado / a lira fias, / só por que dele /zombando rias?

Quando num peito / assento faço, / do peito subo / à lingua e braço.

Nem creias que outro / estilo tome, / sendo eu o mestre, / a acção teu nome.

 

VI

Minha Marília, / tu enfadada? / Que mão ousada

perturbar pode / a paz sagrada / do peito teu?

Porém que muito / que irado esteja

o teu semblante: / também troveja / o claro céu.

 

Eu sei, Marília, / que outra pastora / a toda hora,

em toda a parte, / cega namora / ao teu pastor.

Há sempre fumo / aonde há fogo:

Assim, Marília, / há zelos, logo / que existe amor.

 

Olha, Marília, / na fonte pura / a tua alvura,

a tua boca / e a compustura / das mais feições.

Quem tem teu rosto / Ah! Não receia

que terno amante / solte a cadeia, / quebre os grilhões.

 

Não anda Laura / nestas campinas / sem as boninas

no seu cabelo, / sem peles finas / no seu jubão.

Porém que importa? / O rico asseio

não dá, Marília, / ao rosto feio / a perfeição.

 

Quando apareces / na madrugada, / mal embrulhada

na larga roupa, / e desgrenhada, / sem fita ou flor,

Ah! Que então brilha / a natureza!

Então se mostra / tua beleza / inda maior.

 

O céu formoso, / quando alumia / o sol de dia,

ou estrelado, / na noite fria, / parece bem.

Também tem graça / quando amanhece;

até Marília, / quando anoitece / também a tem.

 

Que tens, Marília, / que ela suspire, / que ela delire,

que corra os vales, / que os montes gire, / louca de amor?

Ela é que sente / esta desdita;

e na repulsa / mais se acredita / o teu pastor.

 

Quando há, Marília, / alguma festa / lá na floresta,

(fala a verdade!) / dança com esta / o bom Dirceu?

E se ela o busca, /vendo buscar-se,

não se levanta, / não vai sentar-se / ao lado teu?

 

Quando um por outro / na rua passa, / se ela diz graça

ou muda o gesto, / esta negaça / faz-lhe impressão?

Se está fronteira, / e brandamente /

lhe fita os olhos, / não põe, prudente, / os seus no chão?

 

Deixe o ciúme, / que te desvela, / Marília bela;

nunca receies / dano daquela / que igual não fôr.

Que mais desejas? /Tens lindo aspecto;

Dirceu se alenta / de puro afecto, /de pundonor.

 

VII

Marília, de que te queixas? / De que te roube Dirceu

O sincero coração? / Não te deu também o seu?

E tu, Marília, primeiro / Não lhe lançaste o grilhão?

Todos amam; só Marília

Desta lei da natureza

Queria ter isenção?

 

Em torno das castas pombas / Não rulam ternos pombinhos?

E rulam, Marília, em vão? / Não se afagam os biquinhos?

E a provas de mais ternura / Não os arrasta a paixão?

Todos amam; só Marília

Desta lei da natureza

Queria ter isenção?

 

Já viste, minha Marília, / Avezinhas que não façam

Os seus ninhos no verão? / Aquelas, com quem se enlaçam,

Não vão cantei-lhes defronte / Do mole pouso, em que estão?

Todos amam; só Marília

Desta lei da natureza

Queria ter isenção?

 

Se os peixes, Marília, geram / Nos bravos mares e rios,

Tudo efeitos de amor são. / Amam os brutos ímpios,

A serpente venenosa, / A onça, o tigre, o leão.

Todos amam; só Marília

Desta lei da natureza

Queria ter isenção?

 

As grandes deusas do céu / Sentem a seta tirana

Da amorosa inclinação / Diana, por ser Diana,

Não se abrasa, não suspira / Pelo amor de Endimião?

Todos amam; só Marília

Desta lei da natureza

Queria ter isenção?

 

Desiste, Marília bela, / De uma queixa sustentada

Só na altiva opinião. / Esta chama é inspirada

Pelo céu, pois nela assenta / A nossa conservação.

Todos amam; só Marília

Desta lei da natureza

Queria ter isenção?

 

A prisão

Num pungente canto, assistimos ao desfilar dos terrores da prisão a que o amor por Marília oferece o conforto e a esperança.

O poema termina de forma admirável com a exclamação:  Vê, Marília, o quanto pode / contra meus males teu rosto!

 

VIII

Se o vasto mar se encapela / e na rocha em flor rebenta,

grossa nau, que não tem leme, / em vão sustentar-se intenta;

até que naufraga e corre / à discrição da tormenta.

 

Quem não tem uma beleza, / em que ponha o seu cuidado,

se o céu se cobre de nuvens, / e se assopra o vento irado,

não tem forças que resistam / ao impulso do seu fado.

 

Nesta sombria masmorra, / aonde, Marília, vivo,

encosto na mão o rosto, / fico ás vezes pensativo.

Ah! Que imagens tão funestas / me finge o pesar activo!

 

Parece que vejo a honra, / Marília, toda enlutada;

a face de um pai, rugosa, / num mar de pranto banhada;

os amigos macilentos, / e a familia consternada.

 

Quero voltar os meus olhos / para outro diverso lado:

vejo numa grande praça / um teatro levantado;

vejo as cruzes, vejo os potros, / vejo o alfange afiado.

 

Um frio suor me cobre, / lassam-me os membros, suspiro;

busco alívio às minhas ânsias, / não o descubro, deliro.

Já, meu bem, já me parece, / que nas mãos da morte expiro.

 

Vem-me então ao pensamento / a tua testa nevada,

os teus meigos, vivos olhos, / a tua face rosada,

os teus dentes cristalinos, / a tua boca engraçada.

 

Qual, Marília, a estrela d’alva, / que a negra noite afugenta;

qual o sol, que a névoa espalha, / apenas a terra aquenta;

ou qual íris, que o céu limpa, / quando se vê na tormenta.

 

Assim, Marília, desterro / triste ilusão e demência;

faz de novo o seu oficio / a razão e a prudência;

e firmo esperanças doces / sobre a cândida inocência.

 

Restauro as forças perdidas, / sobe a viva cor ao rosto,

gira o sangue pela veia / e bate o pulso, composto.

Vê, Marília, o quanto pode / contra meus males teu rosto!

Lida hoje, a sinceridade do sentimento expresso e a forma singela despida de arrebiques, faz nosso contemporâneo este poeta e esta poesia. Quem alguma vez amou reconhece a cada passo  as dúvidas, os anseios, a hipérbole da admiração e a esperança de redenção a que o amor conduz.

 

Noticia biográfica e bibliográfica

 

Tomás António Gonzaga (1744-1810) nascido no Porto, passou a adolescência no Brasil de onde voltou com 17 anos, em 1761, para se matricular na Universidade em Coimbra no ano seguinte, estudar leis, e de onde saiu graduado em 1768, aos 24 anos.

Tendo exercido cargos públicos como Juiz em Portugal, foi nomeado em 1782 Ouvidor de Vila Rica no Brasil, para onde partiu nesse ano e nunca mais regressou a Portugal.

Vila Rica era a capital de Minas Gerais, por onde ao tempo passavam ouro e diamantes com destino a Portugal.

Integrado na sociedade local, conheceu Maria Doroteia, menina da boa sociedade, na altura com cerca de 17 anos. Linda, a ajuizar por testemunhos da época, deu a volta à cabeça do nosso poeta, a entrar nos 40.

O namoro pegou, e foi esta Maria Doroteia a Marília cantada por Gonzaga, que a si atribuiu o nome de Dirceu.

O namoro prosseguiu por entre as complicações politicas em torno do Ouvidor e em meados de 1787 o casamento estava assente.

 

Entre as complicações em torno do homem que para a obra do poeta nos interessam, esteve a publicação das Cartas Chilenas, sátira veemente aos desmandos e tiranias do Governador de Minas, escritas na clareza de linguagem que caracteriza o poeta e ás vezes de uma ironia pungente. Estas Cartas Chilenas circularam sem nome de autor.

Foi por esta altura, 1788, que o depois famoso “Tiradentes”, alferes Joaquim José da Silva Xavier, concebeu a ideia de um levantamento armado que proclamasse a indepêndencia de Minas Gerais em relação à coroa portuguesa.

Os maiores amigos de Gonzaga, Alvarenga Peixoto e Cláudio Manuel da Costa, ambos poetas notáveis, brasileiros de nascimento, envolveram-se na conspiração. Aparentemente o nosso poeta tinha na conspiração um pé dentro e outro fora.

Um dos visados nas Cartas Chilenas, Joaquim Silvério dos Reis, foi quem denunciou a conjura junto do Governador e apontou Gonzaga como chefe da conspiração.

A 21 de Maio de 1789 o Governador ordenou a prisão de Gonzaga, e em vésperas do casamento o poeta foi enviado para o Rio de Janeiro e encarcerado na Fortaleza da Ilha das Cobras.

Após 3 anos de prisão Gonzaga, foi condenado a 10 anos de degredo em Moçambique, e a 23 de Maio de 1792 partiu para Africa com mais seis réus do que ficou conhecido como Inconfidência.

Não voltaria a ver Marília.

 

Do resto da vida passada em Moçambique, onde morreu em 1810, dá conta com abundantes detalhes, Manuel Rodrigues Lapa na edição crítica das Poesias e Cartas Chilenas, publicada no Rio de Janeiro em 1957 pelo Instituto Nacional do Livro, e de cujo prefácio me socorri para as informações que acima deixei.

 

Sob o título “Marília de Dirceu e outras poesias”, foi a poesia amorosa de Tomás António Gonzaga publicada na colecção Clássicos Sá da Costa, onde conheceu ampla divulgação. A edição foi de M. Rodrigues Lapa, e anterior à edição crítica que acima referi. Segundo o editor, ás condições da edição em plena 2ª Guerra Mundial, em 1942, se devem algumas insuficiências da edição Sá da Costa, colmatadas na edição crítica de 1957 feita no Brasil.

A verdade de um rosto – O retrato triplo do Cardeal Richelieu

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CHAMPAIGNE, Philippe de - retrato triplo de Richelieu - 1640

Para os amantes leitores de Alexandre Dumas e da sua saga inventada sobre os 3 Mosqueteiros, o Cardeal Richelieu era a alma danada que pretendia revelar a paixão da rainha de França pelo nobre inglês, duque de Buckingham, num tempo em que a luta religiosa fazia das duas potencias inimigos e o poder tinha contornos acentuados de luta pessoal.

Richelieu, senhor de um poder absoluto, quase conseguia impedir a recuperação do pingente em diamante, numa hora de paixão oferecido pela rainha ao inglês.

A história é arqui-conhecida, e quem não a leu pode agora aproveitar o pretexto e embarcar nesta aventura de todas as adolescências.

Bom, mas o que segue, é que nós, leitores, ficamos sempre com uma imagem pouco precisa do homem, não sendo frequentes os seus retratos.

Preencho esse vazio mostrando o retrato tirado por Philippe de Champaigne (1602-1674), com o inusitado de poder permitir olhar o maligno personagem no romance em 3 posições onde o rosto se revela.

A objectividade da história devolve ao ministro de Luis XIII o lugar de estadista que lutou por estabelecer a grandeza da França e na sua luta contra os espanhóis apoiou os revoltosos portugueses de 1640.

O pano de fundo histórico no romance de Dumas é a Guerra dos 30 Anos e prende-se com o facto de Ana de Áustria, a rainha esposa de Luis XIII, ser espanhola, da casa de Habsburgo, e a França ter, a certa altura, declarado guerra a Espanha. O envolvimento de Inglaterra nesta guerra que devastou o continente foi atravessado pelas lutas contra o rei Carlos I, que viria a ser decapitado, e pela existência temporária da república de Cromwell.

O retrato de Richelieu dá-nos a ver um homem melífluo, de olhar vivo e expressão dissimulada, a ajuizar pelas comisuras da boca, preocupado com a aparência como se adivinha da cuidada toilette de barba e bigode, acentuando um rosto triangular, e escondendo a falta de frontalidade e firmeza que um queixo robusto e quadrado costuma revelar, e nele não existe.

Enfim, considerações sem propósito outro que entreter os leitores, quais nesta noite de sábado escolham o blog como passatempo.