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Bust of a Man - 1972-2

Ora até que enfim…, perfeitamente…
Cá está ela!
Tenho a loucura exactamente na cabeça.

Meu coração estourou como uma bomba de pataco,
E a minha cabeça teve o sobressalto pela espinha acima…

*

Arrumar a vida, pôr prateleiras na vontade e na acção.
Quero fazer isto agora, como sempre quis, com o mesmo resultado;
Mas que bom ter o propósito claro, firme só na clareza, de fazer qualquer coisa!

Vou fazer as malas para o Definitivo,
Organizar Álvaro de Campos,
E amanhã ficar na mesma coisa que antes de ontem – um antes de ontem que é sempre…
Sorrio do conhecimento antecipado da coisa-nenhuma que serei.
Sorrio ao menos; sempre é alguma coisa o sorrir…
Produtos românticos, nós todos…
E se não fôssemos produtos românticos, se calhar não seríamos nada.
Assim se faz a literatura…
Santos Deuses, assim até se faz a vida!

*
Não sei. Falta-me um sentido, um tacto
Para a vida, para o amor, para a glória…

Ainda que seja pouco adequado transcrever de um poema apenas um seu fragmento, cortando-lhe eventualmente o sentido que o conjunto revela, há versos que nos tocam por vezes como faíscas e queimam à flor da pele.

Alguns desses que no acaso do folhear, a leitura foi soltando, resolvi aqui transcrever, com as minhas desculpas aos puristas que considerem tal feito um atentado às obras. A totalidade de cada poema pode ser sempre encontrada a partir do primeiro verso, trancrito, em qualquer edição da obra de Alvaro de Campos.

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