Arcipreste de Hita – fragmento do Livro de Bom Amor

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O Sátiro e a mulherNeste percorrer a poesia através dos tempos, tenho vindo a dar conta de como o amor físico nela se expressa. Acrescento hoje um fragmento da prodigiosa obra do Arcipreste de Hita, Juan Ruiz, Libro de buen amor, conhecido desde 1330.
Obra de reflexão moral e “autobiografia (?)” ficcionada, é sobretudo um percurso sobre os temas literários da época, onde costumes, religião e moral se cruzam, temas esses que também se encontram em Dante ou no Decameron de Bocaccio.

— fragmento —

Aqui diz como segundo a natureza os homens e os outros animais querem ter ajuntamento com as fêmeas

Como diz Aristóteles, é coisa verdadeira,
o homem por duas coisas se esforça: a primeira
para subsistir; e a outra coisa era
para poder juntar-se a fêmea prazenteira.

Se o dissesse por mim era de censurar;
mas di-lo um bom filósofo, ninguém me vai culpar:
de quanto afirma um sábio não devemos duvidar
pois com factos se prova o sábio e seu falar.

Que diz verdade o sábio claramente se prova:
homens, aves e bestas, todo o bicho de cova
querem como é natural companhia sempre nova,
e muito mais o homem que coisa que se mova.

Digo que mais o homem que outra criatura:
todas têm uma época pra se unir por natura;
o homem em qualquer dia, sem juízo e mesura,
sempre que pode, quer cometer tal loucura.

O fogo sempre quer permanecer na cinza,
pois arde tanto mais quanto mais alguém o atiça;
o homem quando peca entende que desliza,
mas não se afasta disso, que a natura o encarniça.

E eu, como sou homem como os outros, pecador,
senti pelas mulheres às vezes grande amor;
nós provarmos as coisas não é por tal pior,
pra saber o bem e o mal, e escolher o melhor.

Noticia bibliográfica

O fragmento respeita aos quartetos 71— 76 na edição de Gybbon-Monypenny, Clásicos Castália, Madrid, 1988.
Tradução de José Bento in Antologia da Poesia Espanhola das Origens ao Século XIX, ed. Assírio & Alvim, Lisboa 2001.

Momentos de Paixão — alguns poemas de Rainer Maria Rilke

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Man and Nude Woman - 1967-3A voluptuosidade física é uma experiência dos sentidos, tal como o puro olhar ou a pura sensação com que um fruto se derrete na língua — é uma grande e infindável experiência que nos é proporcionada, um conhecimento do mundo, a plenitude e o esplendor de toda a sabedoria.
Das cartas a um jovem poeta, 16 de Julho de 1903.

Abro com esta citação de Rainer Maria Rilke (1875-1926), fresca e verdadeira nos seus 110 anos, que nos diz tão só:

A voluptuosidade física é uma experiência dos sentidos, … um conhecimento do mundo, a plenitude e o esplendor de toda a sabedoria.

Demora a humanidade a interiorizar esta verdade, enrolada em tabus e interditos, e apenas os artistas, na sua superior e antecipada compreensão do mundo, a vão transmitindo.

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Venho hoje com alguns belos poemas de Rilke onde o esplendor desta sabedoria se mostra e a volúpia lida com o absoluto da paixão.

Como eu te chamei! Apelos que ninguém ouvia
e que se dulcificaram em mim.
Agora, degrau a degrau penetro em ti
e o meu sémen sobe, de infantil alegria.
Ó montanha primeva do prazer!
Já sobe à tua íntima crista arfante,
já se aproxima. Entrega-te e sente
como te afundas se ele em cima acenar.

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Não conheces torres, tu que feneces.
Mas vais descobrir uma agora
no fabuloso espaço que aflora
em ti. Fecha, como numa prece,
o rosto. Foste tu a levantá-la
sem dares por olhares e acenos de mão.
De súbito, é a plena perfeição,
e eu, homem feliz, posso habitá-la.
Ah, lá dentro é como um abraço!
Leva-me à cúpula com os teus afagos:
a ver se em tuas noites mansas lanço
com o ímpeto que põe ventres em fogo
mais sentimentos do que eu próprio alcanço.

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Oh, não me eleves!
Quem sabe se me ergo.
Levanta apenas ao de leve o rosto
Para que, chovendo eu,
Quase te pareçam ser lágrimas tuas.

Se te assolar a minha tempestade,
coloca-te, direita, frente ao meu vento;
fecha as pálpebras ao meu sopro,
fica cega
desse simples ver-me.

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Penso desnecessário clarificar no prosaico do vocabulário coloquial a intensa volúpia que escorre desta linguagem poética falando do esplendor do acto amoroso em variada fruição,

Termino com este precioso registo do sortilégio erótico que a escrita pode ter:

Ao escrever-te, saltou seiva
da máscula flor
que à minha humanidade
parece fértil e enigmática.

Sentirás tu, ao leres-me,
distante terna, a doçura
que no feminil cálice
espontânea corre?

Acompanham o artigo imagens da obra erótica da última fase de Picasso. Termino esta espécie de música com Mulher tocando bandolim, pintura de Picasso de 1909, dos primórdios do cubismo e grosso modo contemporânea destes poemas.

Picasso - Mulher tocando bandolim 1909Noticia bibliográfica

O fragmento da carta e os poemas foram transcritos do livro Momentos de Paixão, bela edição de Relógio D’Água Editores, com desenhos de Rodin, poesia e prosa de Rilke, em traduções de João Barrento, José Miranda Justo e Isabel Castro e Silva, Lisboa, 2004.

 

 

 

Do amor e consequência com Juan de Mena

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Reclining Nude with a Man Playing the Guitar - 1970-10Em mais um convite à cultura do século XV, arquivo no blog dois poemas de Juan de Mena (1411-1456), poeta espanhol grosso modo contemporâneo do francês François Villon (1431-1464) de artigo recente.

É outro o assunto desta poesia e é outra também a delicadeza da versificação.

Regresso ao deleite do amor e à sua explicitação poética, alargando a evidência de quanto o assunto é importante para a humanidade e capaz de inspirar as mais delicadas manifestações do espírito.

Depois de ontem, pela voz de Herberto Hélder (1930), sabermos poeticamente como a visita da amada transforma a noite em arco-íris, hoje Juan de Mena conta-nos, numa canção, do sofrimento de deixar os braços da amada:

oh, que morte que perdi / em viver, quando parti / dos braços de minha dama.

Canção

Onde estou eu nesta cama,
a maior dor que senti
é pensar quando parti
dos braços de minha dama.
Junto ao mal com que contendo
por estarmos longe nós,
tantas vezes me arrependo
quantas me lembro de vós:
tanto que espalham a fama
que por isso adoeci
os que sabem que parti
dos braços de minha dama.
Embora eu sofra e me cale,
esta queixa não menos perto
a acho, para meu mal,
quanto de vós eu deserto.
Se meu fim é que me chama,
oh, que morte que perdi
em viver, quando parti
dos braços de minha dama.

Conhecido que está o efeito da separação quando se ama, vejamos o efeito de um amor não respondido nestes perdidos tempos de há quase 600 anos:

Primeiro o coup-de-foudre:

Vossos olhos me fitaram / com tão discreto fitar, / feriram e não deixaram / em mim nada por matar.

L'aubade - 1965-4
Depois, a ausência de resposta satisfatória:

Eles, inda não contentes / com minha mente vencida, / dão-me tão cruéis tormentos / que atormentam minha vida:

depois que me dominaram / com tão discreto fitar, / feriram e não deixaram / em mim nada por matar.

Conclui-se a canção com o despeito de amor não correspondido, como provavelmente na humanidade de hoje também acontece:

Para crer no que tu vejas, / na minha pena dorida, / dê-te Deus tão triste vida /
que ames e nunca sejas / amada nem bem querida.

E com esta vida tal / penso bem que tu crerás / no tormento sem igual / que, sem eu merecer, me dás.
Já que morte me desejas, / sem por mim ser merecida, / dê-te Deus tão triste vida
que ames e sempre sejas / desamada e mal querida.

Deixo-vos com a canção sem mais intromissões.

Canção

Vossos olhos me fitaram
com tão discreto fitar,
feriram e não deixaram
em mim nada por matar.
Eles, inda não contentes
com minha mente vencida,
dão-me tão cruéis tormentos
que atormentam minha vida:
depois que me dominaram
com tão discreto fitar,
feriram e não deixaram
em mim nada por matar.
Para crer no que tu vejas,
na minha pena dorida,
dê-te Deus tão triste vida
que ames e nunca sejas
amada nem bem querida.
E com esta vida tal
penso bem que tu crerás
no tormento sem igual
que, sem eu merecer, me dás.
Já que morte me desejas,
sem por mim ser merecida,
dê-te Deus tão triste vida
que ames e sempre sejas
desamada e mal querida.

Traduções de José Bento in Antologia da Poesia Espanhola das Origens ao Século XIX, ed. Assírio & Alvim, Lisboa 2001.

Visita da Mulher Amada – poema de Herberto Helder a partir de poema arábico-andaluz

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The Lovers - 1923-13Vieste um pouco antes de soarem os sinos cristãos, quando o crescente lunar se abria no céu,

como a branca sobrancelha de um velho ou a curva delicada de um pé.

E, apesar da noite, o arco-íris brilhou no horizonte, o arco de muitas cores, cauda enorme de pavão.

(Ben Hazm)

Espécie de condensada versão de O Amor em Visita, famoso poema de Herberto Helder (1930), neste poema de Ben Hazm mudado para português encontramos tudo o que a imaginação precisa para reconhecer o esplendor do acto: E, apesar da noite, o arco-íris brilhou no horizonte

O original do poema vem atribuído, sem mais informação, a Ben Hazm, poeta arábico-andaluz que não consegui identificar.
Como a ortografia dos nomes árabes não está normalizada em português, poderá tratar-se, ou não, de Ibn Hazm Al-Andalusí, filósofo-poeta, autor de O Colar da Pomba, ainda que nesta obra não tenha conseguido encontrar um original que pudesse ter conduzido a esta versão.
Ficam pois os leitores com o belo poema em português, e com a curiosidade não satisfeita de qual o original que lhe deu origem.

O poema de Herberto Helder vem publicado em O Bebedor Nocturno poemas mudados para português, qual êxtase poético para quem à noite procure embebedar-se com poesia. O livro foi publicado por Assírio & Alvim, Lisboa 2010.

O sexo e a idade II — Picasso e soneto de Fernando Assis Pacheco

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Dois bebedores catalães 1934-16Há dias, quando tomávamos cerveja, eu e o meu filho, ele explicava-me as exigências rituais do brinde berlinense sob pena de o não as observar conduzir a sete anos de mau sexo.
Isso, nem pensar! Os que sobram já são poucos, exclamei.

Na verdade, a vida é finita, e por mais ajuda de Viagra, o fim chegará. Aí resta a memória, e felizes os homens que possam lembrar para si algo parecido com o que este soneto/homenagem de Fernando Assis Pacheco (1937-1995) deixa transparecer.

Pus-vos a mão um dia sem saber
que tão robusta e certa artilharia
iria pelos anos fora ser
sinal também de lêveda alegria

amigos meus colhões quanto prazer
veio até mim em vossa companhia
a hora que tiver já de morrer
morra feliz por tanta cortesia

adeus irmãos é tempo de ceder
à dura lei que manda arrefecer
o fogo leviano em que eu ardia

camaradas leais do bem foder
o brio a fleuma cumpre agradecer
sem vós teria sido uma agonia

Lisboa
29-XI-94, 23-XII-94

Soneto publicado no livro Respiração Assistida, edição Assírio & Alvim, Lisboa, 2003.

1966-2Este desenho de Picasso, de 1966, é certeiro na elucidação do papel dos testículos na vida sexual de um homem (veja-se a figuração que conduz ao entumescimento ou não), como o soneto, de outra forma, refere.

Acrescento agora, em continuação do artigo anterior, algumas gravuras de Picasso (1881-1973), desta vez não de 1970, mas produzidas pouco antes, em 1968, tinha o pintor 87 anos, e conhecidas como Raphael e a Fornarina. Nesta série, ao par amoroso, pintor e amante, em actividade sexual, surge-nos uma figura tutelar observando os amorosos. Interpretações psicanalíticas falam do pai do artista, figura presente no seu imaginário e que aqui se liberta. Outras interpretações associam antes esta figuração à impotência sexual de Picasso que no anterior artigo referi. A leitura terá outra complexidade psicológica se se conhecer a biografia de Raphael, a tempestuosa relação com a que ficou conhecida por Fornarina, e a forma como as mulheres amadas por Picasso participaram da sua pintura, aspectos pontualmente abordados no blog e a que no futuro certamente voltarei. Por agora este pequeno grupo de gravuras permite ilustrar o poder do erótico na mente humana para além da idade biológica.

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Rafael e a Fornarina 1968-15

O sexo e a idade I — Picasso e Tentação de Miguel Torga

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Tal como os filhos olham para os pais como entidades assexuadas, sendo para eles quase impossível imaginá-los nos transportes do amor, ainda que seja exactamente por tal ter acontecido que eles nasceram, todos nós quando jovens adultos, temos dificuldade em imaginar tumultos eróticos quando a vida avança para aqueles patamares onde as chamadas terceira e quarta idades aparecem. Eles existem com a acutilancia inerente à biologia de cada um: Que me queres, nesta idade sonolenta / Dos sentidos? diz o poeta.

Recordo hoje frequentemente o que nos meus vinte anos me dizia um senhor com quem amiúde conversava: a idade avança mas só o corpo envelhece, a cabeça fica sempre a mesma — e com isto referia-se ao desejo sexual.

Ocorre-me toda esta conversa a propósito do poema Tentação de Miguel Torga (1907-1995) onde, com o pudor que o caracteriza, disso dá conta:

Tentação

Vénus lançada à praia pelo mar inquieto,
Inquietas os meus olhos, sátiros cansados.
Vem de ti uma luz que o sol não tem,
E sozinha povoas o areal.
Que me queres, nesta idade sonolenta
Dos sentidos?
Lembrar-me e convidar-me a renegar
Os desejos despidos?
Como se algum poeta se esquecesse
E arrependesse
Dos antigos pecados cometidos!

O poema foi escrito na Praia do Pedrógão a 22 de Agosto de 1981, tinha o poeta 74 anos, portanto, e foi publicado no volume XIII do Diário.

Se na poesia este envelhecimento surge, nas artes plásticas também o encontramos.

Picasso (1881-1973) para o final da vida, e já perto dos 90 anos, produziu varias series de gravuras eróticas.

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No grupo que escolhi hoje, obras de 1970, a mulher surge como pretexto de veneração e aproximação táctil, e não já envolvida no acto sexual explicito como em series anteriores acontecera.

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São obras de arte onde de alguma maneira o artista exorcizou a conhecida impotência sexual que o atingiu à época, fazendo-o não partícipe, mas desejoso, dos prazeres do sexo.

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Arte rupestre pintada, no sul de Africa

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Arte rupestre - Cena de caça - Africa do Sul 01A arte pintada sobre rochas que se encontra no sul de África terá, segundo os historiadores especialistas (Abade Henri Breuil in O Homem antes da Escrita, Edições Cosmos, 1963), chegado a estas paragens muito mais tarde que a encontrada nos rochedos orientais espanhóis. Não existindo datação que permita o seu enquadramento histórico, fica-nos o prazer de apreciar a beleza estética deste desenho, onde a simplicidade da linha e a elegante composição transmitem o encanto de um mundo harmonioso.

Arte rupestre - Hipopótamo - Africa do Sul 01

Arte rupestre em Burley Africa do Sul 01É uma arte de caçadores, respeitadora da nobreza do animal, dando conta de uma sensibilidade para além do acto de sobrevivência através da caça.

Arte rupestre em Zandfontein Africa do Sul 01

Arte rupestre em Glengyle Africa do Sul 01Esta arte rupestre pintada desenvolveu-se por toda a África Austral entre o Tanganica e o Sudoeste africano, encontrando-se por isso no Zimbabwe e ainda em Natal no Sudeste africano, a Leste do rio Kei.

Arte rupestre - Antílope - Africa do Sul 02

Arte rupestre - Antílope - Africa do Sul 01

Arte rupestre - Antílope - Africa do Sul 03As fotos pertencem à colecção do Museu de Etnologia de Berlim.

 

Heterónimos de Fernando Pessoa – a carta a Adolfo Casais Monteiro

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Era uma vezOs leitores do blog conhecem, certamente, os heterónimos de Fernando Pessoa. Talvez não conheçam, no entanto, como o poeta os pensou e referiu a Adolfo Casais Monteiro numa carta famosa, datada de Lisboa em 13 de Janeiro de 1935, e publicada pela primeira vez em 1937 na Revista Presença, após a morte do poeta, portanto.

É neste pressuposto que transcrevo parcialmente para o blog, tão relevante documento.


Aí por 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande), veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas coisas em verso irregular (não ao estilo Álvaro de Campos, mas num estilo de meia regularidade), e abandonei o caso. Esboçara-se-me, contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo. (Tinha nascido, sem que eu soubesse, o Ricardo Reis.)
Ano e meio, ou dois anos, depois lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro – de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta, mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira — foi em 8 de Março de 1914 —, acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, “O Guardador de Rebanhos”. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio também, os seis poemas que constituem “Chuva Oblíqua”, de Fernando Pessoa. Imediatamente e totalmente… Foi o regresso de Fernando Pessoa Alberto Caeiro a Fernando Pessoa ele só. Ou melhor, foi a reacção de Fernando Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro.
Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir — instintiva e subconscientemente — uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajudei-o a si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jacto, e à maquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a “Ode Triunfal” de Álvaro de Campos — a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem.
Criei, então, uma coterie inexistente. Fixei aquilo tudo em moldes de realidade. Graduei as influências, conheci as amizades, ouvi dentro de mim, as discussões e as divergências de critérios, e em tudo isto me parece que fui eu, çriador de tudo, o menos que ali houve. Parece que tudo se passou independentemente de mim. E parece que assim ainda se passa. Se algum dia eu puder publicar a discussão estética entre Ricardo Reis e Álvaro de Campos, verá como eles são diferentes e como eu não sou nada na matéria.

Mais uns apontamentos nesta matéria… Eu vejo diante de mim, no espaço incolor mas real do sonho, as caras, os gestos de Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Construí-lhes as idades e as vidas. Ricardo Reis nasceu em 1887 (não me lembro do dia e mês, mas tenho-os algures), no Porto, é médico e está presentemente no Brasil. Alberto Caeiro nasceu em 1889 e morreu em 1915; nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão nem educação quase alguma. Álvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de Outubro de 1890 (à 1.30 da tarde, diz-me o Ferreira Gomes, e é verdade, pois, feito o horóscopo para essa hora, está certo). Este, como sabe, é engenheiro naval (por Glasgow), mas agora está aqui em Lisboa em inactividade. Caeiro era de estatura média, e, embora realmente frágil (morreu tuberculoso), não parecia tão frágil como era. Ricardo Reis é um pouco, mas muito pouco, mais baixo, mais forte, mais seco. Álvaro de Campos é alto (1m,75 de altura — mais 2 cm do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se. Cara rapada todos — o Caeiro louro sem cor, olhos azuis; Reis de um vago moreno mate; Campos entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo porém liso e normalmente apartado ao lado, monóculo. Caeiro, como disse, não teve mais educação que quase nenhuma — só instrução primária; morreram-lhe cedo o pai e a mãe, e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia-avó. Ricardo Reis, educado num colégio de jesuítas, é, como disse, médico; vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por ser monárquico. É um latinista por educação alheia, e um semi-helenista por educação própria. Álvaro de Campos teve uma educação vulgar de liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde resultou o “Opiário”. Ensinou-lhe latim um tio beirão que era padre.
Como escrevo em nome desses três?… Caeiro por pura e inesperada inspiração, sem saber ou sequer calcular que iria escrever. Ricardo Reis, depois de uma deliberação abstracta, que subitamente se concretiza numa ode. Campos, quando sinto um súbito impulso para escrever e não sei o quê. (O meu semi-heterónimo Bernardo Soares, que aliás em muitas coisas se parece com Álvaro de Campos, aparece sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenha um pouco suspensas as qualidades de raciocínio e de inibição; aquela prosa [Livro do Desassossego] é um constante devaneio. É um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas simples mutilação dela. Sou eu, menos o raciocínio e a afectividade. A prosa, salvo o que o raciocínio dá de tenue à minha, é igual a esta, e o português perfeitamente igual; ao passo que Caeiro escrevia mal o português, Campos razoavelmente mas com lapsos, como dizer “eu próprio” em vez de “eu mesmo”, etc., Reis melhor do que eu, mas com um purismo que considero exagerado. O difícil para mim, é escrever a prosa de Reis — ainda inédita — ou de Campos. A simulação é mais fácil, até porque é mais espontânea, em verso).

Transcrevi o texto da edição da Correspondência de Fernando Pessoa editada por Manuela Parreira da Silva e publicada por Assírio & Alvim, Lisboa 1999.

Pintura em Berlim e a Balada dos Enforcados de François Villon

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Holbein - O mercador Gisze - 1532É com emocionante surpresa que a cada passo, ao visitar os museus de pintura em Berlim, encontro obras que por anos conheci em fotografia e integraram o museu da minha imaginação. São talvez dezenas as que já surgiram no blog porque com elas me cruzei num livro e me interrogaram, sem que soubesse onde se encontravam e agora, ao circular de sala em sala, surgem, inesperadas. É um júbilo que me invade. Apetece mexer-lhes, vê-las de perto, encontrar os detalhes que em tempos prenderam a atenção. E as surpresas de escala são frequentes: a algumas das pinturas julgava-as pequenas e surgem enormes, outras pensadas de dimensões generosas, são afinal pequeníssimas. Enfim, prazeres do olhar que enchem a alma.

Anónimo - 1450O que faz de Berlim um caso especial é a diminuta divulgação mediática que os museus fazem do seu acervo, resultando daí um enorme desconhecimento sobre os tesouros que lá se guardam.

Vermeer - Mulher com colar de pérolas 1662-64Acrescento hoje alguma pintura antiga de retrato, paixão minha a que tento aliciar os leitores do blog. Alguns são retratos pouco divulgados nas monografias onde o peso das colecções norte-americanas e francesas se faz sentir. Aí ficam à contemplação do olhar.

GHIRLANDAIO ou MAINARDI - retrato de rapariga 1500

EYCK, Jan van - retrato de homem com cravo - 1435

Dürer - retrato de rapariga 1497Este olhar o outro, encontrando simultaneamente continuidades e diferenças culturais, faz da observação de cada retrato um imenso desafio à compreensão de quem somos. Na envolvência que procuramos e nos conforta, medimos a distancia que nos separa destes mundos passados que a pintura faz presentes.

Fra Filippo Lippi -  rapariga de perfil 1440-42No mosaico que a realidade sempre é, tentar captar por vislumbres uma época passada é tarefa sobremaneira cheia de prazeres intelectuais. Das épocas mais recuadas, ficaram-nos às vezes testemunhos escritos, outras vestígios da civilização material, quase sempre obras de arte que continuam a falar-nos, revelando o seu carácter intemporal.

A pouco e pouco, conhecer e preencher o puzzle de uma época que nos interroga e apaixona, dando forma na cabeça à atmosfera que nela se vivia, acaba por ser o sentido de ler e viajar pelos territórios onde os seus vestígios permanecem.

Se diversas épocas e geografias têm ao longo dos anos preenchido uma aparente insaciável curiosidade, acabo sempre, a cada nova descoberta, por regressar à Europa do século XV, aquele período da gesta dos descobrimentos portugueses e de invenção do mundo moderno que herdámos.

Foram desse tempo alguns retratos encontrados em Berlim e mostrados antes. É desse tempo a famosa Balada dos Enforcados de François Villon (1431-1464) poema em que nos confrontamos com a mais extrema violência sobre os homens, a aceitação da sua legitimidade e justificação, numa sociedade requintada capaz de produzir a sofisticação de que estes retratados dão mostras.

L’Épitaphe de Villon en forme de ballade

Homens irmãos que mais que nós viveis,
Não deixeis vosso peito empedernido,
Pois que, se compaixão de nós haveis,
Bem será Deus de vós compadecido.
Aqui somos atados cinco, seis.
Quanto à carne, demais por nós nutrida,
É gasta, devorada, corrompida
E nós, ossos, cinza e pó vamos ser.
Que ninguém de nós ria nesta vida,
Rogai a Deus que nos queira absolver!

Se clamamos, irmãos, vós não deveis
Ter desdém, por termos sido feridos
Pela justiça. Pois vós sabereis
Que nem todos têm certos os sentidos;
Intercedei por nós assim transidos
Junto do Filho da Virgem Maria,
Que não seja, da graça, a alma vazia,
Pra do fogo infernal nos proteger
Somos mortos, nada nos arrelia;
Rogai a Deus que nos queira absolver!

Pela chuva lavados e polidos,
Pelo sol ressequidos e tostados,
Os olhos pelos corvos engolidos,
A barba e os cabelos arrancados.
Nunca jamais estamos assentados,
Pra cá, pra lá, como o vento varia;
Para onde quer, sem parar, nos envia.
Bicadas: mil, até dedais parecer.
Não sejais, pois, da nossa confraria;
Rogai a Deus que nos queira absolver!

Senhor Jesus, de todos senhoria,
Poupai-nos do Inferno a tirania:
Nada temos com ele a resolver.
Homens, aqui não cabe a zombaria;
Rogai a Deus que nos queira absolver!

Tradução de Herculano de Carvalho.

Os curiosos poderão encontrar na ligação abaixo o texto original da balada e a sua versão em francês moderno.

Texte de la ballade et transcription en français moderne

Meu país desgraçado, e mais poemas de Sebastião da Gama

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Julio Pomar 01AEm tempos popular, a poesia de Sebastião da Gama (1924-1952) dorme hoje o sono do esquecimento.

Para a lembrar escolhi um poema que conserva enorme acutilância sobre a nossa realidade, hoje, ainda que não seja representativo da maior parte do que o poeta escreveu.

Meu país desgraçado!…
E no entanto há Sol a cada canto
e não há Mar tão lindo noutro lado.
Nem há Céu mais alegre do que o nosso,
nem pássaros, nem águas…

Meu país desgraçado!…
Porque fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?

Meu Povo
de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé
— busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.

E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol, o Mar,
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.

Alevanta-te, Povo!
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura
que te reclama filhos mais robustos!

Povo anémico e triste,
meu Pedro Sem sem forças, sem haveres!
— olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar
as que só por Amor te não desprezam!

Julio Pomar 02A

Andemos um pouco mais nesta poesia onde o jovem, condenado pela doença, sonha com as alegrias do corpo.

Julio Pomar 03A

HORA VERMELHA

Por que vieste, pensamento?
Já me bastava o Mar violento,
Já me bastava o Sol que ardia…
P’los meus sentidos escorria
não sei lá bem que seiva forte
que a carne toda me deixava
qual uma flor ou uma lava
num riso aberto contra a Morte.

Já me bastava tudo isto.
Mas tu vieste, pensamento,
e vieste duro, turbulento.
Vieste com formas e com sangue:
erectos seios de mulher,
as carnes róseas como frutos.

Boca rasgada num pedido
a que se quer e se não quer
dizer que não.
Os braços longos estendidos.
A mão em concha sobre o sexo
que nem a Vénus de Camões.

Aí!, pensamento,
deixa-me a calma da Poesia!
Aqui na praia só com ela,
virgem castíssima, sincera!…
Sua mão branca saberia
chamar cordeiro ao Mar violento,
Pôr meigo, meigo, o Sol que ardia.
Mas tu vieste, pensamento.
Tua nudez, que me obsidia,
logo, subtil, encheu de alento
velhos desejos recalcados,
beijos mordidos
antes de os ver a luz do Dia.

Vai-te depressa, pensamento!
Deixa-me a calma da Poesia.
Fique em minh’alma o só perfume
da cerca alegre de um convento.

Os meus sentidos embalados
numa suave melodia.
(Ah!, não nos quero desgrenhados
como quem volta de uma orgia).

E então meus lábios mais serenos
do que se orassem sobre um berço,
sorrindo à Vida,
sorrindo à Morte.
Ah!, não nos quero assim grosseiros,
ébrios, torcidos,
como depois de um vinho forte.

Fica para outra ocasião a poesia onde o questionamento de Deus e o viver a vida com a Sua presença se faz.

Julio Pomar 05A
Termino com uma tocante manifestação do desejo de Mulher.

PUREZA

Vem toda nua
ou, se o não consentir o teu pudor,
vestida de vermelho.

Teus tules brancos,
o azul, que desmaia,
de tuas sedas finas,
guarda-os p’ra outros dias.

P’ra quando, Amor!, teu ventre, já redondo,
merecer a pureza do azul…

Julio Pomar graca lobo em vermelho com um perfil desenhado a lápis 1973A

Os poema foram transcritos de Cabo da Boa Esperança, segundo livro do poeta, publicado em 1947.

As imagens que acompanham o artigo reproduzem pinturas de Júlio Pomar (1926).