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Holbein - O mercador Gisze - 1532É com emocionante surpresa que a cada passo, ao visitar os museus de pintura em Berlim, encontro obras que por anos conheci em fotografia e integraram o museu da minha imaginação. São talvez dezenas as que já surgiram no blog porque com elas me cruzei num livro e me interrogaram, sem que soubesse onde se encontravam e agora, ao circular de sala em sala, surgem, inesperadas. É um júbilo que me invade. Apetece mexer-lhes, vê-las de perto, encontrar os detalhes que em tempos prenderam a atenção. E as surpresas de escala são frequentes: a algumas das pinturas julgava-as pequenas e surgem enormes, outras pensadas de dimensões generosas, são afinal pequeníssimas. Enfim, prazeres do olhar que enchem a alma.

Anónimo - 1450O que faz de Berlim um caso especial é a diminuta divulgação mediática que os museus fazem do seu acervo, resultando daí um enorme desconhecimento sobre os tesouros que lá se guardam.

Vermeer - Mulher com colar de pérolas 1662-64Acrescento hoje alguma pintura antiga de retrato, paixão minha a que tento aliciar os leitores do blog. Alguns são retratos pouco divulgados nas monografias onde o peso das colecções norte-americanas e francesas se faz sentir. Aí ficam à contemplação do olhar.

GHIRLANDAIO ou MAINARDI - retrato de rapariga 1500

EYCK, Jan van - retrato de homem com cravo - 1435

Dürer - retrato de rapariga 1497Este olhar o outro, encontrando simultaneamente continuidades e diferenças culturais, faz da observação de cada retrato um imenso desafio à compreensão de quem somos. Na envolvência que procuramos e nos conforta, medimos a distancia que nos separa destes mundos passados que a pintura faz presentes.

Fra Filippo Lippi -  rapariga de perfil 1440-42No mosaico que a realidade sempre é, tentar captar por vislumbres uma época passada é tarefa sobremaneira cheia de prazeres intelectuais. Das épocas mais recuadas, ficaram-nos às vezes testemunhos escritos, outras vestígios da civilização material, quase sempre obras de arte que continuam a falar-nos, revelando o seu carácter intemporal.

A pouco e pouco, conhecer e preencher o puzzle de uma época que nos interroga e apaixona, dando forma na cabeça à atmosfera que nela se vivia, acaba por ser o sentido de ler e viajar pelos territórios onde os seus vestígios permanecem.

Se diversas épocas e geografias têm ao longo dos anos preenchido uma aparente insaciável curiosidade, acabo sempre, a cada nova descoberta, por regressar à Europa do século XV, aquele período da gesta dos descobrimentos portugueses e de invenção do mundo moderno que herdámos.

Foram desse tempo alguns retratos encontrados em Berlim e mostrados antes. É desse tempo a famosa Balada dos Enforcados de François Villon (1431-1464) poema em que nos confrontamos com a mais extrema violência sobre os homens, a aceitação da sua legitimidade e justificação, numa sociedade requintada capaz de produzir a sofisticação de que estes retratados dão mostras.

L’Épitaphe de Villon en forme de ballade

Homens irmãos que mais que nós viveis,
Não deixeis vosso peito empedernido,
Pois que, se compaixão de nós haveis,
Bem será Deus de vós compadecido.
Aqui somos atados cinco, seis.
Quanto à carne, demais por nós nutrida,
É gasta, devorada, corrompida
E nós, ossos, cinza e pó vamos ser.
Que ninguém de nós ria nesta vida,
Rogai a Deus que nos queira absolver!

Se clamamos, irmãos, vós não deveis
Ter desdém, por termos sido feridos
Pela justiça. Pois vós sabereis
Que nem todos têm certos os sentidos;
Intercedei por nós assim transidos
Junto do Filho da Virgem Maria,
Que não seja, da graça, a alma vazia,
Pra do fogo infernal nos proteger
Somos mortos, nada nos arrelia;
Rogai a Deus que nos queira absolver!

Pela chuva lavados e polidos,
Pelo sol ressequidos e tostados,
Os olhos pelos corvos engolidos,
A barba e os cabelos arrancados.
Nunca jamais estamos assentados,
Pra cá, pra lá, como o vento varia;
Para onde quer, sem parar, nos envia.
Bicadas: mil, até dedais parecer.
Não sejais, pois, da nossa confraria;
Rogai a Deus que nos queira absolver!

Senhor Jesus, de todos senhoria,
Poupai-nos do Inferno a tirania:
Nada temos com ele a resolver.
Homens, aqui não cabe a zombaria;
Rogai a Deus que nos queira absolver!

Tradução de Herculano de Carvalho.

Os curiosos poderão encontrar na ligação abaixo o texto original da balada e a sua versão em francês moderno.

Texte de la ballade et transcription en français moderne

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