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Reclining Nude with a Man Playing the Guitar - 1970-10Em mais um convite à cultura do século XV, arquivo no blog dois poemas de Juan de Mena (1411-1456), poeta espanhol grosso modo contemporâneo do francês François Villon (1431-1464) de artigo recente.

É outro o assunto desta poesia e é outra também a delicadeza da versificação.

Regresso ao deleite do amor e à sua explicitação poética, alargando a evidência de quanto o assunto é importante para a humanidade e capaz de inspirar as mais delicadas manifestações do espírito.

Depois de ontem, pela voz de Herberto Hélder (1930), sabermos poeticamente como a visita da amada transforma a noite em arco-íris, hoje Juan de Mena conta-nos, numa canção, do sofrimento de deixar os braços da amada:

oh, que morte que perdi / em viver, quando parti / dos braços de minha dama.

Canção

Onde estou eu nesta cama,
a maior dor que senti
é pensar quando parti
dos braços de minha dama.
Junto ao mal com que contendo
por estarmos longe nós,
tantas vezes me arrependo
quantas me lembro de vós:
tanto que espalham a fama
que por isso adoeci
os que sabem que parti
dos braços de minha dama.
Embora eu sofra e me cale,
esta queixa não menos perto
a acho, para meu mal,
quanto de vós eu deserto.
Se meu fim é que me chama,
oh, que morte que perdi
em viver, quando parti
dos braços de minha dama.

Conhecido que está o efeito da separação quando se ama, vejamos o efeito de um amor não respondido nestes perdidos tempos de há quase 600 anos:

Primeiro o coup-de-foudre:

Vossos olhos me fitaram / com tão discreto fitar, / feriram e não deixaram / em mim nada por matar.

L'aubade - 1965-4
Depois, a ausência de resposta satisfatória:

Eles, inda não contentes / com minha mente vencida, / dão-me tão cruéis tormentos / que atormentam minha vida:

depois que me dominaram / com tão discreto fitar, / feriram e não deixaram / em mim nada por matar.

Conclui-se a canção com o despeito de amor não correspondido, como provavelmente na humanidade de hoje também acontece:

Para crer no que tu vejas, / na minha pena dorida, / dê-te Deus tão triste vida /
que ames e nunca sejas / amada nem bem querida.

E com esta vida tal / penso bem que tu crerás / no tormento sem igual / que, sem eu merecer, me dás.
Já que morte me desejas, / sem por mim ser merecida, / dê-te Deus tão triste vida
que ames e sempre sejas / desamada e mal querida.

Deixo-vos com a canção sem mais intromissões.

Canção

Vossos olhos me fitaram
com tão discreto fitar,
feriram e não deixaram
em mim nada por matar.
Eles, inda não contentes
com minha mente vencida,
dão-me tão cruéis tormentos
que atormentam minha vida:
depois que me dominaram
com tão discreto fitar,
feriram e não deixaram
em mim nada por matar.
Para crer no que tu vejas,
na minha pena dorida,
dê-te Deus tão triste vida
que ames e nunca sejas
amada nem bem querida.
E com esta vida tal
penso bem que tu crerás
no tormento sem igual
que, sem eu merecer, me dás.
Já que morte me desejas,
sem por mim ser merecida,
dê-te Deus tão triste vida
que ames e sempre sejas
desamada e mal querida.

Traduções de José Bento in Antologia da Poesia Espanhola das Origens ao Século XIX, ed. Assírio & Alvim, Lisboa 2001.

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