Retratos extraordinários — Um casal por Maarten van Heemskerck

Etiquetas

Maarten van Heemskerck (1498–1574) Portraits of a Couple possibly Pieter Gerritsz Bicker and Anna Codde Haarlem oil on panel 1529 A 600Não é fácil dar a ver uma mulher que sonha no ensimesmamento da sua solidão. Olhamos esta jovem e vêmo-la talvez recordar uma vez mais a vida que acabou ou irá acabar. É uma bela jovem casada ou prestes a casar. Mostra uma serenidade resignada, e no entanto, há um quase sorriso que os pensamentos deixam entrever, a ponto de, entregue a eles, abandonar o trabalho na roca de fiar.


Maarten van Heemskerck (1498–1574) Portraits of a Couple possibly Pieter Gerritsz Bicker and Anna Codde Haarlem oil on panel 1529 B 600Talvez o futuro venha a ser risonho. Afinal o jovem marido ou futuro marido, homem bem parecido, tem o olhar firme e sereno, ainda que desconfiado, o que convém a um mercador disposto a triunfar.

Maarten van Heemskerck (1498–1574) - Portraits of a Couple, possibly Pieter Gerritsz Bicker and Anna Codde 1529 A 600

Maarten van Heemskerck (1498–1574) - Portraits of a Couple, possibly Pieter Gerritsz Bicker and Anna Codde 1529 B600Foram retratos feitos para perpetuar a sua juventude, não certamente a sua felicidade: não há laivo de ternura nos retratos deste casal.

Como sempre, a pintura, ao dar a ver, diz mais que quaisquer palavras. São dois retratos extraordinários onde a complexidade de personalidades e sentimentos se cruzam.

A mestria no detalhe, a cuidadosa composição espacial, e a sobriedade da paleta, são determinantes para o impacto visual de ambas as pinturas.

Deixo a totalidade de cada pintura cujos fragmentos destaquei antes.

Maarten van Heemskerck (1498–1574) Portraits of a Couple possibly Pieter Gerritsz Bicker and Anna Codde Haarlem oil on panel 1529 600

Maarten van Heemskerck (1498–1574) - Portraits of a Couple possibly Pieter Gerritsz Bicker and Anna Codde 1529 600Trata-se dos retratos de um casal, possivelmente Gerritsz Bicker e Anna Codde, pintados em Haarlem, na Holanda, por Maarten van Heemskerck (1498-1574), em díptico, em 1529.

As pinturas pertencem à colecção do Rijksmuseum de Amsterdão.

Culinária no blog com A Boa Dieta + A VIDA de José Lino Grünewald

Etiquetas

,

No tempo depois do amor, quando a fome aperta mas a vontade de largar o abraço não existe, nada como ter à mão a possibilidade de cozinhar algo que, sendo feito pelos dois, permite prolongar o prazer na partilha de uma intimidade conivente. É com esse propósito que vos faculto a receita para um delicioso prato de frango com queijo e laranja. Prepara- se em menos de cinco minutos se os ingredientes estiverem à mão. Será mais demorado se, como me aconteceu ontem, for necessário ir ao supermercado comprar azeite. Mas o prazer pode sempre ser retomado.

Basta de conversa e vamos então à receita para duas pessoas:

Ingredientes

Pelo menos três peitos de frango, dependendo do tamanho dos peitos e da fome;
Um queijo fresco médio + um queijo mozzarela fresco médio;
Salada pré-lavada de agrião ou rúcola ou mista

Para o tempero:
Azeite,
Dentes de alho a gosto,
Sumo de meia laranja grande ou de uma laranja média,
Sal ou flor de sal

Execução:

1 – Queijo, salada e mesa

Cortam-se os queijos em cubos para um prato de servir.
Coloca-se a salada noutro prato de servir (pré-lavada em pacote é mais fácil), depois de passar por água da torneira.
Põem-se na mesa, dois pratos e respectivos talheres, guardanapos, copos para água e vinho.
Abre-se a garrafa de vinho (pode ser branco verde, ou maduro branco ou tinto, do Dão, ou  do Douro), e já está.

2 – Frango

Numa tábua cortam-se os peitos de frango em cubos pequenos e temperam-se com um pouco de sal. Se se lavarem antes os peitos de frango (questão de gosto), ou estiverem húmidos de descongelar, secam-se com papel de cozinha antes de cortar.

Numa frigideira colocam-se os dentes de alho descascados, laminados, e cobre-se o fundo com azeite.
Acende-se o fogo e deixam-se os alhos fritar em fogo baixo ou moderado para não queimar.
Quando o azeite estiver bem quente acrescenta-se o frango em cubos (cuidado que o azeite pode espirrar) e saltei-se (mexe-se com colher) até perder a cor de cru. A operação não deve demorar mais de 2 minutos para que o frango fique suculento.

Quando o frango estiver pronto deita-se sobre o queijo no prato de servir.
Rega-se com um pouco do azeite da fritura, a gosto, e espreme-se sobre o frango a meia laranja.

Dá-se a volta para envolver e está pronto a comer.

Agora é só sentar, brindar e saciar a fome que existir.

A soneca(?) depois desta refeição pode ser deliciosa.

Por motivos óbvios não há fotos da comida.

Agora um conselho poético para continuar esta boa dieta:

A BOA DIETA

Carlota dissera ao seu doutor
Que lhe agradava, de manhã, fazer amor,
Embora à noite a coisa fosse mais sadia.
Sendo ela prudente, resolveu
Fazê-lo duas vezes ao dia:
De manhã, por prazer
De noite, por dever.

Poema de Friederich von Logau (1604-1655) em tradução de João Paulo Paes.

Friederich von Logau (1604-1655)  foi um notável poeta do barroco alemão, período de onde nos chegaram fascinantes poesias visuais, algumas das quais magistralmente traduzidas por João Barrento na Antologia do Barroco Alemão, O Cardo e a Rosa.

Para uma vez mais dar conta das continuidades poéticas que atravessam o mundo, é com um herdeiro brasileiro dessa poesia visual que termino – José Lino Grünewald(1931-2000) – Zelino para os amigos, poeta e tradutor brasileiro, talvez apenas conhecido em Portugal pela sua tradução de OS CANTOS de Erza Pound.

Figura de proa da vanguarda poética brasileira, com os irmãos Campos, Augusto e Haroldo, e Décio Pignatari, à sua poesia regressarei. Por agora fiquemos com a vida

Três poemas de José Gomes Ferreira

Etiquetas

XXXVII

Ah! Se eu imitasse a alegria das árvores e do vento

que riem sem motivo

 

Mas não. Ando triste.

 

Já não me contento em sentir-me vivo…

(E que outro destino existe?)

 

 

LIV

Pobre mendigo!

Queres uma mulher nua,

mas só tens a lua

para dormir contigo.

 

A lua – imagina –

que nem a um poeta

satisfaz!

– Sonâmbula mulher incompleta

com cabeça de menina

e corpo de gás…

 

 

LXIV

Sim, a morte vazia,

sem anjos na paisagem,

nem a dor duma estrela

no silêncio medonho.

 

Só a morte vazia

e esta coragem

de não querer enchê-la

de sonho.

 

 

Três poemas de José Gomes Ferreira (1900-1985) sem mais comentário. Apenas a magia da poesia.

Os poemas pertencem a Eléctrico, tal como publicados em Poesia III, Portugália, 1961

A longevidade e o peso da idade, um poema de João Xavier de Matos

Etiquetas

,

Bloemaert_Abraham-Landscape_with_Vegetables_and_Fruits_in_the_Foreground AHá pouco mais de 100 anos Bulhão Pato escrevia no prefácio ao seu “Livro do Monte” esta coisa espantosa para o homem de hoje –  A árvore, passados para nós os cinquenta, substitui a mulher. O que vale é que antes tinha escrito: Quando a alma não envelhece, a sensibilidade é porventura mais viva em anos provectos, com o que provavelmente virei a concordar.

Este prefácio em apresentação daquele conjunto de poemas à natureza continua, ilustrando o que a companhia de uma árvore permite a um solitário a quem os desejos do corpo abandonaram aos cinquenta anos.

Nos nossos dias, nem bem passados os sessenta o homem se sente assim. A juventude ainda não é eterna mas prolongou-se muito.

Graças aos nossos políticos são jovens os agricultores até aos 40 anos como quer que se sintam, mesmo que mais cedo que o nosso poeta prefiram a árvore à mulher. E são jovens também, mas já só até aos 35 anos, os membros dos partidos, e por aí fora.

Efectivamente, além da graça destas classificações politicas, somos todos mais novos quando chegamos à idade em que os nossos pais, para não falar dos avós, já se consideravam na curva descendente da vida.

Na vertigem do dia-a-dia poucos percebemos a profundidade dessas alterações e não sei bem se todos desfrutam desta aumentada juventude que a sociedade moderna nos trouxe.

É lendo os autores antigos em cartas ou memórias de algum tipo, que esta maravilhosa realidade se me faz presente, quando constato em gente muito mais nova que eu, achaques, preocupações e atitudes mentais mais adequadas ao final da vida que à idade física que possuem.

Trago como exemplo um soneto de João Xavier de Matos (???? – 1789) escrito provavelmente em meados do sec. XVIII onde o poeta, com trinta e cinco – Já lá vão sete lustros, que este monte / Berço me foi:se sente com a vida perto do fim – Vai-se apagando a luz, secando a fonte – e despede-se com uma súplica – Paixões, desejos, ide-vos embora; / Favor, que me fareis por poucos dias.

Pensar eu que alguém se sentiu a caminho do fim da vida aos trinta e cinco anos, e era esse o padrão comum, ainda que a longevidade existisse, leva-me a gostar cada vez mais do tempo que me foi dado viver.

É aproveitar e desfrutar quanto possível. Há apenas que ter a cabeça a rodar na linha certa.

E agora o soneto:

 

Já lá vão sete lustros, que este monte

Berço me foi: Já da vital jornada

Mais de meia carreira está passada;

E cedo iremos ver outro horizonte:


A mão já treme, já se enruga a fronte,

Já branqueja a cabeça, e com a pesada

Considração da vida mal gastada,

Vai-se apagando a luz, secando a fonte.


Pouco nos resta, que passar já agora;

E para as derradeiras agonias

De tantos anos, aproveite hum’hora.


Esperanças, temores, vãs porfias,

Paixões, desejos, ide-vos embora;

Favor, que me fareis por poucos dias.

 



O propósito era falar da poesia de Bulhão Pato, e afinal saiu este razoado. Bulhão Pato e a sua obra têm que ficar para outro dia.

E Xavier de Matos também vai ter que esperar.

Por agora boa noite.


Os erros de Eros com E.M. de Melo e Castro

Etiquetas

,

Picasso desenho de colecção particularOs erros de Eros no percurso amoroso de cada um nunca foram pretexto para parar a pesquisa, e das técnicas de engate ao longo dos tempos se fez eco a poesia.

Exprimir o sexo tem sido invenção de alguns poemas aqui deixados. Desde a longínqua Idade Média com as Cantigas d’Amigo, às vezes ganhando uma forma híbrida a resvalar para o Escárnio e Mal-dizer, aos transportes suicidários da poesia romântica, passámos por um vasto corpus poético onde avulta o soneto de inspiração petrarquista com expoentes em português entre o chamado soneto maneirista. Despedindo-se a poesia, no século XX, do romantismo, as vanguardas ganharam o gosto do corpo na sua enunciação explicita.

Numa visita a um expoente das vanguardas poéticas desde os anos 50, é à poesia de E.M. de Melo e Castro (n. 1932) que hoje convido.

A escolha poética entre a sua poesia decorre de uma ideia de síntese acrescentando nova perspectiva às questões de língua antes afloradas, qual seja:


e de repente a língua se liberta

do peso que teve.

água corre na água.

o corpo livre

e abrem-se os sentidos

no orgasmo da luz

ver e não ver

ouvir e não ouvir

tocar e não tocar

cheirar e não cheirar

sabor e não sabor

tudo é saber

da mesma forma o peso

do não peso

o dar do receber

a posse do poder

como se de repente

as mãos o peito

os pés as pernas

fossem sexos unidos

ou os sextos sentidos

somados divididos

no momento de vir.

Abertos os sentidos no orgasmo da luz,  percorreremos questões de língua e outras num arco temporal até à Idade Média e geográfico até ao Japão.

Comecemos por esta síntese da fala do sexo:

FALA

falar do falo

é uma fácil falácia


do príapo é mais própria

a prosápia


quanto ao caralho

não é pau de carvalho


mas engrossa a piça

o chouriço enchoiriça

e a piça incha e estica


mas o tesão

não se compra nem se vende


a cona destes versos

é que o fode!

Refere o poeta, cheio de razão que … o tesão / não se compra nem se vende, sabe quem sente e o poeta num gesto secular ecoa nesta  CANTIGA DE COR-TESÃO


CANTIGA DE COR-TESÃO

Quanto mais amo

minha amo

mais mama

mamo


– é assim é que é


Quanto mais como

tua cama

mais cono

como


– é assim é que é


Quanto mais cavo

no teu cu

mais cravo

sou


– é assim é que é


Quanto mais é assim

mais me venho

a mim


-é assim é que é


e o pé?


Os argumentos indutores de tesão condensa E.M. de Melo e Castro num rasgo de inspiração japonesa neste Haiku Erótico:

Haiku Erótico – 1994

mamilos ilhas

do mar elástico

flores

na pele do peito

.

negro loiro

o perfume volume

clitóris

da face do êxtase

.

vento oscilando

cúpula no mastro

glande

rubra de neve

.

na pele do deserto

areia movediça

cetim

de dedos cactus

.

fundo e claro

o obscuro fluxo

canto

do olho aberto

.

figura esguia

peixe na água

lava

por fenda fina

.

a saliva sabe

do sol o toque

beijo

eixo na boca

.

voo no ritmo

das asas duplas

cópula

única é a ave

.

volume ocupando

o espaço da mão

flecha

redonda logo

.

olhos abertos

na cor da noite

voláteis

cristais de luz

.

na onda anda

um outro lugar

vulva

volume vago

.

o ambiguo dizer

pedra de toque

pénis

no calor dos olhos

.

caricia outra

leve fluir

língua

o toque ácido

.

total orgasmo

nulo de nada

luz

sobre a iluminação

Aberto que está o caminho para o  total orgasmo / nulo de nada / luz / sobre a iluminação, eventualmente conduzido pelo  vento oscilando / cúpula no mastro até a glande / rubra de neve convidar ao repouso, aqui fica, quando tal acontecer, a sugestão de leitura com um soneto maneirista do autor, imitação de um género tão ao gosto do blog.


LEITURA

é lendo que eu aprendo o que já sei

é vendo que eu entendo o que me rói

é tendo que eu vendo o que me dei

é na merda do nada que o cu dói


como não quer a coisa quero a coisa

o coiso quer a coisa quer a casa

em que penetre o coiso como poisa

no peixe a água e a ave bate a asa


e como como o cono como a cona

e quando como a cona como a cama

de pé de costas ou no bico da mama


mas é vindo que eu vou até ficar

ouvindo e vendo e lendo o mar:

como é belo o que me dás de cu pró ar!


Notícia bibliográfica:

Os poemas transcritos foram retirados do livro Sim… Sim! Poemas Eróticos, de E.M. de Melo e Castro publicado por VEGA EDITORA em 2000.

O título do artigo foi também emprestado pelo autor, pois OS ERROS DE EROS, foi além de título de poema no mesmo livro, o título pensado pelo autor para o livro de poesia erótica que veio a chamar-se CARA LH AMAS e foi publicado em 1975.

CONVERSA DE CINEMA E A INVENÇÃO DE EROS NO FINAL

Etiquetas

Do mundo servido na televisão temos tido noticia, suponho. Falam sempre de qualquer coisa e a criativa prática de fazer seguir as noticias de debates com especialistas de lugares comuns deixa-me irremediavelmente um pouco melancólico.

Medito a sublimidade

enquanto um ar abstracto

absorve a informação

sobre insectos e verduras

vendidos na televisão.

Seguem-se então os champôs com sabor de lucia-lima

e chás de sabão azul

cuecas para a cintura

viagens ao universo

e corridas para o lixo

separado em varias cores conforme a sua função.

Ministros em digressão cacarejam comentários

com grande satisfação.

Ficam de fora os perfumes com o cheiro a pintassilgo

e as frutas enlatadas em caixas de telemóvel

com garantia de um ano sem fazer a digestão.

 

E ontem, depois de uma destas experiências resolvi ver um filme.

Felizmente o dvd trouxe de volta as ásperas belezas do cinema italiano que incendiavam a minha imaginação adolescente naquele barracão onde vi cinema três vezes por semana.

O efeito destas experiências consegue medir-se pela visão da alegoria de Fellini em Amarcord, quando o protagonista adolescente é literalmente afogado nas imensas, descomunais, mamas da vendedoura de cigarros, a ponto de ficar febril. Mas não foram essas que afinal fui visitar.

Lembrei-me que mesmo as suaves belezas de Holywood ganham uma rugosidade especial ao chegar a Itália. É talvez do clima, ou do ar que se respira, mais provavelmente.

Veja-se Julia Roberts num filme há anos exibido em Lisboa. Como chega anémica a Itália e parte para o Oriente outra, muito mais mulher. Já lhe tinha acontecido semelhante no fabuloso musical de Woody Allen, Toda a gente diz que te amo, de tal maneira que ao olharmos os Tintoretto da Scuola di San Rocco depois do filme, os vemos de outra maneira (gosto mais de pensar isto que aceitar simplesmente tal transformação como o resultado da limpeza e restauro a que foram submetidos os frescos entre a primeira e a segunda vez que os vi).

Mas a outras aconteceu semelhante. Por exemplo Ingrid Bergman quando foi transportada para Itália por Rossellini, sobretudo naquele inesquecível Viagem em Itália, ganha uma densidade madura de mulher, ausente, por exemplo, da maneira como Hitchcock a filmou em Notorious, Difamação em português.

É este mesmo Hitchcock que permite ver a transformação italiana em Shirley MacLaine, aquela beleza sempre um pouco espantada de si, Sweet Charity de todos os desamparados, e que aqui me traz.

(Nota erudita: Este Sweet Charity foi a versão americana de Bob Fosse de As noites de Cabíria, de Fellini).

Filmou-a Hitchcock em The Trouble with Harry, em português chamado O terceiro tiro, uma desconcertante comédia onde o macabro do enterra /desenterra nos faz rir a bom rir, e onde a beleza impávida, serena, e de desarmante ingenuidade camufalda da MacLaine não tem menor responsabilidade. Esta Shirley MacLaine filmada em Itália por Vittorio De Sicca é toda ela outra criatura.

Tinha há algum tempo para ver um filme de sketch de Vittorio De Sicca, Sete Vezes Mulher, por ela protagonizado e por uma vasta lista de actores célebres. Gosto dos filmes de Vittorio De Sicca. Falta-lhes sempre um quantum para serem geniais, variando o tamanho do quantum de filme para filme.

O filme, vi-o com o desenfado que me estava a apetecer, e nos altos e baixos inevitáveis da fórmula do sketch surgem algumas pérolas, como o intelectual strepe-tease de MacLaine, lendo poesia nua e filosofando em redor do quarto, muito à anos sessenta, perante um quase incontrolado Vitorio Gassman. De antologia. Ver surgir numa curta intervenção a maliciosa Anita Ekberg, de que só recordo o banho na Fontana Trevi em Dolce Vita, foi um inesperado prazer.

Acabado o filme interroguei-me que poema escolheria eu para fazer ler a uma qualquer Shirley naquele preparo, e escolhi uma INVENÇÃO DE EROS que aqui transcrevo.

INVENÇÃO DE EROS

Fui procurar-te para ser contigo

quando colhi das horas que invadias.

Colhi da própria dor um nome antigo

que fosse o nome exacto em que virias.


Da límpida substância dos teus risos

fui-te inventando dentro dos meus braços

e os sóis mais densos puros e precisos

vieram dar-me a sombra dos teus passos.


E já não eram meus senão de erguê-los,

a tua face e os lábios e os cabelos

e o teu olhar para ninguém voltado.


Mas quem, o pleno amor de que nascias

se o deus que a ti igual encontrarias

ficou, pelo teu olhar, desabitado?

 


Noticia bibliográfica: O soneto é de Vitor Matos e Sá (1926–1975) e foi publicado no seu segundo livro O Silêncio e o Tempo em 1956.

Beija-me, minha alma, doce espelho e guia

Preencho o blog como se de um jardim aberto ao mundo se tratasse. E hoje vou colher, para  aqui plantar, no jardim de poesia erótica do Siglo de Oro.

Publicou José Bento em 1997, na Assírio & Alvim, com o título Jardim de Poesias Eróticas do Siglo de Oro, uma escolha pessoal de 51 poesias retiradas dos 144 poemas reunidos em Poesía erótica del siglo de Oro.

Dá o poeta e tradutor, na Nota Introdutória, as razões da escolha de que cito: Não tem este meu jardim outro objectivo que não seja recrear-me, ao ler e traduzir estes versos, e procurar recrear outros que porventura os apreciem, estando por mim excluído qualquer intuito erudito, de que não sou capaz.

Subscrevo integralmente o propósito no que ao conteúdo do blog se refere, agradeço penhorado ao poeta ter-nos dado o prazer de todo o seu labor de tradutor, tantas vezes genial, e entre as poesias que maior gozo me deram neste livro escolho a que traz na edição o nº 45

Beija-me, minha alma, doce espelho e guia,

beija-me, acaba, dá-me este contento,

e cada beijo teu engendre um cento,

sem que cesse jamais esta porfia.

 

Beija-me cem mil vezes cada dia,

pra que, chocando alento com alento,

saiam deste int’rior contentamento

doce suavidade e harmonia.

 

Ai, boca, venturoso o que te toca!

Ai, lábios, ditoso é o que vos beija!

Acaba, vida, dá-me este contento,

 

dá-me já tal gosto com tua boca.

Beija-me, vida: tudo em mim lateja.

Aperta, morde, chupa, mas com tento.

Dispenso-me de clarificar o que beija a boca pois a chave de ouro que conclui o soneto é perfeitamente elucidativa.

Merda! Sou lúcido. – Coitado do Álvaro de Campos!

viciodapoesia's avatarvicio da poesia

Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa

Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara,

Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;

E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha

(Excepto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:

Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,

E romantismo, sim, mas devagar…)


Sinto uma simpatia por essa gente toda,

Sobretudo quando não merece simpatia.

Sim, eu sou também vadio e pedinte,

E sou-o também por minha culpa.

Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:

É estar ao lado da escala social,

É não ser adaptável ás normas da vida,

Às normas reais ou sentimentais da vida –

Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,

Não ser pobre a valer, operário explorado,

Não ser doente de uma doença incurável,

Não ser sedento de justiça ou…

View original post mais 459 palavras

Homenagem a Magritte com um pouco de cinema à mistura

Etiquetas

Nesta fotografia, homenagem à obra de Magritte (1898-1967),  é a reflexão sobre o significado do que  vemos além do olhar, para onde toda a sua pintura nos convoca, que pretendo registar. Segue-se a pintura que lhe deu origem.

Numa cena notável do filme O caso Thomas Crown, remake, a ilusão criada pela multiplicação da mesma imagem inspirada na pintura de Magritte com um vulto de homem com sobretudo, chapéu de coco e maçã na cara, impedindo o reconhecimento do personagem procurado no museu, quando supostamente pretende devolver a pintura de Monet roubada, é um caso particularmente feliz desta reflexão, que de resto todo o filme é, ao fazer girar o argumento em torno da pintura autentica e da sua imitação.

Evidentemente para lá do caso humano que a história protagoniza naquela leveza de champanhe que o faz um dos meus filmes preferidos de sempre, não contribui menos para essa preferência a cena de dança que se constitui o momento de viragem na história, deixando os personagens de Pierce Brosnan/René Russo de ser adversários para passarem a ser cúmplices apaixonados. O vestido negro transparente com que René Russo perde a cabeça, julgando estar a caçar, contribui decisivamente para que esta seja uma das cenas de maior erotismo no cinema alguma vez filmadas.

Termino convidando-vos a olhar o mundo na perspectiva Magritte, depois de nestes dias vos ter arrastado ao prosaico quotidiano.

Primeiro a mobilidade:

Segue-se a paisagem e a natureza

Temos em cima, e em baixo, o homem … e a mulher

Terminemos com dois retratos da mulher imaginada pelo pintor: o rosto e em corpo inteiro

Um pouco de memória cinéfila

Etiquetas

,

É possível que para as novas gerações a memória cinéfila se construa com os filmes vistos na juventude. Comigo não foi assim. Foi perto dos 30 anos, quando livre do mobiliário da função social da arte que me atravancava a cabeça, que despertei para grande parte dos filmes que agora fazem a minha delicia.

Viver o inicio da adolescência naquele remoto lugar que era o Algarve no inicio dos anos sessenta, onde nem televisão chegava em condições decentes, significou de tal forma uma estreiteza de oportunidades, que a minha memória cinéfila se faz da variedade entre os filmes de legiões romanas e as tragicomédias hispano-mexicanas com Cantiflas ou Marisol, passando por Sarita Montiel e Joselito. Um curto universo de que retenho difusas imagens de um rapazinho, qual pássaro cantor, apanhado pelas goelas de um leão no coliseu de Roma enquanto uma bela morena atira à arena um ramo de violetas.

Mantenho da adolescência o gosto pelos filmes de aventuras. Adorei a tetralogia Indiana Jones e “Em busca da Esmeralda Perdida” transforma-me qualquer melancolia na vontade de partir à volta do mundo esteja ou não o barco estacionado à porta de casa. E depois temos Os três Mosqueteiros naqueles magníficos chapéus adornados de penas de pavão que os transformavam em aves do paraíso dançando em lutas de esgrima.

Esta fantasia de Hollywood em torno de chapéus é em Ninotshka um absoluto do cinema na forma como um chapéu derrota o comunismo. Entre o primeiro olhar de desdém que a Garbo no papel de comissária soviética lança ao chapéu na vitrine do hotel e o segundo momento quando na solidão do quarto do hotel depois de se certificar que está tudo bem fechado, desembrulha o mesmo chapéu e o coloca na cabeça frente ao espelho, é uma história de civilização que decorre e com ela um conceito de mulher traduzido nestes pequenos gestos. Lubitsh era um mestre incomparável da ironia e tudo isto decorre numa suavidade de encantar.

Apetece dizer vivam os chapéus que nos dão de volta as mulheres no feminino e não seres assexuados pela ideologia.

As duas fotografias são de Greta Garbo, sem chapéu, feitas para a promoção do filme Mata-Hari, como de costume fotografada por Clarence Sinclair Bull