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É possível que para as novas gerações a memória cinéfila se construa com os filmes vistos na juventude. Comigo não foi assim. Foi perto dos 30 anos, quando livre do mobiliário da função social da arte que me atravancava a cabeça, que despertei para grande parte dos filmes que agora fazem a minha delicia.

Viver o inicio da adolescência naquele remoto lugar que era o Algarve no inicio dos anos sessenta, onde nem televisão chegava em condições decentes, significou de tal forma uma estreiteza de oportunidades, que a minha memória cinéfila se faz da variedade entre os filmes de legiões romanas e as tragicomédias hispano-mexicanas com Cantiflas ou Marisol, passando por Sarita Montiel e Joselito. Um curto universo de que retenho difusas imagens de um rapazinho, qual pássaro cantor, apanhado pelas goelas de um leão no coliseu de Roma enquanto uma bela morena atira à arena um ramo de violetas.

Mantenho da adolescência o gosto pelos filmes de aventuras. Adorei a tetralogia Indiana Jones e “Em busca da Esmeralda Perdida” transforma-me qualquer melancolia na vontade de partir à volta do mundo esteja ou não o barco estacionado à porta de casa. E depois temos Os três Mosqueteiros naqueles magníficos chapéus adornados de penas de pavão que os transformavam em aves do paraíso dançando em lutas de esgrima.

Esta fantasia de Hollywood em torno de chapéus é em Ninotshka um absoluto do cinema na forma como um chapéu derrota o comunismo. Entre o primeiro olhar de desdém que a Garbo no papel de comissária soviética lança ao chapéu na vitrine do hotel e o segundo momento quando na solidão do quarto do hotel depois de se certificar que está tudo bem fechado, desembrulha o mesmo chapéu e o coloca na cabeça frente ao espelho, é uma história de civilização que decorre e com ela um conceito de mulher traduzido nestes pequenos gestos. Lubitsh era um mestre incomparável da ironia e tudo isto decorre numa suavidade de encantar.

Apetece dizer vivam os chapéus que nos dão de volta as mulheres no feminino e não seres assexuados pela ideologia.

As duas fotografias são de Greta Garbo, sem chapéu, feitas para a promoção do filme Mata-Hari, como de costume fotografada por Clarence Sinclair Bull

 

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