A valsa — poema de Casimiro de Abreu

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Renoir - Dance in the City 1883 A1É sobretudo música o que nos entra na alma ao ler a poesia de Casimiro de Abreu (1839-1860), seja na esfuziante alegria de ambiente brasileiro: paisagens e amores; seja nos doridos poemas de saudade, ou na pungente poesia da morte anunciada aos vinte anos (o poeta morreu aos vinte e um anos). Em todos, é a fluência melódica do verso que seduz à primeira leitura. Muitos são os poemas que apetece transcrever. Decido-me por um, A Valsa, de atípica construção na obra do poeta. É uma vertiginosa cadência de palavras a cuja leitura irresistivelmente dançamos, levados pelo ritmo ternário do poema. Mais tarde, meio-século mais tarde, já no século XX, Almada Negreiros compõe, na mesma linha, mas com a modernidade temática do seu tempo, Rondel do Alentejo, que anteriormente transcrevi.

 

A valsa

 

Tu, ontem,

Na dança

Que cansa,

Voavas

Co’as faces

Em rosas

Formosas

De vivo,

Lascivo

Carmim;

Na valsa

Tão falsa,

Corrias,

Fugias,

Ardente,

Contente,

Tranqüila,

Serena,

Sem pena

De mim!

Quem dera

Que sintas

As dores

De amores

Que louco

Senti!

Quem dera

Que sintas!…

— Não negues,

Não mintas…

— Eu vi!…

 

Valsavas:

— Teus belos

Cabelos,

Já soltos,

Revoltos,

Saltavam,

Voavam,

Brincavam

No colo

Que é meu;

E os olhos

Escuros

Tão puros,

Os olhos

Perjuros

Volvias,

Tremias,

Sorrias,

P’ra outro

Não eu!

Quem dera

Que sintas

As dores

De amores

Que louco

Senti!

Quem dera

Que sintas!…

— Não negues,

Não mintas…

— Eu vi!…

 

Meu Deus!

Eras bela

Donzela,

Valsando,

Sorrindo,

Fugindo,

Qual silfo

Risonho

Que em sonho

Nos vem!

Mas esse

Sorriso

Tão liso

Que tinhas

Nos lábios

De rosa,

Formosa,

Tu davas,

Mandavas

A quem ?!

Quem dera

Que sintas

As dores

De amores

Que louco

Senti!

Quem dera

Que sintas!…

— Não negues,

Não mintas,..

— Eu vi!…

 

Calado,

Sózinho,

Mesquinho,

Em zelos

Ardendo,

Eu vi-te

Correndo

Tão falsa

Na valsa

Veloz!

Eu triste

Vi tudo!

Mas mudo

Não tive

Nas galas

Das salas,

Nem falas,

Nem cantos,

Nem prantos,

Nem voz!

Quem dera

Que sintas

As dores

De amores

Que louco

Senti!

Quem dera

Que sintas!…

— Não negues

Não mintas…

— Eu vi!

 

Na valsa

Cansaste;

Ficaste

Prostrada,

Turbada!

Pensavas,

Cismavas,

E estavas

Tão pálida

Então;

Qual pálida

Rosa

Mimosa

No vale

Do vento

Cruento

Batida,

Caída

Sem vida.

No chão!

Quem dera

Que sintas

As dores

De amores

Que louco

Senti!

Quem dera

Que sintas!…

— Não negues,

Não mintas…

Eu vi!

 

Rio — 1858.

 

Transcrito de As Primaveras, Novíssima edição acrescentada de Novas Poesias e da Scena Dramatica O Camões e o Jáo e Dois Romances em Prosa, Lisboa, Imprensa de J. G. de Sousa Neves,1875.

Na transcrição do poema modernizei a ortografia.

Almada — Rondel do Alentejo

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Rondel do Alentejo 450pxEm rescaldo de Carnaval vamos à poesia que dança na estonteante cadência rítmica de Rondel do Alentejo escrito por Almada Negreiros (1893-1970) em 1913.

 

 

Rondel do Alentejo

 

Em minarete

mate

bate

leve

verde neve

minuete

de luar.

 

Meia-noite

do Segredo

no penedo

duma noite

de luar.

 

Olhos caros

de Morgada

enfeitada

com preparos

de luar.

 

Rompem fogo

pandeiretas

morenitas,

bailam tetas,

e bonitas,

bailam chitas

e jaquetas,

são as fitas

desafogo

de luar.

 

Voa o xaile

andorinha

pelo baile,

e a vida

doentinha

e a ermida

ao luar.

 

Laçarote

escarlate

de cocote

alegria

de Maria

la-ri-rate

em folia

de luar.

 

Giram pés

giram passos

girassóis

e os bonés,

e os braços

destes dois

giram laços

ao luar.

 

O colete

desta Virgem

endoidece

como o S

do foguete

em vertigem

de luar.

 

Em minarete

mate

bate

leve

verde neve

minuete

de luar.

 

Transcrito de Almada Negreiros, Obras Completas, Vol.I-Poesia, 2ªEdição, INCM, Lisboa, 1990.

O poema foi publicado em 1922 no nº2 da revista Contemporanea, acompanhado do desenho de Almada que abre o artigo.

Sete anos de pastor Jacob servia — Génesis, Camões e António Sardinha

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RAFFAELLO Sanzio - encontro de raquel com jacob 1518-19SONETO de Jacob, pastor antigo,

— soneto de Rachel, serrana bela…

Oh quantas vezes o relembro e digo,

pensando em ti, como se foras ela!

 

Sirvo-me desta primeira quadra de um soneto de António Sardinha (1888-1925) para chegar às origens do relato do amor de homem por mulher na cultura ocidental, o que aconteceu por via do primeiro livro da Bíblia, Génesis. Não falo de Adão e Eva, pois essa é a história da necessidade biológica do sexo e do seu impulso irresistível quaisquer que sejam as consequências, mas da história de Jacob, e do que este aceita fazer para possuir a mulher que quer, neste caso a prima Raquel:

Para obter Raquel, Jacob trabalhou durante sete anos e, pelo amor que lhe tinha, aqueles sete anos pareceram-lhe apenas alguns dias.

 

Conta-se a história em Génesis, capítulo 29.

 

Génesis

29.15

Jacob já estava há um mês em casa de Labão, quando este lhe disse: “É certo que tu és meu parente. Mas até agora tens trabalhado para mim de graça. Diz-me que salário queres.”

29.16

Labão tinha duas filhas, a mais velha chamava-se Lia e a mais nova, Raquel.

29.17

Lia tinha uns olhos muito ternos. Mas Raquel era bonita e elegante.

29.18

Jacob gostava muito de Raquel e por isso respondeu: “Aceito trabalhar para ti, durante sete anos, para casar com Raquel a tua filha mais nova.”

29.19

Labão respondeu: “Está bem. É melhor casá-la contigo que casá-la com outro qualquer. Podes continuar em minha casa.”

29.20

Para obter Raquel, Jacob trabalhou durante sete anos e, pelo amor que lhe tinha, aqueles sete anos pareceram-lhe apenas alguns dias.

 

Camões sintetizou o caso num popular soneto:

 

Sete anos de pastor Jacob servia

Labão, pai de Raquel, serrana bela;

mas não servia ao pai, servia a ela,

e a ela só por prémio pretendia.

 

Os dias na esperança de um só dia,

passava, contentando-se com vê-la;

porém o pai, usando de cautela,

em lugar de Raquel lhe dava Lia.

 

Vendo o triste pastor que com enganos

lhe fora assi negada a sua pastora,

como se a não tivesse merecida,

 

começa de servir outros sete anos,

dizendo: “Mais servira se não fora

para tão longo amor tão curta a vida”.

 

Como se vê pelo soneto, a coisa não correu como prometido, e o pai de Raquel começou por roer a corda.

Vejamos, pois, o que de facto aconteceu, com a continuação do relato bíblico:

 

29.21

Depois disse a Labão: “Dá-me a minha mulher, para eu casar com ela, pois já acabou o tempo combinado.”

29.22

Labão convidou toda a gente do lugar e ofereceu um banquete.

29.23

Mas à noite, em vez de Raquel, Labão levou Lia para o quarto dos noivos e foi com ela que Jacob dormiu.

29.24

Labão deu à sua filha Lia a escrava Zilpa, para ficar ao serviço dela.

29.25

Pela manhã, quando Jacob se deu conta de que era Lia foi reclamar a Labão: “Que é que me fizeste? Por amor de Raquel andei a trabalhar para ti. Porque é que me enganaste?”

29.26

Labão respondeu: “Cá na nossa terra não é costume casar a filha mais nova antes da mais velha.

29.27

Mas depois dos sete dias de lua de mel podemos dar-te também a outra em casamento, desde que te comprometas a trabalhar para mim outros sete anos mais.”

29.28

Jacob assim fez. Passaram os sete dias da lua de mel e Labão deu-lhe também a sua filha Raquel como esposa.

29.29

A Raquel, Labão deu Bilá, sua escrava, para ficar ao serviço dela.

29.30

Jacob dormiu também com Raquel e esta era a sua preferida. E durante mais sete anos Jacob ficou ao serviço de Labão.

 

Está assim elucidado o sucesso que levou ao soneto de Camões acima transcrito.

Aqui chegados talvez valha a pena conhecer a história desde o início, e como Jacob conheceu Raquel:

Génesis:

29.4

Jacob perguntou aos pastores: “Amigos, donde são?” E eles responderam: “Somos de Haran.”

29.5

Jacob perguntou de novo: “Por acaso conhecem Labão, descendente de Naor?” “Conhecemos, sim”, responderam eles.

29.6

Jacob perguntou ainda: “Ele está bem?” “Está sim. Olha! A filha dele, Raquel vem aí com o rebanho”, indicaram os pastores.

29.7

Jacob disse: “Ainda é bastante cedo. Ainda não é tempo de recolher o rebanho. Dêem-lhe de beber e levem-no outra vez a pastar,”

29.8

29.9

Enquanto estava a falar com eles, chegou Raquel com a ovelhas do seu pai, pois era ela a pastora

29.10

Ao ver Raquel filha do seu tio Labão, com o rebanho do seu tio, Jacob aproximou-se e retirou a pedra de cima do poço e deu água ao rebanho do seu tio Labão.

29.11

Depois saudou Raquel com um beijo e não pôde conter as lágrimas.

29.12

Jacob anunciou a Raquel que ele era parente do pai dela pois era filho de Rebeca. E ela foi a correr levar a notícia ao pai.

29.13

Labão ao ouvir falar do seu sobrinho, Jacob, correu ao encontro dele, abraçou-o, beijou-o e conduziu-o para sua casa. Jacob contou-lhe então tudo o que tinha acontecido.

29.14

E Labão exclamou: “Realmente tu és da minha própria familia.” E Jacob ficou em casa dele.

 

A imagem que abre o artigo mostra uma pintura de Rafael executada em 1518-19 dando conta do encontro entre Jacob e Raquel junto ao poço. Pela mesma época (1515-25) Palma Vecchio ilustrava como segue o beijo destes no poço (Génesis 29.11).

PALMA VECCHIO - O beijo de Raquel e Jacob 1515-25 a

Volto agora ao sonetos abertura onde António Sardinha (1888-1925), partindo de Camões, nos leva, não pela história bíblica, mas pelo desolado da sua existência na ausência da sua amada:

O que eu servira, p’ra viver contigo, / — tão doce, tão airosa e tão singela!

/ Assim, distante do teu rosto amigo, / em torturar-me a ausência se desvela!

E neste eterno retomar do já dito se tecem as voltas da poesia.

Deixo-o, leitor, com o soneto citado. À obra poética de António Sardinha volto outro dia.

 

Velho motivo

 

SONETO de Jacob, pastor antigo,

—soneto de Rachel, serrana bela…

Oh quantas vezes o relembro e digo,

pensando em ti, como se foras ela!

 

O que eu servira, p’ra viver contigo,

—tão doce, tão airosa e tão singela!

Assim, distante do teu rosto amigo,

em torturar-me a ausência se desvela!

 

E vou sofrendo a minha pena amarga,

—pena que não me deixa nem me larga,

bem mais cruel que a de Jacob pastor!

 

Rachel não era dele e sempre a via,

enquanto que eu não vejo, noite e dia

aquela que me tem por seu senhor!

 

Nota bibliográfica

 

A transcrição do episódio bíblico foi feita a partir de “a BÍBLIA para todos, edição literária“, editada por Temas e Debates e Círculo de Leitores, 2009.

Na transcrição do episódio bíblico introduzi o número dos versículos, os quais não aparecem na edição citada onde o texto é corrido, por forma a permitir o seu cotejo com outras edições do texto.

Luís de Camões, Lírica Completa II, edição de Maria de Lurdes Saraiva, INCM, Lisboa, 1980.

António Sardinha, Chuva da Tarde, sonetos de amor, Lvmen, Coimbra, 1923.

(Conservei a ortografia de Raquel e a maiúscula inicial em Soneto da edição original.)

Nota final

O relato bíblico da história de Jacob, Raquel e Lia mais as suas escravas, continua, fixando no texto sagrado uma situação poligâmica: decorrendo da incapacidade de Raquel para ter filhos por um lado, e dos ciúmes de Lia, por outro, Jacob acaba também por procriar com as escravas destas, Bilá e Zilpa.

Não sei como cristãos em geral, e António Sardinha, em particular, fervoroso católico que era, e certamente conhecedor do episódio bíblico, lidam com a legitimação da poligamia que o episódio explicitamente cauciona.

O olhar da gaivota

DSC_0309 600pxDe novo este ano não consegui resistir às gaivotas no rio. Logo que maré e luz se conjugaram, por lá fotografei. E enquanto a tarde se escapava, dançavam as gaivotas num grasnar ensurdecedor. No seu encanto de aves indomáveis, por vezes deixam captar a fúria animal que este olhar documenta.

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Estâncias para Música — poema de Lord Byron

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matisse.lecon-musiqueMúsica e Poesia cruzam-se de variadas formas. A mais imediata, talvez, será a melodia que um poema transmite na cadência da sua leitura, prendendo o leitor antes da atenção às variadas possibilidades significantes do seu conteúdo.

Outra das relações, frequente e apetecível, é a sobreposição a um poema de uma partitura musical, criando uma obra com uma nova individualidade estética diferente das suas partes musical e poética, sendo talvez o caso mais notável desta genialidade tripartida o último andamento da IX Sinfonia de Beethoven onde a música do compositor incorpora em simbiose o poema de Schiller, Ode an die Freude, Ode à Alegria.

No mundo da chamada canção popular, os textos escritos para ser musicados revelam-se muitas vezes como poemas notáveis, pequenas jóias de intensa penetração humana, como são, nomeadamente, tantas das canções de Cole Porter.

Há por outro lado elaboradas reflexões poéticas sobre determinadas peças musicais espalhadas pela obra de alguns poetas, qual seja, por exemplo, Fernando Guimarães.

Num registo diferente surge o livro Arte de Música de Jorge de Sena em torno de algumas obras musicais em interpretações específicas. Entre os novos, o livro de Manuel de Freitas, Büchlein für Johann Sebastian Bach (2003), sobre alguns intérpretes da música de J. S. Bach, em momentos precisos de audição,  dá-nos conta de como a música cruza a circunstância do poeta, e da emoção que desprende surge uma compreensão mais profunda de si e do mundo.

Todos estes poemas, referidos de passagem, são relatos de busca da beleza no intangível que a música produz.

É diferente o poema de Lord Byron (1788-1824) que hoje transcrevo, Estâncias para Música. Nele a música, criação humana por excelência, é assimilada ao que de mais belo o poeta encontra na natureza: a beleza feminina, o mar e o vento, o luar, e o suave dormir de uma criança na sua confiante entrega ao mundo, traduzindo uma outra leitura do que é o entendimento subjacente à poesia impregnada da música: o caminho mais curto para o divino.

Estâncias para Música

 

Muita mulher tem beleza

nenhuma a tua magia;

e a tua voz tal riqueza,

que nem a da melodia

por sobre as águas do mar:

quando, num encantamento,

sonhando adormece o vento

E a onda para um momento

e desfalece a brilhar…

 

E a lua no céu fiando

a sua teia, a sorrir;

e o mar brandamente arfando

qual criancinha a dormir:

assim, dentro da minha alma,

eu me inclino, ao encontrar-te,

me suspendo, a escutar-te,

me curvo, para adorar-te:

com funda emoção, mas calma.

 

Tradução de Luiz Cardim

Amor e um poema medieval na despedida de 2015

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Matisse - Standing Nude with Raised Arms 1947 500pxAmor! Sentimento de todas as idades e de todas as épocas, motivo maior e perene na poesia, é certamente adequado para a leitura final deste ano de graça de 2015, na esperança que 2016 traga em si, em avalanche, amor suficiente para saciar a humanidade sedenta dele, e se houver rateio, que os leitores do blog sejam satisfeitos em primeiro lugar.

 

Feliz 2016 a todos!

 

O poema de encerramento do ano, um soneto de amor, chega-nos da Sicília, da primeira metade do século XIII, escrito por Jacopo (ou Giacomo) da Lentini (c.1210 – c.1260), considerado o inventor do soneto.

Desde então, ainda que com lento desenvolvimento até ao esplendor renascentista, o soneto não deixou de ser a forma de excelência para exprimir as dores e alegrias das paixões humanas, com um pico absoluto nos sonetos de Camões.

Falando do fogo do amor que abrasa, da alegria, do prazer, e da dor, este soneto inicial tem lá tudo o que posteriormente foi apenas glosado, por vezes de forma sublime.

 

 

Soneto XXXIV

 

Quem nunca tivesse visto o fogo

Não acreditava que pudesse queimar.

Ao descobrir o seu fulgor

Acharia que era coisa de folgar.

 

Mas se lá pusesse a mão,

Saberia quanto o fogo queima!

Eu toquei no fogo de amor,

Fogo que abrasa: Ah, se esta fogueira,

 

Ardesse em vós, minha Senhora,

Vós que pareceis dar prazer,

Vós que não dais senão dor!

 

Por certo o amor faz vilania

Não te unindo, tu que escarneces,

A mim, teu escravo sem alegria.

 

Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo

in Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim, 2001.

 

Original do poema

 

Soneto XXXIV

 

[C]hi non avesse mai veduto foco

no crederia che cocere potesse,

anti li sembraria solazzo e gioco

lo so isprendor[e], quando lo vedesse.

 

Ma s’ello lo tocasse in alcun loco,

be·lli se[m]brara che forte cocesse:

quello d’Amore m’à tocato un poco,

molto me coce – Deo, che s’aprendesse!

 

Che s’aprendesse in voi, [ma]donna mia,

che mi mostrate dar solazzo amando,

e voi mi date pur pen’e tormento.

 

Certo l’Amor[e] fa gran vilania,

che no distringe te che vai gabando,

a me che servo non dà isbaldimento.

 

Edição de Roberto Antonelli, Roma, 1979

De dragões e outros figurões a O Mostrengo de Fernando Pessoa

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Raphael - S Jorge e o Dragão 600pxPor este tempo de Natal, ao querer comprar uma prenda para uma criança da família, disseram-me da paixão do miúdo por dinossauros e outros monstros. Lembrei-me de quando o meu filho pelos sete/oito anos vivia apaixonado pelos monstros da moda, à época, umas chamadas tartarugas Ninja, e, depois, dinossauros, seguidos de toda uma galeria que lhes sucedeu, e certamente se reproduzirá ad seculum seculorum.

A um adulto como eu, o que chama primeiro a atenção é a estética do feio apanágio das figuras, o que parece deixar os infantes indiferentes. Com efeito, pensando na coisa sem preparação de especialista, concluo que para os miúdos aqueles seres corporizam o assustador do mundo por conhecer e, simultaneamente, nas suas acções, permitem à criança que joga e brinca, viver intensamente actos de coragem e bravura que significam a aprendizagem de vencer o medo e enfrentar o desconhecido que crescer na verdade é.

É ainda com a memória dessa época que recordo o entusiasmo com que o meu filho ouviu ler o poema O Mostrengo de Fernando Pessoa incluído no livro Mensagem. Nele, é também uma figura monstruosa e aparentemente invencível que, enfrentada pela pequenez de um capitão de coragem, é derrotada. Afinal a repetição da história bíblica de David e Golias.

A descrição poética do episódio do Adamastor em Os Lusíadas de Luís de Camões, para onde o poema O Mostrengo remete, é, do ponto de vista da infância, e para lá da dificuldade vocabular, totalmente diferente, ao que julgo. Em Camões, é tão só um relato de terror perante o monstro o que temos, reduzindo, por isso o apelo do episódio do Adamastor para estes jovens aprendizes da vida, pois, ao que suponho, é no desenlace por coragem que a atracção infantil por estes monstros reside.

Deixo-o, leitor, com os poemas.

 

O Mostrengo

 

O mostrengo que está no fim do mar

Na noite de breu ergueu-se a voar;

À roda da nau voou três vezes,

Voou três vezes a chiar,

E disse: «Quem é que ousou entrar

Nas minhas cavernas que não desvendo,

Meus tectos negros do fim do mundo?»

E o homem do leme disse, tremendo:

«El-Rei D. João Segundo!»

 

«De quem são as velas onde me roço?

De quem as quilhas que vejo e ouço?»

Disse o mostrengo, e rodou três vezes,

Três vezes rodou imundo e grosso.

«Quem vem poder o que só eu posso,

Que moro onde nunca ninguém me visse

E escorro os medos do mar sem fundo?»

E o homem do leme tremeu, e disse:

«El-Rei D. João Segundo!»

 

Três vezes do leme as mãos ergueu,

Três vezes ao leme as reprendeu,

E disse no fim de tremer três vezes:

«Aqui ao leme sou mais do que eu:

Sou um povo que quer o mar que é teu;

E mais que o mostrengo, que me a alma teme

E roda nas trevas do fim do mundo,

Manda a vontade, que me ata ao leme,

De El-Rei D. João Segundo!»

 

Fernando Pessoa, in Mensagem

 

Camões, Os Lusíadas, Canto V

 

Estrofes 37- 40

 

 

37

«Porém já cinco Sóis eram passados

Que dali nos partíramos, cortando

Os mares nunca de outrem navegados,

Prosperamente os ventos assoprando,

Quando hüa noute, estando descuidados

Na cortadora proa vigiando,

Hüa nuvem, que os ares escurece,

Sobre nossas cabeças aparece.

 

38

«Tão temerosa vinha e carregada,

Que pôs nos corações um grande medo;

Bramindo, o negro mar de longe brada,

Como se desse em vão nalgum rochedo.

“Ó Potestade (disse) sublimada:

Que ameaço divino ou que segredo

Este clima e este mar nos apresenta,

Que mor cousa parece que tormenta?”

 

39

«Não acabava, quando hüa figura

Se nos mostra no ar, robusta e válida,

De disforme e grandíssima estatura;

O rosto carregado, a barba esquálida,

Os olhos encovados, e a postura

Medonha e má, e a cor terrena e pálida;

Cheios de terra e crespos os cabelos,

A boca negra, os dentes amarelos.

 

40

«Tão grande era de membros, que bem posso

Certificar-te que este era o segundo

De Rodes estranhíssimo Colosso,

Que um dos sete milagres foi do mundo.

Cum tom de voz nos fala, horrendo e grosso,

Que pareceu sair do mar profundo.

Arrepiam-se as carnes e o cabelo,

A mi e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo!

Ainda em tempo de Natal, um poema de Ruy Cinatti

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Memling - As 7 alegrias da Virgem BVou ao encontro da transcendência do tempo de Natal, tempo em que simbolicamente podemos voltar a nascer, com um poema de Ruy Cinatti (1915-1986) onde, de par com a alegria, se convoca o que de harmonia pode ter o mundo: o amor, Deus e a sua presença benfazeja, a música e a dança, e a inocência de ser outra vez criança; tudo numa forma poética superior que procura devolver a esperança no viver.

 

Poema

 

Alegria —

Ó minha vida! —

Permaneçe,

Sê ainda amor.

 

Lá no alto

Onde prossegues,

Guia-me…

Sê ainda a chuva benfazeja

Que refresca

A desolada aridez do meu caminho.

 

Estrela

Ou música descendo!

Se eu te fugir

Harpeja só de leve a noite escura

Que eu regressarei,

Contente e mudo

Como se nunca me tivessem exilado.

 

Criança!

Eis-me de novo

Dançando

Uma canção que alguém me está cantando

E eu já esqueci…

— Divina se ia erguendo a prece alada.

 

Alegria —

Ó minha vida! —

Mais profunda do que a julga a agonia

Do homem que padece,

Não sejas a morte,

Sê ainda amor!

 

Ruy Cinatti (1915-), in Nós não Somos Deste Mundo, 2ªed. 1960.

Dois poemas breves em tempo de Natal

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Fra Filippo LIPPI - Natividade fresco da Catedral de Spoleto 1467-69 BO melhor que posso desejar aos outros resume-se a que cada um possa sentir e exclamar para si “Ich habe genug!” [Eu tenho o bastante!].

E este “bastante”, como é diferente para cada um de nós! Afinal, é a sua procura que nos faz viver. Se para uns, movidos por um insaciável desejo, não há “bastante” como escreve  Amândio César (1921-1987) no poema Tudo abaixo transcrito:

— Oh felicidade que baste, / Que nunca bastas de mais!

para outros, poderá ser tão só a concretização da espera que o poema de Raul de Carvalho (1920-1984) descreve, e mais à frente transcrevo:

Meu coração tumultuoso aguarda / A paz da tua vinda.

Estendendo a conversa da poesia à música, refiro que Ich habe genug é também um verso da Cantata BWV 82 de J. S. Bach (1685-1750) do mesmo nome, para voz baixo solista, oboé d’amore, cordas, e baixo continuo, e é de todas as mais de 200 cantatas que J. S. Bach escreveu, a minha preferida, sobretudo na interpretação de Max van Egmond, com uma orquestra barroca dirigida por Franz Bruggen, e pode ser ouvida no YouTube.

 

Tudo

 

E em surdina chegaste

E em surdina te vais:

 

— Oh felicidade que baste,

Que nunca bastas de mais!

 

E eu queria que ficasses,

De tal maneira ficada,

Que nunca mais me trocasses

 

— Por nada!

 

Amândio César, in Saudade de Pedra, 1949.

 
Poema

Perto de mim

E a cada instante

Nasces.

 

Meu coração tumultuoso aguarda

A paz da tua vinda.

 

Adivinho-te perto

Ou cada vez

Mais longe?

 

Pergunto a Deus o que é que nos separa.

 

A luz confere

À forma do teu rosto

 

A extrema e fina formosura

De espiga quebrada.

 

Nas mãos de Deus deponho

Força e fraqueza, erro e temor, morte e orgulho.

 

Raul de Carvalho, in Realidade Branca, 1968.

Vozes dos Animais – poema de Pedro Diniz

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Jan Brueghel o Velho (1568-1625) - Os animais entrando na arca de Noé 600pxBe a child in Christmas time [Sê criança em tempo de Natal], convida uma popular canção, daí esta poesia adequada à infância de todos os tempos. Podem assim os leitores lê-la a filhos, netos, afilhados ou outros infantes, fazendo com que um dia sejam também leitores de poesia.

O poema foi  escrito por Pedro Diniz (1839?-1896) e recolhido por Antero de Quental no Tesouro Poético da Infância.

Vozes dos Animais

 

Palram pega e papagaio

E cacareja a galinha;

Os ternos pombos arrulham;

Geme a rola inocentinha.

 

Muge a vaca; berra o touro;

Grasna a rã; ruge o leão;

O gato mia; uiva o lobo,

Também uiva e ladra o cão.

 

Relincha o nobre cavalo;

Os elefantes dão urros;

A tímida ovelha bala;

Zurrar é próprio dos burros.

 

Regouga a sagaz raposa

(Bichinho muito matreiro);

Nos ramos cantam as aves;

Mas pia o mocho agoureiro.

 

Sabem as aves ligeiras

O canto seu variar;

Fazem às vezes gorjeios,

Às vezes põem-se a chilrar.

 

O pardal, daninho aos campos,

Não aprendeu a cantar;

Como os ratos e as doninhas,

Apenas sabe chiar.

 

O negro corvo crocita;

Zune o mosquito enfadonho;

A serpente no deserto

Solta assobio medonho.

 

Chia a lebre; grasna o pato;

Ouvem-se os porcos grunhir;

Libando o suco das flores,

Costuma a abelha zumbir.

 

Bramam os tigres, as onças;

Pia, pia o pintainho;

Cucurica e canta o galo;

Late e gane o cachorrinho.

 

A vitelinha dá berros;

O cordeirinho, balidos;

O macaquinho dá guinchos;

A criancinha, vagidos.

 

A fala foi dada ao homem,

Rei dos outros animais.

Nos versos lidos acima,

Se encontram, em pobre rima,

As vozes dos principais.

 

Modernizei a ortografia.

Nota bio-bibliográfica

Não surge na net qualquer referência biográfica esclarecedora sobre o autor, aparte duas traduções de obras de Júlio Verne, daí esta pequena nota.  

Pegando no testemunho de Camilo Castelo Branco em Noites de Insónia, trata-se do mesmo Pedro (Guilherme dos Santos) Diniz que, com o pseudónimo de Amaro Mendes Gaveta, publicou em 1854 uma paródia ao livro de Almeida Garrett, Folhas Caídas, intitulado As Folhas Caídas Apanhadas a Dente e Publicadas em Nome da Moralidade.

Este Pedro Diniz (1829?-1896), génio precoce (alistado na marinha aos 11 anos, em 1850*?), foi colaborador do Palito Métrico ao que escreve, e publicou em 1855 um Livro de Ouro para Uso das Escolas de Educação, do qual não encontrei rasto. É neste livro que o poema transcrito, Vozes dos Animais, se inclui, conforme refere Camilo Castelo Branco na nota biográfica ao poeta no seu Cancioneiro Alegre.

Sobre outros aspectos da biografia do autor pode consultar-se a respectiva entrada (Pedro Dinis) na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.

*informa Alexandre Cabral no seu Dicionário de Camilo Castelo Branco, 2ªedição, Caminho, Lisboa 1988.

Verificada a diversidade da obra produzida pelo autor na década de 50, tratar-se-ia de uma precocidade inaudita, a ser verdade tudo isto, daí que deva existir qualquer gralha em datas algures, parecendo mais provável o nascimento do homem em 1829, e não 1839 como decorre do documento citado por Alexandre Cabral.

Nota iconográfica

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Jan Brueghel o Velho (1568-1625) – Os animais entrando na arca de Noé.