Camilo e os amigos

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A amizade é coisa séria, que em tempos de Facebook tanta gente trata com volubilidade, mas é no vai-vem da vida que a sua verdadeira qualidade se vê:

 

Amigos cento e dez, e talvez mais,
Eu já contei. Vaidades que eu sentia!
Pensei que sobre a terra não havia
Mais ditoso mortal entre os mortais.

Um dia adoeci profundamente.
Ceguei. Dos cento e dez houve um somente
Que não desfez os laços quase rotos.

 

Isto escreveu Camilo Castelo-Branco no soneto que à frente transcrevo.

 

 

Já antes trouxe ao blog uma curta reflexão de Aristóteles (384 a.C.-322a.C.) sobre a amizade, que em parte aqui retomo:


Os que têm a amizade com base na utilidade gostam uns dos outros pelo bem que os outros lhes fazem; os que têm uma amizade com base no prazer, gostam uns dos outros pelo próprio prazer que lhes dá.

 

Estas formas de amizade são, portanto, meramente acidentais. E são, sobretudo, as formas que frequentemente a amizade reflecte. Há, no entanto, relações de amizade bem mais profundas, sobre as quais Aristóteles reflecte na sua Ética a Nicómaco, as quais frequentemente surgem nos romance com o tempo qualificados de juvenis, e por vezes vemos plasmadas no cinema, ainda que na nossa vida pessoal delas não tenhamos a experiência.

No outro dia, de passagem, referi como em minha opinião Howard Hawks filmou a amizade como ninguém. No anterior artigo com Aristóteles, foram outros os filmes onde de amizade se tratava, o pretexto da reflexão. Hoje é um soneto irónico e amargo de Camilo Castelo-Branco (1825-1890) que reflecte sobre este sentimento precioso.

 

No soneto, a abrir, o poeta embala-se na multidão de amigos que tem, e em como tal facto o faz feliz. Segue-se a evidência de algum cansaço decorrente das exigências de alimentar tal fluxo de amizades (e como isto espelha tanto do comportamento de hoje em relação aos amigos do Facebook, e a quase obrigação de comentar frequentes inanidades). Infelizmente, ao autor aconteceu a tragédia que põe à prova as amizades verdadeiras. E de tantos amigos glorificados, apenas restou um, como o soneto refere em amarga e irónica conclusão.

 

 

Os Meus Amigos

Amigos cento e dez, e talvez mais,
Eu já contei. Vaidades que eu sentia!
Pensei que sobre a terra não havia
Mais ditoso mortal entre os mortais.
 
Amigos cento e dez, tão serviçais,
Tão zelosos das leis da cortesia,
Que eu, já farto de os ver, me escapulia
Às suas curvaturas vertebrais.
 
Um dia adoeci profundamente.
Ceguei. Dos cento e dez houve um somente
Que não desfez os laços quase rotos.

— Que vamos nós (diziam) lá fazer?
Se ele está cego, não nos pode ver…
Que cento e nove impávidos marotos!

 

 

Para o Luis que além do mais, me ajudou a localizar a publicação original do soneto.

 

 

Notícia bibliográfica

 

O soneto, inédito à data da morte de Camilo (1 de Junho de 1890), teve publicação póstuma nesse ano, na Revista Illustrada, (vol I, ano 1890, nº 11 de 15 Setembro, pág. 123).
A revista, quinzenal, iniciou publicação em Abril de 1890.
Informação do Camilianista Henrique Marques, Camilliana, ed. 1894.

 

 

Abre o artigo a imagem de um pormenor da pintura de Goya (1746-1828), A merenda à beira do Manzanares.

Dois vilancetes e uma sentença de D. Francisco de Portugal

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Falar de amor e desejo, publicamente, através da poesia, no século XVI, tem as suas exigências de convenção, ainda que, sem grande subtileza espreite o eterno da atracção homem/mulher.
Vem isto a propósito de um vilancete de D. Francisco de Portugal ( 14??-1549), 1º Conde de Vimioso, que a seguir transcrevo. Nele o poeta recusa ousar o desejo que supostamente ofenderia o pudor da amada. A seguir diz-nos o poeta quanto esse desejo o incendeia, pois mesmo quando, por não o satisfazer, chama a morte como remédio, o desejo não parte, e permanece.

 

Vilancete

Meu amor, tanto vos amo,
Que meu desejo não ousa
Desejar nenhuma cousa

Porque se a desejasse
Logo a esperaria
E se a eu esperasse
Sei que vos anojaria.
Mil vezes a morte chamo
E meu desejo não ousa
Desejar-me outra cousa.

 

Agora, é a dor da ausência da amada o que o poeta sofre neste outro vilancete  de elegante versificação:

 

Vilancete

Meu bem sem vos ver
se vivo um dia
viver nam queria.

Caland’e sofrendo
meu mal sem medida,
mil mortes na vida
sinto não vos vendo.
E pois que vivendo
moiro todavia,
viver nam queria.

 

São poemas ao gosto de uma época que, na simplicidade da sua versificação, guardam o eterno do amor na ansiedade do desejo e dor do afastamento.

Termino esta pequena amostra da poesia de D. Francisco de Portugal com uma das suas sentenças rimadas:

 

Sentença

Que grande espanto é cuidar
Como se sustém o mundo.
Quam perto está de pasmar
Quem às cousas vê o fundo.

 

Publicado no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende.

Transcritos de Sentenças de D. Francisco de Portugal, 1º Conde de Vimioso,  seguidas das suas poesias publicadas no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, revistas e prefaciaras por Mendes dos Remédios, Coimbra, França Amado Editor, 1905.

Abre o artigo a imagem de um detalhe de uma iluminura dos Irmãos Limbourg (início sec. XV), Les Trés Riches Heures du Duc du Berry, cena cortês no mês de Abril.

poetas de lisboa — letra para um fado por Vasco Graça Moura

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Houvera em Portugal um apreço pelo cancioneiro musical popular como nos EUA se preza o denominado American Songbook, e nele um elevado número de fados teria lugar.
Há músicas de fado que têm atravessado gerações, e quando ouvidas uma e outra vez continuam a emocionar-nos, tal como nos nossos dias, muitas criações passam directamente da novidade à condição de clássico intemporal.
A poesia no fado, com as suas exigências particulares de vocalização, tem tido entre poetas maiores do Parnaso português alguns cultores. Outras vezes são os músicos de génio que afeiçoam a um poema especial uma música original. É a alguns desses poetas que Vasco Graça Moura (1942-2014) faz o elogio de memória no poema que a seguir transcrevo.
Cita Vasco Graça Moura: Cesário Verde, Fernando Pessoa, Alexandre O’Neill, David Mourão-Ferreira, Pedro Homem de Mello, José Carlos Ary dos Santos, Luís de Camões, Nicolau Tolentino.  Outros ficaram de fora, pois a escolha é sempre pessoal, mas as palavras que escreveram, cantadas na voz certa, continuam a despontar emoções pelo tempo fora.

 

poetas de lisboa — letra para um fado

é bom lembrar mais vozes pois lisboa
cidade com poético fadário
cabe toda num verso de cesário
e alguma em ironias de pessoa

para cada gaivota há um do o’neill
para cada paixão um do david
e há pedro homem de mello que divide
entre alfama e cabanas seu perfil

e há também o ary e muitos mais
entre eles o camões e o tolentino
ou tomando por fado o seu destino
ou dando de seu riso alguns sinais

muito do que escreveram e se canta
na música de fado que já tinha
o próprio som do verso sem asinha
assim do coração para a garganta

que bom seria tê-los a uma mesa
de café comparando as emoções
e a descobrirem novas relações
entre o seu fado e a língua portuguesa

 

Transcrito de Vasco Graça Moura, Letras do Fado Vulgar, Quetzal Editores, Lisboa, 2001.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Carlos Botelho (1899-1982), Lisboa, de 1969.

Um sonho num epigrama de Macédonios

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Há pouco tempo transcrevi aqui no blog três sonhos descritos por Georg Trakl, mais pesadelos que sonhos memoráveis, dando conta de como os desastres da vida nos alucinam. Hoje viro-me para os prazeres que a vida também traz e dou aos leitores um lamento de Macédonios (c.550) por ver interrompido um sonho deleitoso e digno de memória. O poema, um epigrama, consta do volume V da Antologia Grega.

 

Epigrama

Tinha em meus braços, esta noite em sonho
Uma adolescente travessa e risonha.
Pouco preocupada em contrariar
Meus mínimos desejos, a tudo diz sim.
Mas Eros ciumento, que nos espiava
Cortando-me o sono pôs fim às delícias.
É assim que Amor, mesmo em nossos sonhos
Se mostra invejoso dos nossos prazeres.

 

Adaptação a partir da tradução francesa de Pierre Laurens por Carlos Mendonça Lopes.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Picasso, Dorminhocos, de 1965-7.

O namorado e o tempo num poema de Murilo Mendes

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Retomo uma vez mais o envelhecimento e o amor, dando conta desta circularidade que envolve a humanidade: amamos novos, a idade avança, e o amor transforma-se, desafiando-nos a uma aprendizagem constante do outro. A vida que o amor viveu é sempre outra quando o amor se vive. Não há repetições nem efeitos miméticos, apenas desafios no aconchegarmos-nos ao outro que agora é, e nos enche a alma.
Isto, sabido com a idade, nunca está presente nos começos de uma relação, quando apenas o esplendor do agora funciona como ignição, e justamente nos vem lembrar Murilo Mendes (1901-1975) no poema O namorado e o tempo.

 

 

 

O namorado e o tempo

 

O namorado contempla
o corpo da namorada
vê o corpo como está,
não vê como o corpo foi
nem com o corpo será.

Se aquele corpo amanhã
mudar de peso, de forma
mudar de ritmo e de cor,
o namorado, infeliz,
vai sofrer mesmo demais:
não calculou o futuro,
a mulher quebrou o encanto,
ele só vê a mulher
no momento em que a vê.

 

 

Trata-se de um poema sobre o óbvio que permanentemente esquecemos: o efémero da aparência física de cada um, e o implícito desejo da sua imutabilidade quando a atracção estética é o motor. Se o amor acontece, o encanto não se perde, apenas se transforma.

 

 

Poema transcrito de 366 poemas que falam de amor, antologia organizada por Vasco Graça Moura, Quetzal editores, Lisboa, 2003.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Fernando Botero (1932).

Uma décima de António G. S. Malhão

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É certamente uma curiosidade de arqueólogo que me leva a deambular pelos livros de poesia antiga perturbando o merecido esquecimento a que a grande maioria tem direito. Mas uma irrefreável curiosidade sobre estes universos desaparecidos faz-me continuar apesar da extensão de irrelevâncias encontradas.
Enquanto captar a atmosfera de uma época é tarefa de historiador, para um amante de poesia trata-se de procurar a pérola perdida sob a poeira do tempo. É uma pesquisa raramente conseguida, mas o desafio permanece.

 

Hoje apresento aos leitores uma décima de António Gomes da Silveira Malhão (1758-1785) perdida entre os relatos da vida e feitos de seu irmão Francisco.

Trata-se de uma deliciosa galanteria ao rosto de uma donzela, escrita à medida do gosto de finais do século XVIII:

 

 

Décima

Quis um dia a natureza
Fazer uma cousa rara,
E consta que meditara
Mais de uma vez nesta empresa:
Da branca neve à beleza
Juntou do carmim a cor;
Pôs-lhe fogo abrasador,
Tudo o que é belo lhe uniu,
E desta massa saiu
O teu rosto encantador.

 

Transcrito de Vida e Feitos de Francisco Manuel Gomes da Silveira Malhão, Tomo III, Lisboa, 1797.

 

Deste mesmo António G. S. Malhão já antes transcrevi no blog uma original Ode sobre as perfeições da amada.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura a pastel de Rosalba Carriera (1675-1757).

Três sonhos — ciclo de poemas de Georg Trakl

É da vida, realidade que parece pesadelo, incompreensão maior que o sonho, que nos fala este ciclo de três poemas sobre sonhos, escritos por Georg Trakl (1887-1914).

Os sonhos são o nosso quotidiano: no que nos motivam e entusiasmam, quando sonhadores acordados, no que nos perturbam quando no sono nos levam por mundos de incompreensão e estranheza.


Como estrela caindo, folha tombando,
Assim me via num vai-vem perdido,
Eternamente esse sonho ecoando —
Mas não sabia entender-lhe o sentido.

 

 

É sem preparação particular que lidamos com os sonhos desde a infância. E se o mundo risonho por vezes os atravessa, outras é o pesadelo do real que nos transtorna e alucina:

 

Da minh’alma nasceram céus de sangue
E púrpura ardendo em sóis gigantes,
Estranhos jardins povoados de brilhos
E delicias letais e sufocantes.

 

 

A vivência de experiências dolorosa impregna-nos a alma para lá de qualquer controle racional:

 

Vi cidades pelo fogo consumidas
E o cortejo de horrores pelo tempo fora,
E muitos povos a pó ser reduzidos,
Perder-se tudo no fundo da memória.

 

 

Quando a catástrofe é grande, esbate-se a fronteira entre realidade e sonho e acontece vermos:

 

… levantando-se do meio da podridão,
Crescer para novo dia nova vida.

Crescer para novo dia e logo morrer —
A tragédia que o mundo sempre finge
Compreender no acto de a viver,

 

 

Reportando-se estes poemas a uma realidade passada, há neles, infelizmente, muito do nosso mundo de hoje. Basta apenas olhar em redor de olhos abertos.

 

 

Três Sonhos

I
Vi-me num sonho de folhas caindo,
De lagos escuros num bosque perdido,
De tristes palavras ecoando —
Mas não sabia entender-lhes o sentido.

Vi-me num sonho de estrelas caindo,
De preces chorosas num olhar ferido,
De um sorriso que vinha ecoando —
Mas não sabia entender-lhe o sentido.

Como estrela caindo, folha tombando,
Assim me via num vai-vem perdido,
Eternamente esse sonho ecoando —
Mas não sabia entender-lhe o sentido.

 

 

II

No escuro espelho da minh’alma
Há imagens de mares nunca sentidos,
Terras tristes de trágicas visões,
Esvaindo-se em azuis indefinidos.

Da minh’alma nasceram céus de sangue
E púrpura ardendo em sóis gigantes,
Estranhos jardins povoados de brilhos
E delicias letais e sufocantes.

E o poço negro que é a minha alma
Gerou imagens de noites tenebrosas,
Animadas por anónimos cantos
E o sopro eterno de forças ominosas.

Treme-me a alma nas trevas da lembrança,
Como se em tudo se revisse enfim —
No insondável mistério de mares e noites
E em fundos cantos sem começo nem fim.

 

 

III

Vi cidades pelo fogo consumidas
E o cortejo de horrores pelo tempo fora,
E muitos povos a pó ser reduzidos,
Perder-se tudo no fundo da memória.

Vi deuses afundar-se em escuridão,
A mais sagrada harpa destruída
E, levantando-se do meio da podridão,
Crescer para novo dia nova vida.

Crescer para novo dia e logo morrer —
A tragédia que o mundo sempre finge
Compreender no acto de a viver,

E cuja dor nocturnal e demente
A doce glória da beleza cinge
Como universo de espinhos sorridente.

 

in Georg Trakl, Outono Transfigurado, ciclos e poemas em prosa, tradução e prefácio de João Barrento, Assírio & Alvim, Lisboa, 1992.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Anselm Kiefer (1945), Ich halte alle Indien in meiner Hand (Tenho todas as Índias na minha mão) de 1995.

Fragmento de O Melro — poemeto de Guerra Junqueiro

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Madrugada cedo, ainda o dia mal desponta, acordo com o chilrear dos melros a entrar pela janela.
É uma alegria contagiosa, aquele chilrear, e por mais de uma vez, já completamente desperto e sem sono, me tenho lembrado do poemeto de Guerra Junqueiro (1859-1923), O Melro. Nele temos uma família de melros a cuidar da sobrevivência e um padre lavrador em guerra com os pássaros. O padre, homem prosaico e sem poesia, era, como o descreve o poeta,

 

… um velhote conservado
Malicioso, alegre, prazenteiro;
Não tinha pombas brancas no telhado,
Nem rosas no canteiro;
Andava às lebres pelo monte, a pé,
      Livre de reumatismos,
Graças a Deus, e graças a Noé.

 

que apenas vê dos melros o estrago na horta


— Nada, já não tem jeito! este ladrão
      Dá cabo dos trigais!
      Qual seria a razão
Porque Deus fez os melros e os pardais?!

 

 

O poemeto, longa digressão sobre valores, dando conta de um hedonismo apaziguador, acrescenta ao encanto da natureza, a serenidade transmitida pela imutabilidade do ciclo solar:

 

Vinha tombando a noite silenciosa;
E caía por sobre a natureza
Uma serena paz religiosa,
      Uma bela tristeza
Harmónica, viril, indefinida.
      A luz crepuscular
Infiltra-nos na alma dolorida
Um misticismo heróico e salutar.
As árvores, de luz inda doiradas,
Sobre os montes longínquos, solitários,
Tinham tomado as formas rendilhadas
      Das plantas dos herbários.

 

Revela-se ainda o poema uma alegoria sobre o valor da liberdade: Encarcerar a asa / É encarcerar o pensamento humano.

 

O poema foi à época, quando integrado em  A Velhice do Padre Eterno, vigorosa denúncia de atitudes de algum clero, incompatíveis com o sacerdócio que haviam escolhido, e neste poemeto ridicularizado no propósito do padre de fazer pagar aos melros o pecado de Eva:

 

… Andando no quintal um certo dia / … / Enxergou por acaso (que alegria! / Que ditoso momento!) / Um ninho com seis melros escondido / … / E ao vê-los exclamou enfurecido: / — A mãe comeu o fruto proibido; / Esse fruto era a minha sementeira; / … / Era o pão, e era o milho; / Transmitiu-se o pecado. / E, se a mãe não pagou, que pague o filho. / É doutrina da Igreja. Estou vingado!

 

 

Os combates anti-clericais do final da monarquia estão enterrados, mas do poema vale a pena reter a comovente descrição alegórica da perseguição e soçobro dos mais fracos na sua labuta de sobrevivência, bem como o vigoroso hino ao amor maternal na parte final.

 

 

O MELRO
[fragmento]

  O melro, eu conheci-o:
Era negro, vibrante, luzidio,
      Madrugador, jovial;
      Logo de manhã cedo
Começava a soltar d’entre o arvoredo
Verdadeiras risadas de cristal.
E assim que o padre cura abria a porta
      Que dá para o passal,
Repicando umas finas ironias,
      O melro d’entre a horta
      Dizia-lhe: — Bons dias!
      E o velho padre cura
Não gostava daquelas cortesias.
O cura era um velhote conservado
Malicioso, alegre, prazenteiro;
Não tinha pombas brancas no telhado,
Nem rosas no canteiro;
Andava às lebres pelo monte, a pé,
      Livre de reumatismos,
Graças a Deus, e graças a Noé.

 

O melro desprezava os exorcismos
      Que o padre lhe dizia:
Cantava, assobiava alegremente;
      Até que ultimamente
      O velho disse um dia:
— Nada, já não tem jeito! este ladrão
      Dá cabo dos trigais!
      Qual seria a razão
Porque Deus fez os melros e os pardais?!
      E o melro no entretanto,
      Honesto como um santo,
      Mal vinha no oriente
      A madrugada clara
Já ele andava jovial, inquieto,
Comendo alegremente, honradamente,
Todos os parasitas da seara
Desde a formiga ao mais pequeno insecto.
E apesar disto o rude proletário,
      O bom trabalhador,
Nunca exigiu aumento de salário.
Que grande tolo o padre confessor!

 

Foi para a eira o trigo;
      E armando uns espantalhos
      Disse o abade consigo:
— Acabaram-se as penas e os trabalhos.
Mas logo de manhã, maldito espanto!
      O abade, inda na cama,
Ouviu do melro o costumado canto;
      Ficou ardendo em chama;
      Pega na caçadeira
      Levanta-se dum salto,
E vê o melro a assobiar na eira
Em cima do seu velho chapéu alto!
      Chegou a coisa a termo
Que o bom do padre cura andava enfermo,
      Não falava nem ria,
Minado por tão intimo desgosto;
E o vermelho oleoso do seu rosto
Tornava-se amarelo dia a dia.
E foi tal a paixão, a desventura,
(Muito embora o leitor não me acredite)
      Que o bom do padre cura
      Perdera… o apetite!

 

Andando no quintal um certo dia
Lendo em voz alta o Velho Testamento
Enxergou por acaso (que alegria!
      Que ditoso momento!)
Um ninho com seis melros escondido
      Entre uma carvalheira.
E ao vê-los exclamou enfurecido:
— A mãe comeu o fruto proibido;
Esse fruto era a minha sementeira;
      Era o pão, e era o milho;
      Transmitiu-se o pecado.
E, se a mãe não pagou, que pague o filho.
É doutrina da Igreja. Estou vingado!
E engaiolando os pobres passaritos
      Soltava exclamações:
      — É uma praga. Malditos!
Dão-me cabo de tudo estes ladrões!
Raios os partam! andai lá que enfim…
E deixando a gaiola pendurada
Continuou a ler o seu latim
      Fungando uma pitada.

 

Vinha tombando a noite silenciosa;
E caía por sobre a natureza
Uma serena paz religiosa,
      Uma bela tristeza
Harmónica, viril, indefinida.
      A luz crepuscular
Infiltra-nos na alma dolorida
Um misticismo heróico e salutar.
As árvores, de luz inda doiradas,
Sobre os montes longínquos, solitários,
Tinham tomado as formas rendilhadas
      Das plantas dos herbários.
Recolhiam-se a casa os lavradores.
Dormiam virginais as coisas mansas:
      Os rebanhos e as flores,
      As aves e as crianças.
Ia subindo a escada o velho abade;
A sua negra, atlética figura
Destacava na frouxa claridade,
      Como uma nódoa escura.
E introduzindo a chave no portal
      Murmurou entre dentes:
      — Tal e qual… tal e qual!…
Guisados com arroz são excelentes.

 

Nasceu a lua. As folhas dos arbustos
Tinham o brilho meigo, aveludado
Do sorriso dos mártires, dos justos.
Um eflúvio dormente e perfumado
Embebedava as seivas luxuriantes.
Todas as forças vivas da matéria
Murmuravam dialogos gigantes
      Pela amplidão etérea.
São precisos silencios virginais,
Disposições simpáticas, nervosas,
Para ouvir estas falas silenciosas
      Dos mudos vegetais.
As orvalhadas, frescas espessuras
Pressentiam-se quasi a germinar.
Desmaiavam-se as cândidas verduras
Nos magnetismos brancos do luar

 

E nisto o melro foi direito ao ninho.
Para o agasalhar andou buscando
Umas penugens doces como arminho,
Um feltrozito assetinado e brando.
      Chegou lá, e viu tudo.
Partiu como uma frecha; e louco e mudo
Correu por todo o matagal; em vão!
Mas eis que solta de repente um grito
Indo encontrar os filhos na prisão.
— Quem vos meteu aqui?! O mais velhito
Todo tremente, murmurou então:
— Foi aquele homem negro. Quando veio
Chamei, chamei… Andavas tu na horta…
Ai que susto, que susto! Ele é tão feio!…
Tive-lhe tanto medo!… Abre esta porta,
E esconde-nos debaixo da tua asa!
Olha, já vão florindo as açucenas;
Vamos a construir a nossa casa
      Num bonito lugar…
Ai! quem me dera, minha mãe, ter penas
      Para voar, voar!
      E o melro alucinado
      Clamou:
             — Senhor! Senhor!
É por ventura crime ou é pecado
      Que eu tenha muito amor
      A estes inocentes?!
Ó natureza, ó Deus, como consentes
Que me roubem assim os meus filhinhos,
      Os filhos que eu criei!
Quanta dor, quanto amor, quantos carinhos,
      Quanta noite perdida
         Nem eu sei…
      E tudo, tudo em vão!
      Filhos da minha vida!
      Filhos do coração!!…
Não bastaria a natureza inteira,
Não bastaria o céu para voardes,
E prendem-vos assim desta maneira!…
      Covardes!
A luz, a luz, o movimento insano
Eis o aguilhão, a fé que nos abrasa…
Encarcerar a asa
É encarcerar o pensamento humano.
A culpa tive-a eu! quasi à noitinha
      Parti, deixei-os sós…
A culpa tive-a eu, a culpa é minha,
      De mais ninguém!… Que atroz!
      E eu devia sabê-lo!
Eu tinha obrigação de adivinhar…
Remorso eterno! eterno pesadelo!…

 

Falta-me a luz e o ar!… Oh, quem me dera
      Ser abutre ou ser fera
Para partir o cárcere maldito!…
E como a noite é límpida e formosa!
      Nem um ai, nem um grito…
Que noite triste! oh noite silenciosa!…

 

E a natureza fresca, omnipotente,
      Sorria castamente
Com o sorriso alegre dos heróis.
      Nas sebes orvalhadas,
Entre folhas luzentas como espadas,
      Cantavam rouxinóis

 


E entre a luz do luar e os sons e as flores,
Na atonia cruel das grandes dores,
      O melro solitário
Jazia inerte, exanime, sereno,
Bem como outrora a mãe do Nazareno
      Na noite do calvário!…
 

O Melro teve inicialmente publicação autónoma, sendo posteriormente integrado no livro A Velhice do Padre Eterno.

O Verão com um poema de Airas Nunes

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Muito me eu alegro com este verão,
com estas ramagens, com estas flores,
com as aves que cantam entoando amores.

 

Verão e poesia, ou o relato de um sentimento de eternidade no perpétuo suceder dos dias, sensação que transparece no antiquíssimo poema do trovador Airas Nunes (sec. XIII) a seguir transcrito numa versão modernizada por Natália Correia:

 

 

Cantiga

Muito me eu alegro com este verão,
com estas ramagens, com estas flores,
com as aves que cantam entoando amores.
Ando eu tão alegre e tão descuidado
qual nesta estação todo o enamorado
se sente de amor mui ledo e loução.

Quando pelas margens dos rios passeio
debaixo das árvores, por prados viçosos,
se pássaros ouço cantar amorosos
com eles de amor me ponho a cantar;
de amor com os pássaros fico-me a trovar;
mil cantigas faço e nelas me enleio.

Muito me eu alegro, deleito e sorrio
quando as aves ouço cantar no estio.

 

 

in Cantares dos Trovadores Galego-Portugueses, Editorial Estampa, Lisboa, 1970.

 

 

Este sentir a natureza em redor estende-se à poesia de todos os tempos, dando conta de estados de alma induzidos ou associados às mutações do tempo. Hoje surge como bizarria datada.

O sentimento da natureza será ainda dos nossos dias em sociedades urbanizadas, às voltas com a tecnologia e o sufocante do ar poluído? Provavelmente não.
Um artigo recente num jornal americano, numa daquelas secções de bem estar viradas para gente insatisfeita, à procura do melhor para si, recomendava alguns minutos entre árvores, ouvindo apenas os murmúrios da natureza, ouvidos limpos de phones e olhar disponível, como forma de recuperar tranquilidade e gosto de si. O autor do artigo não conheceria este poema, pelo que não fez suas as palavras do nosso poeta:

 


Quando pelas margens dos rios passeio
debaixo das árvores, por prados viçosos,

Muito me eu alegro, deleito e sorrio
quando as aves ouço cantar no estio.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Van Gogh.

Cinema e Paraíso

A minha visão de paraíso é frequentemente uma noite quente, frente ao mar calmo, sob um céu negro onde estrelas faíscam, e o mar murmura a melopeia da eternidade.
Neste cenário a tecnologia tem feito intromissão, proporcionando o casamento feliz das noites quentes com o cinema da minha afeição.
Aproveitei para ver alguns filmes antigos que por uma razão ou outra o desejo de rever foi sendo adiado ao longo do tempo.
Entrada a noite e sossegado o ambiente, sento-me frente ao mar, tablet na mão, carrego no botão e… Silêncio, o filme vai começar!

 

Entre As férias do Sr. Hulot de Jacques Tati (1953) e Ladrão de Casaca (To Catch a Thief -1956) de Alfred Hitchcock, deliciei-me com Sorrisos de uma noite de verão de Ingmar Bergman (1955) e Os homens preferem as louras de Howard Hawks (1953).


A  transbordante ternura pelas pessoas que os filmes de Tati exalam, no seu permanente enlevo com os detalhes de um quotidiano urbano que evolui ao longo dos seus filmes, são um bálsamo para a alma.


Já nos filmes de Hitchcock é o prazer de seguir a mestria de fazer a câmara falar ao levar-nos pelos labirintos das emoções da história, o que me faz voltar a eles uma e outra vez.


Atrai-me nos filmes de Ingmar Bergman a celebração da vida perante a fragilidade das relações humanas. Por isso, e para referir os mais emblemáticos, Sorrisos de uma noite de verão encanta-me, Uma lição de amor comove-me, e o Sétimo selo lembra-me quanto viver é o permanente diálogo com a morte, nossa, e dos outros em nós. A capacidade da ficção para nos fazer sentir realidades e experiências afastadas do nosso presente ou passado é o motor que me faz ir à sua procura.


Hawks foi o cineasta que filmou a amizade como ninguém. E se em Rio Bravo ( que irei rever brevemente) a fidelidade entre amigos se estende à coragem de em seu nome enfrentar a possibilidade da morte, em Os homens preferem as louras essa amizade plasma-se na inenarrável cena da dança de Jane Russell na sala do tribunal, perto do final do filme, com o propósito de evitar que a amiga Lorelay (Marilyn Monroe) seja julgada pelo roubo de uma tiara.

 

Na sua diversidade, têm estes filmes em comum a sua proximidade temporal (primeira metade dos anos 50 do século. XX) e o devolverem-nos uma certa Europa com o seu modo de vida hoje definitivamente perdido. Dão-nos conta de um mundo que existia quando nasci e não cheguei a conhecer. A realidade que a minha memória recorda é a dos anos 60, mas ao ver estes filmes, o ambiente social e cultural que lhes subjaz dá conta de uma serenidade no viver que só nos pode fazer nostálgicos quando mergulhados no frenesi alucinante dos nossos dias.

 

Outros filmes virão, que as férias apenas começaram. Com este breve registo venho apenas lembrar alguns velhos filmes que nos fazem mais novos a cada visualização.

 

 

Abre o artigo a recriação recente desta imagem nostálgica do filme de Jacques Tati, As férias do Sr. Hulot, pelo designer belga David Merveille.