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vicio da poesia

Category Archives: Poetas e Poemas

Árvore Cintilante e um outro poema de Paul Celan

13 Terça-feira Out 2015

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Paul Celan, Y. K. Centeno

Azul 11Transcrevo dois poemas de Paul Celan (1920-1970) acompanhados de citações de Y. K. Centeno extraídas da sua introdução à Antologia Poética de Paul Celan, Sete Rosas Mais Tarde.

O amor está morto na obra de Paul Celan. Perdeu a qualidade redentora. O que dele fica são apenas fragmentos, imagens que não se ordenam numa estrutura superior unificada. Porque esse é o limite que atingem, o limiar que ultrapassam: o da unificação harmoniosa num universo e numa relação de que o amor foi brutalmente cortado.

Y. K. Centeno

 

O TEU

ALÉM-ESTAR esta noite,

Com palavras te trouxe de volta, aí estás,

tudo é verdadeiro e um esperar

pelo verdadeiro.

 

O feijão trepa frente

à nossa janela: imagina

quem a nosso lado cresce e

o vê.

 

Deus, assim o lemos, é

parte de nós e um outro, disperso:

na morte

de todas as vidas ceifadas

vinga ele.

 

Para além

nos conduz o olhar,

com esta

metade

convivemos.

 

Dir-se-á que Celan guarda ainda, nalguns textos, um ou outro fiapo de cor e luz. Mas isso torna a realidade ainda mais pungente: nunca o fiapo ilumina um olhar, o seu ou o de outrem. Não é luz condutora, é antes marca de uma fractura irredutível, é memória, é saudade, é desgosto profundo pelo que se perdeu, o todo, o tudo da vida.

Y. K. Centeno

 

Árvore Cintilante

 

Uma palavra

pela qual te perdi com prazer:

a palavra

Jamais.

 

Era,

e por vezes também tu o sabias,

era

uma liberdade.

Nadávamos.

 

Ainda te lembras que eu cantava?

Com a árvore cintilante cantava, com o leme.

Nadávamos.

 

Ainda te lembras que nadavas?

Aberta estavas ante mim,

estavas ante mim, estavas

ante mim ante

minha ante-

cipada alma.

Eu nadava por nós dois. Não nadava.

Nadava a árvore cintilante.

 

Ela nadava? Havia

um charco em volta. Era o lago infinito.

Negro e infinito, assim suspenso,

assim suspenso, mundo abaixo.

 

Ainda te lembras que eu cantava?

 

Esta —

oh, esta deriva.

 

Jamais. Mundo abaixo. Eu não cantava. Aberta

estavas ante mim ante

a alma errante.

 

Poemas do livro A Rosa de Ninguém [Die Niemandsrose] (1963), À memória de Ossip Mandelstamm.

Poemas transcritos de Paul Celan, Não Sabemos mesmo O Que Importa, Cem Poemas, tradução e posfácio de Gilda Lopes Encarnação, Relógio d’Água, Lisboa, 2014.

A poesia de Paul Celan é uma poesia solitária em busca de um destinatário atento. A linguagem, extremamente privada e opaca, reinventada, se quisermos, a estranheza das imagens e das associações, com especial incidência na obra tardia, não permitem uma interpretação linear ou unívoca por parte do (providencial) leitor.

Do posfácio de Gilda Lopes Encarnação.

Citações de Y. K. Centeno transcritas de Paul Celan, Sete Rosas Mais Tarde, Antologia Poética, Selecção, tradução e introdução de João Barrento e Y. K. Centeno, Edições Cotovia, Lisboa, 1993.

 

Notícia bibliográfica

O leitor interessado na obra do poeta, e que não domine o alemão, encontra-a integralmente traduzida em espanhol na Editorial Trotta de Madrid, Paul Celan obras completas, em tradução de José Luis Reina Palazón (a primeira tradução integral para uma língua estrangeira da obra de Paul Celan), 7ªedição em 2013.

Em português, com tradução e posfácio de João Barrento, Livros Cotovia editou em 1998 (e reimpressão em 2008), Poemas do Espólio, antologia denominada A Morte É Uma Flor.

A antologia dos poemas traduzidos para inglês pelo poeta Michael Hamburger, Poems of Paul Celan, editada por Anvil Press Poetry é outra edição a considerar com 172 poemas traduzidos, 1995, reimpressão em 2013.

Nota

A imagem que abre o artigo mostra uma pintura minha, Azul 11, óleo s/tela, de 2003/4.

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Que fazes tu, poeta? Diz! — Eu canto. Poema de Rainer Maria Rilke

04 Sexta-feira Set 2015

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Jorge de Sena, Rainer Maria Rilke

Miniatura persa 38 1600-10Que fazes tu, poeta? Diz! — Eu canto.

Mas o mortal e monstruoso espanto

Como o suportas? — Canto.

 

Vivo num quotidiano de conforto sem luxos, entregue sempre que possível aos prazeres do espírito. Olho o que me rodeia na intimidade, e revejo os vestígios que guardam a memória do que foi uma vida.

É neste ambiente que surgem as imagens diárias da tragédia das multidões que chegam, quando chegam, às portas do paraíso que não as quer receber.

Gente que aparentemente perdeu, ou deixou para trás, tudo o que ao longo da vida gostou, possuiu, e com a roupa que traz no corpo, a sós, ou com os filhos nos braços, fugiu na barca do paraíso(?), que apenas por misericórdia não se transforma na barca do inferno ao fazer a viagem que os trará às portas deste universo sonhado, onde, com sorte, encontrarão um muro de arame farpado e uma ajuda de sobrevivência.

De que vida é preciso querer fugir para que, não importem os perigos do caminho, mesmo eventualmente a morte, a fuga seja melhor? Não sabemos! Nem as notícias nos dizem. Apenas ouvimos falar de números: tu ficas com tantos, eu não quero nenhuns, eu só aceito loiros (é uma força de expressão), e por aí fora.

Na terra de onde partiram, que se passa? Quem é responsável? Como espera o mundo que o êxodo acabe: quando não restar lá ninguém vivo?

Perguntas a que não sei responder nem aos próceres do mundo parecem preocupar. Entretanto,  os vivos que chegam, com o que trazem na cabeça e a marca indelével de uma experiência terrível, são, com as mortes, tão só a macabra estatística que todos os dias nos relatam. Até quando?

A epígrafe com que abro o artigo é o início de um poema de Rainer Maria Rilke (1875-1926) que a seguir transcrevo em tradução de Jorge de Sena.

Poema de confronto entre a vida e a poesia, deixa por resolver o que todos os dias sentimos como irresolúvel: onde cabe na vida a poesia?

“O SAGE, DICHTER…”

 

Que fazes tu, poeta? Diz! — Eu canto.

Mas o mortal e monstruoso espanto

Como o suportas? — Canto.

E o que nome não tem, tu podes tanto

Que o possas nomear, poeta? — Canto.

De onde te vem o direito ao Vero, enquanto

Usas de máscaras, roupagens? — Canto.

E o que é violento e o que é silente encanto,

Astros e temporais, como te sabem? — Canto.

 

in Poesia do Século XX, Antologia, prefácio e notas de Jorge de Sena, Fora do Texto, Coimbra, 1994.

 

Poema original

 

O sage, Dichter, was du tust?

— Ich rühme.

 

Aber das Tödliche und Ungetüme,

wie hältst du’s aus, wie nimmst du’s hin?

— Ich rühme.

 

Aber das Namenlose, Anonyme,

wie rufst du’s, Dichter, dennoch an?

— Ich rühme.

 

Woher dein Recht, in jeglichem Kostüme,

in jeder Maske wahr zu sein?

— Ich rühme.

 

Und daß das Stille und das Ungestüme

wie Stern und Sturm dich kennen?

— weil ich rühme.

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O Mar e a poesia de Sophia

25 Terça-feira Ago 2015

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Sophia de Mello Breyner Andresen

Mar e poesia de SophiaNeste Verão temperado onde os dias de calor tórrido parecem apenas ser memória, aquece-me um poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (1914-2004), Meio-Dia:

 

MEIO-DIA

 

Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.

O sol no alto, fundo, enorme, aberto,

Tornou o céu de todo o deus deserto.

A luz cai implacável como um castigo.

Não há fantasmas nem almas,

E o ar imenso solitário antigo

Parece bater palmas.

 

in Poesia, 1ª ed 1944

 

Depois de variada turbação, de que também a escrita para o blog se tem ressentido, cheguei finalmente ao mar, e ao que podem hoje ser férias de Verão; e eis-me no Atlântico:

 

ATLÂNTICO

 

Mar,

Metade da minha alma é feita de maresia.

 

in Poesia, 1ª ed 1944

 

Para quem tem o mar como segunda pele, é inexcedível o prazer de percorrer a poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen onde a presença do mar mostra como é possível dar um sentido sempre novo à existência:

 

MAR

 

I

De todos os cantos do mundo

Amo com um amor mais forte e mais profundo

Aquela praia extasiada e nua,

Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

 

II

Cheiro a terra as árvores e o vento

Que a Primavera enche de perfumes

Mas neles só quero e só procuro

A selvagem exaltação das ondas

Subindo para os astros como um grito puro.

 

in Poesia, 1ª ed 1944

Mar e poesia de SophiaDepois desta curta escolha, resta ao leitor a quem o cheiro a maresia chama, percorrer o itinerário do mar na poesia de Sophia. Por mais distante que dele esteja, senti-lo-á sempre por perto.

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Entreacto – poema Ángel González

24 Sexta-feira Jul 2015

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Angél Gonzalez, Piero di Cosimo

Piero di Cosimo - Perseu ataca o monstro - detalhe de Andrómeda libertada por PerseuUm destes dias veio ao meu encontro o poema de Ángel González (1925-2008) que hoje transcrevo, Entreacto, em tradução de Egito Gonçalves (1920-2001).

A campanha eleitoral anima-nos o dia-a-dia televisivo. Nas pausas que o trabalho permite tenho olhado a televisão à hora das notícias.  Perante a conversa e os personagens que fazendo pela vida tentam convencer-nos do que é bom para cada um de nós com:

 

…

Aqueles

ineficazes e tortuosos diálogos

com referências a ontem, a um tempo

ido,

completam, no entanto,

o panorama esfarrapado que ante nós

se depara, e talvez

então expliquem muitas coisas, sejam

a chave que no final justifique

tudo.

…

 

(fim de citação), invade-me uma melancolia inaudita, afinal resultado dos tantos anos em que os personagens repetem a peça.

 

Como luva que calça a atmosfera política do Portugal de hoje, é do que talvez alguns também sintam que o poema fala.

Após o fragmento anterior, eis o poema na totalidade da tradução e no original.

 

Entreacto

 

Não acaba aqui a história.

Isto é só

uma pequena pausa para que descansemos.

A tensão é tão grande,

a emoção que a trama desprende é tão

intensa,

que todos,

bailarinos e actores, acrobatas

e o distinto público,

agradecemos

a trégua convencional do entreacto,

e comprovamos

alegremente que tudo era mentira,

enquanto os músicos afinam os violinos.

Até agora, vimos

várias cenas rápidas que preludiavam a morte,

conhecemos o rosto de certos personagens

e sabemos

algo que inclusivamente muitos deles ignoram:

o móbil

da traição e o nome

de quem a praticou.

Não ocorreu ainda nada de definitivo

mas

o desespero e os intérpretes

tentam evitar o rigor do destino

pondo demasiado calor nos seus exuberantes

ademanes, demasiado colorido nos seus sorrisos

falsos,

com que — é evidente — dissimulam

a sua covardia, o terror

que dirige

os seus movimentos no cenário.

Aqueles

ineficazes e tortuosos diálogos

com referências a ontem, a um tempo

ido,

completam, no entanto,

o panorama esfarrapado que ante nós

se depara, e talvez

então expliquem muitas coisas, sejam

a chave que no final justifique

tudo.

Não esqueçamos também

as palavras de amor junto ao tanque

o gesto demudado, a violência

com que alguém disse:

                                     “não”

                                               olhando o céu,

e a surpresa que produz

o torvo jardineiro quando anuncia:

“chove, senhores,

chove

ainda”.

Mas talvez seja cedo para conjecturas:

deixemos

que a tramóia se prepare,

que os que hão-de morrer recuperem o alento,

e pensemos,

quando o drama prosseguir e a dor

fingida

se torne verdadeira em nossos corações,

que nada se pode fazer, que está próximo

o fim que tememos de antemão,

que a aventura acabará, sem dúvida,

como deve acabar, como está escrito,

como é inevitável que suceda.

 

 

Original em castelhano
Entreacto

 

No acaba aquí la historia.

Esto es solo

una pequeña pausa para que descansemos.

La tensión es tan grande,

la tensión que desprende la trama es tan

intensa,

que todos,

bailarines y actores, acróbatas

y distinguido público,

agradecemos

la convencional tregua del entreacto,

y comprobamos

alegremente que todo era mentira,

mientras los músicos afinan sus violines.

Hasta ahora hemos visto

várias escenas rápidas que preludiaban muerte,

conocemos el rostro de ciertos personajes

y sabemos

algo que incluso muchos de ellos ignoran:

el móvil

de la traición y el nombre

de quién la hizo.

Nada definitivo ocurrió todavía

pero

la desesperación está nítidamente

dibujada, y los intérpretes

intentan evitar el rigor del destino

poniendo

demasiado calor en sus exuberantes

ademanes, demasiado carmín en sus sonrisas

falsas,

con lo que -es vidente- disimulan

su cobardía, el terror

que dirige

sus movimientos en el escenario.

Aquellos

ineficaces y tortuosos diálogos

refiriéndose a ayer, a un tiempo

ido,

completan. sin embargo,

el panorama roto que tenemos

ante nosotros, y acaso

expliquen luego muchas cosas, sean

la clave que al final lo justifique

todo.

No olvidemos tampoco

las palabras de amor junto al estanque,

el gesto demudado, la violencia

con que alguien dijo:

«no»,

mirando al cielo,

y la sorpresa que produce

el torvo jardinero cuando anuncia:

«Llueve, señores,

llueve

todavía.»

Pero tal vez sea pronto para hacer conjeturas:

dejemos

que la tramoya se prepare,

que los que han de morir recuperen su aliento,

y pensemos,

cuando el drama prosiga y el dolor

fingido

se vuelva verdadero en nuestros corazones,

que nada puede hacerse, que está próximo

el final que tenemos de antemano,

que la aventura acabará, sin duda,

como debe acabar, como está escrito,

como es inevitable que suceda.

 

Notas bibliográfica e iconográfica

 

O poema foi transcrito de Poesia Espanhola do Após-Guerra, Portugália, Lisboa, s/data.

O poema original foi publicado no segundo livro de poesia de Ángel González, Sin Esperanza Con Convencimiento (1961) e pode ser encontrado na sua Obra Poética (1956-2001), Palabra sobre palabra, Seix Barral, Barcelona, 2004.

A imagem que abre o artigo é um detalhe de Andrómeda libertada por Perseu, pintura a óleo sobre madeira de (1510-1513), pintada por Piero di Cosimo (1461-1522) que pertence à colecção da Galeria Uffizi de Florença.

Alegoricamente a imagem conduz à sobre-humana força temperada da ajuda divina proveniente do Olimpo europeu, que não grego, e aqui personificada em Perseu, de que o governo deu provas ao derrotar o monstro, nas diversas capas que vestiu.

Sarcasmo? Talvez…

…

agradecemos

a trégua convencional do entreacto,

e comprovamos

alegremente que tudo era mentira,

enquanto os músicos afinam os violinos.

…

e pensemos,

quando o drama prosseguir e a dor

fingida

se torne verdadeira em nossos corações,

que nada se pode fazer, que está próximo

o fim que tememos de antemão,

que a aventura acabará, sem dúvida,

como deve acabar, como está escrito,

como é inevitável que suceda.

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O Corpo Insurrecto — poema de Luiza Neto Jorge

17 Domingo Maio 2015

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Luiza Neto Jorge, Tom Wesselmann

Tom Wesselmann - Great American Nude No 20 1961Há na poesia de Luiza Neto Jorge (1939-1989) uma elucidação dos sentidos e da sua força vital tornando evidente como e quanto comandam a vida.  Numa sofisticada linguagem poética onde o requinte da língua se apura, sucedem-se os poemas repassados de uma objectividade sem concessões a qualquer lirismo edulcorado, tornando a sua leitura frequentemente compulsiva.

Transcrevo hoje em jeito de ilustração o poema O Corpo Insurrecto, publicado pela primeira vez no livro Terra Imóvel, Portugália, Lisboa, 1964.

 

O Corpo Insurrecto

 

Sendo com o seu ouro, aurífero,

o corpo é insurrecto.

Consome-se, combustível,

no sexo, boca e recto.

 

Ainda antes que pegue

aos cinco sentidos a chama,

por um aceso acesso

da imaginação

ateiam-se à cama

ou a sítio algures,

terra de ninguém,

(quem desliza é o espaço

para o corpo que vem),

 

labaredas tais

que, lume, crepitam

nos ciclos mais extremos,

nas réstias mais íntimas,

as glândulas, esponjas

que os corpos apoiam,

zonas aquáticas

onde os corpos boiam.

 

No amor, dizendo acto de o sagrar,

apertado o corpo do recém-nascido

no ovo solar,

há ainda um outro

corpo incluído,

 

mas um corpo aquém

de ser são ou podre,

um repuxo, um magna,

substância solta,

com pulmões.

 

Neste amor equívoco

(ou respiração),

sendo um corpo humano,

sendo outro mais alto,

suspenso da morte,

mortalmente intenso,

mais alto e mais denso,

 

mais talhado é o golpe

quando o põem em prática

com desassossego na respiração

e o sossego cru de quem,

tendo o corpo nu,

a carne ardida,

lhe pede o ladrão

a bolsa ou a vida.

 

Transcrito de Luiza Neto Jorge, poesia, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001.

A imagem a abrir mostra uma pintura de Tom Wesselmann (1931-2004) – Great American Nude No 20, 1961.

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A difícil arte do soneto segundo Lope de Vega, Alexandre O´Neill e Manuel Alegre

10 Domingo Maio 2015

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga, Poetas e Poemas

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Arte do sonetoDesde a sua invenção nunca o soneto deixou de desafiar poetas.

Poema de 14 versos em verso decassílabo rimado, ordenado em quatro estâncias geralmente de duas quadras com dupla rima seguidas de dois tercetos.

No seu desenvolvimento o soneto exige ser construído numa espécie de silogismo, como bem lembrava Manuel Borralho no seu Luzes de Poesia (1724), partindo de premissa(s) e rematando com uma conclusão, sendo o último verso do soneto, a certa altura,  chamado de chave de ouro.

Apresentado o tema na primeira quadra, deverá o poema dar continuidade ao assunto que se propõe, desenvolvendo a ideia que lhe subjaz, e concluindo-se de forma coerente com o argumentado.

Sendo uma forma poética de meu especial agrado, e existindo na literatura portuguesa elevado número de sonetos belíssimos, tenho por diversas vezes  transcrito sonetos. Hoje reúno um conjunto especial em que o assunto é a própria dificuldade em escrever um soneto.

Começo por Lope de Vega (1562-1635) que assim respondeu a Violante quando esta  lhe pediu um soneto:

Un soneto me manda hacer Violante / Um soneto me faz fazer Violante

Y en vida nom me he visto en tal aprieto; / Nunca na vida estive tão inquieto;

Catorce versos dicen que es soneto: / Catorze versos dizem que é soneto,

Burla burlando, van los tres delante. / Brinca brincando vão os três diante.

 

Yo pensé que no hallara consonante / Pensei que não achava consoante

E estoy a la mitad de otro cuarteto; / E a metade estou deste quarteto;

Mas, si me hallo en el primer terceto, / Mas, se me vejo no primeiro terceto,

No hay cosa en los quartetos que me espante. / Nada há nos dois quartetos que me espante.

 

Por el primer terceto voy entrando / pelo primeiro terceto vou entrando

Y aún presumo que entré por pie derecho, / E parece que entrei com o pé direito,

Pues fin con este verso le voy dando. / Pois fim com este verso lhe estou dando.

 

Ya estoy en el segundo y aún sospecho / No segundo já vou e até suspeito

Que estoy los trece versos acabando: / que estou os treze versos acabando;

Contad si son catorze, y esté hecho. / Contai se são catorze e já está feito.

Rima: (ABBA / ABBA / CDC / DCD)  /  (ABBA / ABBA / CDC / DCD)

 

No livro Abandono Vigiado publicado por Alexandre O’Neill (1924-1986) em 1960 encontro o soneto QUATORZE VERSOS tendo como epígrafe o primeiro verso do soneto de Lope de Vega transcrito acima.

Deliberada homenagem a um poeta maior, Lope de Vega, pois o poema anterior é também outra homenagem, essa a

João Cabral de Melo e Neto, / Você não se pode imitar, / mas incita a ver mais perto, / com mais atenção e vagar, / o que está como que em aberto, / …,

 

O soneto QUATORZE VERSOS brinca, também ele, com a arte de escrever sonetos, na qual O’Neill foi exímio como neste SONETOS GARANTIDOS… páginas antes no mesmo livro, e que não resisto a transcrever:

SONETOS GARANTIDOS…

 

Sonetos garantidos por dois anos.

E é muito já, leitor que mos compraste

para encontrar a alma que trocaste

por rádios, frigorificos, enganos…

 

essa tristeza sobre pernas faz-te

temeroso e cruel e tonto e traste.

Nem pior nem melhor que outros fulanos,

não vês a Bomba e crês nos marcianos…

 

e é para ti que escrevo, é para ti

que um verso lanço – ó mão! – como o destino,

nel’ ponho mesura, desatino,

 

rasgo, invenção, lugar-comum protesto?

Antes para soldado ou para resto,

escroto de velho, ronco de suíno…

 

 

Mas voltando à difícil arte do soneto temos então no soneto QUATORZE VERSOS uma eloquente demonstração:

 

QUATORZE VERSOS

 

O primeiro é assim: fica de parte.

No segundo já posso prometer

que no terceiro vai haver mais arte.

Mas afinal não houve… Que fazer?

 

Melhor será calar, pois que dizer

nem no sexto conseguirei destarte.

Os acentos errados é favor não ver;

nem os versos errados, que também sei hacer…

 

Ó nono verso porque vais embora

sem que eu te sublime neste décimo?

Ao décimo-primeiro dediquei uma hora.

 

Errei-o. Mas que importa se a poesia,

mesmo que o não errasse, já não vinha?

É este o último e, como os outros, péssimo…

 

 

Ficaria por aqui não fora Manuel Alegre (1936) no seu livro Sonetos do Obscuro Quê publicado em 1993, vir explicitamente a este soneto de Alexandre O’Neill quando se debruçava sobre a arte de escrever poesia em forma de soneto. Temos então, agora de Manuel Alegre:

 

 

Desata-se-me o verso no primeiro

no segundo de vento vai vestido

no terceiro de mar e marinheiro

no quarto está perdido está perdido.

 

Recupero-o no quinto sem sentido

no sexto deito-o à sombra de um sobreiro.

No sétimo com dante digo:”Guido

sê tu no oitavo verso o companheiro”.

 

Porque não espero de voltar no nono

leva-me O’Neill no décimo a um terceto

que aponte já no onze o sul e o sal.

 

Ao décimo segundo chega o sono.

No treze está a chave do soneto

mas nem sempre o catorze é o final.

 

 

A tradução do poema de Lope de Vega é de José Bento.

Lê-se com proveito o artigo SONETO publicado no DICIONÁRIO DE LITERATURA, sob a direcção de Jacinto do Prado Coelho e assinado por António Coimbra Martins.

 

Nota final

Quatorze ou Catorze? Escolha o leitor. Apenas reproduzi o conteúdo das edições impressas que possuo. Antes do Acordo Ortográfico Quatorze seria para Portugal e Catorze para o Brasil.

 

Artigo publicado inicialmente em Fevereiro de 2011 e agora ligeiramente retocado.

A imagem de abertura mostra uma pintura de Maria Noma Bliss, jovem pintora norte-americana.

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Quadras: do Povo a Fernando Pessoa para a Dança camponesa de Bruegel

17 Sexta-feira Abr 2015

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga, Poetas e Poemas

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Heterónimos de Fernando Pessoa, Pieter Bruegel, Quadras Populares

Bruegel - danças camponesasAEncanta-me a pintura de Pieter Bruegel (1520-1569) no seu colorido e detalhe descritivo. Dando conta de um mundo extinto, muito do que lá se vê ainda por cá acontece. Por exemplo, a festa de camponeses. À parte a roupa, que diferenças de atmosfera encontramos na pintura que não se repitam hoje, logo que a ocasião se proporcione? No fixo da representação a alegria transborda e as gentes conversam, dançam e namoram à nossa frente como se ali estivéssemos a um par de metros.

Na verdade, uma das proezas técnicas da pintura é a localização do observador. Pintada a cena ao nível do nosso olhar, com o uso de uma perspectiva rigorosa, apenas usual em paisagem e não em multidão, é essa posição que nos dá a ilusão de presenciar a festa no momento em que ela decorre.

É uma pintura de onde a ironia, a sátira, e mesmo a metáfora estão ausentes. Representa-se apenas gente vivendo os seus costumes, e o uso da perspectiva central coloca o pintor e nós como parte desta humanidade.

Na representação das figuras, o desenho usa da mais pura técnica clássica, tal qual como se de uma representação religiosa, mística ou de altos personagens se tratasse, e não de gente simples (que à época não era assunto de pintura), dispensando em absoluto o maneirismo ou o anedótico.

A pintura é de grandes dimensões (114x164cm) e vê-la proporciona um imenso prazer. Pintou-a o artista no final da vida, por volta de 1568, e guarda-se no museu de arte antiga de Viena.

Acrescento alguns detalhes para seu maior prazer, leitor.

Bruegel - danças camponesas 1

Bruegel - danças camponesas 2

Bruegel - danças camponesas 3

Bruegel - danças camponesas 4Termino com um grande plano do beijo que na pintura surge ao cimo, à esquerda, acompanhado por populares declarações de amor em quadra, a que entremeio a inspiração de Fernando Pessoa.

Bruegel - danças camponesas 5

Apalpei meu lado esquerdo

Nao achei o coração,

Chegou-me a feliz notícia

Que estava na tua mão.

(Popular)

Quando passo um dia inteiro

Sem ver o meu amorzinho,

Corre um frio de Janeiro

No Junho do meu carinho.

Fernando Pessoa (1920)

Tenho dentro do meu peito

Duas escadas de flores,

Por uma descem suspiros,

Por outra sobem amores.

(Popular)

Se morrendo eu acabar

E nada restar de mim,

Não te esqueças de lembrar

Que só te esqueci assim.

Fernando Pessoa (1934)

O papel em que te escrevo

Tenho-o na palma da mão:

A tinta sai-me dos olhos

E a pena do coração.

(Popular)

Até breve!

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O Beijo num poema de Alexandre O’Neill

12 Domingo Abr 2015

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Alexandre O'Neill

Fico feliz quando o trabalho me leva para o Sul. É provavelmente a largueza de horizontes que me atrai. Não é ainda o infinito do mar, mas a lonjura desimpedida sempre transmite uma sensação de liberdade.

Amanheceu para os lados do rio com nevoeiro cerrado e do branco húmido a ponte surgia como que suspensa do céu à medida que o carro avançava. Com o correr da manhã o tempo abriu e o céu mostrou-se. Fiz o que ali me levava e trabalho arrumado deambulei frente ao rio. Havia gaivotas —

Querela de aves, pios, escarcéu. / Ainda palpitante voa um beijo.

…

E é a força sem fim de duas bocas, / De duas bocas que se juntam, loucas!

No regresso bailavam-me as palavras do soneto O Beijo de Alexandre O’Neill ( 1924-1986). Transcrevo-o com o imperscrutável olhar da gaivota que tudo desencadeou.

Gaivota 600px

O Beijo

 

Congresso de gaivotas neste céu

Como uma tampa azul cobrindo o Tejo.

Querela de aves, pios, escarcéu.

Ainda palpitante voa um beijo.

 

Donde teria vindo! (Não é meu…)

De algum quarto perdido no desejo?

De algum jovem amor que recebeu

Mandado de captura ou de despejo?

 

É uma ave estranha: colorida,

Vai batendo como a própria vida,

Um coração vermelho pelo ar.

 

E é a força sem fim de duas bocas,

De duas bocas que se juntam, loucas!

De inveja as gaivotas a gritar…

 

Publicado pela primeira vez em No Reino da Dinamarca (1958) e transcrito de Poesias Completas 1951/1986, INCM, 3ª edição revista e aumentada, Edição do Dia de Portugal, Braga, 10-Junho-1990.

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E, por fim, Deus regressa, num poema de José Tolentino de Mendonça

03 Sexta-feira Abr 2015

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Edvard Munch, José Tolentino de Mendonça

Edvard Munch - FertilidadeÉ inevitável. Por estes dias de Semana Santa o meu sumário vínculo católico ressurge. Habitualmente não tenho Deus por suporte ou interrogação. Tenho-O por companhia, numa crença despida de rituais e interditos, apenas na evidência da sua presença, qual seja o descrito no poema Escatologia de José Tolentino de Mendonça que a seguir transcrevo.

 

Escatologia

 

E, por fim, Deus regressa

carregado de intimidade e de imprevisto

já olhado de cima pelos séculos

humilde medida de um oral silêncio

que pensámos destinado a perder

 

Eis que Deus sobe a escada íngreme

mil vezes por nós repetida

e se detém à espera sem nenhuma impaciência

com a brandura de um cordeiro doente

 

Qual de nós dois é a sombra do outro?

Mesmo se piedade alguma conservar os mapas

desceremos quase a seguir

desmedidos e vazios

como o tronco de uma árvore

 

Transcrito de A Noite Abre Meus Olhos [poesia reunida], Assírio & Alvim, 2014.

 

Escatologia — do dicionário

Parte da teologia que trata dos fins últimos do homem e do que há-de acontecer no fim do mundo.

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Ana Hatherly – Tudo o que não é paixão, amor ou descoberta, não é senão sofrimento

31 Terça-feira Mar 2015

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Ana Hatherly

Sentado numa esplanada, e nas minhas costas, duas mulheres a quem há muito os quarenta anos tinham dito adeus, conversavam.

Uma, pragmática, argumentava com a razão as vantagens de um compromisso da outra com alguém que ambas conheciam. A certa altura a visada, responde nostálgica e com um grão de tremura na voz:

– Não querida, ainda estou à espera do príncipe encantado!

É bom esperar principes ou princesas encantadas toda a vida.

Há alguns anos, quando deparei na livraria com o título de um novo livro de Ana Hatherly (1929) – A NEO-PENÉLOPE, pensei: quase aos oitenta anos e ainda à espera do regresso do amor/Ulisses, vagabundo de outras camas/Calíopes que pelo mundo há.

Há tempos, conversa que traz conversa, veio o livro à baila, e de regresso a casa, lá fui. A ironia feroz que perpassa por tanta da poesia de Ana Hatherly, de alguma forma contrastando com um cativante feminino na sua obra plástica, parece neste livro ter virado desalento onde, no entanto, a espaços, um sopro irónico ainda surge.

É claro que o poeta atento ao mundo que nos anos 60 escreveu BALADA DO PAÍS QUE FOI, CALADO ou  EPÍSTOLA DE UM EMIGRANTE,  entre outros, não anda distraído. Os tempos são outros, a vida também, mas a atenção ao real lá está. Passadas as querelas de escola, fica a eterna e inacabada busca sobre o amor. E  esta poesia, agora, é mais a visão do sage que tanta vida viveu, e nos conta em poemas como neste  SEM AMOR, ou no seguinte, CARTA DE AMOR INFORMÁTICO, o papel do amor na vida de cada um.


SEM AMOR


Viver sem amor

É como não ter para onde ir

Em nenhum lugar

Encontrar casa ou mundo


É contemplar o não-acontecer

O lugar onde tudo já não é

Onde tudo se transforma

No recinto

De onde tudo se mudou


Sem amor andamos errantes

De nós mesmos desconhecidos


Descobrimos que nunca se tem ninguém

Além de nós próprios

E nem isso se tem


 

CARTA DE AMOR INFORMÁTICO


Penetraste no meu coração

Como um virus no meu computador


Vindo de lado nenhum

Ofereces-me agora

O vazio da não opção


Estragaste-me o real

Obrigaste-me a reinventá-lo:

Para quê?


Agora estás

No meu cemitério de textos

Já não te posso reencaminhar


Arquivei-te no lixo da memória

Do meu Pentium IV

Que aliás já vendi


Troquei-o por um lap top

Mais leve

Mais portátil

Mais facilmente descartável


Prossigo no livro e com que desencanto ela nos fala da mulher hoje, em poemas como A NEO-PENÉLOPE, A CAMPEÃ DAS GATAS,  ou este ELA – AGORA

Não menos que Helena bela

Ela senta-se à janela

Porém não à janela mas às janelas

Do computador

Que abrem portas que são redes

Páginas que são sítios

Avenidas que são ermos

Que agora percorremos

Já sem voz

Cada vez mais sós


Tanta profusão

Atira-nos

Para um lixo que nos deita fora


Embora na desolada solidão  Que agora percorremos / Já sem voz / Cada vez mais sós, desta vida com internet, há ainda lugar para os ecos de eros, não já EROS FRENÉTICO mas ainda assim EROS em A VIDA DO MEU CORPO – A atenção ao corpo / É um vínculo selvático


A vida do meu corpo

É toda uma lição

Fechada folha em acto


A seu respeito

Continuam as perguntas

Por exemplo:

Quando é que Adão e Eva

Primeiro se encontraram?

Qual foi a hora

Do fatídico acto?


No paraíso

O tempo despenha-se

Numa corrente acrónica


Ah!

Apressa o teu passo

Fortuito acaso

A atenção ao corpo

É um vínculo selvático

 

Mas há mais, há ainda a mulher-menina a quem Alice em tempos seduziu: contínua é a minha partida / Para o regresso / O espelho que eu cruzo / tem dupla face / Nunca me indica / qual lado ultrapasse., e eis que Alice regressa.

Agora, numa forma magoada, instala-a Ana Hatherly NO PAÍS DOS ANÕES

 

…

Alice é

A filha inventada

De um pai fingido.


Ele queria que ela fosse

A chave

Que abre a porta

Do paraiso sonhado

Onde a felicidade

Devia morar

Mas já não mora.

…

Para o final em jeito de memória, a estudiosa apaixonada do barroco brinda-nos com 4 SÁTIRAS BARROCAS escondidas entre desencantos de amor qual seja a primeira

 

SÁTIRA BARROCA I – O PRAZER DOS CASAIS

Os mesclados jogos esponsais

Lugar obrigatório de cristais

Decorrem de proximidades desiguais


Infamantes sombrias mas legais

As exigências intensas conjugais

Perluzem pelos preitos maritais


Repercussões: efeitos sociais

Repartição de legados essenciais

Injunções recalques preceituais

A familia é o prazer dos casais

 

Termina o livro com O CRONISTA SOCIAL


O tribuneiro cronista social

Atinge a plenitude laboral

Ao expor dos estros dominantes

Os seus sucessos

Desporto de gigantes.


Olhando só de longe

Mas a fundo

Cobiça a sua galhardia

E do intenso gasto de energia

Cai depois numa profunda nostalgia.


Sempre quer

Mas não consegue

Nem subir mais nem sequer rir

E à noite

Com uma insónia enorme

Não deixa dormir

Nem dorme.


 

 

Edição &etc, Lisboa, 2007, e como costume da editora, edição única.

Composto e paginado por Olímpio Ferreira, tem na capa um belíssimo desenho da autora.

Nota final: O título do artigo é uma frase de Ana Hatherly com que esta encerra uma entrevista a Ana Vasconcelos e Melo a propósito de uma sua exposição de desenhos, colagens e papeis pintados realizada em Paris em 2005.

Artigo publicado aqui no blog em Nov de 2010, agora ligeiramente retocado e trazido à luz para os novos leitores.

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