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Tom Wesselmann - Great American Nude No 20 1961Há na poesia de Luiza Neto Jorge (1939-1989) uma elucidação dos sentidos e da sua força vital tornando evidente como e quanto comandam a vida.  Numa sofisticada linguagem poética onde o requinte da língua se apura, sucedem-se os poemas repassados de uma objectividade sem concessões a qualquer lirismo edulcorado, tornando a sua leitura frequentemente compulsiva.

Transcrevo hoje em jeito de ilustração o poema O Corpo Insurrecto, publicado pela primeira vez no livro Terra Imóvel, Portugália, Lisboa, 1964.

 

O Corpo Insurrecto

 

Sendo com o seu ouro, aurífero,

o corpo é insurrecto.

Consome-se, combustível,

no sexo, boca e recto.

 

Ainda antes que pegue

aos cinco sentidos a chama,

por um aceso acesso

da imaginação

ateiam-se à cama

ou a sítio algures,

terra de ninguém,

(quem desliza é o espaço

para o corpo que vem),

 

labaredas tais

que, lume, crepitam

nos ciclos mais extremos,

nas réstias mais íntimas,

as glândulas, esponjas

que os corpos apoiam,

zonas aquáticas

onde os corpos boiam.

 

No amor, dizendo acto de o sagrar,

apertado o corpo do recém-nascido

no ovo solar,

há ainda um outro

corpo incluído,

 

mas um corpo aquém

de ser são ou podre,

um repuxo, um magna,

substância solta,

com pulmões.

 

Neste amor equívoco

(ou respiração),

sendo um corpo humano,

sendo outro mais alto,

suspenso da morte,

mortalmente intenso,

mais alto e mais denso,

 

mais talhado é o golpe

quando o põem em prática

com desassossego na respiração

e o sossego cru de quem,

tendo o corpo nu,

a carne ardida,

lhe pede o ladrão

a bolsa ou a vida.

 

Transcrito de Luiza Neto Jorge, poesia, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001.

A imagem a abrir mostra uma pintura de Tom Wesselmann (1931-2004)Great American Nude No 20, 1961.

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