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vicio da poesia

Category Archives: Poetas e Poemas

Uma gaivota – dizes. 3 poemas de Eugénio de Andrade

15 Quarta-feira Jun 2011

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Eugénio de Andrade

ARIMA

Uma gaivota – dizes.

Sim, uma gaivota

passa distante e arde.

O teu rosto é azul,

e contudo está cheio

do oiro da tarde.

 

Uma gaivota.

Alma do mar e tua,

abandona-se à luz.

 

E na boca nem eu sei

se me nasce o coração

ou é a lua.

QUE VOZ LUNAR

Que voz lunar insinua

o que não pode ter voz?

 

Que rosto entorna na noite

todo o azul da manhã?

 

Que beijo de oiro procura

uns lábios de brisa e água?

 

Que branca mão devagar

quebra os ramos do silêncio?

QUE DIREMOS AINDA?

Vê como de súbito o céu se fecha

sobre dunas e barcos,

e cada um de nós se volta e fixa

os olhos um no outro,

e como deles devagar escorre

a última luz sobre as areias.

 

Que diremos ainda? Serão palavras,

isto que aflora aos lábios?

Palavras, este rumor tão leve

que ouvimos o dia desprender-se?

Palavras, ou luz ainda?

 Palavras, não. Quem as sabia?

Foi apenas lembrança doutra luz.

Nem luz seria, apenas outro olhar.

Os poemas, de Eugénio de Andrade, foram publicados no livro Mar de Setembro editado pela primeira vez em 1961.

Nota sobre as fotografias: É deliberada a desfocagem observada nas fotos – Nem luz seria, apenas outro olhar.

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Em Lisboa com Cesário Verde — Eugénio de Andrade a pretexto dos jacarandás

16 Segunda-feira Maio 2011

Posted by viciodapoesia in Convite à fotografia, Poetas e Poemas

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Eugénio de Andrade, jacarandás

Passeamos pelas ruas de Lisboa neste verão de Maio, e o inesperado do azul dos jacarandás floridos, fundido com o céu, enche-nos o olhar.

Este ano aconteceu mais cedo, e a cidade dos poetas estará vestida de azul até aos Santos Populares se a natureza cumprir a sua função.

Em pausa de passeio aqui fica esta visita de Eugénio de Andrade (1923 – 2005) a Lisboa.

EM LISBOA COM CESÁRIO VERDE

Nesta cidade, onde agora me sinto

mais estrangeiro do que os gatos persas;

nesta Lisboa, onde mansos e lisos

os dias passam a ver as gaivotas,

e a cor dos jacarandás floridos

se mistura à do Tejo, em flor também,

só o Cesário vem ao meu encontro,

me faz companhia, quando de rua

em rua procuro um rumor distante

de passos ou aves, nem eu sei já bem.

Só ele ajusta a luz feliz dos seus

versos aos olhos ardidos que são

os meus agora; só ele traz a sombra

dum verão muito antigo, com corvetas

lentas ainda no rio e a musica,

o sumo do sol a escorrer da boca,

ó minha infância, meu jardim fechado,

ó meu poeta, talvez fosse contigo

que aprendi a pesar silaba a sílaba

cada palavra, essas que tu levaste

quase sempre, como poucos mais,

à suprema perfeição da lingua.

1986

Lisboa é pouco frequente na poesia de Eugénio de Andrade, embora sendo a sua uma escrita da terra onde a memória dos lugares perpassa, uma que outra passagem por Lisboa foi pretexto de poema, tal este LISBOA:

 

LISBOA

Esta névoa sobre a cidade, o rio,

as gaivotas doutros dias, barcos, gente

apressada ou com o tempo todo para perder,

esta névoa onde começa a luz de Lisboa,

rosa e limão sobre o Tejo, esta luz de água,

nada mais quero de degrau em degrau.

 

Noticia bibliográfica:

Os poemas foram transcritos de POESIA E PROSA [1940 – 1986],  3ª edição  aumentada, editado por Circulo de Leitores em 1987.

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Eduardo Libório – a descoberta de um poeta

30 Quarta-feira Mar 2011

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Eduardo Libório, Surrealismo

 

A PESCA LUMINOSA

Poema cósmico em dois quadros

– Nos carrapitos da lua

– A Pesca luminosa

Numa noite de verão, à beira-mar,

Senti a tentação de ver a lua ao pé…

Abri a janela, comecei a trepar,

 

– E encarrapitei-me nos carrapitos dela…

 

Tive então outra ideia genial:

Naquela posição excepcional

Porque é que não havia de pescar?…

 

Arranquei um cabelo ao luar,

Fiz dum gancho da lua, o anzol,

Atirei-o ao ar – e apanhei o sol.

(pag. 51)

 

Surpresa deslumbrada é como posso descrever o encontro, ontem, nas prateleiras de uma livraria, com a poesia de Eduardo Libório (1900-1946).

Uma linguagem poética de desarmante singeleza prende-nos pelo encanto e inesperado de temas e ideias, enunciadas com uma limpidez de cristal.

Ecoam aqui formas do que viria a ser alguma poesia surrealista surgida bem depois da morte do poeta ocorrida em 1946 ( a primeira reunião do Grupo Surrealista de Lisboa realizou-se em fins de Outubro de 1947, na pastelaria A Mexicana). Nomeadamente, é alguma poesia de Alexandre O’Neill que me ocorre ao ler grande parte destes poemas.

 

POEMA GIRATÓRIO,

COM “FIGURAS DE PASSAR”,

DEDICADO PELO LIBÓRIO

A QUEM O QUEIRA ACEITAR

Passa a trisreza, a dor, passa o cuidado,

Passa o prazer – o amor passa também…

– E passam as saudades do passado

Se no passado não passou alguém…

 

Ilusões – esperanças passageiras,

Passos falsos – e “passas” verdadeiras,

Pássaros, Passarões – e Passarolas

Uns à solta e outros em gaiolas,

Todos vão, de passagem, pelo ar…

 

Passam, a passear, os mensageiros

De mensagens passadas – e a passar…

Passam na vida, a passo, os passageiros

Para o mundo onde havemos de voltar…

 

Passam dúvidas, fés – passam certezas

Do que já se passou – ou vai passar

E, por vezes, perpassam baronesas

Num passeio, de passagem – a girar.

(pag. 72)

 

 

A ideia do fluir do tempo que subjaz ao POEMA GIRATÓRIO, regressa em diferentes épocas e de variados pontos de vista, quais sejam:

 

 

O HOMEM

O menino começou

À espera que a vida chegasse…

A vida chegou

– e o menino ficou à espera…

 

Que bom que era,

Se ela viesse ter comigo…

Há tanta coisa que a vida tem:

Gente que vai… Gente que foi… Gente que vem…

Que bom que era, se ela viesse!…

Oh! Quem me dera!…

 

A vida veio

– E o menino ficou à espera…

(pag. 115)

 

 

 

HISTÓRIA DO HOMEM QUE TINHA UM RELÓGIO

 

Foi assim que a história começou:

 

 

Era uma vez um homem que tinha um relógio.

Dava corda ao relógio, o relógio andava, o tempo passava,

E o homem ficava a olhar,

O relógio a andar, e o tempo a passar.

 

 

Mas um dia o homem não deu corda ao relógio:

O relógio parou – o tempo passou.

 

 

Então o homem nunca mais deu corda ao relógio.

 

 

E foi assim que a história acabou.

(pag. 47)

 

 

Acrescento outro poema:

 

Eu não sei o que hei-de fazer…

Se ando depressa, o tempo parece que quer parar…

Se ando devagar, é o tempo que passa a correr…

 

 

O tempo é que vai dizer:

 

 

“Vai mais depressa!…

Vai mais devagar!…”

 

 

Mas o tempo não quer falar,

– E eu não sei o que hei-de fazer…

(pag. 149)

 

E já agora também:

 

O VIAJANTE

Gosto tanto de sonhar

– E de dormir…

Esquecer o tempo que passou

E não pensar no que há-de vir…

 

Viver a vida verdadeira

A noite inteira:

Fechar os olhos – e partir…

 

Tudo em silêncio, tudo apagado,

E eu, suspenso,

Maravilhado

A espreitar o que está do outro lado…

 

Se me esquecesse de voltar…

 

Oh! Se pudesse ficar assim,

Horas sem fim

Sem acordar.

A viajar dentro de mim…

(pag. 65)

 

 

Com este O VIAJANTE, passamos para outro dos temas desta poesia, presente ja em A PESCA LUMINOSA: o desejo de evasão e a fantasia no regresso a um território de infância:

 

 

LENDA DA MENINA FLOR EM BOTÃO

No meio das flores perfumadas

Do misterioso jardim,

Entre as papoilas encarnadas

Do canteiro de alecrim,

Desabrochou certa manhã de verão

Uma flor maravilhosa

E esquisita:

Uma flor mais bonita

Que a Rosa-do-Japão.

 

Nasceu, sorriu,

Olhou assim…

E toda a gente viu

Que aquela flor não era igual

Às outras flores daquele jardim…

 

Tinha o olhar azul e transparente,

Como as águas de luz e cristal

Dos mares do Oriente.

 

Não a vêem do outro lado da moldura

Com o cestinho de costura

Na mão?

– Esta menina pequenina

É Leonor

A menina-flor em botão.

(pag. 80)

 

 

BERCEUSE

O menino adormece, feliz e risonho

E o Anjo da Guarda vem, de mansinho,

E leva o Menino para o país do Sonho…

 

Através do céu estrelado,

Vão assim, as criancinhas,

Numa ascensão e num sorriso,

Para o país distante que está do outro lado,

– Lá onde fica o Paraíso…

 

E a mãe, junto do berço, olha o menino e fica a pensar:

“O céu é tão lindo!

Se ele ma vai por lá ficar!…”

 

Então a Virgem, que também sabe o que é ser mãe,

Trás o menino feliz e risonho,

Desse país distante que é o País do Sonho…

(pag. 82)

 

Constituindo um conjunto homogéneo com o propósito de oferta, o grupo de poemas JARDIM é na verdade um Bestário, temática muito pouco vulgar na poesia da época. É possivel que o autor conhecesse os poemas do bestário de Apollinaire, musicados por Poulenc.

Dos catorze poemas que o compõem, escolho quatro:

 

A GIRAFA

Ó Mãe,

Porque é que a girafa tem

O pescoço assim?…

É para a gente saber

Que bicho é, não é,

Ó Mãe?…

 

Pois já se vê que sim,

Pudera!…

Se não fosse o pescoço que ela tem

Não se sabia bem

Que bicho era…

(pag. 93)

 

 

 

OS MACACOS

Os macacos não são homens

Porque não sabem falar…

Mas quando estão distraídos

Parecem homens a pensar…

(pag. 95)

 

 

OS CARACÓIS

São adivinhos

Disfarçados…

– É por isso que eles têm dois pauzinhos

Com olhinhos

Erguidos para o ar…

 

Há tantas maravilhas escondidas,

Tantas coisas perdidas, esquecidas…

– São essas coisas que eles querem encontrar…

(pag. 101)

 

 

O PAPAGAIO

Não é homem por um triz:

Até na voz

É como nós

Fala, não pensa – também não sabe o que diz.

(pag. 103)

 

 

 

E com esta lapidar definição do género humano avanço para a escolha final com alguma poesia irreverente:

 

 

HISTÓRIA DO HOMEM QUE ATIROU A BOLA AO AR,

E FICOU A OLHAR COMO QUEM JÁ ESTAVA

A VER O QUE IA ACONTECER

I

O homem atirou a bola ao ar

E ficou a olhar,

Como quem já estava a ver

O que ia acontecer…

II

A bola ficou no ar,

E o homem ficou a olhar,

Como quem já estava a ver

O que ia acontecer.

(PAG. 70)

 

 

 

PRISÃO DE VENTRE

Toda a gente

Mente

Quando diz que tem prisão de ventre

 

A prisão felizmente

Não é à frente

É do lado oposto

Do rosto

 

A outra face da fachada

É que está tapada

 

O verdadeiro

Carcereiro

É o traseiro

(pag. 64)

 

 

A esta ironia acrescento dois retratos de mulher:

 

Não era uma “menina fina”,

Mas também não era uma “menina vulgar”

Tinha certo ar de distinção

Que não era de esperar

Em pessoas da sua condição.

 

Quer fosse bem, quer fosse mal,

Nunca escutava…

Mas ouvia com atenção tão natural

Que, sem querer,

Nos fazia pensar no que ficava por dizer…

 

Diziam, a meia voz:

“Coitada!…”

 

– Ela olhava para nós,

E não dizia nada.

(pag. 141)

 

 

TIROLINA I

Tirolina

A minha amante,

Não é uma menina

Petulante

Nem uma mulher fatal

 

Tem uma boca bestial,

Com dentes de camelo,

E um sinal peludo

Com caracóis e tudo

De cabelo…

 

Tirolina

Tem a forma estranha – e curiosa –

Duma montanha

De gelatina

Cor-de-rosa…

 

A voz guinchante

De Tirolina

Tem qualquer coisa de gemebundo

Que faz lembrar

A buzina

Apavorante

Que há-de tocar no “fim do mundo”…

30 de Novembro de 1935

(pag. 61)

 

TIROLINA II

Tirolina a minha amante

– Que gordura!…

Parece mesmo um elefante,

Uma colina oscilante

De fressura,

Uma vasta montanha

De gelatina e banha,

– Que ternura!…

 

Usa baton, usa “Komol”, usa carmim…

– Mas é bela

E gosto dela

Assim.

(pag. 62)

 

 

Encerro a visita com o poema que de alguma forma condensa o prazer inesperado deste encontro, …/ – Achei uma coisa que já não há…

 

 

AMIZADE

Alguém um dia me perguntou:

– o que é que achou?

– Eu não achei coisa nenhuma…

– Nem sequer uma?

Vá, diga lá…

– Pensando bem, talvez achasse…

– Então falasse…

– Achei uma coisa que já não há…

(pag. 71)

 

Eduardo Libório (1900-1946) músico de profissão e artista multifacetado, era até Dezembro de 2010 um poeta desconhecido do público, quando a sua poesia acompanhada por cartas e desenhos, saiu na INCM, na colecção arte e artistas.

O corpus poético é um conjunto de menos de 80 poemas, reunidos por Gil Miranda, que preparou e organizou a edição.

É também de Gil Miranda a noticia biográfica com que abre a edição dos poemas, desenhos e correspondência, rigorosa e culturalmente informada.

É uma edição modelar e um serviço impar prestado à cultura portuguesa, que a partir de agora conta com mais um poeta de vulto.

Nota importante: Nenhuma das imagens que acompanham o texto é obra de Eduardo Libório.

 

 

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Manhã, ergo cogito – Um poema de Fiama

23 Quarta-feira Mar 2011

Posted by viciodapoesia in Convite à fotografia, Poetas e Poemas

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Fiama Hasse Pais brandão

Hoje a vida levou-me ao encontro de campos e prados logo pela manhã.

Andando, acabei por chegar ao mar.  O oceano, sereno, deixava ver um horizonte sem mácula.

Encontro em Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007) os poemas próximo desta atmosfera plácida e escolho

 

Manhã, ergo cogito


A janela pálida reflorida

no ar cada vez mais visivel.

Também o prado revive

longe, depois de ter bebido

a sua água que dá

ao ar visibilidade.

Tão nítido, estendido numa colina.

 


Noticia bibliográfica:

O poema de Fiama Hasse Pais Brandão pertence ao grupo ENTRE OS ÂMAGOS incluído em Obra Breve e publicado por Editorial Teorema em 1991.

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Circuladô de fulô: o poema de Haroldo de Campos e a interpretação de Caetano Veloso

13 Domingo Mar 2011

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Caetano Veloso, Haroldo de Campos

Fazendo parte dos 15 textos que compõem as prosas poéticas Galáxias,  escritas entre 1963 e 1976, circuladô de fulô… escrita em 1965,  juntamente com e começo aqui e meço aqui … , encontra-se entre o melhor da poesia de Haroldo de Campos (1929-2003) e para alguns, entre os melhores poemas brasileiros de sempre.

Em 1959, Haroldo de Campos, então com 29 anos, viajou pela Europa, deixando o Brasil pela primeira vez. Viagem de formação que incluiu entre outros eventos, uma visita a Stockhausen em Colónia, então chefe de fila da vanguarda musical europeia, e a Ezra Pound em Rapallo.

De regresso ao Brasil pelo nordeste, visitou outras cidades nordestinas antes do retorno a S. Paulo. Segundo o próprio, este percurso final da viagem foi  uma descoberta do Brasil por via do mundo.

A memória desta viagem pelo outro Brasil foi mais tarde evocada em circuladô de fulô… que aqui arquivo na fragmentada versão do texto cantada por Caetano Veloso, a qual repete em refrão texto que não se encontra repetido no poema original.

circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie
porque eu não posso guiá eviva quem já me deu circuladô de
fulô e ainda quem falta me dá


soando como um shamisen e feito apenas com um arame
tenso um cabo e uma lata velha num fim de festafeira no
pino do sol a pino mas para outros não existia aquela música
não podia porque não podia popular aquela música se não
canta não é popular se não afina não tintina não tarantina e
no entanto puxada na tripa da miséria na tripa tensa da mais
megera miséria física e doendo doendo como um prego
na palma da mão um ferrugem prego cego na
palma espalma da mão coração exposto como um nervo
tenso retenso um renegro prego cego durando na palma
polpa da mão ao sol
…


[circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie
porque eu não posso guiá eviva quem já me deu
circuladô de fulô e ainda quem falta me dá]

 

…
o povo é o inventalínguas na malícia da maestria no matreiro
da maravilha no visgo do improviso tenteando a travessia
azeitava o eixo do sol
…

 

[circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie
porque eu não posso guiá eviva quem já me deu
circuladô de fulô e ainda quem falta me dá]

 

…
e não peça que eu te guie não peça despeça que eu te guie
desguie que eu te peça promessa que eu te fie me deixe
me esqueça me largue me desamargue que no fim eu acerto que
no fim eu reverto que no fim eu conserto e para o fim me
reservo e se verá que estou certo e se verá que tem jeito e se
verá que está feito que pelo torto fiz direito que quem faz
cesto faz cento se não guio não lamento pois o mestre que
me ensinou já não dá ensinamento
…


[circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie
porque eu não posso guiá eviva quem já me deu
]

Caetano Veloso canta circuladô de fulô

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/Veloso-Caetano_Circulado.mp3

circuladô de fulô… é um tributo à tradição de ministreis nordestinos que a musica capta na perfeição. Os primeiros versos, cantados depois como refrão, parecem ser uma citação directa de alguma canção ouvida no local por Haroldo de Campos.  Sobre ela parece nada se saber.

Os poemas podem encontrar-se in Os melhores Poemas de Haroldo de Campos, 3ª ed. S. Paulo: Global, 2001

Nota:

Shamisen: é uma espécie de alaúde japonês.

Gueixa tocando Shamisen para convidados, Japão, sec. XVIII

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A ANA FLOR – Um poema Dadaísta de Kurt Schwitters

08 Terça-feira Mar 2011

Posted by viciodapoesia in A mulher imaginada, Poetas e Poemas

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Dada, Kurt Schwitters, Ursonate

A ANA FLOR

Ó tu, bem-amada dos meus vinte e sete sentidos, amo-te!

Tu teu tu a ti eu a ti tu a mim-Nós?

Isso (diga-se de passagem) não é daqui.

Quem és tu, inumerável fémea? Tu és – és tu? –

Há quem diga que deves ser – deixa-os dizer, os que não sabem

como o campanário está de pé.

Trazes um chapéu nos teus pés e andas com as

mãos, com as mãos é que tu andas.

Olá roupas vermelhas e tuas, justas em pregas brancas. Vermelha

te amo, Ana Flor, vermelha a ti amo – tu teu tu a ti eu a ti tu a mim –

Nós?

Isto (diga-se de passagem) pertence ao fogo frio.

Vermelha flor, vermelha Ana Flor, que diz a gente?

Tema de concurso:          1. Ana Flor tem um passarinho.

2. Ana Flor é vermelha.

3. De que cor é o passarinho?

Azul é a cor do teu cabelo louro.

Vermelho é o arrulho do teu pássaro verde.

Tu, simples rapariga com o vestido de todos os dias, tu querida verde

criatura, amo-te – tu teu tu a ti eu a ti tu a mim –

Nós?

Kurt Schwitters (1887 – 1948), artista plástico longo tempo esquecido, membro da vanguarda alemã de entre-guerras, embora não se encontrando incluido entre os fundadores do  movimento Dada em Berlim, participou no período de entre-guerras neste movimento ao lado dos protagonistas franceses Tristan Tzara e Hans Arp.

Autor de um dos exemplos pioneiros da poesia sonora, a sua Ursonate (1922-32) que executou e ampliou ao longo dos anos, pode ouvir-se neste site: AQUI

ou ouvida na leitura ao vivo de Jaap Blonk AQUI

Pioneiro na realização de Performance plásticas, foi o inventor das colagens em relevo e paralelamente à criação artística de colagens, produziu espaços interiores com características escultóricas de que o mais famoso terá sido o Merzbau, o qual consistiu na transformação de algumas divisões da casa da família em Hamburgo.

Em 1919 conheceu a fama enquanto artista plástico, e nesse mesmo ano publicou An Anna Blume – ou A Ana Flor como Jorge de Sena traduziu, a qual tradução escolhi para assinalar no blog o Dia da Mulher e assim dar alguma espécie de resposta aos visitantes, pois as pesquisas têm chovido nestes dias, em busca de poemas alusivos à mulher.

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Voltar a Veneza ao ler Kenneth Rexroth a pretexto de Gaspara Stampa

08 Terça-feira Mar 2011

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poesia Antiga, Poetas e Poemas

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Gaspara Stampa, Kenneth Rexroth

Enquanto a luz de Canaletto / e de Guardi se torna em luz de / Turner,…

Ler estes versos faz-me voar a memória. O Carnaval acabara e raras máscara passeavam ainda a nostálgia de um tempo irremediavelmente sem regresso.

Vinte e cinco anos tinham passado.

Chegados a Santa Luzia e deixado o comboio, lá vamos levados pela multidão e arrastando o trolley pela calçada a caminho da cidade. A paragem do vaporetto fica longe do hotel, é melhor ir a pé.

O cheiro da cidade, o colorido do mar e, sobretudo, a luz, são os mesmos. Os reflexos vindos dos canais, a atmosfera do lugar, tudo permanece igual à memória. Com Veneza as memórias são inevitáveis. E o desejo irreprimível de flanar, olhar o mar, as pessoas, as ruas, descer a S.Marcos ao pôr-do-sol, intacto aí está. A perenidade da paisagem dá-nos o sentido da eternidade.

Mas vamos à cidade. Acabado o Carnaval, turistas são poucos. O sol brilha a espaços, e o frio da laguna desperta todos os sentidos mal pomos pé fora do hotel.

De novo a luz. O deslumbre do olhar é a constante do dia. Ao longo das horas os mesmos locais mudam de atmosfera mantendo sempre o encanto inesquecível. São os jogos de reflexão na água  e a variação da luz nas fachadas e palácios que inebriam e encantam.

Em Veneza passear é ir ao sabor dos cheiros, dos pormenores das esquinas, e perder-se no labirinto de ruelas e pontes. Descobrir a cada passo o detalhe que comove e enche a alma do prazer de ser surpreendida. Depois, há as igrejas, anódinas na fachada e todas, sem excepção, repletas de tesouros no interior, tantos deles por descobrir, afastadas que estão dos guias que fazem correr os turistas. Como valem a descoberta!

Os museus desmancham quaisquer planos e a excitação aumenta com as descobertas. A pintura de Tintoreto, agora restaurada, resplandece na Scuola S. Rocco. Os retratos a pastel de Rosalba Carrera são a revelação. Afinal ainda há pintura a descobrir.

Outro dia é para a Galeria della Academia. Os olhos vêem, mas a mente não retém. É demasiada beleza concentrada. Temos que voltar.

E as pessoas. Os venezianos são poucos. Habitam a cidade, mantêm-na vida. Saturados dos turistas guardam educadamente as distâncias. É preciso tempo em Veneza para que ela e eles se deixem conhecer. Forasteiros são muitos. Alguns ficam presos para sempre. Outros desejam voltar a Veneza e morrer.

Para um melómano o ar de Veneza trás à lembrança Wagner, Stravinski, e sobretudo, Vivaldi de cuja musica, mesmo a religiosa, salta uma irreprimível vontade de viver. É a melhor associação que faço a Veneza.

Para o fotógrafo, Veneza é uma dádiva. As cambiantes da luz com o passar das horas, o inesperado dos pontos de vista e a irresistível paisagem, criam a urgência do regresso quando a partida é inevitável.

Voltar, ter tempo para estar, para olhar, para sentir, para descobrir.

A Veneza podemos voltar, mesmo quando lá fomos felizes. Sempre.

Mesmo quando

Tudo o que tenho por companhia / são as duas metades do meu coração.

Afinal comecei e acabei o texto com versos de um poema de Kenneth Rexroth (1905 – 1982), NUMA PÁGINA DAS “RIME” DE GASPARA STAMPA.

Poeta norte – americano, figura participante do grupo em torno de quem a Beat Generation se desenvolveu, é mal conhecido em Portugal.

É de novo pela mão de Jorge de Sena que nos chegam algumas traduções entre as quais as que aqui transcrevo.

 

NUMA PÁGINA DAS “RIME” DE GASPARA STAMPA

Enquanto a luz de Canaletto

e de Guardi se torna em luz de

Turner, e as cúpulas da Salute

começam a absorver a tarde,

bebo chocolate e Vecchia

Romagna, esse tão estimável

brandy, na esplanada do

Café Internacional,

e leio estas ardentes

páginas que se estorcem. O amor foi

também para ti uma agonia, Signora,

e deu em nada depois

de um preço tão terrível.

Envolto nos sussurros

do fim do dia nesta cidade quieta,

aonde o mais sonoro som humano

é o de passos, estou sozinho

com a minha vida. Na noite passada

tomei uma gôndola até além da Giudecca,

directamente dentro do luar.

Quando voltei os frades

cantavam as matinas em San Giorgio

Maggiore. E penso em se é possível

estar-se mais só do que numa gôndola

em Veneza, à luz da lua cheia

de Junho. Tudo o que tenho por companhia

são as duas metades do meu coração.

Depois do poema-pretexto para voltar a Veneza, mais dois poemas do autor em tradução de Jorge de Sena, acompanhadas dos respectivos originais.

O ABUTRE

São Tomás de Aquino pensava

que a fêmea era lésbica

e o vento a emprenhava.

Se buscas os factos da vida,

os intelectuais papistas

podem ser muito enganadores

Vulture
St. Thomas Aquinas thought
That vultures were lesbians
And fertilized by the wind.
If you seek the facts of life,
Papist intellectuals
Can be very misleading.

O LEÃO

É o chamado rei

dos animais. De hoje em dia

há tantos em jaulas

quantos os há fora delas.

Se te oferecem uma coroa, recusa.

Lion
The lion is called the king
Of beasts. Nowadays there are
Almost as many lions
In cages as out of them.
If offered a crown, refuse.

Saber mais sobre Kenneth Rexroth (1905 – 1982):

Na página http://www.bopsecrets.org/rexroth/ pode ser encontrada informação abundante e fiável sobre este notável autor, tradutor, e cultor de um espírito universalista raro em escritores norte-americanos.

Se do nosso poeta sabemos pouco em Portugal, que dizer da personalidade e da obra de Gaspara Stampa (1523 – 1554)?

Embora para os conhecedores de Rilke não seja um nome desconhecido, pois foi este quem a colocou como emblema dos amantes a quem a infelicidade fez maior que o próprio destino ao referi-la na Primeira Elegia de Duíno, e sobretudo nos Cadernos de Malte Laurids Brigge, onde a compara com Soror Mariana Alcoforado, encontrar a sua poesia traduzida em português é procurar agulha em palheiro.

Vasculhadas as antologias que encontrei à mão é  na insubstituível Rosa do Mundo p.877, que encontro a tradução do Soneto CCVIII de Gaspara Stampa da responsabilidade de Jorge Henrique Bastos:

O amor transformou-me em fogo vivo,

como uma nova salamandra no mundo,

tal como o animal menos raro

que no mesmo sitio nasce e morre.

 

Todo o meu prazer e o deleite

é viver ardendo e não sentir dor,

sem preocupar-me com quem me impele

se tem ou não alguma piedade de mim.

 

Apenas o primeiro ardor estava extinto

foi outro a incendiar o Amor, ainda mais vivo

e maior do que todos os que provei.

 

Não me arrependo de arder de Amor,

se alguém roubar de novo o meu coração

há-de ficar com o meu ardor satisfeito.

 

E a versão original em italiano:

Soneto CCVIII

Amor m’a fatto tal ch’io vivo in foco,

qual nova salamandra al mondo, e quale

l’altro di lei nom men stranio animale,

que vive e spira nel medesmo loco.

 

Le mie delizie son tutte e ‘l mio gioco

viver ardendo e non sentire il male,

e non curar ch’ei che m’induce a tale

abbia di me pietà molto ne poco.

 

A pena era anche estinto il primo ardore,

che accese l’altro Amore, a quel ch’io sento

fin qui per prova, più vivo e maggiore.

 

Ed io d’arder amando non mi pento,

pur che chi m’ha di novo tolto il core

resti de l’arder mio pago e contento.

A obra de Gaspara Stampa, morta aos trinta e um anos, foi publicada pela irmã no ano da sua morte. Consta de 311 sonetos, elegias e madrigais.

Ao que sei, apenas em italiano é possível encontrar em volume a obra completa, disponível em edição de bolso da Rizzoli.

Em francês, a edição de uma antologia bilingue com tradução de Sophie Basch, e uma modelar apresentação pela tradutora, é mais uma das pérolas da colecção Orphée publicada pela editora La Différence.

 

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A Primavera anuncia-se em Lisboa e um soneto de Cecília Meireles

02 Quarta-feira Mar 2011

Posted by viciodapoesia in Convite à música, Poetas e Poemas

≈ 2 comentários

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Cecilia Meireles, Frühlingsstimmen, Herbert von Karajan, Johann Strauss, Katleen Battle, Vozes da Primaver

Pondo fim ao tempo em que  A chuva chove mansamente … como um sono , a primavera anuncia-se subitamente em Lisboa, e as árvores explodem em flor.

Evoco o soneto de Cecília Meireles (1901 – 1964) a contrario, ou seja, para deixar para trás tudo o que ele convoca.

A chuva chove mansamente … como um sono

que tranquilize, pacifique, resserene…

A chuva chove mansamente… Que abandono!

A chuva é a musica de um poema de Verlaine…

 

E vem-me o sonho de uma véspera solene,

em certo paço, já sem data e já sem dono…

Véspera triste como a noite, que envenene

a alma, evocando coisas líricas de outono…

 

num velho paço, muito longe, em terra estranha,

com muita névoa pelos ombros da montanha…

paço de imensos corredores espectrais,

 

onde murmurem velhos órgãos árias mortas,

enquanto o vento, estrepitando pelas portas,

revira in-fólios, cancioneiros e missais…

 

Soneto imbuído de atmosfera musical, é outra a musica que quero lembrar, e não

… o sonho de uma véspera solene/ … / Véspera triste como a noite, que envenene / a alma…/ …/ velho paço…/ … / onde murmurem velhos orgãos árias mortas, / enquanto o vento, estrepitando pelas portas, / revira in-fólios, cancioneiros e missais…

Ouçamos, pois, a atmosfera festiva de Vozes da Primavera para estrear uma nova forma de ouvir musica no blog.

Frühlingsstimmen op. 410 (Vozes da Primavera), valsa de Johann Strauss (1825 – 1899) tocada pela Orquestra Filarmónica de Viena no Concerto de Ano Novo de 1987.

Dirige a orquestra Herbert von Karajan e a parte solista é cantada por Katleen Battle, Soprano, que na altura surgiu esplendorosa, em vermelho, entre as flores que decoravam o palco.

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/Karajan+(1987)+-+Johann+Strauss-+Fr%C3%BChlingsstimmen+op.+410.mp3

Para Solombra (1963), último livro publicado em vida da poetisa, fez Julio Pomar 4 ilustrações magníficas, a evidenciar o corta estético do pintor com o neo-realismo.

Pode, seguindo este link, saber mais sobre Cecília Meireles

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Periclitam os grilos/ a noite é nada e mais poemas de Alexandre O’Neill

09 Quarta-feira Fev 2011

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Alexandre O'Neill

Enquanto olho Lisboa, saltita-me o pensamento entre a metafísica dos sinais de transito no percurso da volta,e a importância do tempo no boletim meteorológico. É preciso ver o caminho. E inevitavelmente chego a Alexandre O’Neill.


Periclitam os grilos:

a noite é nada.

Quem tem filhos tem cadilhos,

(Que quadra tão bem rimada!)


Não espere, leitor, que eu diga:

“Debaixo daquela arcada…”.

Não venho fazer intriga:

versejo só – e mais nada.


Assim o terceiro verso

desta tirada

(reparou que é um provérbio?)

não significa mais nada.


Se a noite é nada e os grilos

não estão de asa parada,

não vou puxar, só por isso,

o fio à sua meada,


leitor que me pede história

que já traz engatilhada,

leitor que não se habitua

a que não aconteça nada


em poesia que comece

como esta foi começada

e acabe como esta

vai agora ser acabada…

A esta luz, é a possibilidade da metáfora no jogo do bingo que me ocorre, mas este céu duma tristeza cor de farda leva-me a esse outro SONETO onde a aposta é na vida, mesmo errada.

No céu duma tristeza cor de farda,

Uma angustia de nuvens se desenha.

O amor já morreu: que o tempo venha

Desmantelar o que a memória guarda.


Jogai!, jogai! Quem não jogar não ganha

Nem perde. É a última cartada.

Eu aposto na vida, mesmo errada.

Talvez outro destino me sustenha.


Avião de Lisboa para o mundo,

Apaga-me a tristeza com as asas,

Tão nítidas no céu em que me afundo!


Depois desaparece atrás das casas

E deixa-me o azul, o azul profundo,

E duas nuvens de razão tocadas.

Ei-las:

Deixo-vos com um AUTO-RETRATO do poeta em 1962 onde lembra a imensa verdade de que amor não há feito:

AUTO-RETRATO

 

O’Neill (Alexandre), moreno português,

cabelo asa de corvo; da angústia da cara,

nariguete que sobrepuja de través

a ferida desdenhosa e não cicatrizada.

Se a visagem de tal sujeito é o que vês

(omita-se o olho triste e a testa iluminada)

o retrato moral também tem os seus quês

(aqui, uma pequena frase censurada..)

No amor? No amor crê (ou não fosse ele O’Neill!)

e tem a veleidade de o saber fazer

(pois amor não há feito) das maneiras mil

que são a semovente estátua do prazer.

Mas sofre de ternura, bebe de mais e ri-se

do que neste soneto sobre si mesmo disse…

Noticia bibliográfica:

Soneto foi publicado em 1958 no livro NO REINO DA DINAMARCA, Periclitam os grilos foi publicado em 1960 no livro ABANDONO VIGIADO, AMBOS PELA Guimarães Editores . AUTO-RETRATO foi publicado em POEMAS COM ENDEREÇO, em 1962 pela Livraria Moraes Editora.

 

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Outro dia, com Irene Lisboa

06 Domingo Fev 2011

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poetas e Poemas

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Irene Lisboa

Alguns escritores, talvez já aqui o tenha referido, desarmam-me quaisquer planos. É abrir-lhes um livro ao acaso e embalo na leitura, esquecido de compromissos ou obrigações. É o caso de Irene Lisboa.

Amanhecera azul num céu de Tiepolo e fui trabalhar de olhos cheios. A certa altura choveu sob o arco-iris e os suburbios-dormitório onde o trabalho me leva, ganharam um brilho transparente de cristal. Pareceram por momentos lugares onde apetecia viver.

Era dia de rua Irene Lisboa, e no infinito daquele subúrbio, lá apareceu entre lixo e grafitti, com edifícios pouco menos que degradados. Serão habitados por gente parente de quem a escritora fez a crónica, pensei.

Fiz o que precisava, e no regresso fui à sua poesia. Aqui fica apenas um poema:

outro dia

Ontem,

cansada, cansada,

cheguei a casa,

à noite.

O céu estava limpo.

Cheguei à porta e olhei,

antes de entrar.

Lá em baixo,

nem perto nem longe,

no escuro,

luziam uns pingos…

Caíam rectos

e brilhantes

na água…

Deixavam um rasto!

Os meus olhos riram,

vendo-os

imobilizaram-se.

E tive desejos

de seguir pelas ruas,

de cabeça no ar,

com um riso parado…

Mas subi as escadas.

Lisboa 1935

O poema encerra o livro um dia e outro dia…. A versão transcrita é a do vol I das Obras de Irene Lisboa organizada por Paula Morão e publicada pela Editorial Presença em 1991.

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