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vicio da poesia

Category Archives: Poetas e Poemas

O tempo seca a beleza — dois poemas de Cecília Meireles

20 Quinta-feira Fev 2014

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Cecilia Meireles, Johann Georg Meyer

Johann Georg Meyer (German, 1813–1880). Sitting Girl (Reflecting), 1872 detalheO tempo, esse grande escultor, escreveu uma vez Marguerite Yourcenar: fórmula lapidar que dá conta de como o seu passar nos forma e transforma dia-a-dia.

Somos em cada momento o que o tempo, ou a vida, como se preferir, faz de nós.

Eu não tinha este rosto de hoje, escreve Cecília Meireles (1901-1964) a abrir o seu poema Retrato, e nele reflecte sobre a mudança em nós que o passar do tempo traz, tantas vezes sem que nos apercebamos delas até que súbito o espelho da verdade no-las impõe:

Eu não dei por esta mudança, / … / — Em que espelho ficou perdida / a minha face?

 

Retrato

 

Eu não tinha este rosto de hoje,

assim calmo, assim triste, assim magro,

nem estes olhos tão vazios,

nem o lábio amargo.

 

Eu não tinha estas mãos sem força,

tão paradas e frias e mortas;

eu não tinha este coração

que nem se mostra.

 

Eu não dei por esta mudança,

tão simples, tão certa, tão fácil:

— Em que espelho ficou perdida

a minha face?

Nas voltas da vida por vezes O tempo seca a beleza, belo verso com que Cecília Meireles abre o poema Canção do Amor-Perfeito. Ao lê-lo, na sua concisa e bela sinceridade fazemos o percurso do seu passar:

 

O tempo seca a saudade,/ … / Deixa algum retrato, apenas,

O tempo seca o desejo / e suas velhas batalhas.

 
Canção do Amor-Perfeito

 

O tempo seca a beleza,

seca o amor, seca as palavras.

Deixa tudo solto, leve,

desunido para sempre

como as areias nas águas.

 

O tempo seca a saudade,

seca as lembranças e as lágrimas.

Deixa algum retrato, apenas,

vagando seco e vazio

como estas conchas das praias.

 

O tempo seca o desejo

e suas velhas batalhas.

Seca o frágil arabesco,

vestígio do musgo humano,

na densa turfa mortuária.

 

Esperarei pelo tempo

com suas conquistas áridas.

Esperarei que te seque,

não na terra, Amor-Perfeito,

num tempo depois das almas.

 

Retrato pertence ao livro Viagem de 1939, e livro da sua consagração como poeta. Canção do Amor-Perfeito íntegra o livro Retrato Natural publicado em 1949.

Transcrevi a partir da edição portuguesa da Antologia Poética, escolha de Cecília Meireles em 1963 e publicada pela primeira vez a seguir à morte da poetisa.

 

O retrato da rapariga que reflete depois da leitura foi pintado pelo alemão Johann Georg Meyer (1813-1880).

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Um poema de Iosif Brodskii (Joseph Brodsky)

19 Quarta-feira Fev 2014

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Iosif Brodskii, Joseph Brodsky, Vieira da Silva

Vieira da Silva (1908 – 1992) - A saida luminosa 1983-86

É um poema sobre Separação que escolho para pela primeira vez trazer ao blog a poesia de Iosif Brodskii, ou Joseph Brodsky (1940-1996) como é talvez mais conhecido no ocidente.

Russo de nascimento, expulso da União Soviética em 1972, Prêmio Nobel em 1990, fixou-se nos Estados Unidos, e, auto-didacta, aprendeu inglês, tendo ganho um domínio da língua que lhe permitiu escrever nela com domínio absoluto, tal como já acontecerá com Nabokov.

 

Voltando ao poema de hoje, é à reflexão sobre a dimensão do amor e do seu fim que ele nos desafia:

Esquecemos quem uma vez foi uma paixão?

… o tempo, ao dar de caras com a memória, reconhece a invalidez dos seus direitos.

 

Ao recordar, recordamos como?

Tu tiveste sorte: onde estarias para sempre — salvo talvez

numa fotografia — de sorriso trocista, sem uma ruga, jovem, alegre?

 

E ao recordar significa que o amor permanece? Memória é amor?

 

Não me interpretes mal: a tua voz, o teu corpo, o teu nome

já não mexem com nada cá dentro. Não que alguém os destruísse,

só que um homem, para esquecer uma vida, precisa pelo menos

de viver outra ainda. E eu há muito que gastei tudo isso.

 

Tantas perguntas…; o poema aí fica.

 

Querida, hoje saí de casa já muito ao fim da tarde

para respirar o ar fresco que vinha do oceano.

O sol fundia-se como um leque vermelho no teatro

e uma nuvem erguia a cauda enorme como um piano.

 

Há um quarto de século adoravas tâmaras e carne no braseiro,

tentavas o canto, fazias desenhos num bloco-notas,

divertias-te comigo, mas depois encontraste um engenheiro

e, a julgar pelas cartas, tornaste-te aflitivamente idiota.

 

Ultimamente têm-te visto em igrejas da capital e da província,

em missas de defuntos pelos nossos comuns amigos; agora

não param (as missas). E alegra-me que no mundo existam ainda

distâncias mais inconcebíveis que a que nos separa.

 

Não me interpretes mal: a tua voz, o teu corpo, o teu nome

já não mexem com nada cá dentro. Não que alguém os destruísse,

só que um homem, para esquecer uma vida, precisa pelo menos

de viver outra ainda. E eu há muito que gastei tudo isso.

 

Tu tiveste sorte: onde estarias para sempre — salvo talvez

numa fotografia — de sorriso trocista, sem uma ruga, jovem, alegre?

Pois o tempo, ao dar de caras com a memória, reconhece a invalidez

dos seus direitos. Fumo no escuro e respiro as algas podres.

1989

 

Tradução de Carlos Leite,

in Paisagem com Inundação, Edições Cotovia, Lisboa 2001.

Vieira da Silva (1908 – 1992) - Memória segunda 1985
Abre o artigo a imagem de uma pintura de Vieira da Silva (1908–1992) — A saida luminosa, 1983-86. Fecha o artigo outra pintura de Vieira da Silva, Memória segunda. 1985.

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Herberto Helder – (a carta da paixão)

18 Terça-feira Fev 2014

Posted by viciodapoesia in Cânone XXI, Poetas e Poemas

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Herberto Helder, Louis Jean François Lagrené

Louis Jean François Lagrenée  -  Allegory of Peace 1779 (pormenor) 650pxHá versos que iluminam uma vida. Esta mão que escreve a ardente melancolia / da idade com que abre (a carta da paixão) de Herberto Helder (1930) encontra-se entre os muitos versos do poeta que ao lerem-nos, nos ensinam. Logo, a música das palavras, depois a magia que no mundo eles podem desvendar, e, sobretudo, o mistério da vida onde mergulhamos tantas vezes de olhos fechados ou abertos, mas sem ver, e na insondável alquimia da língua descobrimos como

…

A paixão é voraz, o silêncio

alimenta-se

fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te

toda no cometa que te envolve as ancas como um beijo.

…

É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a

entre os braços. …

Deixo-vos com a totalidade desta carta da paixão.

Herberto Helder – (a carta da paixão)

Esta mão que escreve a ardente melancolia

da idade

é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,

que à imagem do mundo aberta de têmpora

a têmpora

ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra

a sua queimadura desde os seus recessos negros

onde se formam

as estações até ao cimo,

nas sedas que se escoam com a largura

fluvial

da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas

e o silêncio todo branco.

Os dedos.

A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua

alumia-se: O mel escurece dentro da veia

jugular talhando

a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se

a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas

obscuras, essa lua

tece as ramas de um sangue mais salgado

e profundo. E o marfim amadurece na terra

como uma constelação. O dia leva-o, a noite

traz para junto da cabeça: essa raiz de osso

vivo. A idade que escrevo

escreve-se

num braço fincado em ti, uma veia

dentro

da tua árvore. Ou um filão ardido de ponto a ponta

da figura cavada

no espelho. Ou ainda a fenda

na fronte por onde começa a estrela animal.

Queima-te a espaçosa

desarrumação das imagens. E trabalha em ti

o suspiro do sangue curvo, um alimento

violento cheio

da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força

desde a raiz

dos braços a força

manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda

fechada, a límpida

ferida que me atravessa desde essa tua leveza

sombria como uma dança até

ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma

estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum

astro

é tao feroz agarrando toda a cama. Os poros

do teu vestido.

As palavras que escrevo correndo

entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,

arterial.

E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.

A paixão é voraz, o silêncio

alimenta-se

fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te

toda

no cometa que te envolve as ancas como um beijo.

Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem

nos quartos.

É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a

entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel

relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta

pelo meio

o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras

um pouco loucas

engolfadas, entre as mãos sumptuosas.

A doçura mata.

A luz salta às golfadas.

A terra é alta.

Tu és o nó de sangue que me sufoca.

Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões

da madeira fria. És uma faca cravada na minha

vida secreta. E como estrelas

duplas

consanguíneas, luzimos de um para o outro

nas trevas.

Transcrito de PHOTOMATON & VOX, 4ª edição, Assírio & Alvim, Lisboa 2006

A imagem é um fragmento da pintura de Louis Jean François Lagrenée (1724-1805)  – Alegoria da Paz (1770), da colecção do Museu Jean Paul Getty de Los Angeles, EUA.

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Dois retratos de mulher por William Carlos Williams

14 Sexta-feira Fev 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Ernst Ludwig Kirchner, William Carlos Williams

Ernst Ludwig Kirchner (German, 1880–1938) 3014 de Fevereiro, Dia de Namorados, que a nossa sociedade mediatizada e sufocada pela publicidade transformou em obrigação de comemorar — mesmo quando entre apaixonados Dia de Namorados são todos os dias — e simultaneamente criou uma desmesurada angústia, sobretudo feminina e adolescente, quando o namorado não existe para celebrar o auspicioso dia. Adiante.

Ernst Ludwig Kirchner (German, 1880–1938) 21O nosso tempo é o que é, e com o nosso comportamento lá o vamos alimentando, hoje com pequeninos corações vermelhos, amanhã com enfeites de outra cor, seguramente.

Deixemo-nos de preâmbulos e passemos à poesia com dois retratos femininos por William Carlos Williams (1883-1963): um Retrato proletário e um Retrato de uma senhora. É a condição social a diferenciar tudo nestes poemas. Para o Retrato proletário apenas os sinais exteriores do vestir desenham o ser humano, num pudor de linguagem que liberta a imaginação para desenhar a mulher por detrás da jovem que procura o prego no sapato:

 Ragazza nel prato; la fligia Langre

Retrato proletário

 

Uma jovem alta sem chapéu

de avental

 

Parada na rua com o cabelo

puxado para trás

 

Um pé com a peúga tocando

a calçada

 

O sapato na mão. Examinando-o

atentamente

 

Retira a palmilha

à procura do prego

 

Que a magoava tanto

 

Tradução do poeta José Agostinho Baptista,

in Antologia Breve, Assírio & Alvim, Lisboa, 1995.

Ernst Ludwig Kirchner (German, 1880–1938). Dodo with a Feather Hat (Dodo mit Federhut), 1911Para o Retrato de uma senhora, é o tapa-destapa que incita o desejo do corpo, o pretexto para o retrato.

Tendo como mote as figuras femininas do século XVIII francês, pintadas por Watteau e Fragonard, e de algum modo arquétipos, até há pouco tempo, da feminilidade na ociosidade do seu viver, cuja  preocupação única seria o cuidado do corpo numa vida sem-que-fazer; eram figuras de mulher onde uma quase evanescência se cristalizava e as peculiaridades de comportamento se aceitavam. Foram modelos de excelência para ajudar à divagação dos homens, e à afirmação de um preciso conceito de masculinidade social. E é exactamente nas sociedades do Novo Mundo que este modelo regressa como paradigma de um viver mítico onde a fantasia em torno ao Dia dos Namorados se enquadra.

 Signora nel bosco; ritrato di Nina Hard a sinistra

Retrato de uma senhora

 

Suas coxas são macieiras

cujas flores tocam o céu.

Que céu? O céu

onde Watteau dependurou

uma sandália de mulher.

E seus joelhos

são uma brisa do sul

— ou uma rajada de neve.

Mas ah! que espécie

de homem era Fragonard?

— como se isso respondesse

a alguma coisa. Ah, sim, abaixo

dos joelhos — pois a canção

cai desse jeito, é um

desses dias brancos de verão,

a erva alta dos tornozelos

adeja por sobre a praia —

Que praia?

Ah, talvez pétalas. Como

saberia eu?

Que praia? Que praia?

Eu disse pétalas de macieira.

 

Tradução do poeta Odylo Costa, filho,

in Cantiga Incompleta, Livraria José Olympio Editora, Rio, 1971.

 

Para o poema Retrato de uma senhora, ocupam-se os estudiosos a dilucidar qual o papel da referência a Watteau, uma vez que a pintura tomada como pretexto é O baloiço de Fragonard. Questão que me parece de somenos, mas para leitores curiosos, e para a pintura de Fragonard, remeto para o artigo do blog com o poema de Jorge de Sena sobre o assunto onde se encontram também as reproduções dos dois quadros de Fragonard com baloiço.

 

Nota sobre as imagens

As imagens reproduzem pinturas de Ernst Ludwig Kirchner (1880-1938).

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Meditação idiota na hora de deitar-se sózinho por Juan Luis Panero

11 Terça-feira Fev 2014

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Edward Hopper, Juan Luis Panero

Hotel by a Railroad 1955A secura pungente dos seus processos de sentimentalização, o expressionismo radical de uma redução do vivido a escassos pontos de dor essenciais (a solidão, a viagem, o fracasso, o álcool, os amores vividos e perdidos), dão forma a uma visão magoadíssima da condição individual do humano.

É com esta penetrante e belíssima síntese da obra poética de Juan Luis Panero (1942-2013) por Joaquim Manuel Magalhães que introduzo os leitores no poema Meditación idiota a la hora de acostarse solo em tradução do poeta José Bento.

Eleven AM 1926

Meditação idiota na hora de deitar-se sózinho

 

Se disseste, e tens repetido tantas vezes,

que o teu único amor é uma mala,

para que te queixas e protestas

enquanto olhas o tecto sobre tua cama solitária.

Vítima, juiz e enfim carrasco,

podes ainda sentir que estremeces porque alguém te ama,

mas tu escolheste, de certo modo, esse destino,

e agora deves pagar o preço.

Tu que pronunciaste “amo-te” tantas vezes,

para te rires depois da tua frase,

– o que esperas?, a quem pedes em vão?

Se quando encontras alguém que comparte teus dias,

tuas noites mais terríveis, tua soma de fracassos,

te mete medo dizer-lhe “continuemos sempre juntos”,

embora seja uma frase, embora não o creias,

– que final é o teu?, que esperas tu?

E se também te queixas das farsas grotescas

que amiúde, inúteis, constróis

com frívolas histórias, palavras mercenárias,

– o que pretendes? que pedes à vida?

A vida não é um jogo, deves tê-lo compreendido,

e se há algo evidente é que já envelheceste.

Conforma-te e aguenta e não peças milagres,

que o vodka te acompanhe ao silêncio e ao sono.

Aos pés da tua cama, como cadela no cio,

a morte, serviçal, dá-te as boas noites.

 

in Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea, selecção e tradução de José Bento, Assírio & Alvim, Lisboa, 1985.

Chair CarAcompanham o artigo imagens de pinturas de Edward Hopper (1862-1967).

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Maus tempos — poema de Hermann Hesse

10 Segunda-feira Fev 2014

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Hermann Hesse

Bosch - Jardim das Delicias (fragmento)Onde está o tempo / em que uma luz, um lar por nós ardia? /

Dá-me a tua mão. / Talvez seja longo este caminho ainda.

 

Os tempos não vão de feição para optimismos por este Portugal onde o inverno parece instalado para além do calendário, espalhando um frio de alma que demora a expulsar. Maus tempos estes que ecoam num antigo poema de Hermann Hesse (1877-1962) escrito a pretexto de outra circunstâncias, e que hoje evoco.

 

 

Maus tempos

 

Agora nos calamos

E já não mais cantamos.

Nosso passo é pesado.

É a noite, o seu tempo é chegado.

 

Dá-me a tua mão,

Talvez que seja longo este caminho ainda.

E a neve cai, a neve!

O inverno em terra estranha nunca finda.

 

Onde está o tempo

em que uma luz, um lar por nós ardia?

Dá-me a tua mão.

Talvez seja longo este caminho ainda.

 

Tradução de Jorge de Sena, in Poesia do Século XX, Fora do Texto Editora, Coimbra, 1994.

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W.B.Yeats — o amante diz da rosa no seu coração

09 Domingo Fev 2014

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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W. B. Yeats

Rosa vermelha 500pxA rosa como imagem condensada do belo, do harmonioso, do desejável, surge aqui e ali na obra de W.B.Yeats (1865-1939):

 

A rosa do mundo

 

Quem sonhou que a beleza passa como um sonho?

Por estes lábios vermelhos, com todo o seu magoado orgulho,

Tão magoados que nem o prodígio os pode alcançar,

Tróia desvaneceu-se em alta chama fúnebre,

E morreram os filhos de Usna.

 

Nós passamos e passa o trabalho do mundo:

Entre humanas almas, que se agitam e quebram

Como as pálidas águas em seu fluxo invernal,

Sob as estrelas que passam, sob a espuma do céu,

Vive este solitário rosto.

 

Inclinai-vos, arcanjos, em vossa incerta morada:

Antes de vós, ou de qualquer palpitante coração,

Fatigado e gentil alguém esperava junto ao seu trono;

Ele fez do mundo um caminho de erva

Para os seus errantes pés.

 

Na complexidade mítica da sua poesia, estes poemas em que da rosa se fala, ainda que dedicados a Maud Gonne ou sobre a sua pessoa escritos, são também evocações da Irlanda, sugerindo esse intenso amor pela mulher que o recusa, e pela terra cuja independência política ela combativamente defende, qual o poema A rosa na cruz do tempo que a seguir transcrevo.

 

A rosa na cruz do tempo

 

Rosa vermelha, Rosa altiva, triste Rosa dos meus dias!

Aproxima-te, vem até mim, enquanto de outrora os tempos canto:

O de Cuchulain, em luta com a maré inclemente;

O do Druida sombrio, filho dos bosques, de olhos calmos,

Esse que alimentou os sonhos de Fergus e a indizível ruína;

É a tua tristeza o que antiquíssimas estrelas

Dançando com sandálias de prata sobre o mar,

Cantam em sua alta e solitária melodia.

Aproxima-te pois, agora que já não me cega o destino do homem,

E posso encontrar sob os ramos do amor e do ódio,

E nas mais simples coisas que vivem apenas um dia,

A eterna beleza errante, errando ainda.

 

Aproxima-te, vem até mim, vem — Ah, deixa-me algum espaço

Que de seu hálito a rosa encha!

Que não seja eu quem não ouve o que implora;

O verme indefeso e oculto em seu pequeno esconderijo,

A ratazana que entre as ervas de mim foge,

E a terrível esperança mortal que labuta e morre;

Que seja eu quem ouve as estranhas coisas ditas

Por Deus aos luminosos corações dos mortos antigos,

E aprende essa língua que os homens ignoram.

Vem até mim; antes de partir queria o

Velho Eire cantar e cantar de outrora os tempos:

Rosa vermelha, Rosa altiva, triste Rosa dos meus dias.

 

E nesta curta visita à obra de W.B.Yeats, termino com o poema O amante diz da rosa no seu coração, que terá sido dedicado pelo poeta a Maud Gonne, paixão a quem por três vezes, sem sucesso,  propôs casamento, segundo rezam as crónicas biográficas, e é um intemporal poema de amor onde se diz como

Tudo quanto é feio, destruído, todas as coisas gastas, velhas,

…

Maculam a tua imagem que engendra uma rosa no fundo do meu coração.

 

O amante diz da rosa no seu coração

 

Tudo quanto é feio, destruído, todas as coisas gastas, velhas,

O grito de uma criança à beira do caminho, o rangido de uma carroça que se arrasta,

O pesado andar do lavrador, passo a passo sobre o limo invernal,

Maculam a tua imagem que engendra uma rosa no fundo do meu coração.

 

Tão grande é a mácula das coisas torpes que não pode ser descrita;

A minha ânsia é tudo reconstruir e sentar-me num verde outeiro solitário,

Com a terra, o céu, a água renovados, como um cofre de ouro

Para os meus sonhos da tua imagem que floresce numa rosa tão profundamente no meu coração.

 

A tradução dos poemas é do poeta José Agostinho Baptista.

 

Nota sobre a foto

A foto integra um portfólio — Terra Floret — que em tempos reuni, e do qual, a espaços, divulguei algumas fotos no blog, e talvez um dia me decida à sua publicação.

Carlos Mendonça Lopes

 

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Sobre a Nudez — poema de Jorge de Sena, pretexto para Expulsão do Paraíso por Masaccio

27 Segunda-feira Jan 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Jorge de Sena, Masaccio, Masolino

Masaccio - Expulsão do Paraiso 1426-27 Capela Brancacci em Santa Maria del Carmine ANTES DO RESTAURO2Masaccio (1401-1428), génio de curta vida, morreu com 27 anos, tem em Florença, no fresco da Santíssima Trindade em Santa Maria Novelle, a primeira utilização da perspectiva total na pintura ocidental; e nos frescos da Capela Brancacci em Santa Maria del Carmine, a inovação do uso da luz com forma de definir figuras e adereços, substituindo a iluminação uniforme do quadro, até aí praticada, pela iluminação a partir de um foco, concretamente a suposta luz vida da janela, criando assim um jogo de luz e sombra que desde então funcionou como paradigma neste género pictórico.

Dos seis frescos da Capela Brancacci, o Pagamento do Tributo e a Expulsão do Paraíso são aceites unanimemente como as suas obras primas. É este último fresco, Adão e Eva expulsos do Paraíso que hoje me interessa. Abre o artigo a imagem que dele durante séculos foi vista. Expulsos do Paraíso depois do pecado original, Adão e Eva apresentam-se com umas folhas a cobrir o sexo. Foi o restauro dos frescos entre 1981 e 1989 que revelou o brilho da pintura que se escondia sob séculos de negligência. Acontece que a folhagem cobrindo o sexo de Adão e Eva era uma excrescência acrescentada provavelmente no século XVII, a qual foi removida com o restauro, permitindo hoje a visão sem tabus do corpo, tal como à época era aceite, e hoje ainda é quase matéria de escândalo. Daí a escolha do poema de Jorge de Sena (1919-1978), Sobre a Nudez.
Masaccio - Expulsão do Paraiso 1426-27 Capela Brancacci em Santa Maria del Carmine Após restauro2

Sobre a Nudez

Quoi! Tout nu! dira-t-on, n’avait-il pas de honte?

………………………………………………………………….

Tout est nu sur la terre, hormis l’hypocrisie.

Musset, Namouna

 

Nus nascemos, nus

nos inspecciona o médico,

a tropa, o professor de ginástica.

 

Nus, na mesa de operações,

na cama de hospital,

na da morte.

 

Nus no amor para nos vermos,

sentirmos a pele dos outros corpos e

para mais que penetrarmos

 

termos o choque e o roçar

que nos dizem do quanto penetramos.

Nus sempre, menos no que não importa.

 

Porque há então quem tema tanto

a nudez dos outros? Será

que teme, menos que o feio

 

de muitos, a beleza de

alguns, ou o fascínio das

esplêndidas partes

 

de uns raros? E que, paralisados

(de inveja), deixemos que o mundo e a vida

se soltem à deriva

 

para a nua liberdade?

 

1968-69

 

Tradução da epígrafe

 

O quê! Completamente nu! dir-se-á, não tinha vergonha?

………………………………………………………………………………

Tudo está nu sobre a terra, salvo a hipocrisia.

 

Na capela, frente ao fresco de Masaccio, encontra-se o fresco A Tentação, pintado por Masolino (1383-1447), de resto o pintor a quem foi encomendada a obra na capela e de quem Masaccio era ajudante. Com ele encerro o artigo.

Masolino - Tentação na Capela Brancacci 1426-27B

No contraste entre a amável serenidade do par pintado por Masolino e a expressiva dor nas fisionomias e atitudes corporais representadas por Masaccio está toda a medida da invenção e génio de Masaccio.

 

Pede comparar-se esta Tentação e o conjunto de pinturas que quase cem anos depois pintou sobre o mesmo  assunto Lucas Cranach, o Velho, que noutro artigo se encontram, e permitem ver a variedade expressiva a que o assunto se presta.

 

Nota bibliográfica

 

Como já noutro artigo o escrevi, se os livros de arte são belos objectos onde com prazer nos perdemos, os livros sobre frescos são preciosos, pois a tudo isso acrescentam o permitir ver o detalhe que no local é inacessível, seja pela iluminação, seja pela distância.

Ao leitor interessado recomendo como imperdíveis os volumes (4) Italian Frescoes publicados por Abbeville Press, New York, e para estes frescos em particular, Italian Frescoes, The Early Renaissance 1400-1470, de Steffi Roetgen.

 

O poema Sobre a Nudez foi publicado pela primeira vez em Peregrinatio ad loca infecta 70 poemas, alguns dos quais amáveis, com um epílogo altamente filosófico, e sem prefácio do autor, Portugália Editora, Lisboa, Setembro de 1969.

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Por causa de umas quantas canções — poesia de Leonard Cohen

24 Sexta-feira Jan 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Leonard Cohen, Matisse

Blue Nude with Hair in the Wind 1952

Não sou muito de nostalgias, nem de parar a olhar para trás contemplando a vida vivida. Já foi! Fez-me como sou, e para a frente é o caminho. Inevitavelmente o que no passado conheci, as gentes que me encheram a vida mostram-me que o tempo passou, e não foi o mesmo para todos. Confronto-me demasiadas vezes com a memória de mim nos outros diferente do que suponho. São certamente artifícios da construção do eu em cada um.

Já vivi a adolescência num tempo em que as canções marcaram a memória, e de Leonard Cohen (1934), Suzanne, mais que outras, deram-me êxtases que garantiram ao cantor e poeta a minha admiração eterna:

…

Os beijos começaram nos nossos lábios / E foram terminar em todo o lado /

…

Com aquele ritmo dolente que ele hoje ainda sabe fazer, criando pura magia quando temos uma mulher nos braços, foi Leonard Cohen (1934) o artífice de bem sucedidas aventuras onde o amor participou.

É por via das suas canções que chego à poesia que escreveu, belíssima frequentemente, relato de vida pessoal que é também relato de vida de uma geração que foi adulta nos últimos 40 anos:

…

O livro do amor que li estava errado / Tinha um final feliz/

…

Standing Blue Nude 1952

Agarro-me ao seu Book of Longing, Livro do Desejo em português, traduzido por Vasco Gato, e um pouco ao sabor do acaso escolho alguns poemas.

A Grande Divisão

Nunca gostei da tua forma de amar

Tão tortuosa, tão antiquada

Ainda assim jejuei como um monge

E rezei para ver-te nua

 

Via-te a magoar toda a gente

Um governo de sofrimento

Dizia a mim mesmo “Seja Feita A Tua Vontade

A minha vontade não serve para nada”

 

Bebi bastante perdi o emprego

Vivi como se nada interessasse

E tu, tu nunca apareceste

Nem sequer respondeste

 

Eu era um tempo cego e avariado

E a bondade estava proibida

Creio que tentei apanhar uma boleia

Dos ácidos para a religião

 

Mas todas as guias luminosas tinham desaparecido

Bem como todas as boas direcções

O livro do amor que li estava errado

Tinha um final feliz

 

Mas quando o sistema estava já abalado

Para lá do reconhecimento possível

As coisas simples que eu esquecera

Retomaram a sua doce posição

 

Pensei ver-te com uma criança

Pensei ter-te ouvido a chorar

E o jardim inteiro à tua volta louco

E seguro sob a tua guarda

 

Não me recordo do que aconteceu depois

Mantive-te à distância

Mas emaranhado no nó do sexo

O meu castigo foi levantado

 

Os teus remédios debaixo da minha não

Os teus dedos no meu cabelo

Os beijos começaram nos nossos lábios

E foram terminar em todo o lado

 

E quando me preparava para partir

Tu puxaste-me para o teu lado

Para sermos Adão e Eva

Antes da Grande Divisão

 

E aqui amarrados não conseguimos mexer-nos

Excepto um para o outro

Estendemo-nos e afogamo-nos como os lírios

De lado nenhum para o çentro

 

E aqui não posso erguer uma mão

Para seguir as linhas da beleza

Mas as linhas estão traçadas e o amor está contente

Por ir e vir com tamanha liberdade

 

E aqui nenhum pecado pode ser confessado

Nenhum pecador perdoado

Está escrito que a lei tem de descansar

Antes de a lei ser escrita

 

E aqui o silêncio é apagado

O pano de fundo desmanchado por inteiro

A tua beleza não pode ser comparada

Não há espelho aqui, nem sombra

 

Mas eis que agora chega um vento que arranha

Sem propósito e sereno

Fere-me quando me separo dos teus lábios

Fere-nos pelo meio

 

E agora podem de novo as guerras começar

A tortura e o riso

Choramos alto, como fazem os humanos

Antes da verdade, e depois

 

Não sei como irá terminar

Sempre deixaste isso em aberto

Mas, ah, tu és a única amiga

Que nunca pensei conhecer.

(Tradução de Vasco Gato)

Because of a few songs

Because of a few songs

wherein I spoke of their mistery

women have been

exceptionally kind

to my old age

They make a secret place

in their busy lives

and they take me there.

They become naked

in their different ways

and they say,

“Look at me, Leonard

look at me one last time.”

Then they bend over the bed

and cover me up

like a baby that is shivering.

Por causa de umas quantas canções

Por causa de umas quantas canções

em que falava do mistério delas,

as mulheres têm-se mostrado

excepcionalmente compreensivas

para com a minha idade avançada.

Criam um lugar secreto

nas suas vidas ocupadas

e levam-me até lá.

Despem-se

cada uma à sua maneira

e dizem,

“Olha para mim, Leonard

olha para mim uma última vez.”

Depois inclinam-se sobre a cama

e cobrem-me

como a um bebé que treme.

(Tradução de Vasco Gato)

Half of the world

Every night she’d come to me

I’d cook for her, I’d pour her tea

She was in her thirties then

had made some money, lived with men

We’d lay us down to give and get

beneath the white mosquito net

And since no counting had begun

we lived a thousand years one

The candles burned, the moon went down

the polished hill, the milky town

transparent, weightless, luminous,

uncovering the two of us

on that fundamental ground,

where love’s unwilled, unleashed, unbound

and half the perfect world is found

Metade do Mundo

Todas as noites ela vinha ter comigo

Eu cozinhava para ela, servia-lhe chá

Ela tinha trinta e tal naquela altura

conseguira fazer algum dinheiro, vivera com homens

Deitávamos-nos para dar e receber

debaixo do mosquiteiro branco

E uma vez que nenhuma contagem começara

viviamos mil anos num só

As velas ardiam, a lua descia

a colina polida, a cidade leitosa

transparente, sem peso, luminosa,

destapando-nos aos dois

naquele chão fundamental,

onde o amor é fortuito, desatado, desencarcerado

e do mundo perfeito se acha metade

(Tradução de Vasco Gato)

the road is too long

the sky is too vast

the wandering heart

is homeless at last

a estrada é demasiado longa

o céu demasiado vasto

o coração vagabundo

está finalmente sem abrigo

(Tradução Carlos Mendonça Lopes)

Standing Blue Nude  1952

Abro um pouco a janela da nostalgia e vou ouvir algumas canções, sobretudo uma, onde a música canta, mais que as palavras, a felicidade de um reencontro fugaz: Tonight Will Be Fine, Esta Noite Correrá Bem, publicada originalmente em 1969, no disco Songs From A Room.

Tonight Will Be Fine

Sometimes I find I get to thinking of the past.

We swore to each other then that our love would surely last.

You kept right on loving, I went on a fast,

now I am too thin and your love is too vast.

But I know from your eyes

and I know from your smile

that tonight will be fine,

will be fine, will be fine, will be fine

for a while.

I choose the rooms that I live in with care,

the windows are small and the walls almost bare,

there’s only one bed and there’s only one prayer;

I listen all night for your step on the stair.

But I know from your eyes

and I know from your smile

that tonight will be fine,

will be fine, will be fine, will be fine

for a while.

Oh sometimes I see her undressing for me,

she’s the soft naked lady love meant her to be

and she’s moving her body so brave and so free.

If I’ve got to remember that’s a fine memory.

And I know from her eyes

and I know from her smile

that tonight will be fine,

will be fine, will be fine, will be fine

for a while.

A edição portuguesa de Livro do Desejo é de Quasi Edições, 2008, é bilingue e editorialmente notável, oferecendo uma paginação onde os desenhos do poeta acompanham e comentam os poemas, proporcionando uma leitura paralela ao impacto que cada poema induz no leitor.

Acompanham o artigo os nus azuis de Matisse (1869-1964). Abre O Nu Azul com Cabelo ao Vento, segue-se o Nu Azul Sentado, e termina com o Nu Azul de Pé, todos de 1952.

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Francisco Brines — O mais formoso território

21 Terça-feira Jan 2014

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Francisco Brines

Simon Vouet - Venus adormecidaQuando confrontado com a ausência, cruzo, como agora, a memória com o mais formoso território, poeticamente descrito por Francisco Brines (1932):

 

Y porque estás ausente, eres hoy el deseo / de la tierra que falta al desterrado, / de la vida que el olvidado pierde, / y sólo por engaño la vida está en mi cuerpo, / pues yo sé que mi vida la sepulté en el tuyo.

 

O mais formoso território é para cada um de nós o corpo da mulher amada, fonte e consolo da mais intensa experiência do viver:

O intimidad de un tallo, y una rosa, en el seto, / en el posar cansado de un ocaso apagado.

Cantá-lo em variadas formas é apenas um acto de humilde homenagem.

 

Deixo-vos com o poema original antecedido da tradução de José Bento publicada em Ensaio de uma despedida, Antologia (1960-86), edição Assírio & Alvim, Lisboa, 1987.

 

O Mais Formoso Território

O cego desejo percorre com os dedos

as linhas venturosas que inebriam seu tacto,

e nada o apressa. O roçar faz-se lento

no vigor curvado de umas coxas

que encontram sua unidade em breve moita perfumada.

Ali, na escura luz dos mirtos,

enreda-se, palpitante, a asa de um gorrião,

o feliz corpo vivo.

Ou o íntimo de um caule e uma rosa, na sebe,

no pousar fatigado de um ocaso apagado.

 

Do estreito lugar da cintura,

reino de sesta e sono,

ou reduzido prado

de lábios delicados e dedos ardentes,

por igual, separadas, espreguiçam-se linhas

que afundam, graciosas, o vigor feliz da idade,

e deixam alto um peito, simétrico e escuro.

São duas sombras róseas esses mamilos breves

em vasto campo liso,

águas para beber ou fazê-las tremer.

E um fino canal sulca, para a sede benévola da língua,

um campo adormecido, e chega a um breve poço,

que é sorriso infantil,

breve dedal no ar.

 

Nessa rectidão de uns ombros potentes e sensíveis

ergue-se o pescoço altivo que serena,

ou o retraído pescoço a abrandar as carícias,

o tronco de onde brota um vivo fogo negro,

a cabeça: e no ar e perfumado,

sorri um enredado tufo de jasmins,

e o mundo faz-se noite porque habitam aquela

astros cheios e vastos, felizes e benéficos.

E brilham e nos fitam, e queremos morrer

ébrios de adolescência.

Há uma brisa negra que perfuma os cabelos.

 

Eu desci este torso,

a mais descansada de todas as descidas,

que, sendo longa e dura, é de marcha serena,

pois nos conduz ao lugar das delícias.

Na seda mais fresca e mais suave

a mão recreia-se,

neste espaço indizível, que se ergue tão diáfano,

a formosura caluniada, o sítio envilecido

por palavras soezes.

Leito infindável onde reparamos

a sede da beleza da forma,

que é sede apenas de um deus que nos sossegue.

Roço com minhas faces a própria pele do ar,

a dureza da água, que é frescura,

a solidez do mundo que me tenta.

 

Muito secretas, as ladeiras levam

ao lugar aceso da ventura.

Ali o fundo gozo que o viver fortalece,

a realidade magica que vence até o sonho,

experiência tão ébria

que um sábio deus a condena ao olvido.

Conhecemos então que tem morte somente

a queimada formosura da vida.

 

E porque estás ausente, és hoje o desejo

da terra que falta ao desterrado,

da vida que o olvidado perde,

e apenas por engano está a vida em meu corpo,

pois sei que a minha vida a sepultei no teu.

 

El más hermoso territorio

El ciego deseoso recorre con los dedos

las líneas venturosas que hacen feliz su tacto,

y nada le apresura. El roce se hace lento

en el vigor curvado de unos muslos

que encuentran su unidad en un breve sotillo perfumado.

Allí en la luz oscura de los mirtos

se enreda, palpitante, el ala de un gorrión,

el feliz cuerpo vivo.

O intimidad de un tallo, y una rosa, en el seto,

en el posar cansado de un ocaso apagado.

 

Del estrecho lugar de la cintura,

reino de siesta y sueño,

o reducido prado

de labios delicados y de dedos ardientes,

por igual, separadas, se desperezan líneas

que ahondan. muy gentiles, el vigor mas dichoso de la edad,

y un pecho dejan alto, simétrico y oscuro.

Son dos sombras rosadas esas tetillas breves

en vasto campo liso,

aguas para beber, o estremecerlas.

y un canalillo cruza, para la sed amiga de la lengua,

este dormido campo, y llega a un breve pozo,

que es infantil sonrisa,

breve dedal del aire.

 

En esa rectitud de unos hombros potentes y sensibles

se yergue el cuello altivo que serena,

o el recogido cuello que ablanda las caricias,

el tronco del que brota un vivo fuego negro,

la cabeza: y en aire, y perfumada,

una enredada zarza de jazmines sonríe,

y el mundo se hace noche porque habitan aquélla

astros crecidos y anchos, felices y benéficos.

Y brillan, y nos miran, y queremos morir

ebrios de adolescencia.

Hay una brisa negra que aroma los cabellos.

 

He bajado esta espalda,

que es el más descansado de todos los descensos,

y siendo larga y dura, es de ligera marcha,

pues nos lleva al lugar de las delicias.

En la más suave y fresca de las sedas

se recrea la mano,

este espacio indecible, que se alza tan diáfano,

la hermosa calumniada, el sitio envilecido

por el soez lenguaje.

Inacabable lecho en donde reparamos

la sed de la belleza de la forma,

que es sólo sed de un dios que nos sosiegue.

Rozo con mis mejillas la misma piel del aire,

la dureza del agua, que es frescura,

la solidez del mundo que me tienta.

 

Y, muy secretas, las laderas llevan

al lugar encendido de la dicha.

Allí el profundo goce que repara el vivir,

la maga realidad que vence al sueño,

experiencia tan ebria

que un sabio dios la condena al olvido.

Conocemos entonces que sólo tiene muerte

la quemada hermosura de la vida.

 

Y porque estás ausente, eres hoy el deseo

de la tierra que falta al desterrado,

de la vida que el olvidado pierde,

y sólo por engaño la vida está en mi cuerpo,

pues yo sé que mi vida la sepulté en el tuyo.

 

Publicado originalmente em “El otoño de las rosas” 1986 e transcrito de Ensayo de una Despedida Poesía Completa (1960-1997) Tusquets Editores, Barcelona, 1997.

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