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vicio da poesia

Category Archives: Poetas e Poemas

Glória — poema de Malcolm Lowry

25 Quarta-feira Mar 2015

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Herberto Helder, Malcolm Lowry

Imagem 028 600pxOntem, entre eufóricos e alarmados, os computadores do wordpress davam-me conta de uma média de 79 visitas por hora ao blog. Afinal não era razão de júbilo. O anúncio da morte de Herberto Helder trazia mais gente à procura da sua poesia. Passado o entusiasmo mediático, regressamos à média habitual de 23 visitas por hora.

Persistentemente veio-me à memória o poema Glória de Malcolm Lowry (1909-1957) que Herberto Helder (1930-2015) mudou para português. Transcrevo-o em recordatória a quem não o conheça.

 

Glória

 

A glória é como uma terrível catástrofe,

pior que a casa incendiada; enquanto

se abate a trave-mestra, o fragor

da destruição repercute-se cada vez mais depressa;

e tu contemplas tudo aquilo, inane

testemunha da danação.

 

Como uma bebedeira a glória devora

a casa da alma, revela que trabalhaste

para coisa pouca: para ela —

ah, queria que esse beijo traiçoeiro nunca tivesse

molhado a minha face: queria

fundir-me, só, para sempre, na obscuridade, na noite.

 

1987 e 1996-97.

 

Publicado em OUOLOF, Poemas mudados para portugués por Herberto Helder, Assírio & Alvim, Lisboa, 1997.

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Luiza Neto Jorge — O Poema e A Dívida

24 Terça-feira Mar 2015

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Luiza Neto Jorge

Quentin MASSYS - O Prestamista 600pxEscrever poesia é algo diferente de relatar uma reflexão de estar só ou enviar uma mensagem social ou comercial.

O uso da língua, o mistério das palavras, a intuição para lá da lógica, são matéria que pode conduzir ao poema. Nem sempre.

 

Escolho dois poemas de Luiza Neto Jorge (1939-1989) onde à reflexão sobre as possibilidades do poema se junta uma trivialidade dos nossos dias, A Dívida, e a sua possibilidade poética. Aqui encontramos a narrativa que do simples se faz múltiplo, conduzindo cada leitura a sentidos novos do real.

 

O Poema

 

I

Esclarecendo que o poema

é um duelo agudíssimo

quero eu dizer um dedo

agudíssimo claro

apontado ao coração do homem

 

falo

com uma agulha de sangue

a coser-me todo o corpo

à garganta

 

e a essa terra imóvel

onde já a minha sombra

é um traço de alarme

 

II

Piso do poema

chão de areia

 

Digo na maneira

mais crua e mais

intensa

 

de medir o poema

pela medida inteira

 

o poema em milímetro

de madeira

 

ou apodrece o poema

ou se ateia

 

ou se despedaça

a mão ateia

 

ou cinco seis astros

se percorre

 

antes que o deserto

mate a fome

 

A Dívida

 

Viva no instantâneo lábio do punhal

na hora diariamente imóvel

 

As dívidas crescem já são ásperas

magoam a pele já são pus

 

O dia começa pela sombra

como um povo começa pelo pó

Luz e morte coincidem hora a hora

 

A dívida alastra   abre as asas

leva-me sonhos débeis tudo a tenta

 

Atrás do meu gesto

a mão sozinha os dedos conspirando

assimétricos

salientes do corpo até à morte

 

Já hoje os doava se pudesse

Com que arma porém os separar de mim?

 

A dívida mais cresce

enquanto eu penso

 

Transcrito de Luiza Neto Jorge, poesia, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001.

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Hino por Jorge Luis Borges

22 Domingo Mar 2015

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Jorge Luís Borges

Iluminura 24 600pxComo sempre, na simplicidade de palavras de todos os dias, num discorrer quase coloquial, Jorge Luís Borges (1899-1986) leva-nos por caminhos de reflexão profunda sobre nós, o mundo, a cultura e o tempo, naquela zona, quase fenda, por onde a razão não entra, e o inverosímil se faz plausível, porque uma mulher te beijou, pois súbito, somos não o ínfimo, mas a humanidade inteira, e há no ar a incrível fragrância das rosas do Paraíso.

 

Hino

 

Esta manhã

há no ar a incrível fragrância

das rosas do Paraíso.

Na margem do Eufrates

Adão descobre a frescura da água.

Uma chuva de ouro cai do céu;

é o amor de Zeus.

Salta do mar um peixe

é um homem de Agrigento lembrará

ter sido ele esse peixe.

Na gruta cujo nome será Altamira

dedos sem rosto traçam a curva

de um lombo de bisonte.

A lenta mão de Virgílio acarinha

a seda trazida

do reino do Imperador Amarelo

por naus e caravanas.

O primeiro rouxinol canta na Hungria.

Jesus vê na moeda o perfil de César.

Pitágoras revela aos seus gregos

que a forma do tempo é a do círculo.

Numa ilha do Oceano

os lebréus de prata perseguem os veados de ouro.

Numa bigorna forjam a espada

que será fiel a Sigurd.

Whitman canta em Manhattan.

Homero nasce em sete cidades.

Uma donzela acaba de caçar

o unicórnio branco.

Todo o passado volta, é uma onda,

e essas antigas coisas regressam

porque uma mulher te beijou.

 

Poema publicado em La Cifra (1981), aqui em tradução de Fernando Pinto do Amaral, in Jorge Luis Borges, Obras Completas, vol III, Editorial Teorema, Lisboa, 1998.

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Desaparecimento de Luísa Porto — um poema de Carlos Drummond de Andrade

08 Domingo Mar 2015

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Carlos Drummond de Andrade, Dorothea Lange

Dorothea Lange 08É para a mulher e o mundo que nos leva este poema de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Desaparecimento de Luísa Porto.

Protagonistas, mãe e uma filha, ambas de condição modesta, e nós, o mundo, para quem estas vidas humildes podem não ter relevância.

A ansiedade da mãe perante o desaparecimento da filha, o silêncio, o desamparo, o amor, a necessidade, o descaso dos outros, a vida em suma, tudo corre no poema em versos decantados, onde apenas a secura nos vibra as cordas da alma ao acompanhar o resignado desespero de quem se julga ninguém.

 

Desaparecimento de Luísa Porto

 

Pede-se a quem souber

do paradeiro de Luísa Porto

avise sua residência

À Rua Santos Óleos, 48.

Previna urgente

solitária mãe enferma

entrevada há longos anos

erma de seus cuidados.

 

Pede-se a quem avistar

Luísa Porto, de 37 anos,

que apareça, que escreva, que mande dizer

onde está.

Suplica-se ao repórter-amador,

ao caixeiro, ao mata-mosquitos, ao transeunte,

a qualquer do povo e da classe média,

até mesmo aos senhores ricos,

que tenham pena de mãe aflita

e lhe restituam a filha volatilizada

ou pelo menos dêem informações.

É alta, magra,

morena, rosto penugento, dentes alvos,

sinal de nascença junto ao olho esquerdo,

levemente estrábica.

Vestidinho simples. Óculos.

Sumida há três meses.

Mãe entrevada chamando.

 

Roga-se ao povo caritativo desta cidade

que tome em consideração um caso de família

digno de simpatia especial.

Luísa é de bom génio, correcta,

meiga, trabalhadora, religiosa.

Foi fazer compras na feira da praça.

Não voltou.

 

Levava pouco dinheiro na bolsa.

(Procurem Luísa.)

De ordinário não se demorava.

(Procurem Luísa.)

Namorado isso não tinha.

(Procurem. Procurem.)

Faz tanta falta.

 

Se, todavia, não a encontrarem

nem por isso deixem de procurar

com obstinação e confiança que Deus sempre recompensa

e talvez encontrem.

Mãe, viúva pobre, não perde a esperança.

Luísa ia pouco à cidade

e aqui no bairro é onde melhor pode ser pesquisada.

Sua melhor amiga, depois da mãe enferma,

é Rita Santana, costureira, moça desimpedida,

a qual não dá noticia nenhuma,

limitando-se a responder: Não sei.

O que não deixa de ser esquisito.

 

Somem tantas pessoas anualmente

numa cidade como o Rio de Janeiro

que talvez Luísa Porto jamais seja encontrada.

Uma vez, em 1898,

ou 9,

sumiu o próprio chefe de polícia

que saíra à tarde para uma volta no Largo do Rocio

e até hoje.

 

A mãe de Luísa, então jovem,

leu no Diário Mercantil,

ficou pasma.

O jornal embrulhado na memória.

Mal sabia ela que o casamento curto, a viuvez,

a pobreza, a paralisia, o queixume

seriam, na vida, seu lote

e que sua única filha, afável posto que estrábica,

se diluiria sem explicação.

 

Pela ultima vez e em nome de Deus

todo-poderoso e cheio de misericórdia

procurem a moça, procurem

essa que se chama Luísa Porto

e é sem namorado.

Esqueçam a luta política,

ponham de lado preocupações comerciais,

percam um pouco de tempo indagando,

inquirindo, remexendo.

Não se arrependerão. Não

há gratificação maior do que o sorriso

de mãe em festa

e a paz íntima

consequente às boas e desinteressadas acções,

puro orvalho da alma.

 

Não me venham dizer que Luísa suicidou-se.

O santo lume da fé

ardeu sempre em sua alma

que pertence a Deus e a Teresinha do Menino Jesus.

Ela não se matou.

Procurem-na.

Tampouco foi vítima de desastre

que a polícia ignora

e os jornais não deram.

Está viva para consolo de uma entrevada

e triunfo geral do amor materno

filial

e do próximo.

 

Nada de insinuações quanto à moça casta

e que não tinha, não tinha namorado.

Algo de extraordinário terá acontecido,

terremoto, chegada de rei.

As ruas mudaram de rumo,

para que demore tanto, é noite.

Mas há de voltar, espontânea

ou trazida por mão benigna,

o olhar desviado e terno,

canção.

 

A qualquer hora do dia ou da noite

quem a encontrar avise a Rua Santos Óleos.

Não tem telefone.

Tem uma empregada velha que apanha o recado

e tomará providências.

 

Mas

se acharem que a sorte dos povos é mais importante

e que não devemos atentar nas dores individuais,

se fecharem ouvidos a este apelo de campainha,

não faz mal, insultem a mãe de Luísa,

virem a página:

Deus terá compaixão da abandonada e da ausente,

erguerá a enferma, e os membros perclusos

já se desatam em forma de busca.

Deus lhe dirá:

Vai,

procura tua filha, beija-a e fecha-a para sempre em teu coração.

 

Ou talvez não seja preciso esse favor divino.

A mãe de Luísa (somos pecadores)

sabe-se indigna de tamanha graça.

E resta a espera, que sempre é um dom.

Sim, os extraviados um dia regressam

ou nunca, ou pode ser, ou ontem.

E de pensar realizamos.

Quer apenas sua filhinha

que numa tarde remota de Cachoeiro

acabou de nascer e cheira a leite,

a cólica, a lágrima.

Já não interessa a descrição do corpo

nem esta, perdoem, fotografia,

disfarces de realidade mais intensa

e que anúncio algum proverá.

Cessem pesquisas, rádios, calai-vos·

Calma de flores abrindo

no canteiro azul

onde desabrocham seios e uma forma de virgem

intacta nos tempos.

E de sentir compreendemos.

Já não adianta procurar

minha querida filha Luísa

que enquanto vagueio pelas cinzas do mundo

com inúteis pés fixados, enquanto sofro

e sofrendo me solto e me recomponho

e torno a viver e ando,

está inerte

gravada no centro da estrela invisível

Amor.

Dorothea Lange 06 600px

 

Poema publicado pela primeira vez em Novos Poemas (1946-1947).

Transcrito de Obra Completa, Aguilar Editora, Rio de Janeiro, 1967 e adoptada a ortografia de Portugal conforme publicado em Antologia da Poesia Brasileira, vol III, Lello & Irmão Editores, Porto, 1984.

 

As fotos que abrem e fecham o artigo são de Dorothea Lange (1895-1965).

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Philip Larkin — Seja assim o poema

26 Quinta-feira Fev 2015

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Jean-Michel Basquiat, Philip Larkin

Jean-Michel Basquiat (1960-1988) 04600pxEntendo, com Philip Larkin (1922-1985), que não há obras poéticas, mas poemas. Que a poesia é uma arte de singulares, e cada poema deve conter em si, da abertura ao fecho, a sua total significação. Fica o poema coxo se para a sua cabal compreensão são necessários conhecimentos de biografia do poeta ou detalhes de escola e enquadramento de época.

Na poesia de Larkin, em cada poema temos uma totalidade, seja um pequeno drama, um relato de frustração ou amargura, desenvolvendo-se em reflexões banhadas por uma ironia cáustica, e o todo contado em versos de uma clareza lapidar.

 

Transcrevo dois poemas, This Be The Verse e Sad Steps, em tradução de Rui Carvalho Homem.

 Jean-Michel Basquiat (1960-1988) 07600px

Seja assim o poema

 

 

Fodem-te a vida, o papá e a mamã,

  Mesmo que não seja essa a intenção.

Deixam-te todos os vícios que tenham

  E mais dois ou três, por especial atenção.

 

Mas no tempo deles também foram fodidos

  Por tolos trajando jaquetão e coco,

Que quando não estavam piegas ou hirtos

  Saltavam, raivosos, à veia, ao pescoço.

 

E assim é legada a felicidade,

  Vai mais e mais fundo, como o fundo do mar.

Foge mal tenhas oportunidade

  E quanto a teres filhos — isso nem pensar.
Jean-Michel Basquiat (1960-1988) 06600px

Tristes passos

 

Tropeçando de volta à cama depois de uma mija

Afasto as grossas cortinas e surpreendo-me

Com as nuvens que correm, com a lua tão limpa.

 

Quatro da manhã: jardins de sombras oblíquas, jazendo

Sob um céu cavernoso e rasgado pelo vento.

Há nisto uma faceta ridícula,

 

Na lua a lançar-se através de nuvens fugazes

E soltas como fumo de canhão, para logo se apartar

(A luz pétrea aguçando, cá em baixo, os telhados)

 

Alta e soberba e separada —

Pastilha de amor! Medalhão de arte!

Ó lobos da memoria! Imensidões! É certo,

 

Há um leve arrepio, quando se olha para o alto.

A dureza e a claridade e o alcance,

A singularidade de tão vasto e fixo olhar

 

É lembrança da força e da dor

De ser jovem; do que não se pode ter de novo,

Mas que é vivido por outros, em pleno, nalgum lugar.

 

in Philip Larkin, Janelas Altas, Edições Cotovia, Lisboa, 2004.

 

Termino com um episódio de memória, I Remember, I Remember, fazendo arco com o poema de abertura.

Como não encontrei versão portuguesa do poema, transcrevo apenas o original.

 

Jean-Michel Basquiat (1960-1988) 01600px

I Remember, I Remember

 

 

Coming up England by a different line

For once, early in the cold new year,

We stopped, and, watching men with number-plates

Sprint down the platform to familiar gates,

“Why, Coventry!” I exclaimed. “I was born here.”

 

I leant far out, and squinnied for a sign

That this was still the town that had been ‘mine’

So long, but found I wasn’t even clear

Which side was which. From where those cycle-crates

Were standing, had we annually departed

 

For all those family hols? . . . A whistle went:

Things moved. I sat back, staring at my boots.

‘Was that,’ my friend smiled, ‘where you “have your roots”?’

No, only where my childhood was unspent,

I wanted to retort, just where I started:

 

By now I’ve got the whole place clearly charted.

Our garden, first: where I did not invent

Blinding theologies of flowers and fruits,

And wasn’t spoken to by an old hat.

And here we have that splendid family

 

I never ran to when I got depressed,

The boys all biceps and the girls all chest,

Their comic Ford, their farm where I could be

‘Really myself’. I’ll show you, come to that,

The bracken where I never trembling sat,

 

Determined to go through with it; where she

Lay back, and ‘all became a burning mist’.

And, in those offices, my doggerel

Was not set up in blunt ten-point, nor read

By a distinguished cousin of the mayor,

 

Who didn’t call and tell my father There

Before us, had we the gift to see ahead —

‘You look as If you wished the place in Hell,’

My friend said, ‘judging from your face.’ ‘Oh well,

I suppose it’s not the place’s fault,’ I said.

 

‘Nothing, like something, happens anywhere.’

 

 

Transcrito de Collected Poems, Faber and Faber, Londres, 2003.

Jean-Michel Basquiat (1960-1988) 04a600px

As imagens mostram obras de Jean-Michel Basquiat (1960-1988).

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Alguma poesia de Thomas Bernhard

07 Sábado Fev 2015

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Gerhard Richter, Thomas Bernhard

Richter - Abstração 5Hoje trago-vos um poeta raro, o austríaco Thomas Bernhard (1931-1989), e uma tradução frequentemente fascinante dos seus versos.

Thomas Bernhard, porventura conhecido dos leitores como prosador, é, enquanto poeta, capaz de uma emoção surpreendente na forma como desenvolve um poema. À originalidade do verso acrescenta-se o percurso da ideia no poema, quiçá por vezes autobiográfica, que se resolve numa comoção

 Evidentemente, nem todos os poemas conseguem este efeito no leitor, mas existirem alguns é já uma enorme alegria para quem gosta de ler a vida na poesia. Transcrevo cinco.

 

 

Num tapete de água

Num tapete de água

vou bordando os meus dias,

os meus deuses e as minhas doenças.

 

Num tapete de verdura

vou bordando os meus sofrimentos vermelhos,

as minhas manhãs azuis,

as minhas aldeias amarelas e os meus pães de mel amarelos também.

 

Num tapete de terra

vou bordando a minha efemeridade.

Nele vou bordando a minha noite

e a minha fome,

a minha tristeza

e o navio de guerra dos meus desesperos,

que vai deslizando p’ra mil outras águas,

para as águas do desassossego,

para as águas da imortalidade.

 

 

 

Altentann

O dia despe a sua camisa.

Sobe, nu, para o canteiro do jardim

e chama a si os pássaros.

Nas poças negras

fica agachado o seu rosto vermelho,

que os camponeses despedaçaram.

A erva crava lanças de sombra

no meu cérebro…

 

Na janela vizinha

está pousado um pássaro

como se fosse o guarda dos meus pensamentos,

até que o rude sono

me descalce os sapatos molhados.

 

 

Chuva de Verão

Pássaros calem-se,

nenhuma tarde

me consola, por cima

da ponte cai a chuva

na minha tristeza, nenhum

rumor de Verão

me faz mudar,

nenhum vento

me impede de dormir…

 

Amanhã de manhã

não quero ir

para debaixo de nenhuma árvore,

as minhas pálpebras anseiam pelo sono

do Inverno e da neve,

quero, à chuva,

regressar

às folhas

e às arcas sombrias.

 

Pássaros, calem-se, tenho frio,

a minha sombra

cresce por cima

da noite

para os bosques,

aí descansam

sob flores negras

os mortos,

os mortos errantes.

 

 

Cansado

Estou cansado…

Com as árvores entabulei conversas.

Com as ovelhas sofri o horror da seca.

Com os pássaros cantei nas florestas.

Amei as raparigas da aldeia.

Ergui os olhos para o Sol.

Vi o mar.

Trabalhei com o oleiro.

Engoli o pó da estrada.

Vi as flores da melancolia no campo do meu pai.

Vi a morte nos olhos do meu amigo.

Estendi a mão para as almas dos afogados.

Estou cansado…

 

 

de Nove salmos

(“A alma de Deus está nos pescadores“)

 

IX

Já não tenho medo.

Não tenho medo

do que há-de vir.

Extingui a minha fome,

bebi o meu tormento até à última gota,

a minha morte torna-me feliz.

Levo os meus peixes

para o monte.

Nos peixes está tudo

o que deixo ficar.

Nos peixes está a minha tristeza,

e o meu fracasso está nos peixes.

Direi

como é esplêndida a Terra, quando eu chegar,

como é esplêndida a Terra…

Sem precisar de ter medo…

Espero

que o Senhor me espere.

Transcritos de Thomas Bernhard, Na Terra e no Inferno, tradução e introdução de José A. Palma Caetano, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000.

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A mim Deus encanta-me — um poema de Jaime Sabines

29 Quinta-feira Jan 2015

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Jaime Sabines

BELBELLO DA PAVIA, Luchino - Visconti hours 1430 AHá muitas formas de falar de Deus em poesia: da oração à apóstrofe, passando pela ironia, incompreensão ou indiferença. Com Jaime Sabines (1926-1999), México, no poema Me encanta Dios, que hoje transcrevo, é uma bonomia salpicada por ironia suave o que encontramos na descrição do bom Deus dos cristãos, e de onde lhe advém todo o encanto. Deixo-vos com o original e uma tradução minha.

 

Deus encanta-me

 

Deus encanta-me. É um velho magnífico que não se toma a sério. Gosta de jogar e joga, e às vezes perde a cabeça e parte-nos uma perna ou derrota-nos definitivamente. Mas isto acontece porque é um pouco cegueta e bastante aselha de mãos.

 

Enviou-nos alguns tipos excepcionais como Buda, ou Cristo, ou Maomé, ou a minha tia Cofi, para que nos digam que nos portemos bem. Mas isto a ele não o preocupa muito: conhece-nos. Sabe que o peixe grande come o pequeno, que a lagartixa grande come a pequena, que o homem come o homem. E por isso inventou a morte: para que a vida —nem tu nem eu— a vida, seja para sempre.

 

Agora os cientistas veêm com a sua teoria do Big Bang… Mas que importa se o universo se expande interminavelmente ou se contrai? Isto é assunto só para agências de viagens.

 

A mim Deus encanta-me. Pôs ordem nas galáxias e distribui bem o trânsito no caminho das formigas. E é tão brincalhão e travesso que no outro dia descobri que fez —perante um ataque dos antibióticos— bactérias mutantes!

 

Velho sábio ou menino explorador, quando deixa de brincar com os seus soldados de chumbo e de carne e osso, faz campos de flores ou pinta o céu de maneira incrível.

 

Move uma mão e faz o mar, e move a outra e faz o bosque. E quando passa por cima de nós, ficam as nuvens, pedaços do seu respirar.

 

Dizem que às vezes se enfurece e faz terramotos, e manda tempestades, caudais de fogo, ventos desatados, águas aleivosas, castigos e desastres. Mas isto é mentira. É a terra que muda —e se agita e cresce— quando Deus se afasta.

 

Deus está sempre de bom humor. Por isso é o preferido dos meus pais, o escolhido dos meus filhos, o mais próximo dos meus irmãos, a mulher mais amada, o cãozinho e a pulga, a pedra mais antiga, a pétala mais terna, o aroma mais doce, a noite insondável, o borboteo de luz, o manancial que sou.

 

Gosto, a mim Deus encanta-me. Que Deus bendiga Deus.

 

 

Me encanta Dios

 

Me encanta Dios. Es un viejo magnífico que no se toma en serio. A él le gusta jugar y juega, y a veces se le pasa la mano y nos rompe una pierna o nos aplasta definitivamente. Pero esto sucede porque es un poco cegatón y bastante torpe de las manos.

 

Nos ha enviado a algunos tipos excepcionales como Buda, o Cristo, o Mahoma, o mi tía Chofi, para que nos digan que nos portemos bien. Pero esto a él no le preocupa mucho: nos conoce. Sabe que el pez grande se traga al chico, que la lagartija grande se traga a la pequeña, que el hombre se traga al hombre. Y por eso inventó la muerte: para que la vida —no tú ni yo—, la vida, sea para siempre.

 

Ahora los científicos salen con su teoría del Big Bang… Pero ¿qué importa si el universo se expande interminablemente o se contrae? Esto es asunto sólo para agencias de viajes.

 

A mí me encanta Dios. Ha puesto orden en las galaxias y distribuye bien el tránsito en el camino de las hormigas. Y es tan juguetón y travieso que el otro día descubrí que ha hecho —frente al ataque de los antibióticos— ¡bacterias mutantes!

 

Viejo sabio o niño explorador, cuando deja de jugar con sus soldaditos de plomo y de carne y hueso, hace campos de flores o pinta el cielo de manera increíble.

 

Mueve una mano y hace el mar, y mueve la otra y hace el bosque. Y cuando pasa por encima de nosotros, quedan las nubes, pedazos de su aliento.

 

Dicen que a veces se enfurece y hace terremotos, y manda tormentas, caudales de fuego, vientos desatados, aguas alevosas, castigos y desastres. Pero esto es mentira. Es la tierra que cambia —se agita y crece— cuando Dios se aleja.

 

Dios siempre está de buen humor. Por eso es el preferido de mis padres, el escogido de mis hijos, el más cercano de mis hermanos, la mujer más amada, el perrito y la pulga, la piedra más antigua, el pétalo más tierno, el aroma más dulce, la noche insondable, el borboteo de luz, el manantial que soy.

 

A mí me gusta, a mí me encanta Dios. Que Dios bendiga a Dios.

 

O poema encerra o livro Recuento de Poemas (1950-1993), Visor Libros, Madrid 2014, reunião da sua obra poética, de onde o transcrevi.

Podem os leitores encontra no YouTube vários vídeos em que o poeta lê este seu famoso poema.

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Sobraremos em versos nos dias futuros — poemas de Vítor Matos e Sá

26 Segunda-feira Jan 2015

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Vitor matos e Sá

Jackiewicz W - Obras XII 1995Nada mudou

podes vir

de novo e com

o mesmo nome.

 

Em qualquer lugar

a distância para a morte

é a mesma.

 

Desigual é apenas

a vida que perdemos…

 

Com este poema encerram os compiladores o livro póstumo de Vítor Matos e Sá (1926-1975), Companhia Violenta, Coimbra, (1980). Livro de variada escolha, nele abundam os poemas de amor:

 

Misturo os teus gestos com os dias

para não os perder inteiramente

 

A poesia de Vítor Matos e Sá entranha-se-me mais e mais a cada leitura. Transcrevo hoje, e ainda deste mesmo livro, mais alguns sábios e tocantes poemas que de amor falam:

…

— afago

para a faminta solidão

dos ombros —

…

 

*

O amor ensina-me

a dizer-te gesto a gesto

até que cantar-te

pareça feito apenas

de beijos — e crê

cantar-te assim

não vem da perícia

mas dos anos.

 

**

Trouxeste-me até

à cama intacta

do teu corpo e à verde

transparência dos teus olhos

antecipadores. E deste-me

a certeza dos seios

quase imóveis sob

o incessante coração

intenso e vulnerável.

 

***

Um e outro deitados

na imóvel areia desta

noite acompanhamos

a vasta rotação

da terra.

 

****

É o gosto que os frutos deixaram

em teus lábios

a demorada recapitulação das tardes

em tua fronte

e a mão esquecida pelo sol

nos cabelos — afago

para a faminta solidão

dos ombros

e o secreto acordo entre o mar

e o corpo — enquanto

o outro lado dos teus olhos repousa

em grandes cidades-primaveras.

 

*****

Todos nós temos

os nossos terrores

nossas faces perdidas

algures nas cidades

do Verão da Primavera.

 

Não é fácil. Eu sei.

É uma dor em que estarás

mais só com a tua

morte, de mais ninguém senão

da importância de seres

única e frágil dentro

dos meus braços.

 

Para terminar, um poema que aproxima a dimensão filosófica de muita da poesia de Vítor Matos e Sá:

 

 

A cara

de morte-por-fora

que o dormir nos dá

 

sem outro dentro

a não ser a falta

de andar a tempo

pelo andar do mundo

 

ou a chamar-lhe nosso

só com transportá-lo

 

ou neste dar morada

ao que de nós se gasta

a desgastar o fundo

que só dele importa

e que por nós se afasta.

 

e finalmente, do ciclo Poemas para a Construção do Mundo, incluido no primeiro livro do poeta, Horizonte dos Dias (1952), o poema

 

 

VII – Epitáfio

 

Sobraremos em versos nos dias futuros;

hão-de abrir-nos, numa inesperada hora macia,

e uma voz que dirá outros nomes, dias, esperanças,

nos erguerá como um vento desfolha

um antigo silêncio de cortinas…

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Em Tavira por Dezembro, também com Fernando Pessoa

06 Terça-feira Jan 2015

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Álvaro de Campos, Fernando Pessoa, Tavira

Tavira 015 7O poema de Fernando Pessoa — NOTAS SOBRE TAVIRA — que hoje transcrevo, é uma meditação de meio da vida, no confronto de uma paisagem urbana de infância com os sonhos aí sonhados, perante a realidade reencontrada:

…

Paro deante da paisagem, e o que vejo sou eu.

Outrora aqui antevi-me esplendoroso aos 40 anos —

Senhor do mundo —

É aos 41 que desembarco do comboio indolentao.

O que conquistei? Nada.

Nada, aliás, tenho a valer conquistado.

Trago o meu tédio e a minha fallencia physicamente no pesar-me mais a mala…

Tavira 015 3

Lemos nele uma reflexão sobre a passagem do tempo desligada da realidade física da cidade hoje, ainda que o velho, que se fez novo, permaneça:

…

Tudo é velho onde fui novo.

Sim, porque até o mais novo que eu é ser velho o resto.

A casa que pintaram de novo é mais velha porque a pintaram de novo.

…

Tavira 015 0Nestes dias de deslumbrante luz, passeei demoradamente em Tavira. Se por um lado os lugares me acendem a memória, por outro, é o conforto de uma continuidade cultural a que chamaria raízes, que a cada volta de uma esquina se revela.

Tavira 015 1Em longos, saboreados e encantados passeios, surpreendi vistas novas de panoramas que comigo vivem desde a infância, e ao olhar outra vez o mesmo, é a dignidade na modéstia da paisagem urbana que intensamente me comove.

Tavira 015 2

Tavira 015 6O branco das paredes exposto ao brilho de um sol intenso, entontece a vista numa inesperada embriguês com o azul do céu em fundo, e de cada ruela espreita em volumes de sábia arquitectura, o jogo dos telhados plantados de rendilhadas chaminés.

Tavira Jan2015 7 500pxTavira e Fernando Pessoa, por via de Álvaro de Campos, são hoje uma associação mental e turística que a cidade cultiva, sendo que esta cruza pontualmente a sua obra.

Tavira 015 5

NOTAS SOBRE TAVIRA

 

[Ms.]                                                   8/12/1931

 

Cheguei finalmente á villa da minha infancia.

Desci do comboio, recordei-me, olhei, vi, comparei.

(Tudo isto levou o espaço de tempo de um olhar cansado).

Tudo é velho onde fui novo.

Dede já — outras lojas, e outras frontarias de pinturas nos mesmos predios —

Um automovel que nunca vi ( não os havia antes)

Estagna amarello escuro ante uma porta entreaberta.

Tudo é velho onde fui novo.

Sim, porque até o mais novo que eu é ser velho o resto.

A casa que pintaram de novo é mais velha porque a pintaram de novo.

Paro deante da paisagem, e o que vejo sou eu.

Outrora aqui antevi-me esplendoroso aos 40 anos —

Senhor do mundo —

É aos 41 que desembarco do comboio indolentao.

O que conquistei? Nada.

Nada, aliás, tenho a valer conquistado.

Trago o meu tédio e a minha fallencia physicamente no pesar-me mais a mala…

De repente avanço seguro, resolutamente.

Passou toda a minha hesitação

Esta villa da minha infancia é afinal uma cidade estrangeira.

(Estou á vontade, como sempre, perante o estranho, o que me não é nada)

Sou forasteiro, tourist, transeunte.

É claro: é isso que sou.

Até de mim, meu Deus, até de mim.

Tavira Jan2015 3 500px

Conservei a ortografia do original.

 Tavira Jan2015 91 500px

NOTAS SOBRE TAVIRA é um poema não assinado, nem incluído no envelope A. de Campos no espólio da Biblioteca Nacional, e foi pela primeira vez publicado por Teresa Rita Lopes em 1990, quase em simultâneo nos livros álvaro de campos Vida e Obras do Engenheiro e no precioso Pessoa por conhecer, Textos para um novo mapa, ambos edição de Editorial Estampa.

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LIBERDADE — uma visão de Fernando Pessoa

01 Quinta-feira Jan 2015

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Fernando Pessoa

DSC_0238Abro 2015 no blog com um pequeno ensaio em forma de poema, LIBERDADE, onde Fernando Pessoa desenvolve um peculiar entendimento de liberdade individual.

Atendo-se ao elogio da inércia como exercício de liberdade, lemos uma desgarrada sequência de argumentos no inegável encanto de uma forma poética superior.

 

LIBERDADE

 

Aí que prazer

Não cumprir um dever,

Ter um livro para ler

E não o fazer!

Ler é maçada,

Estudar é nada.

O sol doura

Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,

Sem edição original.

E a brisa, essa,

De tão naturalmente matinal,

Como tem tempo não tem pressa.

 

Livros são papéis pintados com tinta.

Estudar é uma coisa em que está indistinta

A distinção entre nada e coisa nenhuma.

 

Quanto é melhor, quando há bruma,

Esperar por D. Sebastião,

Quer venha ou não!

 

Grande é a poesia, a bondade e as danças…

Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música, o luar, e o sol, que peca

Só quando, em vez de criar, seca.

 

O mais do que isto

É Jesus Cristo,

Que não sabia nada de finanças

Nem consta que tivesse biblioteca…

16-03-1935

 

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