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Category Archives: Poesia Antiga

O prazer de ler e sonetos de Diogo Bernardes

03 Terça-feira Dez 2013

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Diogo Bernardes

Louis Jean Francois Lagrenee A leitora

Despida de preconceitos, a nossa bela lê. Se não lê poesia, leremos nós por ela, em sua bela companhia.

*

Onde porei meus olhos que não veja

A causa, donde nasce meu tormento?

A que parte irei co pensamento

Que para descansar parte me seja?

 

Já sei como se engana quem deseja,

Em vão amor, firme contentamento:

De que nos gostos seus, que são de vento,

Sempre falta seu bem, seu mal sobeja.

 

Mas inda, sobre claro desengano,

Assim me traz esta alma sojigada

Que dele está pendendo o meu desejo…

 

E vou de dia em dia, de ano em ano,

Após um não sei quê, após um nada;

Que, quanto mais me chego, menos vejo!

**

Da vossa vista a minha vida pende,

Maior bem para mim não pode ser

Que ver-vos, mas não ouso de vos ver;

Que vosso alto respeito mo defende.

 

O meu amor, que o vosso só pretende,

Receio que se venha a conhecer,

Nos olhos, que mal podem esconder

O desejo, dum peito que se rende.

 

Por vós a tal estremo d’Amor venho,

Que com força resisto a meu desejo,

Porque nada de mim vos descontente.

 

Mas neste mal, senhora, este bem tenho,

Que sempre tal, qual sois, n’alma vos pinto

Sem dar que ver, nem que falar à gente.

Sonetos LXXIII e LIX de Diogo Bernardes (1530-1605), Rimas Várias—Flores do Lima.

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Dia de anos — reflexão poética de João de Deus

28 Quinta-feira Nov 2013

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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João de Deus

Erich LedererSão habitualmente datas de júbilo os dias de aniversário de amigos. Em poesia, e ao longo do século XIX, foram frequentes os poemas oferecidos pelos poetas nos álbuns das pessoas de suas relações. Poucos merecerão hoje em dia a atenção do leitor. Não é o caso desta saborosa invectiva de João de Deus (1830–1896):

Com que então caiu na asneira / De fazer na quinta-feira / Vinte e seis anos! Que tolo!

Quando são merecedores de atenção, ainda hoje, os poemas são reflexões sobre o passar do tempo, os ensinamentos da vida, e algumas vezes relatos de agruras pessoais como se encontram em Filinto Elisio (1734-1819) ou Francisco Joaquim Bingre (1763–1856).

No poema de João de Deus que escolhi, essa reflexão é feita nas duas ultimas sextilhas em tom brincado, assegurando ao poema uma frescura que o faz parecer eternamente novo. Ora leia:

Dia de anos

Com que então caiu na asneira

De fazer na quinta-feira

Vinte e seis anos! Que tolo!

Ainda se os desfizesse…

Mas fazê-los não parece

De quem tem muito miolo!

 

Não sei quem foi que me disse

Que fez a mesma tolice

Aqui o ano passado…

Agora o que vem, aposto,

Como lhe tomou o gosto,

Que faz, o mesmo? Coitado!

 

Não faça tal porque os anos

Que nos trazem? Desenganos

Que fazem a gente velho:

Faça outra coisa; que em suma

Não fazer coisa nenhuma,

Também lhe não aconselho.

 

Mas anos, não caia nessa!

Olhe que a gente começa

Às vezes por brincadeira,

Mas depois se se habitua,

Já não tem vontade sua

E fá-los queira ou não queira!

O poema encontra-se em qualquer edição de Campo de Flores e a imagem de abertura é de Egon Schiele (1890-1918).

 

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Gomes Leal — três poemas de História de Jesus

30 Quarta-feira Out 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Gomes Leal, Paul Gauguin

gauguin cristo amareloTermino por agora a visita à poesia de assunto religioso católico com três poemas de História de Jesus, de Gomes Leal (1848-1921) nos quais se relata a crucificação e morte de Jesus.

A história da vida de Jesus é nesta obra contada com a desenvoltura versificatória apanágio do poeta, e a poesia salta, episódio a episódio, transformando-a numa narrativa de encantamento em que as matérias de fé passam a segundo plano.

Abro com o rouxinol na cruz que canta na agonia de Cristo lembrando o Amor, o Céu. quando tudo chora em seu redor. Falar da crucificação de Jesus com a magia deste O Rouxinol do Calvário é provavelmente caso único e suponho que o episódio é apócrifo em relação à narrativa bíblica.

Segue-se-lhe a descrição das trevas em que a terra mergulhou enquanto Cristo agonizava. E nele o verso transmite o terror que a fé reclama: Fenderam-se os rochedos, com ruídos. /Um singular terror gelou os ossos.

Termino com a estocada final do soldado romano no Cristo já morto. Neste poema a doçura da mensagem de Jesus é posta em contraste com o gratuito da violência dos seus carrascos:

…

caiu enfim chagado, justiceiro, / ainda, ainda perdoando ao mundo …

…

um soldado romano vendo-o exposto, / e já morto na Cruz, lívido o rosto, / com um golpe de lança o trespassou.

 

Entrego-vos aos poemas

 

O Rouxinol do Calvário

Na noite que passou

o Cristo, no Calvário,

um rouxinol cantou

sobre a Cruz, solitário.

 

Os trigueiros soldados,

e os lirios de Salém,

perguntavam pasmados :

— Que voz canta tão bem ?

 

Como sentindo os males

das suas próprias penas,

vergavam-se nos cálix,

chorando, as açucenas.

 

Choravam os caminhos,

os dados, os cilícios,

a grinalda de espinhos,

e a esponja dos suplícios.

 

Choravam os sem luz,

e os rijos peitos bravos.

Começavam na cruz

a vacilar os cravos.

 

Pelo tranquilo espaço,

paravam as estrelas,

e o vagaroso passo

as mudas sentinelas.

 

Os peitos desumanos

ressentiam mudanças.

Deixavam os romanos

escorregar as lanças.

 

Assim cantou… cantou…

lembrando o Amor, o Céu.

Quando Jesus morreu,

do lenho, enfim, voou ! …

 

 

Trevas

Rasgou se o véu do Templo de alto a baixo,

Cortou o vento o ar como um açoite.

Rugiram os leões, e o eterno facho

do dia se eclipsou. — E fez-se a Noite.

 

Fenderam-se os rochedos, com ruídos.

Um singular terror gelou os ossos

dos legionários trágicos, vencidos

da confusão, do espanto, e dos destroços.

 

O morto surge e mais o seu sudário,

trazendo o assombro do final segredo.

O povo da Judeia do santuário

foi-se esconder na treva — e teve medo.

 

As violetas murcharam sobre a haste.

E uma voz singular, lúgubre, estranha,

soluçou pela trágica montanha :

— «Meu Pai! Meu Pai ! porque me abandonaste?»

 

 

O Último Golpe de Lança

Quando ele enfim morrendo, ele, o cordeiro,

rola mansa no ar calado e imundo,

pendeu, bem como um lírio moribundo,

sobre a haste do trágico madeiro…

 

quando, lançando o espirito profundo,

ao reino belo, grande, verdadeiro.

caiu enfim chagado, justiceiro,

ainda, ainda perdoando ao mundo …

 

um soldado romano vendo-o exposto,

e já morto na Cruz, lívido o rosto,

com um golpe de lança o trespassou.

 

Saiu daquela chaga sangue e água:

— Sangue que inda quis dar a tanta mágoa.

— Água de pranto ainda que chorou.

 

Abre o artigo o Cristo amarelo pintado por Paul Gauguin (1848-1903) em 1889, pouco depois da composição desta História de Jesus (1883). Noutra oportunidade virá à conversa a forma como os escritores simbolistas franceses olharam a pintura bretã de Gauguin e a entenderam como a materialização dos seus ideais de arte. Aqui surge tão só como uma ideia de Cristo que a arte desmaterializa.

Como curiosidade e em nota de rodapé registe-se que Gomes Leal era apenas um dia mais velho que Gauguin. Um nasceu a 6 de Junho de 1848, o outro a 7 de Junho de 1848.

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Decimas à concepção de Maria por Gregório de Matos

25 Sexta-feira Out 2013

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Gregório de Matos

Bolivia Luis Niño 1740No curto passeio pela poesia de matriz católica que por estes dias faço, escolho agora um poema de Gregório de Matos (1636-1696) cuja poesia popularizada anda mais ligada ao desbocado da sátira, tantas vezes obscena, que às matérias de confissão.

Se no soneto de Violante do Ceo de artigo anterior apenas uma visão deslumbrada corre, nas décimas de Gregório de Matos hoje transcritas há um esforço de encontrar causalidade na explicação do sobrenatural, mas de novo apenas a matéria de fé surge como argumento.

Preocupa-se o poeta em explicar a virgindade de Maria após a concepção de Jesus, e encontra apenas uma vontade primordial em Deus para fundamentar a ocorrência: Maria será mulher na terra e mãe do Filho de Deus e por isso isenta do pecado que condenou Eva.

Antes de ser fabricada / do mundo a máquina digna, / já lá na mente divina, / Senhora estáveis formada:

…

mas se Deus (sabemos nós) / que pode tudo, o que quer, / e vos chegou a eleger / por Mãe sua tão alta, / impureza, mancha, ou falta / nunca em vós podia haver.

…

foi vossa conceição / sacra, rara, limpa, e pura.

Temos pois, ao longo de quatro décimas, a explicação da concepção sem pecado e o incitamento ao louvor de Deus na glorificação da Virgem:

Louvem-vos os serafins / que nessa Glória vos vêem, / e todo o mundo também / por todos os fins dos fins:

 

DÉCIMAS

Antes de ser fabricada

do mundo a máquina digna,

já lá na mente divina,

Senhora estáveis formada:

com que sendo vós criada

então, e depois nascida

(como é cousa bem sabida)

não podíeis, (se esta sois)

na culpa que foi depois,

nascer, Virgem, compreendida

 

Entre os nascidos só vós

por privilégio na vida

fôstes, Senhora, nascida

isenta da culpa atroz:

mas se Deus (sabemos nós)

que pode tudo, o que quer,

e vos chegou a eleger

por Mãe sua tão alta,

impureza, mancha, ou falta

nunca em vós podia haver.

 

Louvem-vos os serafins

que nessa Glória vos vêem,

e todo o mundo também

por todos os fins dos fins:

Potestades, querubins,

e enfim toda a criatura,

que em louvar-vos mais se apura,

confessem, como é razão,

que foi vossa conceição

sacra, rara, limpa, e pura.

 

O Céu para coroar-vos

estrelas vos oferece,

o sol de luzes vos tece

a gala, com que trajar-vos:

a lua para calçar-vos

dedica o seu arrebol,

e consagra o seu farol,

porque veja o mundo todo,

que brilham mais deste modo

Céu, estrelas, lua, e sol.

Noticia bibliográfica

Publicado em Gregório de Matos, Se Souberas Falar Também Falaras, Antologia Poética, Organização, selecção, estudo e notas de Gilberto Mendonça Teles, INCM, Lisboa, 1989.

 

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Senhora das Maravilhas — soneto de Violante do Ceo

21 Segunda-feira Out 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Escola de Cusco, Violante do Ceo

Perú Escola de Cusco - representação da Virgem sec XVII-XVIIIPara uma mente organizada nos pressupostos do método científico como forma de percepcionar a verdade, há um esforço prévio à fruição da poesia religiosa, sobretudo no período barroco, decorrente do argumentário organizado nesta. Aqui, a matéria de fé não oferece controvérsia e a verdade revelada é o ponto de partida inquestionado para o exercício verbal da devoção.

Entre os exemplos notáveis desta expressão poética encontro este soneto à Virgem escrito por Soror Violante do Ceo (1601-1693), dando conta de uma visão deslumbrada — Quem quiser ver de Deus as maravilhas, / Veja das maravilhas a Senhora. Seriam adequadas considerações de história religiosa a pretexto da identificação que o poema faz entre Deus e a Virgem Maria, para as quais não estou minimamente preparado. Atenho-me por isso à construção do poema para realçar quanto o vocabulário laudatório e a construção do verso criam, à medida que o poema avança, uma encantatória melodia, que em crescendo nos leva à chave do soneto num emocionante remate.

 

A Nossa Senhora das Maravilhas

Ó Tu de Maravilhas superiores

Compêndio singular, cifra divina,

Do artífice maior obra mais dina,

Belíssimo exemplar de excelsas flores!

 

Maravilha maior entre as maiores,

Glória da Magestade Única e Trina,

Norte celestial, luz matutina,

Epílogo de eternos resplendores!

 

Flor, que aos mesmos anjos maravilhas,

Aplauda-te a harmonia mais sonora

Vendo, que só a Deus teu ser humilhas.

 

E diga Céu e Terra (ó bela Aurora)

Quem quiser ver de Deus as maravilhas,

Veja das maravilhas a Senhora.

Notícia bibliográfica

O poema de Soror Violante do Ceo encontra-se na obra Parnaso lusitano de divinos e humanos versos Vol I, 1733. Modernizei a ortografia.

Iconografia

Abre o artigo uma imagem da Virgem pintada no Perú colonial no século XVII-XVIII. Conhecidas como Escola de Cusco (antiga capital do império Inca), estas pinturas coloniais de assunto religioso Católico Romano, dão conta de uma fascinante simbiose entre imaginário popular e codificação erudita da doutrina católica através de uma linguagem pictórica de surpreendente originalidade. Revelando prodigioso domínio técnico, fazem tábua rasa das aquisições de representação praticadas na pintura europeia da época e desenvolvem-se num universo estético fechado, onde os assuntos sacros são por vezes contaminados pelo quotidiano profano como neste arcanjo com arcabuz com que encerro o artigo.

Perú Escola de Cusco - representação de aracanjo com arcabuz sec XVII-XVIII

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Fragmento de memória com soneto de Michelangelo

15 Terça-feira Out 2013

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poesia Antiga

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Jorge de Sena, Michelangelo

Vaticano Agosto de 1978 530Viajar é hoje um desejo e um prazer ao alcance de grande número. O mundo está mais pequeno. E embora possamos à distância do dedo num computador ter noticia do mais ínfimo recanto da terra, a vontade de ver e sentir os lugares continua a fazer parte do impulso humano por conhecer.

Testemunho maior dessa avalanche de gente a viajar que os últimos anos trouxeram, é provavelmente, em Roma, a Praça da Basílica de S.Pedro na Cidade do Vaticano, permanentemente ocupada por peregrinos e turistas, gostando de simplesmente ali estar, ou em filas que parecem eternas para visitar a igreja.

E se a uma parte da humanidade viajar não é possível, alguns há que continuam tão só a fugir à guerra ou à fome, como os homens, mulheres e crianças que todos os dias aportam ao largo da costa italiana, e aí por vezes encontram a morte. É ainda desta igreja de S. Pedro que se levanta a voz para lembrar ao mundo a tragédia dessa humanidade que na fuga para um futuro melhor morre às portas do paraíso sonhado.

Os paraíso onde o viver feliz se sonha são isso mesmo, matéria de sonho. E são inesperadas as formas como nos apercebemos quanto o mundo mudou ao longo das nossas vidas levando os paraísos sonhados de um lugar para outro.

Ao viajar por Itália confronto-me com a memória da primeira vez que longamente viajei pelo pais no já distante ano de 1978. Era uma vida diferente, e uma sociedade diferente. O mundo encontrava-se divido em dois blocos e na Europa havia fronteiras entre cada país. O muro de Berlim, de pé, desenhava a fronteira física e psicológica da liberdade.

No ano anterior (1977) tinha vivido por quase dois meses a experiência directa do comunismo na Polónia, paraíso sonhado por muitos e experiência devastadora da crença na possibilidade de um mundo melhor por simples decreto além de preciosa aprendizagem do valor da liberdade.

Quando este ano aterrei no aeroporto da antiga Berlim Leste, foi estranho recordar como 36 anos antes ali estive parado dentro de um avião que seguia para Moscovo com escala em Varsóvia, onde eu desceria, e da janela observava como os passageiros com destino a Moscovo, obrigados a descer do avião, seguiam por uma passadeira entre militares ou policias de espingarda em riste, sabe-se lá para onde. A angústia perante o sem sentido da situação e o absurdo do abuso assombraram-me durante muito tempo.

Foi outra, feliz, e formadora de um gosto, a viagem do ano seguinte a Itália. Ainda há pouco, quando alguém comentava comigo quanto o convívio com as coisas belas acaba por instalar em nós o gosto e o desejo do belo, lembrei dessa viagem um detalhe ocorrido em Verona, que agora recordo.

Representava-se nessa noite na Arena de Verona, majestoso e gigantesco teatro romano ao ar livre, a ópera O Trovador de Verdi. Estando em Veneza, decidi não perder a oportunidade do espectáculo e cedo cheguei a Verona.

Era princípio da tarde e passeando em torno da arena aproximei-me de uma excursão de farnel e garrafão. Eram italianos do sul em viagem de autocarro pelo norte de Itália, na modalidade que ao tempo era habitual entre pessoas de poucas posses: transportar lancheira, fazer piquenique junto ao autocarro, e muitas vezes dormir nele.

Aproximei-me, e a certa altura surpreendi a exclamação de um excursionista para outro: Guarda que bello! (Olha que belo!). Olhava para a arena, extasiado com a beleza do monumento.

Dificilmente entre outros povos, gente da mesma condição económica revelaria em voz alta esta comoção perante o espectáculo da beleza, mesmo que a ela fosse sensível.

O que me comove e surpreende sempre em Itália, é o gosto e carinho com que os italianos vivem o seu património construído e herdado.

Sacrificando o conforto do quotidiano que as construções modernas podem trazer à habitação e ao viver urbano, adoptam os centros históricos e mantêm-nos vivos, criando em quem chega o desejo de ali viver também. Aí vive o comércio tradicional, e a mais sofisticada moda internacional convive quase paredes meias com os géneros alimentares e a venda de arte. E depois as pessoas. Seja Roma, seja uma qualquer cidade média como Pádua, por exemplo, onde num sábado à tarde demoradamente passeei, as pessoas enchem as ruas com comércio, deambulam, param para conversar, vivem o espaço urbano como em Portugal só recordo na longínqua infância, e hoje apenas na zona do Chiado, em Lisboa, acontece.

A foto que hoje arquivo no blog, tirada nessa longínqua visita de 1978, dá conta de uma Praça de S. Pedro vazia durante a tarde, e é uma imagem hoje impossível de conseguir.

Nessa visita, não havia Papa. Tinha morrido Paulo VI e o consistório ainda não escolhera substituto. Os frescos da Capela Sistina ainda não tinham sido devolvidos às cores supostamente originais que hoje podemos admirar. Eram uma acinzentada mancha mal iluminada, onde a custo se divisavam as pinturas que pouco mais de dezena de visitantes observava. Hoje lá estão: esplendorosos, e dificilmente contempláveis entre a compacta multidão que se acotovela e os gritos dos seguranças: é proibido fotografar ou filmar!

Foi Michelangelo (1475-1564) o autor dessas maravilhas artísticas: o projecto da praça, o projecto da igreja e as pinturas do tecto e altar da Capela Sistina.

Artista e espírito da renascença, foi também poeta de génio, e com um seu soneto onde reflecte sobre a pequenez da sua condição humana perante Deus termino este circunlóquio entre o hoje e o mundo de há mais de 30 anos.

“Forse perché d’altrui…”

 

Forçoso é que a piedade enfim me venha,

pra que d’alheias culpas mais não ria,

seguro em meu valor, sem outro guia,

alma perdida que de si desdenha.

 

Nem sei que outra bandeira me mantenha

não vencedor, mas salvo da porfia

com que o tumulto adverso me seguia,

se não é Teu poder que me sustenha.

 

Ó carne, ó sangue, ó lenho, ó dor extrema!

Justo por vós se tome o meu pecado,

do qual nasci e os pais que foram meus.

 

Só Tu és bom: socorra tão suprema

piedade o meu predito iníquo estado:

tão perto a morte, e ainda tão longe Deus.

 

Original italiano

Forse perché d’altrui pietà mi vegna,

perché dell’altrui colpe più non rida,

nel mie propio valor, senz’altra guida,

caduta è l’alma che fu già sì degna.

 

Né so qual militar sott’altra insegna

non che da vincer, da campar più fida,

sie che ’l tumulto dell’avverse strida

non pèra, ove ’l poter tuo non sostegna.

 

O carne, o sangue, o legno, o doglia strema,

giusto per vo’ si facci el mie peccato,

di ch’i’ pur nacqui, e tal fu ’l padre mio.

 

Tu sol se’ buon; la tuo pietà suprema

soccorra al mie preditto iniquo stato,

sì presso a morte e sì lontan da Dio.

Soneto 66 das Rime de Michelangelo

Tradução de Jorge de Sena, in Poesia de 26 Séculos, Fora do Texto, Coimbra, 1993.

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As três Graças – escultura de Canova e um poema de Rufino

14 Segunda-feira Out 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Erótica, Poesia Antiga

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Canova, Rufino

António Canova - As três graças 1Há semanas trouxe ao blog a história do Julgamento de Páris. Hoje, a pretexto da bela escultura de António Canova (1757-1822) figurando As Três Graças, venho com um poema de Rufino.

As Três Graças (Gratiae em latim), de seus nomes Eufrosina Talia e Aglaia, são divindades da Beleza e têm como propósito espalhar a alegria na natureza e no coração de homens e deuses (ainda bem que existem, senão, que seria do mundo?).

Habitualmente representadas como três donzelas agarradas umas às outras, duas olham-se entre si e a do meio olha na direcção contrária. A fonte de todo este conhecimento que vos deixo é o precioso Dicionário da Mitologia Grega e Romana de Pierre Grimal. Às graças voltarei, inevitavelmente, tantas sãos as obras de arte que inspiraram.

Por enquanto convido-vos a participar do acontecimento relatado por Rufino.

Rufino, poeta grego contemporâneo de Marcial, como hoje é geralmente aceite, viu-se a certa altura colocado em embaraço semelhante ao de Páris no julgamento da beleza feminina, e da situação deixou-nos a história que segue:

Três beldades me escolheram para julgar-lhes as nádegas,

a mim mostradas no esplendor da nudez.

As de uma, florescendo em alvura veludosa, estavam

marcadas ambas por covinhas graciosas;

a nívea carne das de outra, a de pernas abertas, tinha

rubor mais forte que a púrpura da rosa;

as da terceira, calmaria sulcada de ondas mudas,

palpitavam suaves ao seu próprio impulso.

Se o juiz das deusas, Páris, tivesse visto estas nádegas,

Não quereria saber de mais nenhuma.

Tradução de José Paulo Paes

Acrescento uma outra tradução do mesmo poema, longe, no entanto, do belo efeito poético da anterior. Ressalvo que, se nesta segunda tradução se referem coxas em vez de nádegas, o meu desconhecimento do grego antigo não me permite saber de que parte do corpo constava o julgamento. Posso no entanto referir que José Luís Calvo Martinez, na tradução em castelhano do mesmo poema nos diz a abrir: “Del culo de tres muchachas yo fui juez. …“

Vamos então à tradução do poeta Albano Martins

Fui juiz num concurso de coxas de três mulheres. Foram elas

que me escolheram, me mostraram a nudez esplendorosa

dos seus corpos. Marcada de pregas arredondadas,

a branca doçura das coxas de uma floria.

A carne Nevada da outra, de pernas afastadas, tinha uma cor

sanguínea, mais vermelha que uma rosa purpura.

A terceira mostrava-se serena como um mar tranquilo,

com a pele delicada apenas sacudida por estremecimentos involuntários.

Se o árbitro das deusas Tivesse contemplado estas coxas,

não teria querido olhar as primeiras.

Noticia bibliográfica

Este poema consta dos epigramas amorosos incluídos no volume V da Antologia Palatina, à qual jà me referi noutros artigos, e nela possui o número 35.

Traduções de José Paulo Paes em Poesia Erótica em tradução, ed. Companhia das Letras, 1990 e de Albano Martins em do mundo grego outro sol, ed. Asa Editores II , Porto, 2002.

 

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Saudade é ter presença e afastamento — poema de Ibn ‘Arabî

09 Quarta-feira Out 2013

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga, Poetas e Poemas

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Adalberto Alves, Ibn 'Arabî

Gyarmathy_Tihamer-Two_Continents 1952sentir que cada encontro é uma fome.

A voracidade do amor é isto. E que bem o diz Ibn ‘Arabî (1165-1240) o poeta andaluz de quem hoje vos trago dois poemas escritos naquela linguagem sábia e condensada que dá conta de verdades insofismáveis.

 *

na ausência a saudade me consome

mas também não me sacia o achamento

saudade é ter presença e afastamento

sentir que cada encontro é uma fome.

 

paixão é ter remédio e, todavia

é ter visão de nós que em nós desce

não se pode fugir, a ânsia cresce

vizinha de uma mística harmonia.

 

No poema que segue, através de uma surpreendente parábola, conta-nos o poeta de uma evidência raramente apreendida: amado e amada só o são verdadeiramente quando se sentem apenas um.

 **

um dia um amoroso veio bater

à porta da sua bem-amada

e ela, lá de dentro, veio dizer:

quem é? deu ele em responder:

sou eu, minha adorada!

 

disse ela, de seguida, já irada:

os dois não cabemos nesta casa!

 

no deserto ele foi arder a sua brasa

meditando até de madrugada.

 

voltou à porta dela, e bateu

e, uma vez mais, a voz se ouviu:

quem é? és tu! ele respondeu.

e logo aquela porta então se abriu.

As versões são do nosso arabista e poeta Adalberto Alves, e constam do seu livro de poemas, No Vértice da Noite, belíssima edição Argusnauta (editor Luís Gomes), com ilustrações de Figueiredo Sobral, Lisboa, 2007.

E deste livro escolho para terminar, agora de Adalberto Alves, como se à noite o mar…

 

como se à noite o mar…

numa estranha rota iluminada

deixasse livre o sonho esvoaçar:

os rostos que se foram, em parada,

em silêncio nos vêm visitar.

 

sob chuva distante e torturada

que na nossa tristeza deixa os sais,

rostos amados na sua desfilada,

vão-nos dizendo devagar: jamais!

 

como se à noite o mar…

 

me forçasse a perguntar, oh mágoa,

nesta fria margem de ilusão

porque correm os dias como água,

se não passam nem nunca passarão?

 

silente carícia de uma ignota mão

que marcas nas faces o signo da lua

abre-me a alma, fecha-me a razão

dá-me aquela Presença que é só Tua.

 

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Anacreôntica XXXIII em versão de António Feliciano de Castilho

26 Quinta-feira Set 2013

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Anacreônticas, Anacreonte, António Feliciano de Castilho, Francisco da Silveira Malhão

Everdingen_Caesar_van-Nymphs_Offering_the_Young_Bacchus_Wine_Fruit_and_FlowersConhecem-se como Anacreônticas um conjunto de 60 poesias em grego, escritas ao tempo do Império Romano, em época tardia, em imitação dos temas e efeitos estilísticos do poeta grego Anacreonte (séc. VI a.C.). Durante séculos estes poemas foram atribuídos a Anacreonte.

Segundo os estudiosos da obra, e a julgar pelas características estilísticas, métricas e prosódicas dos poemas, estes terão sido escritos entre os séculos II e IV d.C.

As Anacreônticas têm sido, provavelmente, o texto grego de maior êxito logo após os poemas épicos de Homero, pois as edições sucederam-se de forma continuada nas línguas europeias, desde a sua primeira publicação moderna em 1554.

Não assim em Portugal. Tenho noticia de uma versão de Francisco da Silveira Malhão (1757-1809), As Odes de Anacreonte Parafraseadas, publicada em 1804, o qual, desconhecedor do grego, escreveu agradáveis versos a partir da versão francesa que conheceria; e a tradução a partir do grego, também por via da versão francesa, de António Feliciano de Castilho (1800-75), A Lyrica de Anacreonte.

Trago ao blog noticia desta deliciosa colecção com o poema XXXIII em tradução de Castilho, onde uma discreta malícia espreita, contada num fluir de saborosa leveza.

A noite passada

à hora em que a Ursa,

mais perto discursa

da mão do Boieiro,

e o sono profundo

no grémio fagueiro

por todo esse mundo

restaura os mortais,

em meio era a noite;

o exemplo dos mais

no leito eu seguia;

sereno dormia…

À porta imprevisto

Cupido me bate!

À pressa me visto;

redobra o rebate;

acudo a correr.

“Sou eu — diz de fora —

não tens que temer;

sou um pequenino

que vaga, a tal hora,

molhado e sem tino,

perdido no escuro,

pois lua não há!”

Ouvi-lo gemendo

de mágoa me corta;

a lâmpada acendo,

franqueio-lhe a porta…

em casa me está!

Descubro (em verdade

mentido não tinha)

gentil criancinha

com arco e carcaz.

Remexo nas brasas

da minha lareira;

restauro a fogueira;

as mãos, que são gelo,

lhe aqueço nas minhas,

lhe espremo o cabelo,

lhe enxugo as azinhas;

já frio não faz.

— “Vejamos se a chuva

(dizia e sorria)

a corda do arco

me não danaria!”

Levanta-o do chão;

recurva-o, dispara

no meu coração.

A frecha que o vara

parece um tavão.

Eu, dores danadas,

e o doudo às risadas

de gosto a pular!

— “Meu caro hospedeiro,

(me diz prazenteiro)

agora é folgar.

Permite me ausente;

meu arco está são…

Quem fica doente

é teu coração!”

Termino com uma das paráfrases de Francisco da Silveira Malhão.

As moças louçãs me dizem:

—”Anacreonte estás velho,

vê as cãs, consulta as rugas,

perante um fiel espelho.”

Que vale que esteja calvo

ou tenha a fronte rugosa,

s’inda sinto as mesmas forças

duma idade vigorosa!

Por isso mesmo, que perto

vejo o prazo à minha vida,

e sempre a levei contente,

tenha o seu fim divertida.

Noticia bibliográfica

António Feliciano de Castilho traduziu as Anacreônticas como se de obras de Anacreonte se tratassem, e como durante séculos foi convicção aceite. Hoje está definitivamente estabelecido que se trata de um conjunto de poemas escritos sete ou oito séculos mais tarde, tomando o prestigio da obra do poeta como modelo.

Não existindo em português, de meu conhecimento, uma edição actual anotada, remeto o leitor curioso de considerações eruditas e da versão grega hoje aceite, para uma tradução directa grego/castelhano, com notas abundantes sobre as opções de tradução: Anacreônticas, edição de Luís Arturo Guichard, Ediciones Cátedra, Madrid, 2012. Nesta edição os poemas aqui transcrito trazem respectivamente os números XXXIII e VII. Na tradução de António Feliciano de Castilho, A Lyrica de Anacreonte, Paris, 1886, o poema é o nº3. Na versão de Francisco da Silveira Malhão, As Odes de Anacreonte de Teos parafraseadas, o poema é a Ode XI.

Dos sessenta poemas que compõem actualmente a colecção, Castilho traduziu 53, Malhão 55.

Em ambos os poemas modernizei a ortografia e uniformizei a pontuação.

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Pais e filhos e o mito de Ícaro – fragmento de Metamorfoses de Ovídio

16 Segunda-feira Set 2013

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poesia Antiga

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Ícaro, Metamorfoses, Ovídio, Rubens

Rubens - A queda de Ícaro 1636É conhecida a história do menino que depois do almoço queria ir para a piscina. Dizia-lhe a mãe:

– Não podes, ainda não fizeste a digestão. E o menino senta-se, olhos marejados, dificilmente contendo o choro.

Passado algum tempo, vira-se para mãe com olhar interrogativo, e de novo a resposta:

— Sem fazer a digestão não podes ir ao banho.

O menino enche o peito de coragem e entre lagrimas, balbucia:

— Mas, mãe, eu não sei como se faz a digestão!

Os desafios da educação no propósito de fazer crescer os filhos são enormes e por vezes inesperados. Mas o cuidado com eles e o desejo de que a vida lhes corra bem é de sempre.

Chega-nos da Grécia arcaica o mito sobre esta complexidade de crescer, entre a prudência que a idade aconselha e o gosto pelo novo que a descoberta do mundo e o caminhar pelo seu próprio pé desafia.

A partir de certa idade na vida é deixá-los ir, e confiar que o que connosco aprenderam lhes evite a sorte de Ícaro relatada no mito de que hoje aqui falo.

É ao poeta latino Ovídio (43 a.C.—17 d.C.) e ao seu poema Metamorfoses que vou buscar um dos relatos que nos chegaram sobre esta aventura de viver, dando conta de como a juventude nos leva por vezes a imprudências de consequências irreversíveis. Voar sim, buscar o mundo também, mas saber que o que brilha também pode queimar e que as asas com que vamos correr o mundo podem ser frágeis como cera e numa volta do caminho derreter, fazendo-nos precipitar para uma qualquer espécie de morte, ainda que figurada, é conhecimento que vale a pena meditar.

Vejamos então a história contada por Ovídio com uma arte difícil de suplantar na forma como nos vai desenhando personagens, enquadramento local, e desenvolvimento temporal, até à precipitação dos acontecimentos para que fomos subtilmente preparados.

Estamos no Livro VIII de Metamorfoses.

Depois de descrever como Dédalo, pai de Ícaro, construíra para o rei Minos de Creta o labirinto onde aprisionar o Minotauro, passa a contar a história que nos interessa:

Entretanto, Dédalo odiava Creta, odiava o longo exílio,

morto de saudades da terra natal. O mar aprisionava-o.

“Embora ele barre o meu caminho com as terras e o mar”,

disse, “ao menos, o céu está sempre aberto. Iremos por aí!

Minos pode ser dono de tudo, mas não é dono dos ares.”

Assim dizendo, aplica o seu talento a artes desconhecidas

e revoluciona a natureza. De facto, dispõe penas em filas,

[começando pelas mais curtas, a curta seguindo a longa]

a ponto de se julgar crescerem num declive: assim cresce

gradualmente a flauta campestre com as suas canas desiguais.

Depois, prende-as a meio com um fio e a base com cera,

e, tendo-as assim prendido, dobra-as em suave curvatura

para imitar as aves verídicas. Com ele está o menino,

Ícaro. Sem saber que mexia em algo para si tão perigoso,

ora, de cara risonha, tentava apanhar as penas que a brisa

vagabunda movia, ora amolecia com o polegar a loira cera;

e com esta brincadeira atrapalhava o espantoso trabalho

do pai. Quando deu o toque final ao que tinha planeado,

o artífice aventurou-se a equilibrar o próprio corpo

no par de asas, e ficou suspenso no ar, assim agitado.

 

Equipando também o filho, disse: “Voa a meia altura, Ícaro,

recomendo-te, para que, se fores demasiado baixo, o mar

não pese nas penas, e, demasiado alto, não as queime o fogo.

Voa entre um e outro; não te ponhas, advirto, a contemplar

Bootes ou a Hélice ou a espada desembainhada de Orion.

Vem atrás de mim: eu guiar-te-ei.”. Ao mesmo tempo que dá

tais instruções de voo, ajeita-lhe as inéditas asas nos ombros.

No meio do labor e advertências, molham-se de lagrimas

as envelhecidas faces, tremem as mãos de pai. Beija o filho,

beijos que jamais repetiria; e, elevando-se graças às asas,

levanta voo à frente. Tal como a ave ao guiar as frágeis crias

para fora do alto ninho pelo ar, ele receia pelo companheiro;

exorta-o a que o siga, e ensina-lhe as ruinosas artes

[e, batendo as asas, vai olhando para trás para as do filho].

Viu-os com espanto alguém que pescava com a trémula cana,

ou algum pastor arrimado ao cajado ou lavrador à rabiça

do arado, julgando que eram deuses aqueles que tinham

o poder de viajar pelos céus.

E já à já esquerda ficava

a Samos de Juno (para trás haviam deixado Delos e Paros),

e, à sua direita, Lebinto, tal como Calimne, rica em mel,

quando o rapaz começa a achar gozo no audacioso voo

e se afasta do guia. Arrastado pelo seu fascínio pelo céu,

rumou para as alturas. Ora, a vizinhança do sol voraz

amolece as odoríferas ceras que colavam as penas:

a cera derrete-se. Bem lá agita o rapaz os braços nus,

mas, sem asas para bater, não logra apanhar ar algum.

E a boca que gritava o nome do pai é acolhida pelas águas

azul-esverdeadas, que dele obtiveram o seu nome.

O pobre pai (que já nem pai era), “Ícaro!”, chamava,

“Ícaro!”, berrava. “Onde estás? Onde hei-de procurar-te?

“Ícaro!”, gritava. Então avistou penas a boiar nas ondas.

…

Tradução de Paulo Farmhouse Alberto

Ovídio, Metamorfoses, edição Livros Cotovia, Lisboa 2007.

Oxalá o extracto tenha despertado em algum leitor o gosto e desejo de ler tão bela obra.

Existe em português uma outra tradução moderna de Metamorfoses, esta bilingue latim/português, em dois volumes, da autoria de Domingos Lucas, edição Nova Vega, Lisboa 2006.

Vale ainda a pena a leitura dos fragmentos da obra traduzidos por Bocage.

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