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vicio da poesia

Category Archives: Convite à arte

Natal ainda? poemas de Antonio Manuel Couto Viana

23 Segunda-feira Dez 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Antonio Manuel Couto Viana

Petrus CHRISTUS - Natividade 1465 detalheAproxima-se o Natal, e variando as abordagens poéticas ao acontecimento, escolhi hoje quatro poemas de Antonio Manuel Couto Viana (1923-2010) onde de Natal se fala.

Com os dois poemas iniciais lemos quanto à aproximação do Natal o peso da idade se faz sentir na lucidez de saber a vida perto do fim:

Na solidão que o apavora, / O velho corre o coração de lado a lado.

Recorda um deus: um deus criança,

…

Conformar-se, porquê, com o Natal dos velhos?

ou ainda

Eu, para aqui ajoelhado, / A memória da infância a pedir-me alegria,

Depois, a dificuldade de todos os dias ser e fazer a vida no espírito do Natal para um homem religioso:

Mas, ai! a adoração dura-me instantes! / Em breve irei negá-lo / Três vezes, antes

De cantar o galo!

Finalmente a assimilação de Natal a cada novo nascimento.

Quando na mais sublime dor, / A mulher dá à luz, / Há sempre um Anjo Anunciador / A murmurar-lhe ao coração — Jesus!

 

Na aparente simplicidade do verso, a mestria de uma arte versificatória para saborear.

  DAVID, Gerard 1490

Que longa espera, noite fora!

Virá o anjo? Trará recado?

Na solidão que o apavora,

O velho corre o coração de lado a lado.

 

Recorda um deus: um deus criança,

Sem a ciência entre os doutores.

E sem espada. E sem balança.

Coroado de inocência e flores.

 

A bela imagem diluída

De uma passada madrugada

Que lhe foi vida,

Antes de a vida não lhe ser nada.

 

Conformar-se, porquê, com o Natal dos velhos?

Cenário literário dos Natais:

A manta nos joelhos,

Lareira acesa, a mesa com cristais…

 

A neve, sim, que a tem

No cabelo e também no coração.

— Nascerá hoje alguém

Que o leve, puro e ardente, pela mão?

 

In Pátria Exausta, Editorial Verbo, Lisboa 1971.

 

DARET, Jacques 1434-35

 

Cenário de Natal sem o Natal

 

Nenhuma estrela luz, com mais brilho no céu.

Não oiço rumor d’asa ou de vagido

É meia-noite já. E ainda não nasceu.

O que terá acontecido?

 

Eu, para aqui ajoelhado,

A memória da infância a pedir-me alegria,

Todo o presépio armado

… E a mangedoira vazia!

 

O silêncio apavora:

Nem uma loa, nem o som de um sino.

Porquê tanta demora?

Não mais irá nascer o meu menino?

 

Nenhum sinal de sobrenatural

No cenário onde a fé não sublima nem arde.

Por isso, o meu Natal

Vai chegar tarde.

 

(Para sempre tarde?)

 

In Mínimos, Centro Cultural do Alto Minho, Viana do Castelo,1990.

 

MASTER FRANCKE 1424

 

Natal tão pouco

 

Nasceu em Belém, ou Nazaré

(A nova teoria),

Este que nos é

O Pai-Nosso em cada dia?

 

Que importa onde nasceu,

Se num presépio, se num leito?

A verdade sou eu

A aguardá-lo no peito.

 

Pois abro o coração

Pra o receber,

Quer venha ou não

Do céu ou ventre de mulher.

 

Mas, ai! a adoração dura-me instantes!

Em breve irei negá-lo

Três vezes, antes

De cantar o galo!

8.12.2005

 

In Disse e Repito, Averno, 2008.

 

UNKNOWN MASTER, Flemish 1400A

 

Natal cada Natal

 

Quando na mais sublime dor,

A mulher dá à luz,

Há sempre um Anjo Anunciador

A murmurar-lhe ao coração — Jesus!

 

Cada criança é o Céu que vem

Pra nos remir do pecado

E as palhas d’oiro de Belém

Espalham-se no berço, como um Sol espelhado

 

Por sobre o lar presepial , o brilho

Da estrela abre o convite dos portais:

— Vinde adorar a floração do filho

No alvoroço da raiz dos pais.

 

In Mínimos, Centro Cultural do Alto Minho, Viana do Castelo,1990.

Stefan Lochner (1410-1451) virgem adorando o meninoA

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Canção do Mundo Perdido de Carlos Queiroz

22 Domingo Dez 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Carlos Queiroz

Gerard DAVID - Virgem do leite e o menino 1490Entre azáfama e melancolia foge o tempo com o Natal no horizonte. Cada ano assiste à luta da memória com a circunstância, na exigência da aprendizagem permanente que a vida obriga. Há sempre mundos perdidos para que outros sejam ganhos, ainda que um canto para a nostalgia possa ser reservado.

 

Canção do Mundo Perdido

 

Menino: o teu mundo,

Também já foi meu;

Tão belo e profundo,

Tão perto do céu!

 

Mas o tempo veio

E fez-me (tão cedo!)

Acordar, a meio

Do sonho mais ledo.

 

A chave emprestada,

Quis restituída;

Ou antes: trocada

P’la chave da vida.

 

Poema de Carlos Queiroz (1907-1949), transcrito de Desaparecido e Outros Poemas, Livraria Bertrand, Lisboa, 1950.

 

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A Virgem e o Menino por Nardo di Cione

22 Domingo Dez 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

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Nardo di Cione

Nascimento e maternidade associam-se na carga simbólica induzida pelo Natal. Na pintura ocidental até ao século XVII, além do registo pictórico da natividade e presépio nas variadas componentes que a tradição cristã consagra, a figuração da Virgem com o Menino foi assunto frequente e de popular devoção. E a imagem com que cada época viveu o culto Mariano reflecte-se nas opções dos pintores. No século XIV italiano são sempre jovens e belas mulheres a representar a Virgem Mãe.

Se na maior parte dos mestres a ausência de expressão procura refletir na sua impassibilidade o carácter divino dos personagens, nesta pintura de Nardo di Cione (1320-1365/6) Maria e Jesus são de uma vivacidade sem par. Interroga-nos ela querendo saber o que nós pensamos, enquanto o filho, criança traquina, mede a mãe com o olhar a ajuizar até onde poderá ir no que lhe apeteça fazer. Profundamente humanos, mãe e filho, símbolos de uma maternidade feliz, ao vosso olhar  entrego.

Madonna and ChildO pintor foi contemporâneo de Boccaccio (1313-1375) em Florença e com os irmãos integrou uma geração de bem sucedidos mestres. A pintura terá sido feita na sequência da peste bubónica de 1348, a qual também foi pretexto para o refúgio campestre dos protagonistas das histórias de Decameron escritas por Bocaccio na década de 50 do século XIV.

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Aproximação ao Natal com Natal Chique e Anjos de Vitorino Nemésio

19 Quinta-feira Dez 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Bosch, Fra Angelico, Gerard David, Vitorino Nemésio

MASTER of Moulins 1480A azáfama que se espera de nós no corropio das prendas, e a realidade social que nos envolve, mostra-a Vitorino Nemésio (1901-1978) neste poema, Natal Chique, na metáfora da compra do anjo anunciado no jornal e do príncipe pedinte.

 

Natal Chique

 

Percorro o dia que esmorece

Nas ruas cheias de rumor;

Minha alma vã desaparece

Na muita pressa e pouco amor.

 

Hoje é Natal. Comprei um anjo,

Dos que anunciam no jornal;

Mas houve um etéreo desarranjo

E o efeito em casa saiu mal

 

Valeu-me um príncipe esfarrapado

A quem dão coroas no meio disto,

Um moço doente, desanimado…

Só esse pobre me pareceu Cristo.

 

Mas nem só deste embrulho de papel colorido se faz o Natal. Há uma sub-reptícia corrente mística que permanece, e nela, os anjos têm fulcral protagonismo anunciador.

 Fra Angelico (1400-1455) Altar do PradoA

Foi um anjo que anunciou a Maria a concepção divina.

Para os meninos educados na religião católica são anjos que os acompanham na forma de anjo da guarda. É talvez esse o anjo temido por Vitorino Nemésio, capaz de informar Deus das suas traquinices, e assim referido no poema Anjos:

 DAVID, Gerard - Anunciação 1506

Anjos são os terríveis / Modos de Deus connosco; / Nós, as suas possíveis / Transparências a fosco.

 

Lívidos, sem respiração / Ficávamos do toque / Da primeira asa vinda; / Mas eles rondam apenas a oração / Que múrmura os evoque, / E vão-se, e tornam ainda.

 

Enquanto exército imaginado de emissários de Deus, têm presença forte na vida dos crentes, ainda que nos nossos dias esteja um pouco fora de moda a invocação da sua companhia.

Bosch - Triptych of Haywain (left wing) -1500-02 detalhe

Figuras centrais da mitologia do Natal, e imagem de excelência do Paraíso como quotidiano, leia-se a visão deles por um homem religioso.

 

Anjos

 

Os anjos são rijos como as pedras

E leves como as prumas.

Na leira rasa de aves, Tu, que redras

Terra, névoas e espumas,

—Deus, de teu nome! —sabes

Que um anjo é pouco e imenso:

Por isso cabes

No anjo e ergues o incenso.

 

Desfaleço a pensar-te,

Ó ser de Anjos e Deus

Que baixa em mim:

Sobe-me na alma, que ando a procurar-te

E dizendo-te Deus

Acho-te assim.

 

Anjos são os terríveis

Modos de Deus connosco;

Nós, as suas possíveis

Transparências a fosco.

 

Lívidos, sem respiração

Ficávamos do toque

Da primeira asa vinda;

Mas eles rondam apenas a oração

Que múrmura os evoque,

E vão-se, e tornam ainda.

 

Deles para cima, ainda mais graus de glória

Relutam ao sentido

Que deles vem à memória

Como uma bolha de ar na água do olvido:

No mais, são tão pesados,

Os anjos leves ao justo…

Tão alados,

Mas desgostosos do nosso susto!

 

É isso! Disse-mo agora

O verbo súbito surpreso:

Ser anjo é espanto da demora

Nossa e do peso pávido

Que nos estende.

Terrível é quem toca terra

Para a levar, e não a rende.

 

Que o anjo, de si, é àvido

De transe e rapidez,

E é ele que chora

Nosso chumbo, hora a hora:

É ele que não entende

A nossa estupidez.

 

Poemas de O Pão e a Culpa, Lisboa 1955.

 

 

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Prazer e idade em Ovídio para uma pintura de L.-J.- F. Lagrenée

17 Terça-feira Dez 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Erótica, Poesia Antiga

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Louis-Jean-François Lagrenée, Ovídio

NM 840Poucas vezes a pintura cristalizou em gesto a ternura, o desejo, o encanto do outro, o amor, como L.J. F. Lagrenée (1724-1805) neste par amoroso adolescente. Este enlevo só foge com a idade se o deixarmos. A rotina, a certeza do outro dando por adquirido um patamar de paixão, são inimigas constantes da continuidade de uma relação no tempo. Se factores externos, que muitas vezes não controlamos, contribuem para o fim de uma ligação amorosa, componentes há que estão ao alcance de ambos: é seguir os concelhos de Ovídio que, no fragmento de Arte de Amar a seguir transcrito, mostra já saber da existência do ponto G, expectativa e angústia do seu fruir nos nossos dias.

Livro II, versos 717-728

Acredita no que te digo: não deve apressar-se o prazer de Vénus,

mas sim, discretamente, fazer por retardá-lo e demorá-lo.

Quando descobrires o ponto onde a mulher se excita ao ser tocada,

não seja o pudor a impedir-te de o tocar;

verás os seus olhos a brilhar de fogo cintilante,

como tantas vezes o sol reflete a luz na superfície da água;

far-se-ão ouvir queixumes, far-se-á ouvir um encantador sussurro

e doces gemidos e palavras apropriadas ao prazer.

Mas não deixes para trás a tua parceira, desfraldando mais largas velas,

nem seja mais rápido o ritmo dela que o teu;

avançai para a meta ao mesmo tempo; então, será pleno o prazer,

quando par a par, jazerem, vencidos, a mulher e o homem.

Aqui está a provável origem do mito da indispensabilidade do orgasmo simultâneo para um prazer pleno, coisa que numa tarde de amor se revela bem secundária, quando o ir e vir nos permite permanecer no que sexólogo chamam estado de  plateaux ou parecido.

NM 840

Mas continuemos que há mais conselhos, desta vez sobre carpe diem, gozar o dia que passa. Consta do Livro III, agora dedicado às mulheres, neste precioso Arte de Amar, e transcrevo os versos 59-66.

Tende desde já na lembrança que a velhice há-de chegar;

e não deixeis, por isso, esvair-se tempo algum na ociosidade;

enquanto vos for consentido e conservardes, ainda, a idade da Primavera,

gozai; vão-se os anos, do mesmo modo que a água corrente;

nem a onda que passou voltará de novo a ser chamada,

nem a hora que passou logra tornar atrás.

Há que aproveitar a idade. Com passo rápido se escapa a idade,

e não é tão boa a que vem depois, quão boa foi a que veio antes.

Felizmente no tempo que nos é dado viver a Primavera é longeva, mas a certa altura vai dando sinais de querer partir.

Transcrevi da tradução de Carlos Ascenso André, Arte de Amar, Livros Cotovia, Lisboa, 2006.

A pintura de Louis-Jean-François Lagrenée pertence à colecção do Museu Nacional da Suécia, e aqui a deixo na totalidade.

NM 840

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Não sei que amores vieram e partiram — soneto de Edna St. Vincent Milay

16 Segunda-feira Dez 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Edna St. Vincent Milay, Geza Voros, Jorge de Sena

Geza Voros - Nu no estúdio 1930

Não sei que amores vieram e partiram: / Apenas sei que o Verão em mim cantou

Às voltas com o tempo, e o seu efeito nos homens e mulheres, têm corrido as escolhas poéticas recentes. Chega agora a bela versão de Jorge de Sena para um soneto de Edna St. Vincent Milay (1892-1951).

 

 

What Lips My Lips Have Kissed

 

Que lábios os meus lábios já beijaram,

Onde e porquê, esqueci, como em braços

Até pela manhã tive a cabeça;

Mas esta noite a chuva traz espectros

 

Que batem na vidraça, à escuta, à espera;

E uma saudade calma há no meu peito,

De jovens que não lembro e nunca mais,

Noite alta, me desejam num soluço.

 

Qual árvore isolada, assim, no Inverno

Não sabe de aves idas uma a uma

E só seus ramos sabe mais silentes,

 

Não sei que amores vieram e partiram:

Apenas sei que o Verão em mim cantou

Um breve tempo, e já não canta mais.

 

Geza Voros - Mulher sentada

Termino com o original do soneto, e os leitores fluentes em inglês poderão avaliar melhor a excelência da tradução.

 

 

What lips my lips have kissed, and where, and why,

I have forgotten, and what arms have lain

Under my head till morning; but the rain

Is full of ghosts to-night, that tap and sigh

Upon the glass and listen for reply,

And in my heart there stirs a quiet pain

For unremembered lads that not again

Will turn to me at midnight with a cry.

Thus in the winter stands the lonely tree,

Nor knows what birds have vanished one by one,

Yet knows its boughs more silent than before:

I cannot say what loves have come and gone,

I only know that summer sang in me

A little while, that in me sings no more.

 

Transcrito de American Poetry, The Twentieth Century, volume one, edição The Library of America.

A tradução de Jorge de Sena encontra-se em Poesia do Século XX, Antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena, Fora do Texto, Coimbra, 1994.

Acompanham o artigo imagens de pinturas do húngaro Geza Voros (1897-1957), autor de varios notaveis retratos femininos.

Geza Voros - Mulher com boina preta

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A Vida é Tempo — regresso à poesia de Vitorino Nemésio

15 Domingo Dez 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Vincent van Gogh, Vitorino Nemésio

Novelas francesas e uma rosa 1887Tanto tempo passado, regresso no blog à poesia de Vitorino Nemésio (1901-1978).

Com uma linguagem poética frequentemente desconcertante, que não desdenha as formas rígidas da quadra ou do soneto, a poesia de Vitorino Nemésio é sobretudo confessional. O poeta fala-nos de si trazendo à conversa a interrogação de um homem religioso consciente do seu livre arbítrio e sabedor da vontade soberana de Deus, e a quem o corpo por vezes impacienta.

A meia-noite deu-me as doze gotas, / O meu mal vai dormir:

…

É murcha a roupa que componho, / Com minha forma, atrás da porta:

Quarto de Van Gogh em Arles 1888

Neste seu falar de si, mais que contemplação, lemos uma reflexão sobre o nada que somos e o que fazer com a vida que passa — a Vida é apenas tempo:

Com alma, ideias, tempo, luta / Componho um homem, sou sujeito:

Esgotado o tempo, não há retorno. Daí a decisiva importância das escolhas no exercício de um arbítrio que é nosso, caldeado pela aceitação da decisão divina:

Se é possível, desvia o fel do vaso: / Se não é, beberei. Não faças caso.

Ler esta poesia é aprender isto também:

Ninguém nos ensina a morte, / E a vida é de mais; / A vida sabemos muito bem!

Deixo-vos uma curta escolha de poemas, sem comentários inúteis. Noutros locais existirá certamente a exegese da obra. Aqui, tão só o gosto de saborear o verso na profunda originalidade da sua construção.

 

Retrato

 

Cruel como os Assírios,

Lânguido como os Persas,

Entre estrelas e círios

Cristão só nas conversas.

 

Árabe no sossego,

Africano no ardor;

No corpo, Grego, Grego!

Homem, seja onde for.

 

Romano na ambição,

Oriental no ardil,

Latino na paixão,

Europeu por subtil;

 

Homem sou, homem só

(Pascal: “nem anjo nem bruto”):

Cristãmente, do pó

Me levante impoluto.

Rispal Restaurant at Asnières 1887

Ser Levado

 

Tivesse eu sido o que não fui,

Hoje era o mesmo projectado

António, Pedro, Lopo, Rui,

Quatro semblantes num só estado.

 

Mas eu serei, ainda que a morte

Me faça amiba, verme, pó:

Agulha a Deus, íntimo norte,

Resto de tudo uma alma só.

 

De eterno levo o tempo em frente

Como o boi leva o feno visto:

Mas ele é rés, e em mim vai gente:

Levado embora, existo, existo!

31.7.59

 The Night Café in the Place Lamartine in Arles

A Vida é Tempo

 

Com alma, ideias, tempo, luta

Componho um homem, sou sujeito:

Penso-me livre numa gruta

Como pretérito imperfeito.

 

De era se faz o meu futuro,

Será será o meu passado

Como da hera se faz muro

Mais que de pedra levantado.

 

Se horas a nada levam tudo,

Nada nasceu, tudo é que é,

Haja ou não haja Sartre e o mudo

Deus Tudo-Nada havido em fé.

 

Que ele é Deus mesmo no absoluto

Ser contestado, tão essente

Que se faz Deus na voz que escuto,

Mesmo que o negue, e me desmente.

31.7.59

Par de sapatos 1888

 

Natureza-Morta

 

A meia-noite deu-me as doze gotas,

O meu mal vai dormir:

Olham-me, vãs, as minha botas,

Que eu a tão longe faço ir.

 

É murcha a roupa que componho,

Com minha forma, atrás da porta:

Espelho a que me envergonho!

Minha natureza morta!

 

Montmartre 1886

Poema 40 do livro eu, comovido a Oeste [1940]

 

De quando em quando junto as recordações para morrer.

Não gosto de andar sem nada.

Qualquer dia vem aí a vida e vai-se:

A vida, que não é isto quente e rápido que eu tenho,

Mas uma mão com jeito: ela nos leva,

E esse levar é que é morrer.

Sei que é assim, e, se o não sei, oxalá!

Já levei a minha alma à beira de uma coisa ampla e sem nexo,

Uma espécie de rio, uma impressão de fosco e de profundo,

Onde ninguém sabia nada de veemente e claro

— Questões de esquerda, centro, o norte, o sexo —

E por lá me esqueci.

 

Mas foram só uns dias. Perdi tudo.

Talvez deixasse a pele nos canaviais concretos

Sobre a margem de cá.

E assim, não;

Assim, sem pele, nada dá presa ao homem;

Só sei que Deus era mudo

E os céus discretos.

 

Tenho pena.

Custa-me este rigor de Deus com os mortos em sonhos

— Voluntários do Ser, os únicos fiados.

Ninguém nos ensina a morte,

E a vida é de mais;

A vida sabemos muito bem!

 

Ah, se me levassem a ver o rio de Sempre ainda!

— Não levar para vir, nem ir deliberado,

Mas como a palha vai na ave vagabunda:

Esquecida nas penas,

Não no seu bico agudo e cuidadoso,

Que isso já era intenção.

A luz sem cru de cores me tocaria,

E esse toque talvez já fosse consciência,

Saber de morte e de vida,

Lá onde se unem ambas,

Como as pontas do boi rimam na paz da tarde.

 

Les Alyscamps, Falling Autumn Leaves 1888

Áspera Vida, poema VI

 

Passeio à tarde a solidão contida.

O meu vulto embrulhado e passageiro,

Debaixo de árvores, diz adeus à vida.

Não quero mais o travo de reseda

Nem o largo planar do pensamento.

Passeio a passo de seda

A avenida do vento.

Ó páginas do céu por ler ainda,

Que inocência no azul perdi sonhando?

Já o sol se fecha sobre a vida finda.

Regressai, flores abertas, às raízes!

Não posso mais com tudo o que me dizes…

Terra, que gosto a fel teus seios têm!

par de botas 1886

 

Prece

 

Meu Deus, aqui me tens aflito e retirado,

Como quem deixa à porta o saco para o pão.

Enche-o do que quiseres. Estou firme e preparado.

O que for, assim seja à tua mão.

Tua vontade se faça, a minha não.

 

Senhor, abre ainda mais meu lado ardente,

Do flanco de teu Filho copiado.

Corre água, tempo e pus no sangue quente:

Outro bem não me é dado.

Tudo e sempre assim seja,

E não o que a alma tíbia só deseja.

 

Se te pedir piedade, dá-me lume a comer,

Que com pontas de fogo o podre se adormenta.

O teu perdão de Pai ainda não pode ser,

Mas lembre-te que é fraca a alma que aguenta:

Se é possível, desvia o fel do vaso:

Se não é, beberei. Não faças caso.

 

Poemas transcritos dos livros:

 

eu, comovido a Oeste [1940]

Nem toda a noite a vida [1952]

O Pão e a Culpa [1955]

O Verbo e a Morte [1959]

 Natureza-morta 1887

As pinturas ao longo do artigo são de Vincent van Gogh (1853-1890).

 

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Retrato de desconhecida por pintor não identificado

12 Quinta-feira Dez 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

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Biedermeier, Pintura de retrato

Z 131

Desconhecidos, pintor e retratada, tudo neste retrato singular chama a atenção.

O olhar prende-se na originalidade do traje. Mas a retratada não nos deixa: fixa, e insistentemente chama por nós, espicaçando-nos a curiosidade sobre a sua pessoa. Personalidade forte pela firmeza da boca nos lábios cerrados, transmite uma impressão de ordem e rigor na simetria sem falhas de toda a sua figura, do penteado ao padrão riscado da gola da camisa. Esta elegante cuja beleza de formas o vestido não deixa adivinhar, seria uma mulher austera? Nada o permite supor. A absoluta ausência de adereços que autorizem inferir afetos, assegura-lhe o mistério que a fará viver enquanto a pintura existir.

Olhada a retratada, centremos-nos na originalidade pictórica. Com uma paleta mínima e austera de azul, amarelo e branco, e sem concessões a maneirismos, o pintor varia o fundo com aquela espécie de nuvens verdes (obtido a partir de amarelo com azul, como se sabe), e cria dinamismo na rigidez hierática da figura pela introdução de perspectiva, fazendo surgir o tronco ligeiramente rodado e oblíquo em relação ao plano da tela, continuando a cabeça a olhar-nos de frente. Acrescenta-se a esta representação um desenho no vestir de geometria contrastada, desenvolvendo-se entre o arredondado das mangas, os triângulos da gola e o rectângulo do cinto. As linhas desenhadas pelos cordões de ouro, em assimetria, acrescentam a leveza que dão humanidade à pintura, fazendo com que tudo no quadro respire simultaneamente verdade e irrealidade.

A pintura, pela moda do vestir, será provavelmente do segundo quartel do século XIX, de uma burguesa do império Austero-húngaro, ou Alemanha do Sul, cabendo na que é conhecida por pintura do período Biedermeier. A austeridade de que a obra dá mostras transforma-a numa pintura peculiar no contexto de escola.

O retrato, de colecção particular, terá sido vendido em leilão em 2009.

 

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Quando fores velha — entre W. B. Yeats e Pierre Ronsard

09 Segunda-feira Dez 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga, Poetas e Poemas

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James McNeill Whistler, Pierre Ronsard, W. B. Yeats

Whistler - retrato da mãe do pintorMuitos amaram os momentos de teu alegre encanto, / Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor, / Mas apenas um homem amou … as mágoas do teu rosto que mudava;

É um magoado apaixonado quem assim fala, lembrando o efeito do passar do tempo no contraponto com a constância do seu amor.

São versos do poema When You Are Old de William Butler Yeats (1865-1939) em tradução do poeta José Agostinho Baptista, que a seguir transcrevo na totalidade.

 

Quando Fores Velha

 

Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,

Dormitando junto à lareira, toma este livro,

Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar

Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;

 

Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,

Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,

Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,

E amou as mágoas do teu rosto que mudava;

 

Inclinada sobre o ferro incandescente,

Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou

E em largos passos galgou as montanhas

Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.

 

When You Are Old

 

When you are old and grey and full of sleep,

And nodding by the fire, take down this book,

And slowly read, and dream of the soft look

Your eyes had once, and of their shadows deep;

 

How many loved your moments of glad grace,

And loved your beauty with love false or true,

But one man loved the pilgrim soul in you,

And loved the sorrows of your changing face;

 

And bending down beside the glowing bars,

Murmur, a little sadly, how Love fled

And paced upon the mountains overhead

And hid his face amid a crowd of stars.

Este poema de Yeats reelabora o assunto de um dos sonetos a Helena escritos por Píerre Ronsard (1524-1585).

O conjunto desta pouco mais de centena de poemas de Ronsard à amada(?) Helena (Hélène de Surgères) é um universo de grande densidade erótica, afastado do mundo poético de Yeats, onde talvez o único ponto de contacto seja este mesmo escrito para a memória de uma paixão desdenhada.O assunto pedido de empréstimo por Yeats a Ronsard consta do soneto 24 a Helena:

 

 

Soneto 24 a Helena

 

Quando fordes bem velha ao serão, à candela,

sentada ao pé do lume a dobar, e fiando,

cantando versos meus, direis maravilhando:

“celebrou-me Ronsard no tempo em que fui bela.”

 

Nem criada tereis que acaso ouvindo ela

tal nova, em seus afãs  já quase dormitando,

de o meu nome soar não esperte, abençoando

vosso nome em louvor que eterno se revela.

 

Em terra eu estarei, fantasma já sem osso,

entre mirtos e sombra a repousar num fosso;

vós sereis à lareira, idosa e encolhida,

 

chorando o meu amor e o vosso vão desdém

pois, crede-me, vivei sem ver se amanhã vem:

colhei desde hoje mesmo as rosas desta vida.

 

Original

 

Quand vous serez bien vieille, au soir à la chandelle,

Assise auprès du feu, dévidant et filant,

Direz chantant mes vers, en vous émerveillant :

« Ronsard me célébrait du temps que j’étais belle.»

 

Lors vous n’aurez servante oyant telle nouvelle,

Déjà sous le labeur à demi sommeillant,

Qui au bruit de mon nom ne s’aille réveillant,

Bénissant votre nom de louange immortelle.

 

Je serai sous la terre, et fantôme sans os

Par les ombres myrteux je prendrai mon repos;

Vous serez au foyer une vieille accroupie,

 

Regrettant mon amour et votre fier dédain.

Vivez, si m’en croyez, n’attendez à demain:

Cueilllez dès aujourd’hui les roses de la vie.

 

A história oficial destes talvez platónicos amores de um Ronsard com mais de cinquenta anos por uma Hélène de Surgères vinte e alguns anos mais nova, deixa muito a desejar, quando pretende que a letra dos poemas .é apenas retórica, embora, diga-se, estejam escritos como presente, dando conta de um desejo, e não como passado, qual em poemas de Amores acontece, relatando o acontecido. Vamos então ao soneto à Helena amante(?):

Beija-me, minha amante, beija-me mais, estreita-

me, bafo contra bafo, e aquece-me esta vida,

dá-me assim beijos mil e mais mil de seguida,

amor quer tudo inúmero, amor leis não aceita.

 

Beija e beija outra vez, ó boca tão perfeita,

porque te hás-de guardar, sendo em livor jazida,

pra beijar (de Plutão a dama ou a válida)

sem coração, nem já imagem que deleita?

 

De teus beiços de rosa em vida me cobrindo,

balbucia a beijar-me, a boca entreabrindo,

mil sons a entrecortar, morrendo entre meus braços.

 

Eu morrerei nos teus, e, tu ressuscitada,

eu ressuscitarei, juntemos nossos passos:

o dia mesmo curto é mais do que a noitada.

 

Original

 

Maîtresse, embrasse-moi, baise-moi, serre-moi,

Haleine contre haleine, échauffe-moi la vie,

Mille et mille baisers donne-moi je te prie,

Amour veut tout sans nombre, amour n’a point de loi.

 

Baise et rebaise-moi ; belle bouche pourquoi

Te gardes-tu là-bas, quand tu seras blêmie,

A baiser (de Pluton ou la femme ou l’amie),

N’ayant plus ni couleur, ni rien semblable à toi ?

 

En vivant presse-moi de tes lèvres de roses,

Bégaie, en me baisant, à lèvres demi-closes

Mille mots tronçonnés, mourant entre mes bras.

 

Je mourrai dans les tiens, puis, toi ressuscitée,

Je ressusciterai ; allons ainsi là-bas,

Le jour, tant soit-il court, vaut mieux que la nuitée.

Ainda uma breve nota sobre as explícitas referências clássicas no soneto 24: à ode I-XI de Horácio conhecida por Carpe diem —… vivei sem ver se amanhã vem: / colhei desde hoje mesmo as rosas desta vida.—; e ao carme  V de Catulo —… beijos mil e mais mil…—.

As versões rimadas dos sonetos de Ronsard são do poeta Vasco Graça Moura.

 

A pintura que abre o artigo, de James McNeill Whistler (1834-1903), interessa-me não tanto por figurar a mãe do pintor, mas sobretudo pela forma com faz uma certa leitura da velhice: o vasto negrume que envolve uma imobilidade talvez doente, num físico que a vida secou. É um quadro onde alguma harmonia na forma convive com uma desolada serenidade de onde a alegria partiu, e nessa medida dá uma velhice possivel.

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Langston Hughes — I, too

08 Domingo Dez 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Convite à música, Poetas e Poemas

≈ 2 comentários

Etiquetas

Langston Hughes, Marian Anderson, Romare Bearden

Romare Bearden 02Avesso que sou a efemérides com pretexto necrófilo, passo habitualmente esses eventos mediáticos em silêncio. A morte de Mandela, no que pode significar do fim de um tempo, leva-me a recordar o belo poema de Langston Hughes (1902-1967) I, Too. Romare Bearden The Block

Eu também

Eu, também, canto América.

Sou o irmão negro.

Mandam-me comer na cozinha

Quando chega alguém,

Mas rio,

E como bem,

E cresço forte.

 

Amanhã,

Estarei à mesa

Quando alguém chegar.

Ninguém se atreverá,

Então,

A dizer-me,

“Come na cozinha”.

 

Além disso,

Verão como somos belos

E terão vergonha—

 

Eu, também, sou América.

Romare Bearden - La Primavera - 1967

Original

I, Too

I, too, sing America.

 

I am the darker brother.

They send me to eat in the kitchen

When company comes,

But I laugh,

And eat well,

And grow strong.

 

Tomorrow,

I’ll be at the table

When company comes.

Nobody’ll dare

Say to me,

“Eat in the kitchen,”

Then.

 

Besides,

They’ll see how beautiful we are

And be ashamed–

 

I, too, am America.

Romare Beardwn EVENING 1985

Pode o leitor interessado ouvir aqui o poema lido pelo  poeta.

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/Langston+Highes+I%2C+Too.mp3

 Romare Bearden Gospel-Morning 1987

Termino com He’s got the whole world in his hands cantado por Marian Anderson (1897-1993).

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/01+He%27s+Got+the+Whole+World+in+His+Hands.mp3

Romare Bearden Fish Fry

Acompanham o artigo imagens de pinturas/colagens de Romare Bearden (1911–1988).

O leitor curioso encontra nas páginas da Wikipédia informação relevante sobre Langston Hughes, Romare Bearden e Marian Anderson.

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