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vicio da poesia

Category Archives: Convite à arte

A dor da guerra em três poemas de Kurt Heynicke

04 Segunda-feira Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Kurt Heynicke, o velho, Pieter Brueghel

Brueghel_Pieter_the_Elder-The_Triumph_of_DeathEscritos em 1917/18, quando a primeira guerra mundial caminhava para o fim, estes poemas  de Kurt Heynicke (1891-1985) dão conta, de forma pungente, da devastação em redor.

Para além das circunstâncias de tempo e lugar, são poemas que falam da dor ao olhar o mundo. E infelizmente, sabemos todos, a guerra é nossa vizinha e visita-mo-la diariamente com a televisão.

Canção sombria

Em redor há a dor
E em redor o mundo que cai sombrio.
Eu sou no negro rio um embalar, para ele jogado em solidão.

Em mim há noite.
Estrela sem
Morte
nem túmulos.
(1918)

Posto de observação

Pelos meus olhos perpassam as colinas,
a floresta pariu a rubra lua-guarda.
Uma metralhadora patinha por detrás das estrelas.
Eu sou uma hora no silêncio.
Dos túmulos
saiu tacteando a manhã.
Um amen
goteja nos meus pensamentos.
(1917)

Despedida

O silencio fala.
Cansados entram os olhares florestas adentro pela noite
e sobre a nossa janela
morre a luz.
Mansamente
todas as sombras deslizam para os longes.
O teu cabelo murcha na minha mão.
Agora
erra o meu tactear em busca do bastão
e da luz do último vapor do rio.
(1917)

Traduções de João Barrento

Ilustra o artigo a pintura de Pieter Brueghel, o velho (1525/30-1569), O triunfo da morte, de 1562.

 

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Carpe diem, Odes, Livro 1, 11, de Horácio, no 500º artigo do blog

03 Domingo Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Crónicas, Poesia Antiga

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Horacio, Picasso

Picasso_Pablo-Figures_on_a_BeachPublico hoje o quingentésimo artigo no blog. Longe de veleidades de especialista, e apenas como homem comum que encontra prazer nas matérias do intelecto e do corpo, tenho preenchido o blog com artigos ao sabor do que ao espírito me ocorre, flanando nos acasos de leituras e acontecimentos.

No propósito de atribuir um significado especial a este artigo, de alguma maneira simbólico deste escrever, escolhi a Ode a Leucónoe de Horácio (65 a.C.- 8 a.C.), ode nº11 do Livro 1 das Odes, conhecida pelo seu último verso:

carpe diem, quam minimum credula postero.

Esta ode tem, ao longo dos séculos, despedaçado os esforços daqueles que defendem uma vida de sacrifício em prol de um além de maravilhas. E a ode dirigida a uma mulher, Leucónoe, diz tão só: não sabemos que vida nos espera para além da morte, os deuses sabem o que nos convém ainda que o não entendamos, por isso, aproveita o dia que passa.

Isto é dito na concisão do latim, numa forma poética que não cessa de encantar gerações e a que as traduções apenas trazem uma pálida aproximação.

Antes de passar às traduções, e para o leitor poder saborear o verso, aqui fica o original em latim:

1 Tu ne quaesieris — scire nefas — quem mihi, quem tibi
2 finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios
3 temptaris numeros. Ut melius, quidquid erit, pati,
4 seu plures hiemes, seu tribuit Iuppiter ultimam,

5 quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare
6 Tyrrhenum: sapias, vina liques, et spatio brevi
7 spem longam reseces. Dum loquimur, fugerit invida
8 aetas: carpe diem, quam minimum credula postero.

Começo uma volta pelas traduções que conheço, com um fragmento da ode inserido em Literatura de Roma Antiga.

Não indagues — sacrílego é sabê-lo — que fim nos tenham, a mim e a ti, destinado os deuses
…
melhor será suportar o que vier
…

sê sábia, coa o vinho e encerra em curto espaço a longa esperança.
Ainda estamos a falar, e já o tempo malfazejo nos terá escapado:
colhe o hoje e preocupa-te o menos possível com o amanhã

Continuemos neste percurso com a versão, poeticamente conseguida, de David Mourão-Ferreira:

Não procures, Leucónoe — ímpio será sabê-lo —,
que fim a nós os dois os deuses destinaram;
não consultes sequer os números babilónicos:
melhor é aceitar! E venha o que vier!
Quer Júpiter te dê inda muitos Invernos,
quer seja o derradeiro este que ora desfaz
nos rochedos hostis ondas do mar Tirreno,
vive com sensatez destilando o teu vinho
e, como a vida é breve, encurta a longa esp’rança.
De inveja o tempo voa enquanto nós falamos:
trata pois de colher o dia, o dia de hoje,
que nunca o de amanhã merece confiança.

Sigo com duas traduções a que chamaria, talvez, filológicas, pela sua tentativa de devolver em português o significado literal das expressões do poema original.

Primeiro, a mais antiga, da ilustre e operosa professora Maria Helena da Rocha Pereira:

Não pudemos, Leucónoe, saber — que não é lícito — qual o fim
que os deuses a ti ou a mim quererão dar,
nem arriscar os cálculos babilónios. Quão melhor é sofrer o que vier,
quer sejam muitos os invernos que Jove nos der, quer seja o último
este, que agora atira o Mar Tirreno contra as roídas rochas.
Sê sensata, filtra o teu vinho e amolda a curto espaço
uma longa esperança. Enquanto falamos, terá fugido o invejoso tempo.
Colhe a flor do dia, pouco fiando do que depois vier a suceder.

Agora a recente tradução de Pedro Braga Falcão substancialmente devedora da anterior, sobretudo nos versos 6 e 7:

Tu não perguntes ( é-nos proibido pelos deuses saber) que fim a mim, a ti,
os deuses deram, Leucónoe, nem ensaies cálculos babilónicos.
Como é melhor suportar o que quer que o futuro reserve,
quer Júpiter muitos invernos nos tenha concedido, quer um último,

este que agora o Tirreno mar quebranta ante os rochedos que se lhe opõem.
Sê sensata, decanta o vinho, e faz de uma longa esperança
um breve momento. Enquanto falamos, já invejoso terá fugido o tempo:
colhe cada dia, confiando o menos possível no amanhã.

Colhendo a lição das traduções anteriores, termino a propor uma minha versão para tão intemporal poema:

Não indagues, Leucónoe — sacrílego é sabê-lo — que fim, a mim e a ti,
os deuses destinaram, nem astrológicas(*)
previsões procures. Melhor é suportar o que vier,
quer muitos invernos Júpiter nos dê, quer seja o último,
este, que agora desfaz nas gastas rochas, as ondas do mar Tirreno.
Sê sensata, decanta o vinho, amolda à vida breve
a longa expectativa. Nós falamos, e o invejoso tempo voa:
colhe cada dia, acredita pouco no que amanhã virá.

(*) nec Babylonios traduzível por cálculos babilónicos ou babilónios, refere-se à arte da astrologia desenvolvida na Babilónia, e muito em voga entre os romanos à época, daí a versão que preferi.

Noticia bibliográfica

Tradução de David Mourão-Ferreira in Vozes da Poesia Europeia I, Revista Colóquio Letras, nº163

Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira in ROMANA, 6ªedição aumentada, Guimarães, 2010

Tradução de Pedro Braga Falcão in Horácio, Odes, Livros Cotovia, 2008

Fragmento in Literatura de Roma Antiga, Direcção de Mario Citroni, FCG, 2006. A revisão da tradução da obra é de Walter de Sousa Medeiros

Duas notas sobre a ilustração do artigo

Só podiam ser obras de Picasso dando conta do prazer de viver, as ilustrações para o artigo. Pela obra do artista, uma permanente alegoria desse prazer, e pelo meu gosto pessoal, que nesta obra encontro fonte de recorrente felicidade. E nela, o hedonismo da praia, o mar, o corpo ao sol, afinal o prazer do hoje, na sedução do beijo da amada que abre o artigo, e a inocente brincadeira familiar com que o fecho.

Picasso_Pablo-On_the_Beach

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O azul na obra de Van Gogh

01 Sexta-feira Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

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Van Gogh

Van_Gogh_Vincent-Prisoners_Exercising_after_DoreSão infinitas as abordagens à pintura de Van Gogh (1853-1890). No misto da violência da pincelada e da harmonia do colorido, o olhar perde-se na contemplação e a imaginação plana na pura magia da imagem.

Como há algum tempo não visitava esta pintura no blog, reuni um conjunto de reproduções que permite apreciar como o pintor trabalhou o azul na paisagem, no retrato e na natureza-morta, géneros onde Van Gogh foi maior entre os grandes.

Do diáfano ao trágico, a combinação da tonalidade com uma paleta em tons afins ou complementares, cria a atmosfera de cada pintura, onde a espessura e geometria da pincelada conduzem ao impacto profundo de cada obra junto do observador. Uma vez vistas, estas pinturas acompanham-nos pela vida, construindo um universo onde o belo caminha lado a lado com a dolorosa experiência do mundo.

Abro com as vistas de Paris a partir do quarto do pintor na rue Lepic em 1887.

Van_Gogh_Vincent-View_of_Paris_from_Vincents_Room_in_the_Rue_Lepic-1887_Spring-II

View of Paris from Vincent's Room in the Rue Lepic 1887

Passemos agora a dois dos fabulosos auto-retratos de 1887.

Van_Gogh_Vincent-Self-Portrait_with_Felt_Hat

Van_Gogh_Vincent-Self-Portrait-1887-IVNa pintura de flores há mais além dos famosíssimos girassóis. Uma amostra com castanheiro em flor, e um pomar florido em Arles em 1889. A pintura de amendoeira em flor com fundo azul já se encontra algures no blog.

Blossoming Chestnut Branches in a Vase 1890

Orchard in Blossom with View of Arles 1889

Voltemos à paisagem agora com montanha e campo.

Van_Gogh_Vincent-Ravine

Van_Gogh_Vincent-Plain_near_Auvers

E de novo o retrato com dois deserdados da vida.

Van_Gogh_Vincent-Sorrowful_Old_Man

Van_Gogh_Vincent-The_Man_is_at_Sea_after_Demont-Breton

Regresso à cidade com um quadro onde uma paleta reduzida a azul com pequenas quantidades de amarelo banha de serenidade um quotidiano a que o desenho e a composição espacial dão todo o impacto.

Van_Gogh_Vincent-The_Trinquetaille_Bridge

Termino com um dos retratos do Doutor Gachet e o retrato do Carteiro Joseph Roul1n nos quais, à penetração psicológica do desenho se acrescenta a mestria de pintor no uso da cor.

Portrait of Doctor Gachet 1

Van_Gogh_Vincent-Postman_Joseph_Roulin

A pintura de abertura do artigo é um dos quadros feitos no Asilo de Saint-Rémy entre Maio de 1889 e Maio de 1890, a partir de obras de outros pintores ou ilustradores. No caso é uma representação de prisioneiros em exercicio a partir de Doré.

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Pintura (II) Mestre da Abadia de Afflighem

29 Terça-feira Jan 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

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Mestre da Abadia de Afflighem

MASTER of the Joseph SequenceDo pintor flamengo conhecido como Mestre da Abadia de Afflighem, trabalhando no final do século XV, chegam-nos estes espantosos retratos supostamente de Filipe o Bom e da Joana a Louca, que me deixam embevecido a olhá-los.

É sobretudo o desacerto que preenche as pinturas, o que me encanta.

Por um lado a escala dá ao primeiro olhar a medida da irrealidade representada. Depois, a placidez do cenário com o improvável guerreiro Filipe o Bom em primeiro plano, segurando a espada em instável equilíbrio, e com os membros tolhidos na magnifica capa que o envolve, acabam por consolidar o fascínio, e levam-me longamente perscrutar a tela.

Do outro lado, Joana a Louca, grávida, com ar de menina surpreendida com a barriga a crescer, apalpa-a tentando perceber o que ali está.

Finalmente a luz que banha as pinturas, em suaves verdes e cores de terra, ajuda à placidez que no seu conjunto as pinturas transmitem.

Fazem-nos pressentir um mundo sem sobressaltos, mas também sem alegrias. Apenas a aceitação da respectiva condição ali se revela.

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Lao Tse: Tao Te King, Cap. 33 e 44

29 Terça-feira Jan 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Jan Steen, Lao Tse, Tao Te King

Steen_Jan-Celebrating_the_BirthHoje, mais ou menos toda a gente ouviu falar do livro Tao Te King — Livro do Caminho e do Bom Caminho de Lao Tse. É um livro para a vida. O subtítulo na versão portuguesa dá dele a medida exacta: Livro do Caminho e do Bom Caminho. Meditá-lo a espaços ajuda a recentrar a nossa atenção e opções de vida no que é essencial e vale a pena para nos sentirmos de bem connosco e com o mundo.

Venho hoje com dois capítulos do livro na notável e belíssima versão de António Miguel de Campos a partir de fontes chinesas, onde a forma adoptada pelo tradutor ganha, por vezes, a altura da mais nobre poesia.

“Quem morre sem desaparecer vive uma longa vida.“

Cap. 33

Quem conhece os outros é inteligente.
Quem se conhece a si próprio é esclarecido.

Quem vence os outros é forte.
Quem se vence a si próprio é poderoso.

Quem se contenta om o que tem é rico.
Quem avança com determinação tem orça de vontade.

Quem não abandona o seu lugar perdura.
Quem morre sem desaparecer vive uma longa vida.

Cap.44

A reputação ou a vida, o que nos é mais querido?
A vida ou o dinheiro, o que é mais importante?
Ganhar ou perder, o que é mais doloroso?

A verdade é que
gostar demais leva a grandes despesas.
Acumular demais leva a consideráveis perdas.

Sabendo quanto nos basta, evitam-se desgraças.
Sabendo parar, não se correm perigos
e poderemos assim para sempre perdurar.

Edição Relógio D’Água, Lisboa 2010

Ilustra o artigo uma pintura de Jan Steen (1625-1679), celebrando um nascimento.

É uma daquelas pinturas de género em que alguns holandeses foram mestres, e onde a vida corre na aceitação da sua condição.

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Confúcio – Analectos 7.26 e A Escola de Atenas de Raffaello Sanzio

29 Terça-feira Jan 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Chinesa, Prosas

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Confúcio, Raffaello Sanzio

Rafael - Fresco A escola de Atenas 1“Se considerarmos os grandes pais espirituais da humanidade—Buda, Confúcio, Sócrates, Cristo —, ficaremos impressionados por um curioso paradoxo: hoje, nenhum deles poderia obter sequer um modesto lugar de professor numa das nossas universidades. A razão é simples: as suas qualificações são insuficientes: não publicaram nada.”

Simone Leys na introdução à sua tradução de Analectos de Confúcio.

Abro com esta citação, talvez merecedora de reflexão, sobre o que todos os dias aceitamos não tanto como conhecimento, mas como saber.

Acompanho habitualmente a disposição psicológica com as leituras que de alguma forma me tranquilizam, e muitas vezes delas aqui dou conta. Hoje vem ao caso uma citação de Confúcio, pensador cujas máximas a espaços conforta saborear.

O Mestre disse: “Um santo é coisa que não ouso esperar encontrar. Dar-me-ia por satisfeito se pudesse encontrar um homem de bem.”
O Mestre disse: “Um homem perfeito é coisa que não ouso esperar encontrar. Dar-me-ia por satisfeito se pudesse encontrar um homem de princípios. Quando o Nada passa por Alguma coisa, o Vazio passa por Plenitude e a Penúria passa por Prosperidade, é difícil ter princípios.”

Analectos, 7.26

Tradução de António Gonçalves a partir das versões francesa e inglesa de Pierre Rickmans (Simone Leys).

Abre o artigo um detalhe do fresco de Raffaello Sanzio (1483-1520), Escola de Atenas, pintado na Stanza della Segnatura dos Palácios Pontifícios do Vaticano, representando Platão e Aristóteles.

Segue-se uma vista da totalidade do fresco e alguns detalhes deste, dando-nos uma visão idealizada da transmissão do saber no convívio de sábios e estudantes.

Rafael - Fresco A escola de Atenas 0

Rafael - Fresco A escola de Atenas 11

Rafael - Fresco A escola de Atenas 3

Rafael - Fresco A escola de Atenas 2

Rafael - Fresco A escola de Atenas 4

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Manuel Bandeira – fantasias de poeta sobre o amor

18 Sexta-feira Jan 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Manuel Bandeira, Matisse

Matisse desenhoO poeta é um fingidor, escreveu Pessoa num poema hoje lendário, e, com efeito, os poetas não são de fiar no que propagam, se não vejamos o exemplo de hoje, com Manuel Bandeira (1886-1968), em torno da alma.

No poema ARTE DE AMAR diz-nos o poeta:

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

enquanto noutro lugar escreve, no poema UNIDADE,

Minh’alma estava naquele instante
Fora de mim longe muito longe

Chegaste
E desde logo foi Verão

São dois poemas sobre o amor e o sexo, ou dizendo melhor, sobre o sexo e talvez sobre o amor. Em ambos é do físico que se trata, defendendo-se em ARTE DE AMAR o embaraço que é meter a alma nestas matérias, e por outro lado, em UNIDADE, aceitando que a volúpia cresce por contacto mas é a entrega da alma que permite o auge No momento fugaz da unidade.

Desfrutemos agora dos poemas depois deste desnecessário intróito.

ARTE DE AMAR

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Na outra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

UNIDADE

Minh’alma estava naquele instante
Fora de mim longe muito longe

Chegaste
E desde logo foi Verão
O Verão com as suas palmas os seus mormaços os seus ventos de sôfrega mocidade
Debalde os teus afagos insinuavam quebranto e molície
O instinto de penetração já despertado
Era como uma seta de fogo

Foi então que minh’alma veio vindo
Veio vindo de muito longe
Veio vindo
Para de súbito entrar-me violenta e sacudir-me todo
No momento fugaz da unidade.

1948

Muito antes escrevera o poeta, pondo os versos na voz de uma mulher, Vulgívaga que começa:

Não posso crer que se conceba
Do amor senão o gozo físico!
O meu amante morreu bêbado
E meu marido morreu tísico!
…
onde do sexo que degrada se fala.

Mas a obra do poeta é um mosaico, e falando da vontade de morrer que a plenitude do gozo traz consigo, encontramos este

FELICIDADE

A doce tarde morre. E tão mansa
Ela esmorece,
Tão lentamente no céu de prece,
Que assim parece, toda repouso,
Como um suspiro de extinto gozo
De uma profunda, longa esperança
Que, enfim cumprida, morre, descansa…

E enquanto a mansa tarde agoniza,
Por entre a névoa fria do mar
Toda a minh’alma foge da brisa:
Tenho vontade de me matar!

Oh, ter vontade de se matar…
Bem sei, é cousa que não se diz.
Que mais a vida me pode dar?
Sou tão feliz!

– Vem, noite mansa…

Nestas fantasias de poeta sobre o amor termino com

MULHERES

Como as mulheres são lindas!
Inútil pensar que é do vestido…
E depois não há só as bonitas:
Há as feias, certas feias em cujos olhos vejo isto:
Uma menininha que é batida e pisada e nunca sai da cozinha.

Como deve ser bom gostar de uma feia!
O meu amor porém não tem bondade alguma.
É fraco! fraco!
Meu Deus, eu amo como as criancinhas…

És linda como uma história da carochinha…
E eu preciso de ti como precisava da mamã e do papá
(No tempo em que pensava que os ladrões moravam no morro atrás de casa e tinham cara de pau.)

Arte de Amar e Unidade constam do livro Belo Belo
Vulgívaga pode ler-se no livro Carnaval
Mulheres foi publicado no livro Libertinagem
Felicidade encontra-se no livro O Ritmo Dissoluto

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Neste café quase deserto… com Mário Dionísio

18 Sexta-feira Jan 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Maria Helena Vieira da Silva, Mário Dionísio

Vieira_da_Silva_Maria_Helena_-Interieur_a_la_spiraleNeste cruzar de poesia e quotidiano com que me entretenho e ocupo o blog, percorro por vezes caminhos inesperados, como ir ao encontro deste poema de Mário Dionísio (1916-1993), poeta e critico outrora famoso e hoje empurrado para um inglório esquecimento.

46
Neste café quase deserto
não espero hoje ninguém
senão a cor difusa duma ausência
que não magoa e sabe bem

Uma palavra ou outra incompleta se recorta
na memória um minuto preguiçosa
só mal desperta quando a porta
se abre e fecha e entra alguém
que vai sentar-se longe ou aqui perto

O sol de inverno sinto-o nos dedos
como discreta ajuda carinhosa
a esta construída sonolência
tão espontânea sei lá em tanta gente

Que longe tudo o que procuro!

Ser como os outros todos um instante que seja é tão tranquilo e diferente!

sem planos sem segredos
sem história sem passado sem futuro

O poema pertence ao livro Memória dum pintor desconhecido, de 1965, onde os ecos do pintor, que Mário Dionísio também foi, se encontram.

Cruzando ainda um desolado quotidiano, surge-nos no mesmo livro Que bela manhã de névoa, reflexão em paisagem de gélida beleza, na busca dos outros em si:
Sozinho vou falando por ruas que não há e nos meus dedos / só de névoa outros sinto aflitos sussurrando / não pode ser não pode ser

48
Que bela manhã de névoa
para ser infeliz em companhia

Está frio está bom quase ninguém
nas ruas
E se alguém passa perto vai tão longe e sem ruído que se pensa
em algodão ou asas

Que cidade é esta?

A mágoa que me resta como sempre levo-a
escondida bem no fundo da algibeira
mas vejo-a solta em flocos sobre as casas e suspensa
pairar no céu que mal se vê e enredar-se
em quase roxas chaminés e nas arvores
nuas

Um só toque de verde e vermelho de Veneza deve dar
em muito branco de prata esta frieza de tempo cego e húmida surpresa
onde algures arde uma fogueira
que enxuto faz por dentro o que por fora é água
só e arrepio de gélida beleza

Que vasto o mundo e estranho e que minuto!
E que ilusão saber alguma coisa ou não saber!

Sozinho vou falando por ruas que não há e nos meus dedos
só de névoa outros sinto aflitos sussurrando
não pode ser não pode ser

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Paisagens geladas da pintura holandesa – Hendrick Avercamp

17 Quinta-feira Jan 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

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Hendrick Avercamp

Avercamp_Hendrick-Winter_Landscape_with_SkatersHouve um tempo em que a vida o permitia, e até convidava, a ocupar longas horas em familia fazendo puzzles. Fiz dezenas. Grandes, pequenos, fáceis e difíceis. Alguns eram reproduções de belas pinturas de paisagem onde perscrutávamos os detalhes que permitiam fechar o puzzle.
Entre outras, aprendi a conhecer e a amar as pinturas holandesas, sobretudo com paisagens geladas, onde o branco tornava o puzzle especialmente difícil de decifrar.
É na lembrança desses tempos que trago ao blog algumas dessas belas pinturas com jogos e brincadeiras no gelo do mestre Hendrick Avercamp (1585-1634).

Avercamp_Hendrick-Scene_on_the_Ice

Avercamp_Hendrick-Ice_Landscape

Avercamp_Hendrick-Scene_on_the_Ice_near_a_Town

Avercamp_Hendrick-Winter_Landscape-II

Avercamp_Hendrick-Winter_Scene_on_the_Canal

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Viver sempre também cansa. diz-nos José Gomes Ferreira

17 Quinta-feira Jan 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Crónicas, Poetas e Poemas

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José Gomes Ferreira, Pierre Soulages

Soulages_Pierre-Peinture-2005-IIToca a todos, uma vez por outra, a saturação de viver um certo quotidiano:

Tudo é igual, mecânico e exacto.

e invade-nos um desejo de parar tudo, por-lhe um fim:

Pois não era mais humano / morrer por um bocadinho, / de vez em quando, / e recomeçar depois, / achando tudo mais novo?

sem que isso tenha em si qualquer vontade de suicídio, que não temporário:

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses

Enfim, a insatisfação humana a governar-nos a vida.

É do que nos fala o poema de José Gomes Ferreira (1900-1985)

Viver sempre também cansa.

O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinzento, negro, quase-verde…
Mas nunca tem a cor inesperada.

O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.

E há bairros miseráveis sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida…

E obrigam-me a viver até à Morte!

Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima de um divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.

Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
“Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela.”

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo…

O poema foi publicado pela primeira vez em 1931 na revista Presença, e é o poema com que o poeta abre a edição da sua poesia completa: Poeta Militante.

 

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