Dom Francisco Manuel de Melo — 3 Sonetos

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Personagem de fábula e de lenda, escritor maior do nosso século XVII, foi Dom Francisco Manuel de Melo (1608-1666.10.13)  também poeta.

A sua poesia praticamente esquecida hoje, vitima de julgamentos datados, bem precisa de uma edição crítica que ao estudá-la, editando também a que permanece em manuscrito, chame a atenção para as várias pérolas que contém.

I

Responde a um amigo, que mandava perguntar a vida que fazia em sua prisão

Casinha desprezível, mal forrada;

Furna, lá dentro mais que inferno escura;

Fresta pequena, grade bem segura;

Porta só para entrar, logo fechada;

 

Cama que é potro; mesa destroncada;

Pulga que por picar faz matadura;

Cão só para agourar; rato que fura;

Candeia nem com os dedos atiçada;

 

Grilhão que vos assusta eternamente;

Negro, boçal; e mais boçal ratinho

Que mais vos leva que vos traz da praça!

 

Sem amor, sem amigo, sem parente,

Quem mais se dói de vós, diz: Coitadinho!

Tal vida levo. Santa prol me faça!

II

A  uma senhora que, estando de mui bom parecer, contraiu o parentesco de sogra

 

Quando deixareis vós de ser fermosa,

Minha senhora Dona Mariana?

Nunca jamais, se a vista não me engana,

Ou se a fé, mais que a vista, escrupulosa.

 

Filha vos conheci, e já vi rosa

Das que se preza Abril, Maio se ufana,

Que, em vendo essa beleza soberana,

Do prado se acolhia vergonhosa.

 

Conheci-vos esposa, em igual preço

Envejada das flores. Mas, que importa

Se mãe fostes, com raios semelhantes?

 

E até sogra, que agora vos conheço,

(contra o que dizem: nem de barro á porta…)

Aposto que inda sois como éreis dantes.

E ainda outro soneto:

III

 

Serei eu alguma hora tão ditoso,

Que os cabelos que amor laços fazia,

Por prémio de o esperar, veja algum dia

Soltos ao brando vento buliçoso?

 

Verei os olhos donde o sol fermoso

As portas da manhã mais cedo abria,

Mas em chegando a vê-los se partia,

Ou cego, ou lisonjeiro, ou temeroso?

 

Verei a limpa testa a quem a aurora

Graça sempre pediu? E os brancos dentes,

Por quem trocara as pérolas que chora?

 

Mas, que espero de ver dias contentes,

Se para se pagar de gosto uma hora,

Não bastam mil idades diferentes?

 

Se o corpo dos sonetos de Dom Francisco Manuel de Melo pode ser desigual, com o sublime ao lado do trivial, como,  julgo,  resulta evidente da escolha que aquí faço, as éclogas, de onde desapareceu o quadro pastoril, surgem como tese moral dialogada, dando a ver um curioso quadro mental da época.

Mas é sobretudo pelas cartas em verso que Dom Francisco Manuel de Melo merece ser lido, nomeadamente a carta conhecida como Canto da Babilónia:

 

Sôbolas águas correntes / de aqueles rios cantados / que a Babilónia levados / com lágrimas dos ausentes / chegam ricos e cansados.

 

Uma tarde me assentei / cheio de dor e fadiga / e hoje do que lá passei / me manda o tempo que diga / quanto em lágrimas direi.

 

Parafraseando Camões e a sua Sôbolos rios, Dom Francisco Manuel de Melo desenvolve em redondilha, ao longo de 500 versos, uma profunda e comovente reflexão sobre o sentido da vida tendo como ponto de partida os Salmos da Biblia e indo buscar à riqueza da sua experiência existencial, a matéria da sua formulação poética.

 

Mas tu, mas eu, que faremos, / Se nós mesmos fabricamos / O cavalo que adoramos / E dentro da alma metemos / O fogo em que nos queimamos?

Nota biográfica: As datas de nascimento e morte de Dom Francisco Manuel de Melo foram retiradas de

PRESTAGE, EDGAR, D. Francisco Manuel de Mello – Esboço biographico, Coimbra, Imprensa de Universidade, 1914.

Esta é uma obra fundamental no estudo da vida do autor e ainda hoje referência inultrapassada. Em diversos locais na net, nomeadamente  no site infopédia.pt, encontram-se referidas de forma errada, as datas de nascimento e morte do autor.

Um poema de Dom Manuel de Portugal

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A perfeição, a graça, o suave geito,

A primavera cheia de frescura

Que sempre em vós florece, a quem Ventura

E a Razão entregaram este peito;

 

Aquelle cristalino e puro aspeito

Que em si comprende toda a fermosura;

O resplendor dos olhos, e a brandura

De que Amor a ninguem quis ter respeito

 

Se isto, que em vós se vê, ver desejaes

Como digno de ser visto somente,

Por mais que vós de amor vos isentaes

 

Traduzido o vereis tam fielmente

No meio d’este peito onde estaes

Que, vendo-vos, sintaes o que elle sente.

 

Contemporâneo de Camões, a quem sobreviveu mais de 20 anos, é curta a obra que de Dom Manuel de Portugal (c. 1516 – 1606) se conhece.

Neste retrato de mulher, a delicadeza e o quase pudor da descrição comove pela perfeição, pela graça e pelo suave geito, tal como o poeta define a mulher a quem o dedica.

É um segredo da poesia portuguesa de meados de quinhentos, esta suavidade de linguagem em que as palavras transmitem todo o resplendor do que os olhos vêem associando delicadeza de imagens e profundidade de sentimento.

Na transcrição do poema conservei a ortografia adoptada por Carolina Michaelis de Vasconcellos na sua escolha das “Cem Melhores Poesias (Líricas) da Lingua Portuguesa”, onde o conheci.

DE TARDE – a minha escolha de Cesário Verde

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N’aquelle “pic-nic” de burguezas,

Houve uma coisa simplemente bella,

E que, sem ter historia nem grandezas,

Em todo o caso dava uma aguarella.


Foi quando tu, descendo do burrico,

Foste colher, sem imposturas tolas,

A um granzoal azul de grão de bico

Um ramalhete rubro de papoulas.


Pouco depois, em cima d’uns penhascos,

Nós acampámos, inda o sol se via;

E houve talhadas de melão, damascos,

E pão de ló molhado em malvasia.


Mas, todo purpuro, a sahir da renda

Dos teus dois seios como duas rolas,

Era o supremo encanto da merenda

O ramalhete rubro das papoulas!

Conservei a ortografia da 1ªedição

Retratos de mulher atravessam toda a curta obra de Cesário Verde, sempre belíssimos pela penetração psicológica de que dão conta, surpreendida esta num gesto, num estar, num vestir, em suma, nos pequenos nadas da vida que fazem grande a sua poesia.

Mas não é o retrato de mulher que me liga ao poema.

Estes quatro quartetos trazem-me de cada vez que os leio, ou recordo, a imagem perfeita da força da vida, vivida na sua essência através das coisas simples do mundo, exactamente sem historia nem grandezas, mas preenchida de momentos de plenitude absoluta como este “pic-nic” ao pôr-do-sol, a comer fruta.

Piadoxos + 1 poema depois do Dia da Mulher

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Contemporanea, publicada nos anos 20 do século XX, foi uma revista com um compromisso entre continuidade e inovação no contexto dos valores do tempo. Aí publicou Almada Negreiros em separata do seu nº7,  em Janeiro de 1923, o poema fundador do Modernismo Português, “A Scena do Odio”.

No seu conjunto, os 9 números publicados sem grandes hiatos entre Maio de 1922 e Março de 1923, contêm um repositório da imagem da mulher naqueles anos vinte, entre o mais conservador convencionalismo e alguns registos de escandalosa carnalidade.

Entre um e outro extremo, retiro do nº7 de Contemporanea estas máximas, de alguma forma espelho mental de uma época, assinadas por André Brun:

A superioridade do velho Deus sobre os homens – ou, pelo menos, a sua absoluta serenidade – provem de que tem sabido conservar-se solteiro. Os simples deuses cairam porque eram, como nós, uns femieiros.

As coisas deste mundo estão mal organizadas. Para que a vida fosse realmente interessante os homens deviam nascer aos trinta anos e as mulheres morrer aos vinte e cinco.

Há olhos velhacos de mulher, que levam o tempo a prometer o que sabem muito bem que o resto do corpo não está em condições de cumprir.

Diferente na perspectiva e coexistindo na mesma revista, aqui vai  um poema da poetisa maldita Judith Teixeira publicado desta vez no número de Natal de 1922:

O Meu Chinez

Nos olhos de sêda

traçados em viez

tem um ar tão sensual

o meu Chinez…


Vive sobre uma almofada

De setim bordada,

Pintado a côres.

Ás vezes

numa ansia inquieta

que eu não mitigo,

e que me domina

num sonho de poeta

ou de heroina,

fujo levando

o meu Chinez comigo!


E lá vamos!

Nem eu sei

para que alcovas orientais,

em paizes distantes,

realisar

as horas sensuaes,

as horas delirantes

com que eu sonhei…

…………………………….

Eu e o meu Chinez

temos fugido tanta, tanta vez!


Nota: conservei a ortografia da edição original na revista Contemporanea

À época, a afirmação poética do desejo sensual por parte de uma mulher fez escândalo e tem garantido à autora o silencio editorial até hoje. Podem procurar-se com lupa, e não se encontram, edições das obras dela.

Eis Bocage

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Eis Bocage

 

Magro, de olhos azuis, carão moreno.

Bem servido de pés, meão de altura

Triste de facha, o mesmo de figura.

Nariz alto no meio e não pequeno,

 

 

Incapaz de assistir num só terreno;

Mais propenso ao furor do que à terura;

Bebendo em niveas mãos por taça escura,

De zelos infernais letal veneno;

 

 

Devoto incensador de mil deidades

(Digo de moças mil) num só momento,

E somente no altar amando os frades,

 

 

Eis Bocage, em quem luz algum talento.

Sairam dele mesmo estas verdades

Num dia em que se achou mais pachorrento.

 

O homem é hoje talvez mais conhecido que o poeta. Dele apenas proliferam as edições da Poesia Erótica Burlesca e Satírica, permanecendo o restante da obra no quase esquecimento. Uma nova edição da obra completa encontra-se em curso de publicação, da responsabilidade de Daniel Pires, nas Edições Caixotim.

Embora as cartas de Olinda e Alzira sejam do melhor da poesia portuguesa, sobretudo a Epístola VI, há mais poesia de Bocage para além da erótica e satírica, e não é de somenos. O conjunto de sonetos e epistolas escritos no cárcere são de uma pungência difícil de igual, qual seja este:

Aqui onde arquejando estou curvado

À lei, pesada lei, que me agrilhôa,

De lugubres ideias se povoa

Meu triste pensamento horrorizado;

 

E dando conta do peso do isolamento em que se encontra continua, terminando com:

 

Só me cercam fantasmas da tristeza.

Que silencio! Que horror! Que escuridade!

Parece muda, ou morta a natureza.

 

Bocage, como outros poetas maiores de setecentos e oitocentos, levados pela luta entre a razão e a crença, confrontaram-se com Deus na sua poesia. Estou a lembrar-me de Guerra Junqueiro e Gomes Leal entre os maiores. Chegados ao fim da vida protagonizaram estrondosos arrependimentos e Bocage não foi excepção acabando, quando sentiu próximo o fim, a gritar:

Deus! Ó Deus!…quando a morte a luz me roube,

Ganhe um momento o que perderam anos,

Saiba morrer o que viver não soube.

 

Na consciência da finitude exclamou a crença na eternidade:

 

Já Bocage não sou!… À cova escura

Meu estro vai parar desfeito em vento…

Eu aos céus ultrajei! O meu tormento

Leve me torne sempre a terra dura.

 

 

Conheço agora já quam vã figura

Em prosa ou verso fez meu louco intento.

Musa!… tivera algum merecimento

Se um raio da razão seguisse pura.

 

 

Eu me arrependo! A língua quase fria

Brade em alto pregão à mocidade,

Que atrás do som fantástico corria:

 

 

Outro Aretino fui… A santidade

Manchei!… Oh! Se me creste, gente ímpia,

Rasga meus versos, crê na eternidade!

 

Felizmente podemos crer na eternidade e conviver com os versos de Bocage. E atrever-me-ia a dizer que foi mais que Aretino, de quem a humanidade conserva apenas os 26 sonetos luxuriosos, deixando no quase esquecimento o resto que também criou.

Conta a tradição sobre este último soneto Já Bocage não sou!… À cova escura, referida por Rebelo da Silva no estudo biográfico e literário que acompanha a edição das Poesias de Bocage preparada por Inocêncio e editada em 1853, que o poeta“dictou ainda o ultimo soneto, que o morgado de Assentis colheu dos seus lábios trémulos, e escreveu todo de seu punho. O derradeiro suspiro foi portanto um grito de arrependimento”.

 

A mão e o prazer – 2 poemas de José Régio

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Homem, mulher, e mão, são a substância para a inspiração poética de José Régio (1901-1969) na escolha poética de hoje.

Temos para inicio da história, a aventura da mão “Sábia talvez inconsciente que se passeia “Ali onde o desejo mais me dói”, “doseando com volúpia, uma ancestral sofreguidão levando-o até “àquele auge em que todo, em alma e corpo vou morrer…”.


Monólogo a dois

Sábia talvez inconsciente,

Doseando com volúpia, uma ancestral sofreguidão,

Ali onde o desejo mais me dói, mais exigente,

Me acaricia a tua mão.

De olhos fechados me abandono, ouvindo

Meu coração pulsar, meu sangue discorrer,

E sob a tua mão, na asa do sonho, eis-me subindo

Àquele auge em que todo, em alma e corpo, vou morrer…


Isto que a mão faz pelo prazer masculino tem a contrapartida no prazer feminino. E é acariciar com um dedo médio e um polegar, sabiamente manipulados, aquelas regiões onde o potencial erótico se esconde, para fazer uma mulher percorrer todo o alfabeto do prazer e não apenas de C a G, levando-nos com ela, à decifração daquele mistério feminino que cada mulher guarda em si para oferecer apenas a quem o souber merecer.

O conhecimento deste mistério  o poeta não desdenha quando nos conta: “crispou-se a minha mão sobre o teu sexo / …e a minha mão sondava/ … o teu mistério de mulher.”.

 

Poema

Crispou-se a minha mão sobre o teu sexo,

Fecharam-se-me os olhos sem querer…

De que abismos voava até ao fundo?

E a minha mão sondava

E Triturava

Aquele mundo

Tão pequenino e tão complexo:

O teu mistério de mulher.

 


De comum aos dois poemas temos os olhos fechados não em sentido figurado de alheamento ou não querer ver, nem numa qualquer deslocada reacção de pudor, mas no sentido físico de potenciação do prazer.

No primeiro poema, para na asa do sonho melhor ir subindo, e assim gozar o prazer até à última gota, enquanto no segundo poema se lhe fecham os olhos no gesto involuntária ditado pela volupia da mão sobre o teu sexo. Em ambos temos a verdade da vida dita na forma superior da poesia.


Publicados estes poemas ao virar os 60 anos, tempo bastante para fruir da vida os seus segredos e deles nos dar conta na sintese adequada à poesia, pertencem ambos ao ciclo “O Amor e a Morte” incluído no livro FILHO DO HOMEM publicado em 1961.


Orlando Innamorato — Um poema de António Feijó

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No deambular desenfadado com que vou lendo poesia, encontrei este Orlando Innamorato, pérola de ironia saída da inspiração de Ignácio de Abreu e Lima, pseudónimo de António Feijó (1859-1917), onde o poeta dá conta dos seus diversos amores e vicissitudes peculiares.

 

 

ORLANDO INNAMORATO

O meu primeiro amor

Chamava-se Maria

Leonor;

O segundo, Sophia

Eulália Pimentel;

O terceiro, que lembro com fervor,

Chamava-se Rachel…

Era um anjo exilado, uma pomba sem fel!

De todas foi a mais amada …

Quando a perdi (levou-a a Morte), oh dor immensa!

Ficou-me a alma encarcerada

Dentro da praça d’Olivença,

Onde Ella tinha o berço e a virginal morada!

Das outras, a primeira, a Maria Leonor

(esta lembrança é um horror!)

Trahiu-me com um primo, um primo d’ella e meu,

Estoira-vergas desvairado,

Só por tocar guitarra e por cantar o fado

Melhor do que eu.

A segunda, Sophia Eulália Pimentel,

Donzella gothica e feudal,

Foi apenas a visão, sonho de Menestrel

Em velha Côrte medieval…

Muitas outras depois, muitas outras mulheres,

Doido romantico, adorei;

Ah! quantas ilusões e quantos malmequeres

Por todas ellas desfolhei!

Mas nenhuma deixou recordação tão doce

Como a linda Rachel…

Ah! se ella viva fôsse,

Quanta impura triaga, quanto fel

Eu teria evitado

Como homem casado!

Mas … lá diz o ditado:

Casamento e mortalha

No céu se talha,

Embora ás vezes o casamento

Seja um tormento,

Que mais parece fogo do Inferno

Que bico de obra das mãos do Eterno…

Foi por essa razão

Que simultaneamente e sucessivamente,

Com o meu coração

Atormentado e doente,

Me consagrei a amar

As mais diversas criaturas,

Mas já sem intenção de me casar:

Alem do mais, por serem duras

As minhas circunstâncias actuaes,

E bicudos os tempos para taes

Cavallarias.

Jamais, depois, tomei mulher senão a dias!

É um deleite a variedade…

Para o provar, meu tio abbade,

Com eloquencia e grande erudição, citava

A resposta que Luis XIV sempre dava

Ao confessor,

Quando este lhe exprobava inconstancias d’amor:

Nem sempre gallinha,

Nem sempre rainha…

Imagina, por isso,

Oh Thomásia! Oh sereia!

Já não digo a paixão, mas o immenso derriço,

Que a ti me prende e enleia,

Vendo que já lá vão três semanas e meia

Desde que estás ao meu serviço!

Conservei a ortografia da 1ª edição do poema.

 

 

 

O poema foi publicado em 1926 no livro NOVAS BAILATAS, livro póstumo tal com SOL DE INVERNO publicado em 1922 e por muitos considerado como a sua obra-prima.

Os poemas reunidos em Bailatas e Novas Bailatas apresentam-se num registo “misto singular de ironia e de sensibilidade, de graça bufa e de melancolia , às vezes, parecem haver sido escritas por um Pierrot, ao mesmo tempo sentimental e charivárico”, como os caracteriza Luis de Magalhães na notável noticia biobibliográfica com que apresenta  SOL DE INVERNO.

É neste SOL DE INVERNO que Alberto d’Oliveira, dedicatário de ORLANDO INNAMORATO, num texto a que chamou “António Feijó, o que morreu de amor, faz através da correspondência trocada por ambos, uma comovida evocação dos últimos meses da vida do poeta após a morte da esposa.

À época, António Feijó era embaixador de Portugal na Escandinávia e os excertos da correspondência publicados deixam entrever o peso de se ter nascido meridional e poeta: “Do estio setentrional ficou-me apenas a inenarrável melancolia. Não imagina como pesa ao meu espírito esta paisagem, composta monotonamente de lagos, pinheiros e rochedos, sob uma luz pálida, misto de aurora e poente, tão triste, tão triste, que parece a obra de um Deus infeliz.”

É um poeta e escritor brilhante quem assim escreve.

Lida como um todo, a poesia de António Feijó revela, na sua perfeição formal, um exercício de inteligência como poucas vezes encontramos na poesia portuguesa.

E aqui fica a belíssima alegoria à morte do amor com o passar do tempo publicado em  SOL DE INVERNO:

 

O AMOR E O TEMPO

Pela montanha alcantilada
Todos quatro em alegre companhia,
O Amor, o Tempo, a minha Amada
E eu subíamos um dia.

Da minha Amada no gentil semblante
Já se viam indícios de cansaço;
O Amor passava-nos adiante
E o Tempo acelerava o passo.

– «Amor! Amor! mais devagar!
Não corras tanto assim, que tão ligeira
Não pode com certeza caminhar
A minha doce companheira!»

Súbito, o Amor e o Tempo, combinados,
Abrem as asas trémulas ao vento…
– «Por que voais assim tão apressados?
Onde vos dirigis?» – Nesse momento,

Volta-se o Amor e diz com azedume:
– «Tende paciência, amigos meus!
Eu sempre tive este costume
De fugir com o Tempo… Adeus! Adeus!»

 

 

 

Corpo de ânsia, eu sonhei … poema de José Régio

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A poesia de José Régio (1901-1969), ainda que pretenda exprimir o universal da condição humana, e com isso ser profundamente apelativa ao leitor, a matriz cristã em que esse universal radica cria alguma desconfiança nestes tempos incréus.

Acontece que em José Régio, entre as angustias e dúvidas próprias ao humano, e que a sua poesia aborda, surgem poemas de uma carnalidade avassaladora em que a forma poética nos deixa sem fôlego. São algumas dessas poesias as escolhas próximas.


Canção cruel

Corpo de ânsia,

Eu sonhei que te prostrava,

E te enleava

Aos meus musculos!


Olhos de êxtase,

Eu sonhei que em vós bebia

Melancolia

De há séculos!


Boca sôfrega,

Rosa brava,

Eu sonhei que te esfolhava

Pétala a pétala!


Seios rígidos,

Eu sonhei que os mordia

Até que sentia

Vómitos!


Ventre de mármore,

Eu sonhei que te sugava,

E esgotava

Como a um cálice!


Noticia bibliográfica:

O poema pertence a um ciclo “O Amor e a Morte” publicado por José Régio no livro FILHO DO HOMEM editado pela primeira vez em Maio de 1961. É dos livros menos populares do poeta.


Ânsia de amar! Oh ânsia de viver! – Soneto de Manuel Laranjeira

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A exclamação do verso  Ânsia de amar! Oh ânsia de viver! não é apenas retórica mas antes um grito de desejo, pois o poema começa assim:

Ânsia de amar! Oh ânsia de viver! /  um’hora só que seja, mas vivida / e satisfeita…

 

E para enfatizar a intensidade do desejo o poeta remata:

 

… e pode-se morrer, / – porque se morre abençoando a vida!

 

É pois um poema do desejo insatisfeito, dum tempo em que os prazeres do sexo eram, talvez, apenas sonhados como o poema refere,  e quantos como eu nunca a tiveram /  uma hora de amor como a sonharam!

quando decorriam da paixão por menina casadoira.

O poema  A TRISTEZA DE VIVER, é de Manuel Laranjeira (1877-1912) e foi dedicado à Exma. Snrª D. Dalila dos Reis Ferreira.

 

 

Ânsia de amar! Oh ânsia de viver!

um’hora só que seja, mas vivida

e satisfeita… e pode-se morrer,

– porque se morre abençoando a vida!

 

Mas ess’hora suprema em que se vive

quanto possa sonhar-se de ventura,

oh vida mentirosa, oh vida impura,

esperei-a, esperei-a, e nunca a tive!

 

E quantos como eu a desejaram!

e quantos como eu nunca a tiveram

uma hora de amor como a sonharam!

 

Em quantos olhos tristes tenho eu lido

o desespero dos que não viveram

esse sonho de amor incompreendido!

 

 

 

Noticia Bibliográfica

Personagem singular na sociedade portuguesa do dealbar do séc. XX, dele escreveu Unamuno “ Fué Laranjeira quien me enseñó a ver el alma trágica de Portugal”.

O seu Diário Íntimo, publicado postumamente em 1957, lendo-se como um romance, faz desfilar os íntimos, Miguel de Unamuno, companheiro de intermináveis colóquios, e o autor, “... devorado pelo pessimismo e o tédio, um certo freudismo avant la lettre amarfanha e exaspera a dolorosa galeria das mulheres que arrastam o seu destino nas desoladas páginas do Diário. A par disto, a revolta constante dum carácter insubmisso a todas as sujeições. Sente-se até ao lê-lo, em certas páginas de um realismo doentio e cru, ou quando lhe move a pena o imperativo idealista da consciência, uma antecipação e um antegosto, ora a Joyce, ora a Sartre, ora a Camus, ou aos três conjuntamente.”, para usar a penetrante descrição de Jaime Cortesão.

A poesia de Manuel Laranjeira encontra-se reunida no livro COMIGO publicado pela primeira vez em 1912.

 

Carícias sábias minhas mãos buscaram – Francisco Bugalho

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Hoje faço uma pequena digressão pela poesia de Francisco Bugalho (1905-1949), poeta presencista talvez um pouco esquecido.

À parte as angustias e alegrias que a vida nos trás e o poeta reflecte, há na poesia de Francisco Bugalho uma simbiose poética entre o sentir e a natureza que, ao lê-la, somos  amiúde tocados por momentos de verdadeira magia. São a cada passo os exemplos como este:

Beija-me o sol os vidros da janela / e a copa mansa daquela / sobreira quieta que me viu menino. /  Mergulho o meu olhar no cristalino / olhar desta manhã / como se fora / um vivo olhar  amado e fino / …

e os exemplos podem continuar:

Luar soturno caindo / dentre ramagens sombrias, / cria fantasmas, surgindo / de pálidas brumas frias. / Das chapas de água que as chuvas / deixaram, no chão, paradas, / a luz faz brancas ossadas; / …

Ou de novo a chuva nestoutro poema:

 

CHUVA, caindo tão mansa,

Na paisagem do momento,

Trazes mais esta lembrança

De profundo isolamento.

 

Chuva caindo em silencio

Na tarde, sem claridade…

A meu sonhar d’hoje, vence-o

Uma infinita saudade.

 

Chuva caindo tão mansa,

Em branda serenidade.

Hoje minh’alma descansa.

– Que perfeita intimidade!..

 

A intimidade  na poesia de Francisco Bugalho não é apenas com a natureza, e aqui temos em circunstancias menos bucólicas este SEDE para o mostrar:

 

SEDE

MAGOAVA os olhos, o sol.

E a fresta entreaberta da janela

Deixava entrar um bafo morno e mole.

 

Tua blusa amarela,

Naquele ambiente cálido e pesado,

Era uma flor de estufa que se abria

Donde surgia,

Como seu estame airoso e delicado,

O teu branco pescoço

E a tua cabeça meiga e fria.

 

Toda a frescura da manhã passada

E a doçura da tarde que viria

Fresca e perfumada,

Estava ali concentrada

Nessa loira cabeça sossegada,

Nessa flor amarela que se abria…

 

Assim, no ambiente do meu quarto,

Quando abro as asas do meu sonho e parto,

Como flor que guarda

Nas horas de canícula, na corola,

A gota de água heroica e resignada,

Da flor que és, consolador, se evola

Todo o frescor que a minha sede aguarda,

Silenciosa, cálida, pesada.

Mesmo quando o calor aumenta e o desejo desperta com CARÍCIAS sábias minhas mãos buscaram / Por teu corpo em botão … a associação à natureza permanece mas no auge do prazer o que importa é que

[Os] Corpos vergados como dois acantos, / Gritaram alto que era doce a vida.

Se o moço é poeta e o desejo desperta temos poesia,   erótica certamente.

E aqui fica nesta discreta evocação, o canto do acto amoroso.

CARÍCIAS sábias minhas mãos buscaram

Por teu corpo em botão, alvorescente;

E meus lábios sonâmbulos pisaram

Branduras de veludo alvo e dormente.

 

Triunfos nos meus olhos despontaram,

E gritos de clarim e de trombeta

Em meus ouvidos sôfregos soaram,

Como cantos de amor dalgum poeta.

 

Ritmos de doçuras e quebrantos,

Corpos vergados como dois acantos,

Gritaram alto que era doce a vida.

 

Apertei-te na ânsia de perder-te

E quando regressei, voltei a ver-te:

Vi-te ainda mais longe e mais perdida.

 

em C. Vide, 4 Janº 929

Noticia bibliográfica

O poema data do início da colaboração com a revista Presença e permaneceu inédito até à edição de Poesia de Francisco Bugalho pela Editora LG em 1998.

Dos poemas que referi apenas este CARÍCIAS sábias minhas mãos buscaram permaneceu inédito. Todos os outros foram publicados pelo autor.

Tendo publicado em vida 3 livros de poesia, Margens em 1931, Canções Entre Céu e Terra em 1940 e Paisagem em 1947, a edição da Editora LG que reuniu a poesia do poeta acompanhada de um estudo/prefácio de Joana Morais Varela, acrescentou um grupo de Dispersos e Inéditos. Em Apêndice nesta edição, surge este CARÍCIAS sábias minhas mãos buscaram e outro poema inédito, além de 2 textos em prosa publicados anteriormente na Revista Presença. Esta edição, modelar do ponto de vista bibliográfico, contém um importante conjunto documental e iconográfico sobre o poeta.