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Hoje faço uma pequena digressão pela poesia de Francisco Bugalho, poeta presencista talvez um pouco esquecido.

À parte as angustias e alegrias que a vida nos trás e o poeta reflecte, há na poesia de Francisco Bugalho uma simbiose poética entre o sentir e a natureza que, ao lê-la, somos  amiúde tocados por momentos de verdadeira magia. São a cada passo os exemplos como este:

Beija-me o sol os vidros da janela / e a copa mansa daquela / sobreira quieta que me viu menino. /  Mergulho o meu olhar no cristalino / olhar desta manhã / como se fora / um vivo olhar  amado e fino / …

e os exemplos podem continuar:

Luar soturno caindo / dentre ramagens sombrias, / cria fantasmas, surgindo / de pálidas brumas frias. / Das chapas de água que as chuvas / deixaram, no chão, paradas, / a luz faz brancas ossadas; / …

Ou de novo a chuva nestoutro poema:


CHUVA, caindo tão mansa,

Na paisagem do momento,

Trazes mais esta lembrança

De profundo isolamento.


Chuva caindo em silencio

Na tarde, sem claridade…

A meu sonhar d’hoje, vence-o

Uma infinita saudade.


Chuva caindo tão mansa,

Em branda serenidade.

Hoje minh’alma descansa.

– Que perfeita intimidade!..


A intimidade  na poesia de Francisco Bugalho não é apenas com a natureza, e aqui temos em circunstancias menos bucólicas este SEDE para o mostrar:


SEDE

MAGOAVA os olhos, o sol.

E a fresta entreaberta da janela

Deixava entrar um bafo morno e mole.


Tua blusa amarela,

Naquele ambiente cálido e pesado,

Era uma flor de estufa que se abria

Donde surgia,

Como seu estame airoso e delicado,

O teu branco pescoço

E a tua cabeça meiga e fria.


Toda a frescura da manhã passada

E a doçura da tarde que viria

Fresca e perfumada,

Estava ali concentrada

Nessa loira cabeça sossegada,

Nessa flor amarela que se abria…


Assim, no ambiente do meu quarto,

Quando abro as asas do meu sonho e parto,

Como flor que guarda

Nas horas de canícula, na corola,

A gota de água heroica e resignada,

Da flor que és, consolador, se evola

Todo o frescor que a minha sede aguarda,

Silenciosa, cálida, pesada.

Mesmo quando o calor aumenta e o desejo desperta com CARÍCIAS sábias minhas mãos buscaram / Por teu corpo em botão … a associação à natureza permanece mas no auge do prazer o que importa é que

[Os] Corpos vergados como dois acantos, / Gritaram alto que era doce a vida.

Se o moço é poeta e o desejo desperta temos poesia,   erótica certamente.

E aqui fica nesta discreta evocação, o canto do acto amoroso.

CARÍCIAS sábias minhas mãos buscaram

Por teu corpo em botão, alvorescente;

E meus lábios sonâmbulos pisaram

Branduras de veludo alvo e dormente.


Triunfos nos meus olhos despontaram,

E gritos de clarim e de trombeta

Em meus ouvidos sôfregos soaram,

Como cantos de amor dalgum poeta.


Ritmos de doçuras e quebrantos,

Corpos vergados como dois acantos,

Gritaram alto que era doce a vida.


Apertei-te na ânsia de perder-te

E quando regressei, voltei a ver-te:

Vi-te ainda mais longe e mais perdida.


em C. Vide, 4 Janº 929

Noticia bibliográfica

O poema data do início da colaboração com a revista Presença e permaneceu inédito até à edição de Poesia de Francisco Bugalho pela Editora LG em 1998.

Dos poemas que referi apenas este CARÍCIAS sábias minhas mãos buscaram permaneceu inédito. Todos os outros foram publicados pelo autor.

Tendo publicado em vida 3 livros de poesia, Margens em 1931, Canções Entre Céu e Terra em 1940 e Paisagem em 1947, a edição da Editora LG que reuniu a poesia do poeta acompanhada de um estudo/prefácio de Joana Morais Varela, acrescentou um grupo de Dispersos e Inéditos. Em Apêndice nesta edição, surge este CARÍCIAS sábias minhas mãos buscaram e outro poema inédito, além de 2 textos em prosa publicados anteriormente na Revista Presença. Esta edição, modelar do ponto de vista bibliográfico, contém um importante conjunto documental e iconográfico sobre o poeta.

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