Um Peido Alfabético em verso, datado de 1710 – Autor Anónimo

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Com uma enorme vénia ao editor pelo imenso prazer proporcionado com a leitura de tanta ignorada poesia portuguesa dos séculos XVII e XVIII, que o seu trabalho tem revelado, transcrevo este folguedo escatológico, como lhe chamou.

UM PEIDO ALFABÉTICO em verso, datado de 1710

Transmitido por três testemunhos manuscritos e anónimo em todos eles, … a  paródia  começa  por  se  revelar  ao  nível  dos  elementos paratextuais,  a  começar  pelo  cólofon:

«Com  licença  da  Câmara,  à  custa  da Limpeza»;

«Impresso em certa parte, na Oficina Secreta».

Também o desenho e o acróstico sublinham de imediato esta vertente subversiva do poema, apoiada num humor  por  vezes  bastante  feliz:

«É  Entendido porque  tudo  o  que  se  lhe  ouve  é muito fundo e ninguém lhe sabe responder com palavras».

Mas  a  parte  mais  interessante  da  obra  é,  sem  dúvida,  o  ABC,  que  adopta  a forma da oitava-rima. Cada estrofe é uma acumulação de sinónimos metafóricos, justificados de forma muito sucinta.

Peido Alfabético definido e explicado por um Mestre de Meninos de Lisboa

Para todos os autores que escreveram sobre a regra do ABC

Com licença da Câmara, à custa da Limpeza

Parte 2.ª

No ano de MDCCX

Impresso em certa parte, na Oficina Secreta

Tem o Peido em cada uma das letras do seu nome a melhor prova das suas virtudes, e em cada uma das suas virtudes se prova toda a grandeza do seu nome.

É Prudente porque ninguém o ouve diante de pessoas de autoridade; recolhe a prosa e, quando muito, larga pela boca pequena  algum  suspiro  ou  bocejo,  que  mal  o  percebem  os ouvidos,  ainda  que  o  entendam  os  narizes.

É  Entendido porque tudo o que se lhe ouve é muito fundo e ninguém lhe sabe responder com palavras.

É Inteiro porque ninguém o viu partido e porque se não sabe desdizer tanto que chega a falar.

É Desinteressado porque sempre dá, e de tal sorte que se dá a si mesmo.

É Orgulhoso porque finge várias formas para não ser   conhecido,   e   para   o   seu   intento   sai   quase   sempre disfarçado; com tudo se parece, mas nada o iguala, e melhor o louva a seguinte quintilha acróstica:

Para todos é igual
Este que Peido se chama.
Juntamente é bem e mal;
Dele corre boa fama
Onde se sabe o que vale.

Para quem ler

Com licença das barbas dos Leitores,
Veremos no Alfabeto, pois nos toca,
Que cousa é Peido e todos seus Louvores,
Para com isto se tapar a boca
A alguns reverendíssimos autores,
Cuja arrogância a tanto nos provoca;
Porque as sinificações que dão à vida
No nosso Peido têm melhor saída.

Ao seu discurso muito pouco deve
Quem mostra no ABC que é erudito
E que estas letras são as de que escreve,
Sendo assunto comum e infinito.
Responder aos seus livros bem se atreve
Qualquer rapaz dos meus, e por escrito!
Mas porque logo aqui se lhe responda,
O Peido também tem letra redonda.

Se no Peido consiste a nossa vida,
E se a vida do Peido é dependente,
Faltou a vida em Peido definida,
Que o Peido à vida é mais conveniente.
A vida é Peido se não tem saída,
O Peido é vida quando sai contente,
E pelo Peido a vida é, num instante,
Por detrás Peido, e vida por diante.

Argumento da Obra

A B C D E F G H I L M N O P Q R S T V X Z

A
É o Peido natural de que tratamos,
Para prova de tudo que dizemos,
Árvore de que os traques são os ramos,
Átomo tal que só com um olho o vemos;
É Ave que sem tiro não caçamos,
Abismo em que de riso nos perdemos,
Água de trovoada, e é Aurora
Que por um olho mesmo ri e chora.

B
É Banquete de cousa já comida,
Posto que os pratos sejam mal cheirosos,
É Bainha em que sempre vai metida
A espada dos narizes mais mimosos;
É Barranco em que certa está a caída,
É Baile de instrumentos, mas ventosos,
Em que todo o rojão é de assobio;
É Barro, porém Barro de Bacio.

C
É Cárcere em que tudo são fedores,
Cítara que apertada desafina,
É Carreira em que atrás vão os maiores,
É Casa em que ninguém co’a porta atina,
E fogem dela os mesmos moradores;
É Cana que com o vento abaixo inclina,
É Censura entre gente bem criada
E é Carga em todo o ventre bem pesada.

D
É Desterro cruel dos circunstantes,
Depósito fiel de todo o flato,
Demarcação das nalgas mais distantes,
Delírio do besbelho mais sensato;
Desacordo de quem dormia dantes,
Desafio da voz de qualquer gato,
Quando de dentro saï com voz cheia
E apertada no cu fica co’ meia.

E
É Espelho de vidro embaciado,
É Espinho que as almorreimas pica,
Engodo para quem não tem cursado,
Empréstimo que em casa sempre fica,
Estio quando é seco ou vem molhado,
Estopa que arde e o fogo não publica;
É Estrela de rabo, ou é cometa,
Mas a sua influencia é mais secreta.

F
É Fábula que finge voz humana,
A quem já venerou a Antiguidade,
Folha que de papel rasgada engana,
Fio podre que quebra de humidade;
É Flor que pelo cheiro desengana,

Faísca a que qualquer ventosidade
Faz acender, e é Feno que arde logo;
É Fantasma sem ser, Fumo sem fogo.

G
É Galé quando dentro está forçado,
E se acaso se solta sai fugido;
É Guerra em que o nariz é o soldado,
Só do fumo da pólvora vencido;
Girândola de fogo tão calado
Que se acende depois de ter ardido;
É Grimpa de tão fácil movimento
Que aponta aqui e ali com todo o vento.

H
Hospedagem de pobres quando há frio,
Hospital, mas é só dos enjeitados;
É Hora de cagar dada em bacio,
Que tem quartos traseiros e atrasados,
Horror porque o lugar é mui sombrio;
É História de casos engraçados,
Porque faz rir e acaba com estouro,
Holocausto, pois saï como um touro.

I
É Íris que aparece em trovoada
Por sinal de bonança aos flatulentos,
Incêndio cuja chama já apagada
Ainda faz fugir aos mais nojentos,
Inverno em tempestade desatada,
Porque sempre debaixo são os ventos,
Jogo do cu e Ironia, se bem noto,
E Imagem verdadeira de um arroto.

L
Labirinto se há muitos circunstantes,
Porque ninguém acerta com a saída;
É Lua que também tem seus minguantes,
É Laço em que afogar-se pode a vida,
Luz cujo morrão fede aos mais distantes;
É recolhido às tripas grande Lida,
É Luto, pois talvez chora no cabo
E também porque [sempre] sai de rabo.

M
Manhã que quase sempre traz orvalho,
Miséria quando a fralda se salpica;
É Moinho de vento sem trabalho,
Maná que em tudo fede em má botica;
É Música que canta por atalho,
Mas dos papéis a letra não explica;
Na pressa com que saï é Momento,
E a toda a parte corre como vento.

N
É Nau que sai das costas com tromenta
E largando os traquetes faz viagem;
É Noute que fantasma representa,
É Névoa de que só faz mal a aragem,
É Nuvem negra, como se exp’rimenta,
Porque lança trovões, mas de passagem;
Neve, mas de sorvete ou limonada,
E porque é ar o Peido, o Peido é Nada.

O
Do Sol da Índia o Peido é Oriente,
E por isso não luz neste Orizonte;
Lá debaixo aos Antípodas é quente,
Porque nasce entre um e outro monte;
Órgão que vaza o vento de repente,
Sem que ninguém o tanja nem aponte;
É Outono no muito que semeia
E é Orvalho se o cu tem diarreia.

P
Primavera de mal cheirosas flores,
De várias tintas é fresca Pintura,
Porque borradas se lhe vêm as cores;
É Pomo que apodrece e podre dura,
Porta que abrem Senhoras e Senhores,
Roncando-lhe a couceira e fechadura;
Péla que o vento vaza, mas no cabo
É Pó que se levanta e Pó Diabo.

Q
Questão entre os narizes e os ouvidos,
Mas sempre o nariz prova a consequência;
É Queixa porque se ouvem os gemidos,
É Queda que evitar pode a prudência,
Mas mais perigo têm os mais sofridos,
Pois no Peido também há continência;
Se há peleja ou revolta na barriga,
É Quitação que as tripas desobriga.

R
É Rio, porém Rio de Cuama,
Que de um olho entre montes nasce e corre
E por suas cascatas tem mais fama,
Mas não pode saber-se adonde morre;
É Raio que nos altos mais se inflama,
É Relógio que cursa e mais discorre,
É Roda, mas de traques Roda viva,
É Rosa, mas é Rosa purgativa.

S
É Seta que voando fere e mata,
É Sono porque ronca fortemente,
É Sonho de cagar sem patarata,
É Sombra porque assombra a muita gente,
Silogismo sutil que se desata
E que se prova logo em continente;
É Sumário de crimes muito atrozes,
É Solfa porque faz todas as vozes.

T
É Teia que se rasga, cujo pano
Tem só para fundilhos serventia;
Teatro em que as figuras são engano,
Transformação que faz a fantesia;
É Trânsito perciso a todo o humano,
É Tragédia que tem a Poesia,
De verso solto menos elegante,
Porque Peido não acha consoante.

V
É Vestido que em todo o corpo ajusta
E de todo o nariz sai à medida,
Vapor do cu que com o fedor assusta,
Vidro que para copo se convida,
Vento cuja tormenta muito custa,
Voz em todas as línguas entendida;
E para desengano da verdade,
É o Peido das tripas Vaidade.

X
É Xara porque corre velozmente,
É Xadrez, jogo só [de] desenfado,
E lhe quadra este jogo propriamente
Porque o Peido de estômago danado
É Rei, a Bufa Dama, e juntamente
Os traques são Peões, e está ganhado
O jogo só com o Xaque aos circunstantes,
Pois sem esperar mate fogem antes.

Z

Zizânia de visitas em estrado,
Onde a dúvida faz desconfiança,
Pois negando que é seu quem o tem dado,
Na roda se enjeitou como criança;
É Zunido ao nariz que causa enfado,
Zombaria que não se estranha em França,
Zodíaco que os sinos toca em cheio,
E é Zona que o cu parte pelo meio.

Noticia Bibliográfica:

Consta o poema Peido Alfabético definido e explicado por um Mestre de Meninos de Lisboa da publicação FOLGUEDOS ESCATOLÓGICOS INÉDITOS DO SÉCULO XVIII — Versos de Entrudo em metáforas fedorentas, uma Peidorrada e três Peidologias, editado pelo Professor Francisco Topa, em Edição do Autor, em 1998, no Porto.

Nesta transcrição suprimi a noticia das variantes assinaladas pelo editor, e respeitando às 3 diferentes versões manuscritas de que o autor refere a existência.

Os anos 50 e algumas canções menos ouvidas

 

 

Os jovens agora nos setenta e mais anos tiveram na adolescência, como todas as gerações, aventuras, amaram, mas sobretudo viveram o nascimento do que hoje conhecemos como musica pop.

Para lá do rock n’roll, surgiram nessa época as musicas que permitiram socialmente, e pela primeira vez em séculos, ao dançar, sentir as curvas do corpo do par.

Foram aquelas canções melodiosas, que ainda hoje comovem qualquer alma sensível, a operar o prodígio, e foram elas, também, o motor de tantas aventuras amorosas por esse mundo. Há anos alguém se interrogava sobre quantas crianças tinham sido concebidas ao som da voz de Frank Sinatra. É um pouco o mesmo com estas outras canções de que falo.

Umas são arqui-conhecidas e não vou ocupar espaço do blog com elas. Deixo, por isso, algumas que conheceram um menor favor das gerações seguintes.

Sobre os interpretes a Wikipedia fornece informação extensa e fiável. Vamos por isso às canções.

My Future Just Passed na voz de Carmen McRae, gravada em 1955 e saida no LP Torcky

It’s almost tomorrow – primeiro o sucesso de 1955 com os seus criadores: The Dream Weavers

e a seguir a voz quente de Jo Stafford também sucesso, embora menor, em 1955.

Por fim Pretend com  a versão que Eileen Barton cantava quando nasci.

Pretend you’re happy when you’re blue

It isn’t very hard to do

And you’ll find happiness without an end

Whenever you pretend.

Remember anyone can dream

And nothing’s bad as it may seem

The little things you haven’t got

Could be a lot if you pretend

You’ll find a love you can share

One you can call all your own

Just close your eyes, (s)he’ll be there

You’ll never be alone.

And if you sing this melody

You’ll be pretending just like me

The world is mine, it can be yours, my friend

So why don’t you pretend?

Picasso Suite 347

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Enquanto não regressa em força a poesia, deixo à admiração dos visitantes algumas gravuras da Suite 347 de Picasso, produzida em 1968.

O nome decorre do total de gravuras produzido entre 16 de Março e 5 de Outubro de 1968. Constituem um tributo do artista aos luxuriantes prazeres de Eros quando tinha apenas 87 anos.

No seu conjunto traduzem uma soberba afirmação da sexualidade como uma revivificante força na vida e na arte.

Durante oito meses, os impressores Aldo e Pierre Crommelynck, instalaram-se na Villa de Picasso em Mougins, na Riviera francesa, com um prensa litográfica que permitiu a impressão das litografias à medida que iam sendo criadas directamente na chapa pelo mestre. O conjunto constitui uma assombrosa variedade das aptidões do artista no dominio da técnica da litografia.

Exibidas simultâneamente na Galeria Louise Leiris em Paris e no Art Institute of Chicago, nesse inverno, circularam posteriormente por algumas capitais do mundo. e os 50 exemplares assinados da tiragem desapareceram nos cofres dos coleccionadores.

Afortunadamente, a Random House/Maecenas Press de Nova Iorque procedeu à edição integral do conjunto em dois  volumes, em 1971.

Uma pequeníssima parte das gravuras foi objecto de publicação num  número especial da revista Avant Garde de Nova Iorque em 1969, com um belissimo arranjo gráfico.

E agora algumas gravuras, não muitas, pois o espaço do blog não o permite.

Gosto e memória e as estatísticas do blog

 

Pensado o blog como um arquivo de gosto e memória, numa perspectiva inteiramente pessoal, fui sendo surpreendido ao longo do passado ano com o aumento gradual do número de visitas ao blog.

Tendo iniciado o blog em Janeiro de 2010, no mês de Fevereiro o blog tinha tido 25 visitas e durante todo o mês de Março, 50. E assim se manteve com pequenas oscilações, até que em Agosto do ano passado deu um salto para 188 visitas nesse mês. De então para cá o crescimento do número de visitantes tem sido exponencial.

Terminado o ano com 601 visitas em Dezembro de 2010  e um total no ano de 2010 de menos de 2500 visitas, decidi continuar o blog alargando os assuntos, como, de resto, já tinha esboçado em Dezembro.

E a surpresa aconteceu: se em Janeiro de 2011, com 629 visitas, o número de visitas esteve próximo de Dezembro de 2010, Fevereiro deste ano disparou para quase o dobro (1147 visitas) e Março atingiu provavelmente um pico que não voltará a acontecer: 2099 visitas.

Ou seja, neste Março 2011, o blog quase tantas visitas como em todo o ano de 2010.

Grande parte deste acréscimo deveu-se a o blog ter sido blog em destaque no wordpress, o que leva a reforçar a minha convicção de que os computadores gostam de poesia, e agora também, de fotografia e música.

Para quem chega ao blog é irrelevante esta audiência. Os 4 fiéis que seguem o blog quase desde o início concluirão que há mais gente a gostar de por aqui andar. Para mim tem sido um gosto escrever no éter e seguir, no anonimato das visitas, a forma como cada assunto encontra a quem interessar.

Quase invariavelmente, o que eu suponho interessar a pouca gente acaba por ter picos de procura.

Há um comportamento dos visitantes que me deixa especialmente satisfeito, e é, ver como alguém que em resultado de uma pesquisa no Google chegou ao blog, surpreendido aqui permanece, lendo um e outro artigo, procurando saber mais sobre o autor, em suma, navegando dentro do blog, que é para isso que ele existe.

Tendo como tema dominante a poesia, continuarei a alargar os assuntos para além do que já existe. Sempre sem preocupações de actualidade.

Obrigado pela companhia silenciosa que me dispensaram.

 

Eduardo Libório – a descoberta de um poeta

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A PESCA LUMINOSA

Poema cósmico em dois quadros

– Nos carrapitos da lua

– A Pesca luminosa

Numa noite de verão, à beira-mar,

Senti a tentação de ver a lua ao pé…

Abri a janela, comecei a trepar,

 

– E encarrapitei-me nos carrapitos dela…

 

Tive então outra ideia genial:

Naquela posição excepcional

Porque é que não havia de pescar?…

 

Arranquei um cabelo ao luar,

Fiz dum gancho da lua, o anzol,

Atirei-o ao ar – e apanhei o sol.

(pag. 51)

 

Surpresa deslumbrada é como posso descrever o encontro, ontem, nas prateleiras de uma livraria, com a poesia de Eduardo Libório (1900-1946).

Uma linguagem poética de desarmante singeleza prende-nos pelo encanto e inesperado de temas e ideias, enunciadas com uma limpidez de cristal.

Ecoam aqui formas do que viria a ser alguma poesia surrealista surgida bem depois da morte do poeta ocorrida em 1946 ( a primeira reunião do Grupo Surrealista de Lisboa realizou-se em fins de Outubro de 1947, na pastelaria A Mexicana). Nomeadamente, é alguma poesia de Alexandre O’Neill que me ocorre ao ler grande parte destes poemas.

 

POEMA GIRATÓRIO,

COM “FIGURAS DE PASSAR”,

DEDICADO PELO LIBÓRIO

A QUEM O QUEIRA ACEITAR

Passa a trisreza, a dor, passa o cuidado,

Passa o prazer – o amor passa também…

– E passam as saudades do passado

Se no passado não passou alguém…

 

Ilusões – esperanças passageiras,

Passos falsos – e “passas” verdadeiras,

Pássaros, Passarões – e Passarolas

Uns à solta e outros em gaiolas,

Todos vão, de passagem, pelo ar…

 

Passam, a passear, os mensageiros

De mensagens passadas – e a passar…

Passam na vida, a passo, os passageiros

Para o mundo onde havemos de voltar…

 

Passam dúvidas, fés – passam certezas

Do que já se passou – ou vai passar

E, por vezes, perpassam baronesas

Num passeio, de passagem – a girar.

(pag. 72)

 

 

A ideia do fluir do tempo que subjaz ao POEMA GIRATÓRIO, regressa em diferentes épocas e de variados pontos de vista, quais sejam:

 

 

O HOMEM

O menino começou

À espera que a vida chegasse…

A vida chegou

– e o menino ficou à espera…

 

Que bom que era,

Se ela viesse ter comigo…

Há tanta coisa que a vida tem:

Gente que vai… Gente que foi… Gente que vem…

Que bom que era, se ela viesse!…

Oh! Quem me dera!…

 

A vida veio

– E o menino ficou à espera…

(pag. 115)

 

 

 

HISTÓRIA DO HOMEM QUE TINHA UM RELÓGIO

 

Foi assim que a história começou:

 

 

Era uma vez um homem que tinha um relógio.

Dava corda ao relógio, o relógio andava, o tempo passava,

E o homem ficava a olhar,

O relógio a andar, e o tempo a passar.

 

 

Mas um dia o homem não deu corda ao relógio:

O relógio parou – o tempo passou.

 

 

Então o homem nunca mais deu corda ao relógio.

 

 

E foi assim que a história acabou.

(pag. 47)

 

 

Acrescento outro poema:

 

Eu não sei o que hei-de fazer…

Se ando depressa, o tempo parece que quer parar…

Se ando devagar, é o tempo que passa a correr…

 

 

O tempo é que vai dizer:

 

 

“Vai mais depressa!…

Vai mais devagar!…”

 

 

Mas o tempo não quer falar,

– E eu não sei o que hei-de fazer…

(pag. 149)

 

E já agora também:

 

O VIAJANTE

Gosto tanto de sonhar

– E de dormir…

Esquecer o tempo que passou

E não pensar no que há-de vir…

 

Viver a vida verdadeira

A noite inteira:

Fechar os olhos – e partir…

 

Tudo em silêncio, tudo apagado,

E eu, suspenso,

Maravilhado

A espreitar o que está do outro lado…

 

Se me esquecesse de voltar…

 

Oh! Se pudesse ficar assim,

Horas sem fim

Sem acordar.

A viajar dentro de mim…

(pag. 65)

 

 

Com este O VIAJANTE, passamos para outro dos temas desta poesia, presente ja em A PESCA LUMINOSA: o desejo de evasão e a fantasia no regresso a um território de infância:

 

 

LENDA DA MENINA FLOR EM BOTÃO

No meio das flores perfumadas

Do misterioso jardim,

Entre as papoilas encarnadas

Do canteiro de alecrim,

Desabrochou certa manhã de verão

Uma flor maravilhosa

E esquisita:

Uma flor mais bonita

Que a Rosa-do-Japão.

 

Nasceu, sorriu,

Olhou assim…

E toda a gente viu

Que aquela flor não era igual

Às outras flores daquele jardim…

 

Tinha o olhar azul e transparente,

Como as águas de luz e cristal

Dos mares do Oriente.

 

Não a vêem do outro lado da moldura

Com o cestinho de costura

Na mão?

– Esta menina pequenina

É Leonor

A menina-flor em botão.

(pag. 80)

 

 

BERCEUSE

O menino adormece, feliz e risonho

E o Anjo da Guarda vem, de mansinho,

E leva o Menino para o país do Sonho…

 

Através do céu estrelado,

Vão assim, as criancinhas,

Numa ascensão e num sorriso,

Para o país distante que está do outro lado,

– Lá onde fica o Paraíso…

 

E a mãe, junto do berço, olha o menino e fica a pensar:

“O céu é tão lindo!

Se ele ma vai por lá ficar!…”

 

Então a Virgem, que também sabe o que é ser mãe,

Trás o menino feliz e risonho,

Desse país distante que é o País do Sonho…

(pag. 82)

 

Constituindo um conjunto homogéneo com o propósito de oferta, o grupo de poemas JARDIM é na verdade um Bestário, temática muito pouco vulgar na poesia da época. É possivel que o autor conhecesse os poemas do bestário de Apollinaire, musicados por Poulenc.

Dos catorze poemas que o compõem, escolho quatro:

 

A GIRAFA

Ó Mãe,

Porque é que a girafa tem

O pescoço assim?…

É para a gente saber

Que bicho é, não é,

Ó Mãe?…

 

Pois já se vê que sim,

Pudera!…

Se não fosse o pescoço que ela tem

Não se sabia bem

Que bicho era…

(pag. 93)

 

 

 

OS MACACOS

Os macacos não são homens

Porque não sabem falar…

Mas quando estão distraídos

Parecem homens a pensar…

(pag. 95)

 

 

OS CARACÓIS

São adivinhos

Disfarçados…

– É por isso que eles têm dois pauzinhos

Com olhinhos

Erguidos para o ar…

 

Há tantas maravilhas escondidas,

Tantas coisas perdidas, esquecidas…

– São essas coisas que eles querem encontrar…

(pag. 101)

 

 

O PAPAGAIO

Não é homem por um triz:

Até na voz

É como nós

Fala, não pensa – também não sabe o que diz.

(pag. 103)

 

 

 

E com esta lapidar definição do género humano avanço para a escolha final com alguma poesia irreverente:

 

 

HISTÓRIA DO HOMEM QUE ATIROU A BOLA AO AR,

E FICOU A OLHAR COMO QUEM JÁ ESTAVA

A VER O QUE IA ACONTECER

I

O homem atirou a bola ao ar

E ficou a olhar,

Como quem já estava a ver

O que ia acontecer…

II

A bola ficou no ar,

E o homem ficou a olhar,

Como quem já estava a ver

O que ia acontecer.

(PAG. 70)

 

 

 

PRISÃO DE VENTRE

Toda a gente

Mente

Quando diz que tem prisão de ventre

 

A prisão felizmente

Não é à frente

É do lado oposto

Do rosto

 

A outra face da fachada

É que está tapada

 

O verdadeiro

Carcereiro

É o traseiro

(pag. 64)

 

 

A esta ironia acrescento dois retratos de mulher:

 

Não era uma “menina fina”,

Mas também não era uma “menina vulgar”

Tinha certo ar de distinção

Que não era de esperar

Em pessoas da sua condição.

 

Quer fosse bem, quer fosse mal,

Nunca escutava…

Mas ouvia com atenção tão natural

Que, sem querer,

Nos fazia pensar no que ficava por dizer…

 

Diziam, a meia voz:

“Coitada!…”

 

– Ela olhava para nós,

E não dizia nada.

(pag. 141)

 

 

TIROLINA I

Tirolina

A minha amante,

Não é uma menina

Petulante

Nem uma mulher fatal

 

Tem uma boca bestial,

Com dentes de camelo,

E um sinal peludo

Com caracóis e tudo

De cabelo…

 

Tirolina

Tem a forma estranha – e curiosa –

Duma montanha

De gelatina

Cor-de-rosa…

 

A voz guinchante

De Tirolina

Tem qualquer coisa de gemebundo

Que faz lembrar

A buzina

Apavorante

Que há-de tocar no “fim do mundo”…

30 de Novembro de 1935

(pag. 61)

 

TIROLINA II

Tirolina a minha amante

– Que gordura!…

Parece mesmo um elefante,

Uma colina oscilante

De fressura,

Uma vasta montanha

De gelatina e banha,

– Que ternura!…

 

Usa baton, usa “Komol”, usa carmim…

– Mas é bela

E gosto dela

Assim.

(pag. 62)

 

 

Encerro a visita com o poema que de alguma forma condensa o prazer inesperado deste encontro, …/ – Achei uma coisa que já não há

 

 

AMIZADE

Alguém um dia me perguntou:

– o que é que achou?

– Eu não achei coisa nenhuma…

– Nem sequer uma?

Vá, diga lá…

– Pensando bem, talvez achasse…

– Então falasse…

– Achei uma coisa que já não há…

(pag. 71)

 

Eduardo Libório (1900-1946) músico de profissão e artista multifacetado, era até Dezembro de 2010 um poeta desconhecido do público, quando a sua poesia acompanhada por cartas e desenhos, saiu na INCM, na colecção arte e artistas.

O corpus poético é um conjunto de menos de 80 poemas, reunidos por Gil Miranda, que preparou e organizou a edição.

É também de Gil Miranda a noticia biográfica com que abre a edição dos poemas, desenhos e correspondência, rigorosa e culturalmente informada.

É uma edição modelar e um serviço impar prestado à cultura portuguesa, que a partir de agora conta com mais um poeta de vulto.

Nota importante: Nenhuma das imagens que acompanham o texto é obra de Eduardo Libório.

 

 

Manhã, ergo cogito – Um poema de Fiama

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Hoje a vida levou-me ao encontro de campos e prados logo pela manhã.

Andando, acabei por chegar ao mar.  O oceano, sereno, deixava ver um horizonte sem mácula.

Encontro em Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007) os poemas próximo desta atmosfera plácida e escolho

 

Manhã, ergo cogito


A janela pálida reflorida

no ar cada vez mais visivel.

Também o prado revive

longe, depois de ter bebido

a sua água que dá

ao ar visibilidade.

Tão nítido, estendido numa colina.

 


Noticia bibliográfica:

O poema de Fiama Hasse Pais Brandão pertence ao grupo ENTRE OS ÂMAGOS incluído em Obra Breve e publicado por Editorial Teorema em 1991.

Portas em Tavira e um poema de José Régio

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Razões familiares ligam-me a Tavira especialmente nas oitenta e duas Primaveras decorridas desde 21 de Março de 1928. É um pouco da história deste período que estas portas contam.

Enquanto acesso à entrada num mundo, qualquer que ele seja, a porta marca um corte entre um antes e um depois.

Entre o eterno e o efémero decorrem os dias de uma vida, no silencioso suceder das estações, qual fluir do rio que corre na minha cidade, ia dizer aldeia como Pessoa, ainda que a ligação do poeta a Tavira seja através de Álvaro de Campos e não do seu mestre Caeiro.

Afinal é em José Régio e no seu livro Música Ligeira que encontro o poema adequado a transmitir esta serenidade primaveril, satisfeita de uma vida vivida sem deliberadamente prejudicar ninguém:

Viver à beira da morte

No gosto de mais um dia,

Nem eu diria

Que tão pouco me conforte.

 

Mas para quem

Não tem senão esse pouco,

Seria louco

Perder o pouco que tem.

 

Gozar o que, sem futuro,

Perdura uns breves instantes,

Não era dantes,

Mas hoje, é o bem que procuro.

 

Mais uma vez brilha o Sol!

E é de prever que à tardinha

Desponte a Lua, vizinha

Do resplendor do arrebol.

 

Talvez que a noite comprida

Traga outra manhã, depois.

Um dia e outro, são dois.

Não são dois dias a vida?

 

Nem eu diria

Que tão pouco me conforte:

Viver à beira da morte

No gosto de mais um dia.

Circuladô de fulô: o poema de Haroldo de Campos e a interpretação de Caetano Veloso

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Fazendo parte dos 15 textos que compõem as prosas poéticas Galáxias,  escritas entre 1963 e 1976, circuladô de fulô… escrita em 1965,  juntamente com e começo aqui e meço aqui … , encontra-se entre o melhor da poesia de Haroldo de Campos (1929-2003) e para alguns, entre os melhores poemas brasileiros de sempre.

Em 1959, Haroldo de Campos, então com 29 anos, viajou pela Europa, deixando o Brasil pela primeira vez. Viagem de formação que incluiu entre outros eventos, uma visita a Stockhausen em Colónia, então chefe de fila da vanguarda musical europeia, e a Ezra Pound em Rapallo.

De regresso ao Brasil pelo nordeste, visitou outras cidades nordestinas antes do retorno a S. Paulo. Segundo o próprio, este percurso final da viagem foi  uma descoberta do Brasil por via do mundo.

A memória desta viagem pelo outro Brasil foi mais tarde evocada em circuladô de fulô… que aqui arquivo na fragmentada versão do texto cantada por Caetano Veloso, a qual repete em refrão texto que não se encontra repetido no poema original.

circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie
porque eu não posso guiá eviva quem já me deu circuladô de
fulô e ainda quem falta me dá


soando como um shamisen e feito apenas com um arame
tenso um cabo e uma lata velha num fim de festafeira no
pino do sol a pino mas para outros não existia aquela música
não podia porque não podia popular aquela música se não
canta não é popular se não afina não tintina não tarantina e
no entanto puxada na tripa da miséria na tripa tensa da mais
megera miséria física e doendo doendo como um prego
na palma da mão um ferrugem prego cego na
palma espalma da mão coração exposto como um nervo
tenso retenso um renegro prego cego durando na palma
polpa da mão ao sol


[circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie
porque eu não posso guiá eviva quem já me deu
circuladô de fulô e ainda quem falta me dá]

 


o povo é o inventalínguas na malícia da maestria no matreiro
da maravilha no visgo do improviso tenteando a travessia
azeitava o eixo do sol

 

[circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie
porque eu não posso guiá eviva quem já me deu
circuladô de fulô e ainda quem falta me dá]

 


e não peça que eu te guie não peça despeça que eu te guie
desguie que eu te peça promessa que eu te fie me deixe
me esqueça me largue me desamargue que no fim eu acerto que
no fim eu reverto que no fim eu conserto e para o fim me
reservo e se verá que estou certo e se verá que tem jeito e se
verá que está feito que pelo torto fiz direito que quem faz
cesto faz cento se não guio não lamento pois o mestre que
me ensinou já não dá ensinamento


[circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie
porque eu não posso guiá eviva quem já me deu
]

Caetano Veloso canta circuladô de fulô

circuladô de fulô… é um tributo à tradição de ministreis nordestinos que a musica capta na perfeição. Os primeiros versos, cantados depois como refrão, parecem ser uma citação directa de alguma canção ouvida no local por Haroldo de Campos.  Sobre ela parece nada se saber.

Os poemas podem encontrar-se in Os melhores Poemas de Haroldo de Campos, 3ª ed. S. Paulo: Global, 2001

Nota:

Shamisen: é uma espécie de alaúde japonês.

Gueixa tocando Shamisen para convidados, Japão, sec. XVIII

A ANA FLOR – Um poema Dadaísta de Kurt Schwitters

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A ANA FLOR

Ó tu, bem-amada dos meus vinte e sete sentidos, amo-te!

Tu teu tu a ti eu a ti tu a mim-Nós?

Isso (diga-se de passagem) não é daqui.

Quem és tu, inumerável fémea? Tu és – és tu? –

Há quem diga que deves ser – deixa-os dizer, os que não sabem

como o campanário está de pé.

Trazes um chapéu nos teus pés e andas com as

mãos, com as mãos é que tu andas.

Olá roupas vermelhas e tuas, justas em pregas brancas. Vermelha

te amo, Ana Flor, vermelha a ti amo – tu teu tu a ti eu a ti tu a mim –

Nós?

Isto (diga-se de passagem) pertence ao fogo frio.

Vermelha flor, vermelha Ana Flor, que diz a gente?

Tema de concurso:          1. Ana Flor tem um passarinho.

2. Ana Flor é vermelha.

3. De que cor é o passarinho?

Azul é a cor do teu cabelo louro.

Vermelho é o arrulho do teu pássaro verde.

Tu, simples rapariga com o vestido de todos os dias, tu querida verde

criatura, amo-te – tu teu tu a ti eu a ti tu a mim –

Nós?

Kurt Schwitters (1887 – 1948), artista plástico longo tempo esquecido, membro da vanguarda alemã de entre-guerras, embora não se encontrando incluido entre os fundadores do  movimento Dada em Berlim, participou no período de entre-guerras neste movimento ao lado dos protagonistas franceses Tristan Tzara e Hans Arp.

Autor de um dos exemplos pioneiros da poesia sonora, a sua Ursonate (1922-32) que executou e ampliou ao longo dos anos, pode ouvir-se neste site: AQUI

ou ouvida na leitura ao vivo de Jaap Blonk AQUI

Pioneiro na realização de Performance plásticas, foi o inventor das colagens em relevo e paralelamente à criação artística de colagens, produziu espaços interiores com características escultóricas de que o mais famoso terá sido o Merzbau, o qual consistiu na transformação de algumas divisões da casa da família em Hamburgo.

Em 1919 conheceu a fama enquanto artista plástico, e nesse mesmo ano publicou An Anna Blume – ou A Ana Flor como Jorge de Sena traduziu, a qual tradução escolhi para assinalar no blog o Dia da Mulher e assim dar alguma espécie de resposta aos visitantes, pois as pesquisas têm chovido nestes dias, em busca de poemas alusivos à mulher.

Voltar a Veneza ao ler Kenneth Rexroth a pretexto de Gaspara Stampa

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Enquanto a luz de Canaletto / e de Guardi se torna em luz de / Turner,…

Ler estes versos faz-me voar a memória. O Carnaval acabara e raras máscara passeavam ainda a nostálgia de um tempo irremediavelmente sem regresso.

Vinte e cinco anos tinham passado.

Chegados a Santa Luzia e deixado o comboio, lá vamos levados pela multidão e arrastando o trolley pela calçada a caminho da cidade. A paragem do vaporetto fica longe do hotel, é melhor ir a pé.

O cheiro da cidade, o colorido do mar e, sobretudo, a luz, são os mesmos. Os reflexos vindos dos canais, a atmosfera do lugar, tudo permanece igual à memória. Com Veneza as memórias são inevitáveis. E o desejo irreprimível de flanar, olhar o mar, as pessoas, as ruas, descer a S.Marcos ao pôr-do-sol, intacto aí está. A perenidade da paisagem dá-nos o sentido da eternidade.

Mas vamos à cidade. Acabado o Carnaval, turistas são poucos. O sol brilha a espaços, e o frio da laguna desperta todos os sentidos mal pomos pé fora do hotel.

De novo a luz. O deslumbre do olhar é a constante do dia. Ao longo das horas os mesmos locais mudam de atmosfera mantendo sempre o encanto inesquecível. São os jogos de reflexão na água  e a variação da luz nas fachadas e palácios que inebriam e encantam.

Em Veneza passear é ir ao sabor dos cheiros, dos pormenores das esquinas, e perder-se no labirinto de ruelas e pontes. Descobrir a cada passo o detalhe que comove e enche a alma do prazer de ser surpreendida. Depois, há as igrejas, anódinas na fachada e todas, sem excepção, repletas de tesouros no interior, tantos deles por descobrir, afastadas que estão dos guias que fazem correr os turistas. Como valem a descoberta!

Os museus desmancham quaisquer planos e a excitação aumenta com as descobertas. A pintura de Tintoreto, agora restaurada, resplandece na Scuola S. Rocco. Os retratos a pastel de Rosalba Carrera são a revelação. Afinal ainda há pintura a descobrir.

Outro dia é para a Galeria della Academia. Os olhos vêem, mas a mente não retém. É demasiada beleza concentrada. Temos que voltar.

E as pessoas. Os venezianos são poucos. Habitam a cidade, mantêm-na vida. Saturados dos turistas guardam educadamente as distâncias. É preciso tempo em Veneza para que ela e eles se deixem conhecer. Forasteiros são muitos. Alguns ficam presos para sempre. Outros desejam voltar a Veneza e morrer.

Para um melómano o ar de Veneza trás à lembrança Wagner, Stravinski, e sobretudo, Vivaldi de cuja musica, mesmo a religiosa, salta uma irreprimível vontade de viver. É a melhor associação que faço a Veneza.

Para o fotógrafo, Veneza é uma dádiva. As cambiantes da luz com o passar das horas, o inesperado dos pontos de vista e a irresistível paisagem, criam a urgência do regresso quando a partida é inevitável.

Voltar, ter tempo para estar, para olhar, para sentir, para descobrir.

A Veneza podemos voltar, mesmo quando lá fomos felizes. Sempre.

Mesmo quando

Tudo o que tenho por companhia / são as duas metades do meu coração.

Afinal comecei e acabei o texto com versos de um poema de Kenneth Rexroth (1905 – 1982), NUMA PÁGINA DAS “RIME” DE GASPARA STAMPA.

Poeta norte – americano, figura participante do grupo em torno de quem a Beat Generation se desenvolveu, é mal conhecido em Portugal.

É de novo pela mão de Jorge de Sena que nos chegam algumas traduções entre as quais as que aqui transcrevo.

 

NUMA PÁGINA DAS “RIME” DE GASPARA STAMPA

Enquanto a luz de Canaletto

e de Guardi se torna em luz de

Turner, e as cúpulas da Salute

começam a absorver a tarde,

bebo chocolate e Vecchia

Romagna, esse tão estimável

brandy, na esplanada do

Café Internacional,

e leio estas ardentes

páginas que se estorcem. O amor foi

também para ti uma agonia, Signora,

e deu em nada depois

de um preço tão terrível.

Envolto nos sussurros

do fim do dia nesta cidade quieta,

aonde o mais sonoro som humano

é o de passos, estou sozinho

com a minha vida. Na noite passada

tomei uma gôndola até além da Giudecca,

directamente dentro do luar.

Quando voltei os frades

cantavam as matinas em San Giorgio

Maggiore. E penso em se é possível

estar-se mais só do que numa gôndola

em Veneza, à luz da lua cheia

de Junho. Tudo o que tenho por companhia

são as duas metades do meu coração.

Depois do poema-pretexto para voltar a Veneza, mais dois poemas do autor em tradução de Jorge de Sena, acompanhadas dos respectivos originais.

O ABUTRE

São Tomás de Aquino pensava

que a fêmea era lésbica

e o vento a emprenhava.

Se buscas os factos da vida,

os intelectuais papistas

podem ser muito enganadores

Vulture
St. Thomas Aquinas thought
That vultures were lesbians
And fertilized by the wind.
If you seek the facts of life,
Papist intellectuals
Can be very misleading.

O LEÃO

É o chamado rei

dos animais. De hoje em dia

há tantos em jaulas

quantos os há fora delas.

Se te oferecem uma coroa, recusa.

Lion
The lion is called the king
Of beasts. Nowadays there are
Almost as many lions
In cages as out of them.
If offered a crown, refuse.

Saber mais sobre Kenneth Rexroth (1905 – 1982):

Na página http://www.bopsecrets.org/rexroth/ pode ser encontrada informação abundante e fiável sobre este notável autor, tradutor, e cultor de um espírito universalista raro em escritores norte-americanos.

Se do nosso poeta sabemos pouco em Portugal, que dizer da personalidade e da obra de Gaspara Stampa (1523 – 1554)?

Embora para os conhecedores de Rilke não seja um nome desconhecido, pois foi este quem a colocou como emblema dos amantes a quem a infelicidade fez maior que o próprio destino ao referi-la na Primeira Elegia de Duíno, e sobretudo nos Cadernos de Malte Laurids Brigge, onde a compara com Soror Mariana Alcoforado, encontrar a sua poesia traduzida em português é procurar agulha em palheiro.

Vasculhadas as antologias que encontrei à mão é  na insubstituível Rosa do Mundo p.877, que encontro a tradução do Soneto CCVIII de Gaspara Stampa da responsabilidade de Jorge Henrique Bastos:

O amor transformou-me em fogo vivo,

como uma nova salamandra no mundo,

tal como o animal menos raro

que no mesmo sitio nasce e morre.

 

Todo o meu prazer e o deleite

é viver ardendo e não sentir dor,

sem preocupar-me com quem me impele

se tem ou não alguma piedade de mim.

 

Apenas o primeiro ardor estava extinto

foi outro a incendiar o Amor, ainda mais vivo

e maior do que todos os que provei.

 

Não me arrependo de arder de Amor,

se alguém roubar de novo o meu coração

há-de ficar com o meu ardor satisfeito.

 

E a versão original em italiano:

Soneto CCVIII

Amor m’a fatto tal ch’io vivo in foco,

qual nova salamandra al mondo, e quale

l’altro di lei nom men stranio animale,

que vive e spira nel medesmo loco.

 

Le mie delizie son tutte e ‘l mio gioco

viver ardendo e non sentire il male,

e non curar ch’ei che m’induce a tale

abbia di me pietà molto ne poco.

 

A pena era anche estinto il primo ardore,

che accese l’altro Amore, a quel ch’io sento

fin qui per prova, più vivo e maggiore.

 

Ed io d’arder amando non mi pento,

pur che chi m’ha di novo tolto il core

resti de l’arder mio pago e contento.

A obra de Gaspara Stampa, morta aos trinta e um anos, foi publicada pela irmã no ano da sua morte. Consta de 311 sonetos, elegias e madrigais.

Ao que sei, apenas em italiano é possível encontrar em volume a obra completa, disponível em edição de bolso da Rizzoli.

Em francês, a edição de uma antologia bilingue com tradução de Sophie Basch, e uma modelar apresentação pela tradutora, é mais uma das pérolas da colecção Orphée publicada pela editora La Différence.