O prosaico quotidiano

De algum tempo a esta parte almoço habitualmente perto do atelier à sexta-feira, no mesmo restaurante, grão cozido com bacalhau. O bacalhau é de qualidade variável, o grão é sempre saborosissimo. É um restaurante antigo, data do inicio da ocupação do bairro, o final dos anos quarente e o inicio dos anos cinquenta do século XX. A clientela é maioritariamente de moradores e com o envelhecimento da população residente, são mais mulheres que homens de idade, os frequentadores. Os homens morrem primeiro, como se sabe. Dá-se até o caso de, como os empregados lá estão desde miúdos, acompanharam o envelhecimento dos clientes e guardam, com a maior parte, um certo carinho, dando ao local um peculiar ar de familia. Quando acontece algum cliente ficar doente e acamado, lá vão a casa, com o almoço, ora um ora outro dos empregados. A mesma atenção acontece quando se mudaram para algum lar de terceira idade. Aí vão buscar a cliente ou o cliente para trazer a almoçar indo depois dar um pequeno passeio. Casos há em que até partilham a gestão da conta bancária onde a pensão é depositada.

A conversa que aqui trago ocorreu numa dessas sexta-feiras.Tinha acabado de almoçar e com o café peguei no jornal. A senhora que entretanto se sentara na mesa ao lado perguntou-me:

– Acha que ainda vale a pena ler jornais? Dizem cada um a sua coisa. Os meus filhos, um é economista e o outro empresário repetem-me:

– Deixa lá mãe, não te preocupes. Mas preocupo-me. Tenho acções e não percebo nada do que se passa. Como é que podemos ter uma opinião, não lhe parece? No natal passado foi um quebra-cabeças com as prendas. São 10 netos e seis bisnetos, nem sei o que lhes dar. Resolvi escolher moedas estrangeiras que sobram das viagens e dar umas quantas a cada um. Não sei quanto valem, os pais que as troquem, disse-lhes. Um dos bisnetos tem agora 8 anos e quando viu as moedas perguntou-me:

– oh bivó tu és negociante de moedas? Veja lá o que são os miúdos hoje.

Vim de taxi da Lapa até aqui. Moro ali na Praça de Londres mas fiquei num dos meus filhos. Eles não querem que esteja sozinha mas hoje em dia não se pode meter ninguém em casa, é uma preocupação e eu o dinheiro que dou por mais bem empregado é até o das refeições. Não há preocupações de compras, nem de cozinha nem nada. Ah mas o taxista não se calou toda a viagem, até paguei o dobro do costume. Mas o homem tinha muita razão. Contou-me quase a vida toda. Tinha-se separado da mulher agora aos 64 anos. Ela é que o deixara. Fora viver com um brasileiro e a mulher deste. Uma dessas novas religiões que aí há. Agora parece que vivem os 3 juntos. A mulher quer o divorcio mas ele é católico e não quer dar-lho. Além de que tinha ainda que lhe dar metade do valor da casa. Uma tragédia. Não tinha o dinheiro, não tinha idade para pedir empréstimo e se vendesse a casa, com o que sobrava não conseguia comprar outra. Enfim problemas. Ainda me contou que encontrou um dia a mulher com o brasileiro e este a rir-se lhe disse:

– Ainda havemos de gozar com o seu dinheiro. Imagine. O homem pensou em matá-la e tudo, mas um amigo conhecia um guarda na prisão do Linhó e para o dissuadir levou-o lá dizendo-lhe:

– Vê bem, tu máta-la, és condenado e passas aí dentro o resto dos dias. É isso que queres?

Bem, o homem parece que se acalmou. E também matar é pecado.

Agora, disse-me então, que se calhar vai para o Brasil. Um rapaz de um café perto de onde mora falou-lhe dos preços das casas e do custo de vida na terra dele, uma vilória no interior do Brasil e o homem anda a fazer contas à vida para ver se emigra para lá. São só tragédias por todo o lado.

Tinha que ir trabalhar, levantei-me e despedi-me:

– Então muito boa tarde, gostei muito.

Um pouco da pintura de Van Gogh e Vincent, a canção

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Toda a gente parece saber tudo sobre Van Gogh(1853-1890) pelo que me escuso à redundância.

A pintura de Van Gogh foi a primeira pintura que conheci, dentre os incontornáveis génios que povoaram a humanidade, aí por meados dos anos sessenta, e gostei dela desde o primeiro olhar.  Encontrei-a através de uns folhetos publicados no Brasil e distribuídos em Portugal, e que fizeram uma colecção, Génios da Pintura chamada. O fascículo sobre Van Gogh abria a colecção, se bem recordo.

Não têm sido muitas as oportunidades de  ver a pintura de Van Gogh, e tantas pinturas há que apenas conheço de fotografia. Não é o mesmo. O impacto da escala, sobretudo, mas também o da textura, são cruciais para a emoção de ver. Com as fotos fica apenas a impressão primeira e o apetite para o real. Possam estas fotos abrir esse apetite a alguém.

Estas são apenas alguma imagens de pinturas, porventura menos conhecidas, aqui deixadas para alegrar alguém querido e está longe. Permito-me apenas referir quanto a constância da paleta cromática faz prodígios de um quadro para outro em que é usada, variando da tristeza à alegria e da turbulencia à quietação, apenas graças à força do desenho conjugado com a aplicação do colorido e à variação da textura na aplicação da tinta.

 Acrescento uma canção da minha juventude, Vincent, de Don McLean, escrita em memória de Van Gogh e façamos assim uma visita ao baú. À data da publicação, era moda entre as raparigas, o uso de calções curtos e justos, chamados Hot Pants. Nas festas de sábado à tarde, dançar esta Vincent, agarrado como era de norma, fazendo descer as mãos ao longo das costas até às redondas saliências modeladas pelos calções era uma antevisão adolescente de paraiso.

Vamos então à canção escrita e interpretada por Don McLean

Dois sonetos de Bocage sobre o amor

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Lendário é o nome do poeta, menos conhecida é a sua poesia, sendo pesquisa de alfarrabista procurar a sua obra.

Arquivo no blog dois sonetos de Bocage (1765-1805) sobre o amor físico:

Um, remate da paixão:

Mais doce é ver-te de meus ais vencida, / Dar-me em teus brandos olhos desmaiados / Morte, morte de amor, melhor que a vida!

A Anália

Se é doce no recente, ameno estio
Ver toucar-se a manhã de etéreas flores,
E, lambendo as areias os verdores,
Mole e queixoso deslizar-se o rio;

Se é doce no inocente desafio
Ouvirem-se os voláteis amadores,
Seus versos modulando e seus ardores
De entre os aromas de pomar sombrio;

Se é doce mares, céus, ver anilados
Pela quadra gentil, de Amor querida,
Que esperta os corações, floreia os prados,

Mais doce é ver-te de meus ais vencida,
Dar-me em teus brandos olhos desmaiados
Morte, morte de amor, melhor que a vida!

Outro, desta vez gozo imaginado:

Que pode contra Amor a tirania, / Se as delicias que a vista não consente, / Consegue a temerária fantasia?

Debalde um véu cioso, ó Nize, encobre
Intactas perfeições ao meu desejo;
Tudo o que escondes, tudo o que não vejo
A mente audaz e alígera descobre.

Por mais e mais que as sentinelas dobre
A sisuda Modéstia, o cauto Pejo,
Teus braços logro, teus encantos beijo,
Por milagre da ideia afouta e nobre.

Inda que prémio teu rigor me negue,
Do pensamento a indómita porfia
Ao mais doce prazer me deixa entregue.

Que pode contra Amor a tirania,
Se as delicias que a vista não consente,
Consegue a temerária fantasia?

 

Nota sobre a fotografia:

Desconheço o autor da foto que encima o artigo. Encontrei-a num desses blogs que arquivam fotografias ao gosto dos seus promotores, sem nenhuma indicação de autoria. É pena. A foto convida-nos a adivinhar a perfeição do rosto a partir do desenho da boca, encaminhando a imaginação pela harmonica curvatura da cabeça. Escolhi-a a pensar com o poeta: Debalde um véu cioso, ó Nize, encobre / Intactas perfeições ao meu desejo;

Se é verdade que nas coisas de sexo importam sobretudo os lugares onde entramos e renascemos de prazer, o rosto dá uma iluminação inefável a cada morte de amor, melhor que a vida!

Poesia de Li Ch’ing-chao

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Nesta volta pela poesia produzida no mundo à roda do século XII e que chegou até nós, depois dos Carmina Burana, da poesia de Francisco de Assis, de poesia do Al-Andaluz com o meu conterrâneo  ABÛ ‘UTHMÂN e AL-MU’TAMID, também cantado por Carlos Cano, tendo ainda viajado brevemente até à Persia à poesia de Omar Jayyam, viajamos hoje até à China e à poesia de Li Ch’ing-chao (1084-1150).

Comecemos com uma versão em português de Gil de Carvalho:

Primavera em Wuling

Parou o vento. Até a poeira é perfumada.

Já é tarde. Não me apetece pentear-me.

As coisas estão aqui mas ele o homem não – tudo acabou.

Quero falar – mas correm-me as lagrimas

Ouvi dizer que no Regato Duplo é ainda Primavera.

Gostaria de ir até lá andar numa barca leve

Mas tenho receio que barca tão frágil

Não suporte o peso de tanto sofrimento.

Vejamos agora uma primeira versão em inglês:

Spring Ends

To the tune “Spring in Wu-ling

The wind stops.

Nothing is left of Spring but fragrant dust.

Although it is late in the day,

I have been too exhausted to comb my hair.

Our furniture is just the same,

But he no longer exists.

I am unable to do anything at all,

Before I can speak my tears choke me.

I hear that Spring at Two Rivers

Is still beautiful.

I had hoped to take a boat there,

But I am afraid my little boat

Is too small to ever reach Two Rivers,

Laden with my heavy sorrow.


A tradução é de Kenneth Rexroth (1905-1982) & Ling Chung e foi publicada em Women Poets of China, New Directions, 1972.

E por fim uma tradução de David Hinton em Classical Chinese Poetry, An Anthology, Farrar, Strauss and Giroux, 2008:

Untitled
A lovely wind, dust already fragrant with fallen blossoms:

it’s sunset, and I can’t even comb my hair.

Things go on and on. People don’t: all our great plans vanish.

Now, if I try to speak, nothing comes but tears.


I hear spring along Twosomes Creek is still exquisite, my love,

And I ache to go drifting there in a light boat,

but I’m afraid those frail little Twosomes-Creek boats

couldn’t bear up all this grief and sorrow.

Entre estas três versões do poema, que não sei ler em chinês, existem substanciais alterações de sentido no detalhe dos versos, sendo que no essencial todas dão conta da desolação da viúva na sua solidão, com aquela belíssima imagem final de o peso do sofrimento poder afundar um barco.

É uma característica desta poesia clássica chinesa, o cruzamento entre o sentimento e a materialidade do mundo em redor, utilizando esse mesmo mundo para, com imagens inesperadas, traduzir a natureza e extensão do sentir.

Todas as fontes são comuns na importância da poesia de Li Ch’ing-chao no conjunto da poesia chinesa de todos os tempos. Há uma unanimidade em a considerar a maior poetisa chinesa do período clássico.

Li Ch’ing-chao (1084-1150) nasceu numa família aristocrática, que deu às filhas as mesmas oportunidades de educação que aos filhos, prática completamente fora dos hábitos da época na China. A família casou-a com um intelectual e poeta, Chao Ming-ch’eng, com quem formou, aparentemente, o casal intelectual ideal. É lendária a colecção de livros, pinturas, caligrafias e antiguidades que ambos formaram. Obrigados a fugir à medida que o norte da China era conquistado pelos tártaros, foram, na fuga, perdendo toda esta colecção. No meio desta fuga o marido morreu de morte súbita, ficando Li Ch’ing-chao, viúva aos quarenta e seis anos, sem meios de vida, numa sociedade fortemente sexista em que a mulher se encontrava subordinada de forma absoluta ao homem. Mulher sózinha, sem protecção de um macho, pouco se sabe das duas décadas que ainda viveu. Ao morrer deixou cerca de 1000 poemas, mas como aconteceu com muitas das poetisas da antiga China, esta colecção perdeu-se completamente. O que dela hoje conhecemos chegou por fontes secundarias e metade é de autoria duvidosa.

A poesia que dela se conhece afasta-se da de outras poetisa da antiga China, cortesãs ou esposas abandonadas, muita da qual escrita afinal por homens, e pelo contrário transmite uma emoção banhada de experiência pessoal que a aproxima da poesia de uma Gaspara Stampa ou de uma Louise Labé. Os conhecedores arrumaram no passado a sua poesia em três períodos: primeiro a vida feliz enquanto casada, segundo a desolação após a morte do marido e terceiro, a progressiva solidão à medida que envelhecia. Hoje parece ser mais avisado ler os seus poemas apenas como tocantes poesia criada por uma poetisa de génio e dissociá-los de aspectos de biografia.

O género de poemas, como o aqui transcrito, destinado a ser cantado com acompanhamento musical para entreter convidados, é conhecido como Tz’u, significando “as palavras”. Terá sido Li Ch’ing-chao e alguns contemporâneos, quem deu inicio a um conteúdo discurso nestas letras de canções com uma escrita critica que passou a ser conhecida como “Tz’u lun” (discurso nas palavras) geralmente considerados os Tz’u mais interessantes.

Existem diferenças na romanização do nome da poetisa e algum desencontro sobre o período em que viveu, nas diferentes fontes consultadas:

– Gil de Carvalho em Uma Antologia da Poesia Chinesa adopta para a romanização do nome o Pinyin e escreve Li Qingzhao 1081-1145?

– Kenneth Rexroth  & Ling Chung em Women Poets of China  tal como  David Hinton em Classical Chinese Poetry, An Anthology escrevem, os primeiros LI CH’ING-CHAO (1084-1151), e o segundo Li Ch’ing-chao (1084-1150) adoptando na romanização do nome a transcrição mais antiga de Wade-Giles.

Homenagem a Miguel Angelo (1475-1564) e um seu soneto em tradução de Jorge de Sena (1919-1978)

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“AL COR DI ZOLFO…”

Um coração de enxofre, a carne estopa,

e de bem seca lenha o atro seio,

alma sem qualquer norte, alma sem freio,

desejo pronto que ao prazer não poupa,

cegueiras da razão tão fraca e louca,

e quando o mundo é de ciladas cheio –

não é grã maravilha, se um anseio

a chama atiça a tão ardente roupa.

E as Artes belas que, do céu consigo

se alguém as traz, a Natureza enfreia,

se a força aplica em toda a parte e logo…

Se como tal nasci, se à Arte eu sigo,

entregue o coração ao que o incendeia,

culpa será de quem me deu ao fogo.

O soneto, dorida meditação sobre a paixão homossexual do artista: se como tal nasci…, fala-nos a todos, para lá de opções de género, do apelo irresistível da paixão carnal quando esta nos visita: cegueira da razão tão fraca e louca,

A tradução deste soneto de Miguel Ângelo é de Jorge de Sena e foi publicada na preciosa e tantas vezes citada antologia POESIA DE 26 SÉCULOS.

A certa altura, numa pagina dos seus diários, Jorge de Sena refere a excitação com a compra de um álbum de reproduções das obras de Miguel Angelo. Sinal dos tempos, hoje, tais reproduções proliferam em qualquer banca de revistas perante a indiferença de quem olha, e dificilmente apreendemos quão difícil era a aproximação à arte em décadas não muito distantes. O turismo de massas nos nossos dias preenche essa aproximação numa  contabilização de destinos visitados.

Estive pela primeira vez em Itália no final dos anos 70. Foram três semanas de deambulação pelas maravilhas da arte da península. Jovem nos vinte anos, a maior revelação, entre tantas, foi a obra escultórica de Miguel Ângelo. Ainda tive a possibilidade de contemplar sozinho o David, com mais 3 ou 4 pessoal na sala da Galleria della Academia em Florença. Os mármores com as esculturas apenas esboçadas, naquela tentativa de mostrar a vida na pedra, foram outra revelação indelével. A Pietá do Vaticano não fora ainda mutilada, nem se escondia por detrás do vidro. Era possível sentir o veludo da pedra e de perto ser tocado pela maciez do olhar do amor, naquela mãe com o filho nos braços, morto. Mas foi o Moisés a revelação absoluta. O olhar de fogo vindo da pedra, a imponência da massa escultórica e a atitude, transmitiram-me a forca do divino. Se Deus encarnasse,  seria assim. O absoluto de julgar, distribuindo bênçãos e castigos personifica-se naquele mármore com vida.

A pintura que ilustra o artigo, deliberada homenagem ao artista,  fi-la, anos vai, depois de ter visto o desenho de Miguel Ângelo que a inspirou, na Galeria Albertina, de Viena.

A carestia da vida num soneto do Abade de Jazente e algum filosofar poético

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Há longo tempo ausente do blog, a poesia do século XVIII, ei-lá que regressa pela voz de Paulino Cabral de Vasconcelos (1719-1789), Abade de Jazente, numa moderada sátira em forma de soneto, à carestia da vida

A trinta e cinco reis custa a pescada:

O triste bacalhau a quatro e meio:

A dezasseis vinténs corre o centeio:

Do verde a trinta reis custa a canada.

 

A sete, e oito tostões custa a carrada

Da torta lenha, que do monte veio:

Vende as sardinhas o galego feio

Cinco ao vintém; e seis pela calada.

 

O cujo regatão vai com excesso,

Revendendo as pequenas iguarias,

Que da pobreza são todo o regresso.

 

Tudo está caro: só em nossos dias,

Graças ao Céu! Temos em bom preço

Os tramoços, o arroz e as Senhorias.

Não só a carestia da vida é objecto de meditação do poeta.

Expandindo a reflexão à interrogação sobre o sentido da vida temos a pergunta:

De que serve o viver, se tanto custa?

desenvolvida neste soneto:

De que serve o viver, se tanto custa?

É toda uma tormenta a nossa idade;

Louca na infância, vâ na mocidade,

E cheia de aflições na mais robusta.

 

Um chora, outro lamenta, outro se assusta

Da fortuna à mais leve tempestade;

E se chega a velhice, é sem piedade

Submetida ao rigor da sorte injusta.

 

Parece que por seu divertimento

O Céu nos faz penar, inda que santo,

Sem nos deixar de alívio um só momento.

 

Valha-nos Deus! Se toda a vida é pranto,

Se acaba só na morte o seu tormento,

De que serve viver, se custa tanto?

Não fica por aqui a meditação do poeta consubstanciada naquele Valha-nos Deus! Se toda a vida é pranto,

e vamos agora ao encontro dos motivos porque Tormento é toda a vida, é toda enganos:

Sem causa a infância ri, sem causa chora:

Incauta se despenha a mocidade;

Sacode o jugo, e nela a liberdade,

A caça, o jogo, o amor, tudo a namora.

 

Das honras o varão se condecora;

Tudo é nele ilusão, tudo vaidade:

Junta tesouros a avarenta idade;

Diz mal do nosso, e ao tempo andado adora.

 

Tormento é toda a vida, é toda enganos:

Quando uns afectos vence a novos corre,

E tarde reconhece os próprios danos:

 

Porque enfim se a prudência nos socorre,

Ditada na lição dos longos anos,

Quando se sabe, então é que se morre.

Mas eis que uma pulga põe fim a tanta filosofia:

Às vezes se não durmo, o pensamento

Deixando o corpo sobre a cama quente,

Me leva mais ousado, que prudente,

Dos astros a medir o movimento.

 

Peso, calculo, meço, e observo atento,

Quantos globos encerra o Céu luzente:

Contemplo os turbilhões, e finalmente

Me transporto até sobre o firmamento.

 

Descartes lá descubro: e nesse espaço,

Que existência só tem na fantasia,

Também meus orbes risco, e mundos faço.

 

E eis que vem com mais certa geometria

Uma pulga, e me morde no cachaço;

Vou-me arranhar; e adeus filosofia.

Nota e noticia bibliográfica:

Nesta pequena visita à obra de Paulino Cabral de Vasconcelos, aproveito para transcrever o PROLOGO que acompanha o 1º volume das Poesias na sua 1ªedição, volume onde todas as poesias aqui transcritas se encontram, e que o moderno editor da obra, em 1983, para a INCM, achou por bem não transcrever.  Por outro lado, melhor teria andado esse editor se tivesse poupado à posteridade o comentário que antepôs á referida edição e que titulou: A INSIGNIFICÂNCIA DO ABADE DE JAZENTE.

Quando li este título pensei tratar-se de uma ironia a acompanhar alguma poesia do Abade. Mas não, leva-se a sério e expende das páginas 9 a 27 da referida edição INCM as considerações que melhor fizera guardar para si. Para terdes uma ideia sobre que fala o organizador, depois de circundar vastas matérias, remata a sua conversa com o seguinte parágrafo:

A insignificância do Abade de Jazente pressente-se na monotonia com que uma perspectiva de fim de discurso é entrevista: ele mostra-nos, como algumas décadas depois a gramática histórica iria mostrar, que as palavras também morrem. Mas porque no-lo mostra quando escreve, contenta-nos com o espectáculo das palavras antes de morrer.

Valha-nos a poesia!

Vamos então ao prometido PROLOGO do editor da obra em 1786, Bernardo Antonio Farropo.

PROLOGO

O Merecimentp, que se encontra nos excellentes versos do Paulino Cabral de Vasconcellos, Abbade de Jazente, e a controversia exquisita com Theodoro de Sá Coutinho, me picou a curiosidade de ajuntar as suas obras. Truncadas, e dispersas eu mendiguei com indizivel trabalho tão bellas composições: e com igual difficuldade persuadi a seu Author a que as reconhecesse, e em partes retocasse as informes, e erradas copias, que as desfiguravaõ.

Appeteci ultimamente adornar a minha estante com a estampa deste genio raro: e bem que alguns Sonetos admiraveis se excluiraõ da collecçaõ; em a fazer pública eu me persuado, que lisongearei aos curiosos de bom gosto, e darei gloria á nossa Patria neste seu Alumno.

Conservei a ortografia original.

Os sonetos foram retirados do primeiro volume das Poesias de Paulino Cabral de Vasconcelos, Abbade de Jazente, publicadas no Porto, na Officina de Antonio Alvarez Ribeiro no anno de 1786, com licença da Real Mesa Censória.

Modernizei a ortografia, retirei a maiúscula a alguns substantivos, e conservei a pontuação embora esta pareça um pouco anacrónica hoje, mas não dificulta a leitura.

As poesias do Abade de Jazente foram publicadas em 1ªedição em 2 volumes, tendo o 2º volume sido publicado um ano mais tarde, em 1787, e é hoje raríssimo.

Morro faz já bastante tempo – caminho para a poesia de Ângelo de Lima

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Sirvo-me do belo verso de Herberto Hélder:  Morro faz já bastante tempo e do poema que vos deixei no blog antes de férias, como pretexto para visitar a poesia de Ângelo de Lima (1872-1921), nesse poema também evocada, através do  verso com que abre um dos mais belos sonetos da língua portuguesa:

Pára-me de repente o pensamento

e que no final transcrevo.

A biografia do poeta é conhecida nos aspectos dramáticos da sua loucura(?) com o relatório do Dr. Miguel Bombarda como peça chave, e dispenso-me de o reproduzir.

Inicio esta curta viagem com o poema A MEU PAI, poema onde a verdade emocional exçuda, transmitindo de forma ímpar a desolada sensação de estar só no mundo com este verso:

Ai! que é tão triste não se ter ninguém!

A pungência do poema, qual  grito de socorro, toca-nos para além do conhecimento da biografia do Poeta.

A MEU PAI
(No Santo Dia Dos Finados)

Pai! quando às horas do findar do dia,
A bruma vaga cobre, triste, o Espaço
E a mim me envolve na melancolia…

Pai! Diz-me: sabes que secreto laço
Me prende, a mim, que vago n’este mundo,
Triste, avergado sob o atroz cansaço,
A ti, que pairas lá no céu profundo?…

Pai! sou teu filho! – sou teu filho, sinto…
Não me renegues – sou teu filho, oh! Pai!…
Vês como eu vago n’este labirinto,
Perdido, triste, alucinado, – aí! –
Tal como a nave em que Israel vagou,
E, erma, ao acaso, sobre as aguas vai,
Sem já saber que força me guiou,
Sem que me guie já vontade alguma,
N’esta derrota que seguindo vou?

Pois, como à nave que não tem nenhuma,
Nenhuma sombra de tripulação,
Sorri ainda Vésper, de entre a bruma…
Tal ao meu enlutado coração,
Que já não guia nem um só anseio,
Sorri, ao longe, de entre a cerração,
Oh! Pai! O afecto do teu nobre seio!

Pai! meu sincero, meu finado amigo!…
Dormes, no Nada majestoso e triste,
Ou vives ‘inda, como a Dor existe?…

Pai! quem me dera, logo, ir ter contigo!…

Pai! A Desgraça se enlaçou comigo,
Desde que, um dia, oh Pai! tu me fugiste!…
Pai!, se, n’um voo, pelo céu, partiste,
Dize-me o rumo, quero ver se o sigo…

Pai! Tua pobre campa, tão singela,
Talvez não tenha, como as outras têm,
No dia de hoje, quem n’a enflore a ela…

Ai! que é tão triste não se ter ninguém!

Ao menos, Eva, o nosso encanto, – vê-lá? –
E Pedro, e Vasco… São contigo além!

Eva, Pedro e Vasco, referidos no poema eram irmãos do autor.

O poema, tal como os restantes que transcrevo, foi retirado da edição das POESIAS COMPLETAS organizada por Fernando Guimarães e publicada pela Editorial Inova s/d (1971?).

Para uma Obra Poética conhecida de apenas 43 poemas, o conjunto de poemas notáveis é impressionante. Escolho apenas quatro: onde a condicão humana é questionada por um lado,

Sob a luz calma e suave / Dos mundos do sentimento… ,

ou então na singularidada da sua solidão e abandono

Na Douda Correria… em que, levado… / – Anda em Busca… da Paz… do Esquecimento[.]

Comecemos pelo poema 10 da edição mencionada:

Vai, sobre o sombrio abismo

D’esta existência terrena…

– Nas asas d’um misticismo

E paira a sonhar, serena!…

 

Sob a luz calma e suave

Dos mundos do sentimento…

Paira tranquila, alma… ó ave!

Sacia o longo tormento!…

 

– Sonha!… e sonhando te esquece!…

– Lá no sonho recatado –

A Rosa, o Lírio entreteces

D’um abraço embalsamado[.]

 

Lá minh’alma, alma adorada[.]

Mulher na terra caída[.]

Anjo que em meio à jornada

Sentiste a asa partida…

 

Lá minh’alma a ti cingindo,

Perfumada de amorosa,

No excelso cônjuge infindo,

Do Lírio, d’est’alma, ó Rosa!…

 

Fiquemos eternamente

Asa n’asa conjugada

– Se não tens nota ascendente,

Queda ó guitarra calada!

 

Sonhos

Sonho suave e bom que me envolveste

Não me deixes sózinho sobre a terra[.]

Se vais, contigo esta minha alma encerra,

Leva-a contigo a Deus d’onde vieste.

 

Como do céu minha alma assim mereceste

Que por ti d’ele um sonho se descerra

Ai com que frenesi que a ti se aferra,

Sonho, a ti sonho, esta alma a que desceste.

 

Sonhos que em vossas asas me tomais

Em meio do caudal em que derivo

E em vir a mim dos outros me estremais.

 

Sonho, ó ultimo sonho de que vivo[,]

Ai  não me deixes tu[,] como os demais

Retém-no em meu seio – ó meu senhor! – cativo.

Sozinho

Quando eu morrer m’envolva a Singeleza,

Vá sem Pompa a caminho do coval,

Acompanhe-me apenas a tristeza [,]

Não vá do bronze o som de val’ em val!

 

Chore o céu sobre mim de orvalho as bagas [,]

Luz do sol-posto fulja em seu cristal,

Cantem-me o “dorme em paz” ao longe as vagas.

 

Gemente a viração entoe o “Amém” [,]

Vá assim té ermas, afastadas plagas…

Lá… fique eu só!

                                               Não volte lá ninguém!

Por estas alturas, um outro louco na sua lucidez – Mário de Sá Carneiro –  escrevia:

Quando eu morrer batam em latas, / rompam aos berros e aos chicotes –  / …

Comuns na vontade de encenar a morte, são opostos os desejos, reflexo de naturezas bem diferentes.

Terminemos com o poema mais famoso de Ângelo de Lima:

Pára-me de repente o Pensamento…

– Como se de repente sofreado

Na Douda Correria… em que, levado…

– Anda em Busca… da Paz… do Esquecimento[.]

 

– Pára Surpreso… Escrutador… Atento

Como pára um Cavalo Alucinado

Ante um Abismo… ante seus pés rasgado…

– Pára… e Fica… e Demora-se um Momento…

 

Vem trazido na Douda Correria

Pára à beira do Abismo e se demora

 

E Mergulha na Noute, Escura e Fria

Um Olhar d’Aço, que na Noute explora…

 

– Mas a Espora da dor seu flanco estria…

 

E Ele Galga… e Prossegue… sob a Espora!

Os livros à Cecílio de Sousa

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Para quem gosta de livros é uma alegria encontra-los quando os procura, mas não é fácil em Portugal a vida de um amante de livros. O descaso de quem vende, a inanidade da maior parte da edição nova, a ignara displicência de quem atende, tudo contribui para nos afastar das livrarias em geral. Felizmente há excepções e algumas, de tão surpreendentes, até duvidamos que existam.

Habituado a vasculhar alfarrabistas e a comprar na net o que me ia despertando a curiosidade, demorei a conhecer a livraria Poesia Incompleta, em Lisboa. É o ser um caso único, uma livraria que apenas vende poesia, e um livreiro que sabe do que vende, que me leva a esta nota.

Ao perguntar por um ou outro livro de poesia a algum alfarrabista mais informado, por diversas vezes aconteceu aconselharem-me a livraria Poesia Incompleta como lugar possível para o encontrar. Não sendo habitualmente títulos urgentes, pois os livros por ler abundam sobre a mesa, o tempo foi passando até que no ano passado, por esta altura, inicio da minha rota outonal pelas livrarias da baixa, decidi meter pés a caminho. Entretinha-me na altura com a poesia de Tomás Pinto Brandão e sabendo da confusão de autoria em alguns dos poemas, tinha uma vontade enorme de encontrar qualquer livro com poesia de Gregório de Matos para além do pequeno livro há anos editado pela & etc e esgotada que está a edicão da INCM dos anos 80. Sem grande esperança lá fui.

Entrei, perguntei a medo por poesia de Gregório de Matos, à espera do habitual olhar de estranheza, quando fui surpreendido por um sim, tenho. E afinal tinha, não só mais que uma antologia de origem brasileira, como a edição brasileira de parte da tese do Prof. Francisco Topa, professor na Universidade do Porto e estudioso da obra do poeta, e que eu sabia existir por referências na net.

Contente e entusiasmado, lá voltei, não tantas vezes como gostaria, mas cada visita resulta em sacos cheios de livros que levo algum tempo a degustar.

Encontrada a rua, é a ultima que desce à direita, a caminho do Tejo, antes de chegar ao Príncipe Real, vindo do metro do Largo do Rato, à entrada surge-nos uma sala pequena onde a simpatia do Mário nos recebe. Os livros oferecem-se à curiosidade do olhar em estantes e espalhados por bancadas. E há sempre uma qualquer inesperada surpresa que nos chama a atenção. Uma novidade que saiu e da qual nem rasto nas livrarias mainstream, um título estrangeiro que tivemos curiosidade na net, mas por não conhecer o conteúdo não comprámos, uma edição julgada esgotada, mas que afinal o Mário desencantou nos fundos esquecidos de um qualquer armazém de distribuição, enfim um mundo de surpresas à nossa espera. E na secção ” não tem pois não?” encontramos os livros mais inesperados, e tantas vezes preciosos achados de poesia, basta perguntar ao Mário, pois a secção está na sua cabeça. O livreiro sabe do que vende e quando não tem talvez consiga arranjar.

Seria o mundo perfeito da poesia se dispusesse da componente alfarrabista expandida, por forma a tornar disponíveis tantas centenas de títulos que a penúria da edição portuguesa entretanto tornou raros.

É na poesia noutras línguas que a livraria se mostra preciosa. São centenas os títulos e autores de outra forma inacessíveis em Portugal, com destaque para a poesia em castelhano que tanta falta faz ser lida por estas terras. Não é sem razão, qualquer que seja o prestígio do Nobel, que o castelhano é a língua com maior número de poetas premiados por ele.

Começado o Outono, e antes que a minha hibernação invernal recomece, rebolando-me em casa com as leituras do que entretanto encontrei, lá voltarei em breve para vasculhar muito do que nem sei que existe.

In Taberna quando sumus – poema de Carmina Burana

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Há dias, numa prenda de anos antecipada, bebemos um vinho tinto reserva de 2007 da Quinta do Noval,  uma daquelas pérolas que fazem alguns vinhos do Douro sem paralelo.

Embora goste de beber, não gosto de me embriagar, o que na minha vida poderá ter acontecido duas ou três vezes. Ao começar da cabeça à roda, paro.

O vinho, presença e invenção das culturas mediterrânicas, que se estendem até à Pérsia, na definição de região mediterrânica de Orlando Ribeiro, mestre geógrafo nunca demais lembrado, o vinho, dizia eu, de invenção dos países onde as manifestações de cultura mais antigas se mostram, foi aqui, sempre, artigo de luxo e bebê-lo sinal de privilégio. É Orlando Ribeiro quem no-lo ensina:

O vinho é, tradicionalmente, um produto de qualidade, fino, variado e diverso como tudo o que é bom. Precisamente por não ser indispensável entre os artigos de consumo é que o vinho constitui produto requintado de uma grande civilização. (in Mediterrâneo, Ambiente e Tradição, pág. 97, ed.FCG, 1987).

A poesia, refinado eco cultural e social do homem, tem alguns tesouros em torno do vinho, sendo entre os mais divulgados, talvez, os que surgem nos Robaiyyat(*) de Omar Jayyam, poeta persa que terá vivido nos séc XI-XII:

Agora que a juventude vivo

beberei vinho, pois bebê-lo me compraz;

não mo deiteis em cara; apesar de amargo, é bom

amargo ele deve ser, pois amarga  me é a vida.

ou este:


Um antigo mestre encontrei na taberna

pedi-lhe notícias dos que já se foram;

disse-me: bebe vinho; muitos como nós

se foram e nenhum jamais regressou.


Outros há, e um cancioneiro exaustivo do vinho está por fazer.

É a propósito de beber vinho que trago um poema medieval, arqui-conhecido na forma cantada, evidenciando outra poesia medieval que não a de Francisco de Assis aqui deixada antes.

Dá ele conta de variados sem-pretexto necessários para beber. De caminho fala-nos da variegada paisagem humana que povoa aquele universo.

O poema, In Taberna quando sumus, escrito em latim medieval, integra uma colecção de canções descobertas na abadia beneditina de Beuren, no coração dos Alpes bávaros, no inicio do século XIX, das quais Carl Orff (1895-1982) retirou algumas e re-musicou de forma original, em 1953, criando uma das peças do repertório clássico mais conhecidas e populares: Carmina Burana.

A colecção terá sido redigida no final do século XIII, dando forma escrita a um património que circulava de boca em boca desde o século XII. Os estudos recentes do manuscrito terão permitido a atribuição de autoria em alguns poemas.

Trata-se da mais importante fonte da poesia em latim do século XII. Colecção heterogénea onde coexistem dramas litúrgicos, poemas morais, poemas de amor, canções de beber e convites ao jogo, enfim toda a panóplia da vida da época.

Esta In Taberna quando sumus pertencerá ao grupo das canções de goliardos e de clérigos vagantes, gente que deambulava de terra em terra fazendo pela vida e por gozar dela. É um pouco a vida de que Francisco de Assis desistiu para se entregar aos votos de pobreza e propagação da fé.

Deixo-vos com uma interpretação da peça e o texto da versão latina cantada. Acrescento a preciosa versão que do poema fez Jorge de Sena e publicou em Poesia de 26 Séculos.

 CARMINA BURANAIn Taberna quando sumus

In taberna quando sumus

In taberna quando sumus,
Non curamus quid sit humus,
Sed ad ludum properamus,
Cui semper insudamus.
Quid agatur in taberna,
Ubi nummus est pincerna,
Hoc est opus ut queratur,
Sic quid loquar, audiatur.

Quidam ludunt, quidam bibunt,
Quidam indiscrete vivunt,
Sed in ludo qui morantur,
Ex his quidam denudantur,
Quidam ibi vestiuntur,
Quidam saccis induuntur.
Ibi nullus timet mortem,
Sed pro Baccho mittunt sortem:


Primo pro nummata vini,
Ex hac bibunt libertini;
Semel bibunt pro captivis,
Post hec bibunt ter pro vivis,
Quater pro Christianis cunctis,
Quinquies pro fidelibus defunctis,
Sexies pro sororibus vanis,
Septies pro militibus silvanis.


Octies pro fratribus perversis,
Nonies pro monachis dispersis,
Decis pro navigantibus,
Undecies pro discordantibus,
Duodecies pro penitentibus,
Tredecies pro iter agentibus.
Tam pro papa quam pro rege
Bibunt omnes sine lege.


Bibit hera, bibit herus,
Bibit miles, bibit clerus,

bibit ille, bibit illa,
Bibit servus cum ancilla,
Bibit velox, bibit piger,
Bibit albus, bibit niger,
Bibit constans, bibit vagus,
Bibit rudis, bibit magus.


Bibit pauper et egrotus,
Bibit exul et ignotus,
Bibit puer, bibit canus,
Bibit presul et decanus,
Bibit soror, bibit frater,
Bibit anus, bibit mater,
Bibit ista, bibit ille,
Bibunt centum, bibunt mille.


Parum sexcente nummate
Durant, cum immoderate
Bidunt omnes sine meta,
Quamvis bibant mente leta;
Sic nos rodunt omnes gentes,
Et sic erimus egentes.
Qui nos rodunt confundantur
Et cum iustis non scribantur, Io!

E agora a versão de Jorge de Sena em português

Dos Carmina Burana,  In Taberna…

Na taberna quando estamos,
De mais nada nós curamos,
Que do jogo que jogamos,
Mais do vinho que bebemos,
Quando juntos na taberna,
Numa confusão superna
Que fazemos nós por lá?
Não sabeis? Pois ouvi cá.


Nós jogamos, nós bebemos,
A tudo nos atrevemos.
O que ao jogo mais se esbalda
Perde as bragas, perde a fralda,
E num saco esconde o couro,
Pois que um outro conta o ouro.
E a morte não val’um caco
Pra quem só joga por Baco.


Nossa primeira jogada
É por quem paga a rodada.
Depois se bebe aos cativos,
E a seguir aos que estão vivos,
Quarta roda, aos cristãos juntos.
Quinta roda, aos fieis defuntos.
Sexta, às putas nossas manas,
E sete às bruxas silvanas.


Oito, aos manos invertidos.
Nove, aos frades foragidos,
Dez, se bebe aos navegantes,
Onze, é para os litigantes,
E doze, dos suplicantes,
E treze, pelos viandantes.
Pelo Papa e pelo Rei
Bebemos então sem lei.


Bebem patroa e patrão,
Bebem padre e capitão,
Bebe o amado e bebe a amada,
Bebem criado e criada,
Bebe o quente e o piça fria,
Bebe o da noite e o do dia,
Bebe o firme, bebe o vago,
Bebe o burro e bebe o mago.


Bebe o pobre e bebei rico,
Bebe o pico-serenico,
Bebe o infante, bebe o cão,
Bebem cónego e deão,
Bebe a freira e bebe o frade,
Bebe a besta, bebe a madre,
Bebem todos do barril,
Bebem cento, bebem mil.


Nenhuma pipa se aguenta
Com esta gente sedenta,
Quando bebe sem medida
Quem de beber faz a vida.
E quem de nós se fiou,
Sem cheta s’arrebentou.
E quem de nós prejulgava,
Se quiser, que vá à fava.

Bebamos, pois, bebamos, à felicidade dos dias por vir.

Por esta época, e ainda era mesquita a igreja de Santa Maria em Tavira, nasceu na  cidade ABÛ ‘UTHMÂN sobre cuja poesia já escrevi, e para onde vos remeto, dando de novo conta deste círculo infindável que a poesia é:

ABÛ ‘UTHMÂN – meu conterrâneo

Notas e referências

(*) Robaiyyat é o plural de Robai, estrofe de quatro versos dodecassilabos em que rimam o primeiro e o segundo e o quarto, ficando livre o terceiro. Significa canto ou copla.

As traduções de Robaiyyat incluídas foram feitas a partir de versões castelhanas traduzidas directamente do farsi. Em Poesia de 26 Séculos tem Jorge de Sena algumas belas versões de Robaiyyat de Omar Jayyam.

As gravações de Carmina Burana de Carl Orff são às dezenas. Embora conheça algumas, a minha preferência vai para a que aqui deixei em fragmento, provavelmente por razões sentimentais. Foi a primeira que conheci e trouxe-a da Polónia nos idos de 70, daquela viagem que já aqui contei em Uma Aventura Polaca. A gravação Supraphon com solistas, coro e a orquetra de Praga, tem direcção do maestro Václav Smetácek, e contem as três cantatas cénicas de Carl Orff, TRIONFI,  onde se inclui CARMINA BURANA juntamente com CATULLI CARMINA e TRIONFO DI AFRODITE.

Silêncio de água parada e o Cântico ao irmão sol de Francisco de Assis

O título do artigo necessita uma explicação prévia. Silêncio de água parada é a frase com que Fernando Campos (1924) no seu livro A Casa do Pó abre um capítulo onde fala do Convento de S. Francisco em Tavira.

Para quem não conhece a história do livro, o relato refere-se ao século XVI e contém descrições vívidas da saída dos judeus no porto da cidade em consequência do édito do Rei D. Manuel I.

O convento que o escritor recria não existe, pois foi destruído pelo terramoto de 1755. No seu lugar foi posteriormente construída uma igreja com o mesmo nome.

 A foto que encima este artigo mostra o campanário da igreja visto de casa de meus pais. Nessa igreja  conheci os primórdios da religião católica, nos três meses em que lá frequentei a catequese, por volta dos meus oito anos. Dessa época lembro o fascínio quando a porta da sala onde se recolhiam os santos da procissão de cinzas estava aberta e nos conseguíamos esgueirar para lá. Aquelas estátuas gigantes vestidas como gente, com feições realistas e pele dum branco glauco, davam realidade ao mundo descrito nas historias do catecismo. No entanto, apesar desta aprendizagem infantil, falta ao meu Deus o detalhe trazido pelos diferentes credos que a humanidade gerou. Nesta igreja me tenho despedido ao longo dos anos, de tios e avós, pois na família tem existido devoção e ligação à Irmandade de S. Francisco, e é lá que as cerimónias de despedida final acabam por acontecer. Foi lá que me despedi do meu pai, num dia inesquecível. Pela primeira vez tive consciência de que a partir daí, na vida, corria por mim. O suporte que sempre soube existir, ainda que enquanto adulto raramente o tenha pedido, tinha desaparecido. Agora era eu a âncora de outros.

Neste itinerário de memória reencontro aquele S. Boaventura lido na juventude, biógrafo e continuador das reformas da ordem fundada pelo Poverello.

Escrevia então Boaventura por volta do ano 1250 no  número 10 do seu imperdível livro: Redução das Ciências à Teologia – De reductione artium ad thelogiam:

todo o sentido procura por tendência natural o objecto sensível que lhe é conveniente, goza quando o acha e reitera a posse sem tédio“, antecipando os místicos S. João da Cruz e Santa Teresa de Avila.

Sabia esta gente o que nós nem imaginamos, apesar da parafernalia que nos rodeia.

Vejamos então todo o argumentário:

Se considerarmos o prazer concomitante ao exercício dos sentidos, intuiremos aí a união de Deus e da alma. Com efeito, todo o sentido procura por tendência natural o objecto sensível que lhe é conveniente, goza quando o acha e reitera a posse sem tédio, pois que “o olho não se farta de ver, nem o ouvido se enche de escutar”[Eclesiastes, I, 8]. Semelhantemente, o sentido do nosso coração deve procurar com ardor, encontrar com gozo e reiterar incessantemente o que é a mesma beleza, a mesma consonância, a mesma fragrância, a mesma doçura e a mesma suavidade.

Este S. Francisco além do santo, cuja biografia se conhece por via da obra de S. Boaventura, foi um poeta maior e fundador da poesia italiana, introduzindo na herança vinda da poesia Provençal a espiritualidade que esta não continha, acrescentando-lhe uma dimensão quase cósmica no sublime Cântico do sol e das suas criaturas.

Arquivo no blog três versões do poema em português.

Comecemos pela versão de Herculano de Carvalho (1899-1986), antigo mestre que já não encontrei no IST, e ligado a Tavira desde sempre:

O cântico do sol –  versão de Herculano de Carvalho

Altíssimo, omnipotente, bom senhor,
É tua a gloria, as honras, o louvor,
Abençoado sejas.
Só a ti, ó altíssimo, convêm
E nenhum homem há digno de te invocar.


Louvado sejas, meu senhor,
Com todos os teus seres,
Em especial o senhor irmão sol,
O qual faz o dia e alumia por si próprio.
E que é belo e radiante com grande esplendor.
De ti, altíssimo, a nós dá testemunho.


Louvado sejas, meu senhor,
Pela irmã lua e plas estrelas;
Formaste-las no céu
Límpidas, preciosas e belas.


Louvado sejas, meu senhor, pelo irmão vento
E pelo ar, as nuvens, por todo e qualquer tempo
Com o qual, às criaturas, dás sustentamento.
Louvado sejas, meu senhor, pela Irma água,
Que é tão útil e humilde e preciosa e casta.


Louvado sejas, meu senhor, pelo irmão fogo,
O qual nos ilumina pela noite;
E que é belo e jucundo e tão robusto e forte.


Louvado sejas, meu Senhor,
Pla irmã, nossa mãe, a terra
Que nos sustenta e nos governa
E dá tão vários frutos,
Com as coloridas flores e as ervas.


Louvado sejas, meu Senhor,
Naqueles que perdoam por teu amor
E suportam doenças e tribulações;
Benditos esses que descansam em paz
E que hão-de ser por ti, Altíssimo, coroados.


Louvado sejas, meu Senhor,
Pela irmã, nossa morte corporal,
A que homem vivente algum pode escapar;
Coitados dos que morrem em pecado mortal;
Benditos os que cumprem
Tua santíssima vontade,
Pois que a morte segunda, a eles, não faz mal.


Louvai e bendizei o meu Senhor,
Seguindo-o e dando graças com toda a humildade.

Veja-se agora a leitura em português que do mesmo poema faz Jorge de Sena

CÂNTICO DAS CRIATURAS – versão de Jorge de Sena

Altíssimo, omnipotente, bom Senhor
a Ti a gloria, as honras, o louvor,
e todas as bênçãos.
A Ti só, Altíssimo, sejam dadas
e homem nenhum é digno de nomear-Te.


Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas,
especialmente o mestre irmão sol
que só por si madruga e que nos ilumina.
E ele é belo e radiante e com grão esplendor
e de Ti, Altíssimo, ele é testemunha.


Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã lua e as estrelas
que no céu criaste claras e preciosas e belas.


Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão vento,
e pelos ares sombrios ou serenos ou com todo o tempo
que sao das criaturas mantimento.


Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã água
que é tão útil e é humilde e preciosa e casta.


Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão fogo
pelo qual de luzes se abre a noite
e é belo e alegre e é robusto e forte.


Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã a nossa madre terra
que nos sustenta e governa
e produz tantas frutas, coloridas flores, e as ervas.


Louvado sejas, meu Senhor, pelos que por teu amor perdoam
e suportam enfermidades e tribulações,
Benditos aqueles que tudo suportam em paz
e que, por Ti, Altíssimo, serão coroados.


Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã a nossa morte corporal
da qual homem vivente algum há-de escapar,
aí daqueles que morrem em pecado mortal,
e benditos os que encontram na Tua santíssima vontade
que a morte segunda não lhes fará mal.


Louvade e bedizede o meu Senhor, e graças dade,
servide-O todos com mui grã humildade.

Lemos estas duas versões, fieis ao poema original, no sentido e na sua literalidade, mas as pontuais opções de construção do verso mostram a diferença entre um poeta de génio, Jorge de Sena, e um estimável tradutor, também poeta.

Passemos por fim a uma dita tradução integral a partir do francês incluída por Jacques LeGoff no seu livro com estudos sobre S. Francisco.

Nesta tradução apreendemos o carácter descritivo do poema, como que de oração, que as versões poetizadas anteriores, sobretudo a de Jorge de Sena mascaram um pouco, ao dar autonomia ao verso.

Cântico do irmão sol e das outras criaturas

Altíssimo, todo-poderoso e bom Senhor
A ti louvor, gloria, honra e todas as bênçãos
A ti devidos, ó Altíssimo
E nenhum homem é digno de te nomear.
Louvado sejas, Senhor, com todas as tuas criaturas,
Muito especialmente o meu senhor irmão Sol
Através do qual nos dás o dia, a luz.
É belo, irradia com grande esplendor
E de ti, ó Altíssimo, é para nós a imagem.
Louvado sejas tu, Senhor, pela irmã Lua e as estrelas
No céu as acendeste, claras, preciosas e belas.
Louvado sejas, Senhor, pelo irmão Vento
E pelo ar e pelas nuvens
Pelo céu sereno e pelos tempos
Com que sustentas todas as criaturas.
Louvado sejas Senhos pela irmã água
Tão útil e humilde
Preciosa e casta.
Louvado sejas Senhor pelo irmão fogo
Com que iluminas a noite,
É belo e animado,
Indomável e forte.
Louvado sejas Senhor, pela irmã nossa mãe terra
Que nos sustenta e alimenta
Que produz diversos frutos
Com flores coloridas e verdura.
Louvado sejas, Senhor, por aqueles
Que perdoam por amor de ti,
Que suportam provações e doenças,
Felizes se estiverem em paz
Pois por ti, ó Altíssimo, serão coroados.
Louvado sejas, Senhor, pela nossa irmã, a morte do corpo
A que nenhum homem vivo escapa
Infeliz o que morre em pecado mortal,
Feliz o que ela surpreender fazendo a tua vontade
Porque não será ferido pela segunda morte.
Louvai e bendizei o meu Senhor,
Dai-lhe a graça e servi-o
Com toda a humildade.


Nota: A variação nos titulos do poema é da escolha dos tradutores respectivos.

Noticia bibliográfica:

S. Boaventura, Reduçãos das Ciências à Teologia, Atlantida, 1970, tradução do Padre Ilídio de Sousa Ribeiro

Poesia de 26 Séculos, Antologia prefácio e notas de Jorge de Sena, Fora do Texto, 1993

Oiro de vário tempo e lugar, São Francisco de Assis a louis Aragon, versões de A. Herculano de Carvalho

S. Francisco de Assis, Jacques leGoff, Teorema, 2000

A Casa do Pó, Fernando Campos, Difel, 1986