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“AL COR DI ZOLFO…”

Um coração de enxofre, a carne estopa,

e de bem seca lenha o atro seio,

alma sem qualquer norte, alma sem freio,

desejo pronto que ao prazer não poupa,

cegueiras da razão tão fraca e louca,

e quando o mundo é de ciladas cheio –

não é grã maravilha, se um anseio

a chama atiça a tão ardente roupa.

E as Artes belas que, do céu consigo

se alguém as traz, a Natureza enfreia,

se a força aplica em toda a parte e logo…

Se como tal nasci, se à Arte eu sigo,

entregue o coração ao que o incendeia,

culpa será de quem me deu ao fogo.

O soneto, dorida meditação sobre a paixão homossexual do artista: se como tal nasci…, fala-nos a todos, para lá de opções de género, do apelo irresistível da paixão carnal quando esta nos visita: cegueira da razão tão fraca e louca,

A tradução deste soneto de Miguel Ângelo é de Jorge de Sena e foi publicada na preciosa e tantas vezes citada antologia POESIA DE 26 SÉCULOS.

A certa altura, numa pagina dos seus diários, Jorge de Sena refere a excitação com a compra de um álbum de reproduções das obras de Miguel Angelo. Sinal dos tempos, hoje, tais reproduções proliferam em qualquer banca de revistas perante a indiferença de quem olha, e dificilmente apreendemos quão difícil era a aproximação à arte em décadas não muito distantes. O turismo de massas nos nossos dias preenche essa aproximação numa  contabilização de destinos visitados.

Estive pela primeira vez em Itália no final dos anos 70. Foram três semanas de deambulação pelas maravilhas da arte da península. Jovem nos vinte anos, a maior revelação, entre tantas, foi a obra escultórica de Miguel Ângelo. Ainda tive a possibilidade de contemplar sozinho o David, com mais 3 ou 4 pessoal na sala da Galleria della Academia em Florença. Os mármores com as esculturas apenas esboçadas, naquela tentativa de mostrar a vida na pedra, foram outra revelação indelével. A Pietá do Vaticano não fora ainda mutilada, nem se escondia por detrás do vidro. Era possível sentir o veludo da pedra e de perto ser tocado pela maciez do olhar do amor, naquela mãe com o filho nos braços, morto. Mas foi o Moisés a revelação absoluta. O olhar de fogo vindo da pedra, a imponência da massa escultórica e a atitude, transmitiram-me a forca do divino. Se Deus encarnasse,  seria assim. O absoluto de julgar, distribuindo bênçãos e castigos personifica-se naquele mármore com vida.

A pintura que ilustra o artigo, deliberada homenagem ao artista,  fi-la, anos vai, depois de ter visto o desenho de Miguel Ângelo que a inspirou, na Galeria Albertina, de Viena.

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