O título do artigo necessita uma explicação prévia. Silêncio de água parada é a frase com que Fernando Campos (1924) no seu livro A Casa do Pó abre um capítulo onde fala do Convento de S. Francisco em Tavira.

Para quem não conhece a história do livro, o relato refere-se ao século XVI e contém descrições vívidas da saída dos judeus no porto da cidade em consequência do édito do Rei D. Manuel I.

O convento que o escritor recria não existe, pois foi destruído pelo terramoto de 1755. No seu lugar foi posteriormente construída uma igreja com o mesmo nome.

 A foto que encima este artigo mostra o campanário da igreja visto de casa de meus pais. Nessa igreja  conheci os primórdios da religião católica, nos três meses em que lá frequentei a catequese, por volta dos meus oito anos. Dessa época lembro o fascínio quando a porta da sala onde se recolhiam os santos da procissão de cinzas estava aberta e nos conseguíamos esgueirar para lá. Aquelas estátuas gigantes vestidas como gente, com feições realistas e pele dum branco glauco, davam realidade ao mundo descrito nas historias do catecismo. No entanto, apesar desta aprendizagem infantil, falta ao meu Deus o detalhe trazido pelos diferentes credos que a humanidade gerou. Nesta igreja me tenho despedido ao longo dos anos, de tios e avós, pois na família tem existido devoção e ligação à Irmandade de S. Francisco, e é lá que as cerimónias de despedida final acabam por acontecer. Foi lá que me despedi do meu pai, num dia inesquecível. Pela primeira vez tive consciência de que a partir daí, na vida, corria por mim. O suporte que sempre soube existir, ainda que enquanto adulto raramente o tenha pedido, tinha desaparecido. Agora era eu a âncora de outros.

Neste itinerário de memória reencontro aquele S. Boaventura lido na juventude, biógrafo e continuador das reformas da ordem fundada pelo Poverello.

Escrevia então Boaventura por volta do ano 1250 no  número 10 do seu imperdível livro: Redução das Ciências à Teologia – De reductione artium ad thelogiam:

todo o sentido procura por tendência natural o objecto sensível que lhe é conveniente, goza quando o acha e reitera a posse sem tédio“, antecipando os místicos S. João da Cruz e Santa Teresa de Avila.

Sabia esta gente o que nós nem imaginamos, apesar da parafernalia que nos rodeia.

Vejamos então todo o argumentário:

Se considerarmos o prazer concomitante ao exercício dos sentidos, intuiremos aí a união de Deus e da alma. Com efeito, todo o sentido procura por tendência natural o objecto sensível que lhe é conveniente, goza quando o acha e reitera a posse sem tédio, pois que “o olho não se farta de ver, nem o ouvido se enche de escutar”[Eclesiastes, I, 8]. Semelhantemente, o sentido do nosso coração deve procurar com ardor, encontrar com gozo e reiterar incessantemente o que é a mesma beleza, a mesma consonância, a mesma fragrância, a mesma doçura e a mesma suavidade.

Este S. Francisco além do santo, cuja biografia se conhece por via da obra de S. Boaventura, foi um poeta maior e fundador da poesia italiana, introduzindo na herança vinda da poesia Provençal a espiritualidade que esta não continha, acrescentando-lhe uma dimensão quase cósmica no sublime Cântico do sol e das suas criaturas.

Arquivo no blog três versões do poema em português.

Comecemos pela versão de Herculano de Carvalho (1899-1986), antigo mestre que já não encontrei no IST, e ligado a Tavira desde sempre:

O cântico do sol –  versão de Herculano de Carvalho

Altíssimo, omnipotente, bom senhor,
É tua a gloria, as honras, o louvor,
Abençoado sejas.
Só a ti, ó altíssimo, convêm
E nenhum homem há digno de te invocar.


Louvado sejas, meu senhor,
Com todos os teus seres,
Em especial o senhor irmão sol,
O qual faz o dia e alumia por si próprio.
E que é belo e radiante com grande esplendor.
De ti, altíssimo, a nós dá testemunho.


Louvado sejas, meu senhor,
Pela irmã lua e plas estrelas;
Formaste-las no céu
Límpidas, preciosas e belas.


Louvado sejas, meu senhor, pelo irmão vento
E pelo ar, as nuvens, por todo e qualquer tempo
Com o qual, às criaturas, dás sustentamento.
Louvado sejas, meu senhor, pela Irma água,
Que é tão útil e humilde e preciosa e casta.


Louvado sejas, meu senhor, pelo irmão fogo,
O qual nos ilumina pela noite;
E que é belo e jucundo e tão robusto e forte.


Louvado sejas, meu Senhor,
Pla irmã, nossa mãe, a terra
Que nos sustenta e nos governa
E dá tão vários frutos,
Com as coloridas flores e as ervas.


Louvado sejas, meu Senhor,
Naqueles que perdoam por teu amor
E suportam doenças e tribulações;
Benditos esses que descansam em paz
E que hão-de ser por ti, Altíssimo, coroados.


Louvado sejas, meu Senhor,
Pela irmã, nossa morte corporal,
A que homem vivente algum pode escapar;
Coitados dos que morrem em pecado mortal;
Benditos os que cumprem
Tua santíssima vontade,
Pois que a morte segunda, a eles, não faz mal.


Louvai e bendizei o meu Senhor,
Seguindo-o e dando graças com toda a humildade.

Veja-se agora a leitura em português que do mesmo poema faz Jorge de Sena

CÂNTICO DAS CRIATURAS – versão de Jorge de Sena

Altíssimo, omnipotente, bom Senhor
a Ti a gloria, as honras, o louvor,
e todas as bênçãos.
A Ti só, Altíssimo, sejam dadas
e homem nenhum é digno de nomear-Te.


Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas,
especialmente o mestre irmão sol
que só por si madruga e que nos ilumina.
E ele é belo e radiante e com grão esplendor
e de Ti, Altíssimo, ele é testemunha.


Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã lua e as estrelas
que no céu criaste claras e preciosas e belas.


Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão vento,
e pelos ares sombrios ou serenos ou com todo o tempo
que sao das criaturas mantimento.


Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã água
que é tão útil e é humilde e preciosa e casta.


Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão fogo
pelo qual de luzes se abre a noite
e é belo e alegre e é robusto e forte.


Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã a nossa madre terra
que nos sustenta e governa
e produz tantas frutas, coloridas flores, e as ervas.


Louvado sejas, meu Senhor, pelos que por teu amor perdoam
e suportam enfermidades e tribulações,
Benditos aqueles que tudo suportam em paz
e que, por Ti, Altíssimo, serão coroados.


Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã a nossa morte corporal
da qual homem vivente algum há-de escapar,
aí daqueles que morrem em pecado mortal,
e benditos os que encontram na Tua santíssima vontade
que a morte segunda não lhes fará mal.


Louvade e bedizede o meu Senhor, e graças dade,
servide-O todos com mui grã humildade.

Lemos estas duas versões, fieis ao poema original, no sentido e na sua literalidade, mas as pontuais opções de construção do verso mostram a diferença entre um poeta de génio, Jorge de Sena, e um estimável tradutor, também poeta.

Passemos por fim a uma dita tradução integral a partir do francês incluída por Jacques LeGoff no seu livro com estudos sobre S. Francisco.

Nesta tradução apreendemos o carácter descritivo do poema, como que de oração, que as versões poetizadas anteriores, sobretudo a de Jorge de Sena mascaram um pouco, ao dar autonomia ao verso.

Cântico do irmão sol e das outras criaturas

Altíssimo, todo-poderoso e bom Senhor
A ti louvor, gloria, honra e todas as bênçãos
A ti devidos, ó Altíssimo
E nenhum homem é digno de te nomear.
Louvado sejas, Senhor, com todas as tuas criaturas,
Muito especialmente o meu senhor irmão Sol
Através do qual nos dás o dia, a luz.
É belo, irradia com grande esplendor
E de ti, ó Altíssimo, é para nós a imagem.
Louvado sejas tu, Senhor, pela irmã Lua e as estrelas
No céu as acendeste, claras, preciosas e belas.
Louvado sejas, Senhor, pelo irmão Vento
E pelo ar e pelas nuvens
Pelo céu sereno e pelos tempos
Com que sustentas todas as criaturas.
Louvado sejas Senhos pela irmã água
Tão útil e humilde
Preciosa e casta.
Louvado sejas Senhor pelo irmão fogo
Com que iluminas a noite,
É belo e animado,
Indomável e forte.
Louvado sejas Senhor, pela irmã nossa mãe terra
Que nos sustenta e alimenta
Que produz diversos frutos
Com flores coloridas e verdura.
Louvado sejas, Senhor, por aqueles
Que perdoam por amor de ti,
Que suportam provações e doenças,
Felizes se estiverem em paz
Pois por ti, ó Altíssimo, serão coroados.
Louvado sejas, Senhor, pela nossa irmã, a morte do corpo
A que nenhum homem vivo escapa
Infeliz o que morre em pecado mortal,
Feliz o que ela surpreender fazendo a tua vontade
Porque não será ferido pela segunda morte.
Louvai e bendizei o meu Senhor,
Dai-lhe a graça e servi-o
Com toda a humildade.


Nota: A variação nos titulos do poema é da escolha dos tradutores respectivos.

Noticia bibliográfica:

S. Boaventura, Reduçãos das Ciências à Teologia, Atlantida, 1970, tradução do Padre Ilídio de Sousa Ribeiro

Poesia de 26 Séculos, Antologia prefácio e notas de Jorge de Sena, Fora do Texto, 1993

Oiro de vário tempo e lugar, São Francisco de Assis a louis Aragon, versões de A. Herculano de Carvalho

S. Francisco de Assis, Jacques leGoff, Teorema, 2000

A Casa do Pó, Fernando Campos, Difel, 1986

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