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Para quem gosta de livros é uma alegria encontra-los quando os procura, mas não é fácil em Portugal a vida de um amante de livros. O descaso de quem vende, a inanidade da maior parte da edição nova, a ignara displicência de quem atende, tudo contribui para nos afastar das livrarias em geral. Felizmente há excepções e algumas, de tão surpreendentes, até duvidamos que existam.

Habituado a vasculhar alfarrabistas e a comprar na net o que me ia despertando a curiosidade, demorei a conhecer a livraria Poesia Incompleta, em Lisboa. É o ser um caso único, uma livraria que apenas vende poesia, e um livreiro que sabe do que vende, que me leva a esta nota.

Ao perguntar por um ou outro livro de poesia a algum alfarrabista mais informado, por diversas vezes aconteceu aconselharem-me a livraria Poesia Incompleta como lugar possível para o encontrar. Não sendo habitualmente títulos urgentes, pois os livros por ler abundam sobre a mesa, o tempo foi passando até que no ano passado, por esta altura, inicio da minha rota outonal pelas livrarias da baixa, decidi meter pés a caminho. Entretinha-me na altura com a poesia de Tomás Pinto Brandão e sabendo da confusão de autoria em alguns dos poemas, tinha uma vontade enorme de encontrar qualquer livro com poesia de Gregório de Matos para além do pequeno livro há anos editado pela & etc e esgotada que está a edicão da INCM dos anos 80. Sem grande esperança lá fui.

Entrei, perguntei a medo por poesia de Gregório de Matos, à espera do habitual olhar de estranheza, quando fui surpreendido por um sim, tenho. E afinal tinha, não só mais que uma antologia de origem brasileira, como a edição brasileira de parte da tese do Prof. Francisco Topa, professor na Universidade do Porto e estudioso da obra do poeta, e que eu sabia existir por referências na net.

Contente e entusiasmado, lá voltei, não tantas vezes como gostaria, mas cada visita resulta em sacos cheios de livros que levo algum tempo a degustar.

Encontrada a rua, é a ultima que desce à direita, a caminho do Tejo, antes de chegar ao Príncipe Real, vindo do metro do Largo do Rato, à entrada surge-nos uma sala pequena onde a simpatia do Mário nos recebe. Os livros oferecem-se à curiosidade do olhar em estantes e espalhados por bancadas. E há sempre uma qualquer inesperada surpresa que nos chama a atenção. Uma novidade que saiu e da qual nem rasto nas livrarias mainstream, um título estrangeiro que tivemos curiosidade na net, mas por não conhecer o conteúdo não comprámos, uma edição julgada esgotada, mas que afinal o Mário desencantou nos fundos esquecidos de um qualquer armazém de distribuição, enfim um mundo de surpresas à nossa espera. E na secção ” não tem pois não?” encontramos os livros mais inesperados, e tantas vezes preciosos achados de poesia, basta perguntar ao Mário, pois a secção está na sua cabeça. O livreiro sabe do que vende e quando não tem talvez consiga arranjar.

Seria o mundo perfeito da poesia se dispusesse da componente alfarrabista expandida, por forma a tornar disponíveis tantas centenas de títulos que a penúria da edição portuguesa entretanto tornou raros.

É na poesia noutras línguas que a livraria se mostra preciosa. São centenas os títulos e autores de outra forma inacessíveis em Portugal, com destaque para a poesia em castelhano que tanta falta faz ser lida por estas terras. Não é sem razão, qualquer que seja o prestígio do Nobel, que o castelhano é a língua com maior número de poetas premiados por ele.

Começado o Outono, e antes que a minha hibernação invernal recomece, rebolando-me em casa com as leituras do que entretanto encontrei, lá voltarei em breve para vasculhar muito do que nem sei que existe.

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