De Alcipe: sonho, destino e desejo de amor

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A Marquesa de Alorna (1750-1839), conhecida enquanto poetisa por Alcipe, tem sido alvo recente da atenção de biógrafos sem que a sua poesia tenha despertado curiosidade concomitante.

A tragédia pessoal  vivida desde o inicio da adolescencia  até à idade adulta, a mulher culta e brilhante que nos salões europeus conquistou admiração, são os argumentos que espevitam a curiosidade do leitor de hoje sobre a biografia da mulher. A obra poética, embora datada, contém jóias que vão para além do esquematismo de escola e o sentimento extravaza as convenções em muitos dos poemas.

Sem dispôr agora do tempo para o artigo circunstanciado que gostaria, remeto-vos para quatro poemas onde sonho, destino e desejo de amor se retratam, terminando a escolha com uma graça sobre cortesias, matéria importante à época da autora.

Os quatro primeiros poemas foram extraídos do conjunto de CANTIGAS, o último integra um grupo de QUADRAS, todos presentes no Tomo II das suas OBRAS POÉTICAS publicadas em 1844.

Cantiga XLIX

 

Sonho

Sonhos meus, suaves sonhos,

Sois melhores [do] que a verdade;

Quando sonho sou ditosa,

Sem o ser na realidade.

 

Amor, tu vens nos meus sonhos

Acalmar-me o coração;

Mas cruel! Quanto prometes

Não passa de uma ilusão.

 

Sonhei, tirano, esta noite,

Sonhei que tu me chamavas,

E que sobre a relva branda

Tu mesmo me acalentavas.

 

Disseste-me: “Dorme, Alcipe,

Amor sobre ti vigia,

Mal podes temer os fados.”

 

Dormi: neste dobre sono

Me achei n’um palacio d’ouro:

Entregaram-me uma chave

Para que abrisse um tesouro.

 

– “Chave mágica, sublime,

Que me vais tu descobrir?

Se é menos do que eu desejo

Será melhor não abrir…”

 

– “ Abre, Alcipe” qual trovão

Brada o deus que me vigia:

Acordei sobressaltada,

E abriu-se, mas foi o dia.

 

 

Cantiga L

 Pára, funesto destino,

Respeita a minha constância;

Pouco vences, se não vences

De minha alma a tolerância.

 

Se eu sobrevivo aos estragos

Dos males que me fizeste,

Inutil é combater-me,

Nem me vences, nem venceste.

 

Com secos olhos diviso

Esse horror que se apresenta:

Os meus existem de glória;

Morrendo a glória os alenta.

 

 

Cantiga LI

Basta, destino severo:

Em dias tão malogrados

Me trocaste sem piedade

Instantes afortunados.

 

Quais voltas do sol os raios

Pelas trevas apagados,

Voltai, se podeis, instantes,

Instantes afortunados!

 

Voto imprudente! Que digo?

Só posso esperar cuidados,

Uma vez que os interrompem

Instantes afortunados.

 

 

 

Cantiga LIX

Quem diz que amor é um crime

Calunia a natureza,

Faz da causa organizante

Criminosa a singeleza.

 

Que vejo, céus! Que não seja

De uma atracção resultado?

Atracção e amor é o mesmo;

Logo amor não é pecado.

 

Se respiro, a atmosfera,

Com um fluido combinado,

É quem me sustenta a vida

Dentro do peito agitado.

 

Se vejo mares, se fontes,

Rio, cristalino lago,

Dois gases se unem, formando

Aguas com que a sede apago.

 

Uma lei de afinidade

Se acha nos corpos terrenos;

Ácidos, metais, alcalis,

Tudo se une mais ou menos.

 

De que sou feita? – De terra;

Nela me hei de converter:

Se amor arder em meu peito

É da essencia do meu ser.

 

Sem que te ofenda razão,

Quero defender o amor;

Se contigo não concorda

Não é virtude, é furor.

 

 

 

Despedida nas Caldas a uma amiga

Na invenção das cortesias

Não entrou o coração:

Nasceram do fingimento,

Tolerou-as a razão.

 

Se eu fosse amiga das dúzias,

Fôra a teus pés despedir-me:

Mas faz sol, eu tenho calma,

Quer o meu bem, quero ir-me.

 

Vou-me embora, adeus amiga:

De palavra ou por escrito

Verás sempre na minha alma

Mesmo o que não tenho dito.

 

Lerás o que outras não lêem

Saudades, sinceridade;

E mais cálida que as Caldas

A minha terna amizade.

 

 

Fatigados de esperar o previsto – dois poemas de Roberto Juarroz

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 I

Fatigados de esperar o previsto,

um desejo, o outono, a morte,

passamos a aguardar o imprevisto.

 

E assim como nunca importou demasiado

que o previsto chegasse ou não chegasse,

agora também não importa demasiado

que o imprevisto venha ou não venha.

 

Muito mais que o objecto

ou a ansiedade da nossa espera,

o que importa é a mudança

do nosso sentido de esperar,

essa mudança que pouco a pouco leva a outra espera,

para além do previsto e do imprevisto,

a espera desinteressada de toda a forma de espera.

 

II

Hoje dói-me pensar,

dói-me a mão com que escrevo,

dói-me a palavra que ontem disse

e também a que não disse,

dói-me o mundo.

 

Há dias que são como espaços preparados

para que tudo doa.

 

Só deus não me dói hoje.

Será porque hoje ele não existe?

 

 

Os poemas transcritos são do poeta argentino Roberto Juarroz (1925-1995) e a tradução é de Arnaldo Saraiva.

Hoje dói-me pensar, e por isso voltarei a este artigo noutro dia para de forma circunstanciada dar conta do meu espanto e admiração por esta poesia onde encontramos “sucessivos voos rasantes ou mergulhos arriscados (a pique) sobre os enigmas, os limites e as contradições da condição e da comunicação humana”, para usar as palavras do tradutor.

Os poemas traduzidos encontram-se no livro de Roberto Juarroz, POESIA VERTICAL – Antologia, tradução e notas de Arnaldo Saraiva, edição Campo das Letras, 1998.

A MULHER segundo Vinicius de Moraes

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e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.

Infatigável cantor da mulher, Vinicius de Moraes (1913-1980) dá-nos neste Receita de Mulher um retrato ideal do feminino, onde alguma ironia perpassa a espaços.

Simultaneamente retrato, desejo e conselhos, à medida que lemos o poema somos enviados para Arte de Amar de Ovídio, não por qualquer imitação, mas por uma semelhante qualidade de inspiração sobre o ser e o fazer do amor, onde certa afinidade de assunto se revela.

Receita de mulher

As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança,
qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize
elegantemente em azul,
como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso
que súbito tenha-se a
impressão de ver uma
garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só
encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas
que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso,
é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que
umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como no âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos então
Nem se fala, que olhe com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas,
e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras:
uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável.
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mas que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas que haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!).
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser frescas nas mãos, nos braços, no dorso, e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37 graus centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não estará mais presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.

O poema Receita de Mulher foi publicado em plaquette em 1957.

Deixo AQUI a ligação para a sua edição original  disponibilizada on-line por Brasiliana USP, biblioteca digital mantida pela Universidade de S. Paulo no Brasil.

Nota

A fotografia é de Ruth Bernhard (1905-2006), autora de algumas das mais belas fotos de nus femininos da história da fotografia. Viveu 101 anos. A foto foi tirada provavelmente em 1962.

VINICIUS DE MORAES – A última elegia

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Para estreia da poesia de Vinicius de Moraes (1913-1980) no blog escolhi um poema afastado do que da sua poesia nos é familiar através das canções:  A Última Elegia.

Poema de estonteante modernidade em 1939, quando foi escrito, este A Última Elegia conta e canta a vertigem da paixão:

… but the morning

Rises, o perfume da madrugada em Londres

Makes me fluid… darling, darling, acorda, escuta

Amanheceu, não durmas… o bálsamo do sono

Fechou-te as pálpebras de azul… Victoria & Albert resplende

Para o teu despertar; ô darling, vem amar

À luz de Chelsea! não ouves o rouxinol cantar em Central Park?

Escrito em português e inglês, a invenção da linguagem necessária à expressão da descoberta percorre o poema num vendaval de emoção:

Há um grande aluamento de micro-erusíferos

Em mim!

Vale a pena ler o que o poeta escreveu sobre este poema quando da primeira edição no livro 5 Elegias em 1943:

Quanto à última, escreví-a de jato, naquele Maio de 1939, em Londres, vendo, do meu apartamento, a manhã nascer sobre os telhados novos do bairro de Chelsea. A qualidade da experiência vivida e o lugar onde a vivi criaram-lhe espontaneamente a linguagem em que se formou, mistura de português e inglês, com vocábulos muitas vezes inventados e sem chave morfológica possível. Mas não houve sombra de vontade de parecer original. É uma fala de amor como a falei, virtualmente transposta para a poesia, na qual procurei traduzir, dentro de sonoridades estanques de duas línguas que me são tão caras e com arranjos gráficos de ordem puramente mnemônica, isso que foi a maior aventura lírica da minha vida.

Junho de 1943.

Despeço-me antes do poema com este belo verso:

O darling, acorda, give me thy eyes of brown,

A ÚLTIMA ELEGIA

                                      PARA TATI

      O              L

    O   F          E   S

  R      S       H       E

O          O F C           A

Greenish, newish roofs of Chelsea

Onde, merencóreos, toutinegram rouxinóis

Forlornando baladas para nunca mais!

O imortal landscape

               no anti-climax da aurora!

                               ó joy for ever!

Na hora da nossa morte et mine et semper

Na minha vida em lágrimas!

                       uér ar iú

0 fenesnites, calmo atlas do fog

Impassévido devorador das estelúridas?

Darling, darling I listen…

               ” it is, my soul, it is

Her gracious self!…”

               murmura adormecida

É meu nome!…

               sou eu, sou eu, Nabucodonosor!

Motionless I climb

               the wat

                       e

                       r

                       s

               Am I    p       a Spider?

                       i

               Am I    p e     a Mirror?

               Am I    M       an X Ray?

No, I’m the Three Musketeers

               rolled in a Romeo.

                                  Vírus

Da alta e irreal paixão subindo as veias

Com que chegar ao coração da amiga.

                               – Alas, celua

Me iluminou; celua me iludiu cantando

The songs of Los; e agora

               meus passos

                       são gatos

Comendo o tempo em tuas cornijas

Em lúridas, muito lúridas

Aventuras do amor mediúnico e miaugente..

So I came

               — from the dark bull-like tower

                               fantomática

Que à noite bimbalha bimbalalões de badaladas

Nos bem-bons da morte e ruge menstruosamente sádica

A sua sede de amor; so I came

De Menáipa para Forox, do rio ao mar — e onde

Um dia assassinei um cadáver aceso

Velado pelas seis bocas, pelos doze olhos, pelos centevinte dedos espalmados

Dos primeiros padres do mundo; so I came

For everlong that everlast — e deixa-me cantá-lo

À voz morna da retardosa rosa

Mornful and Beátrix

Obstétrix

Poesia.

                       *

Dost thou remember, dark love

Made in London, celua, celua nostra

Mais linda que maré nostrum?

               quando early morn’

Eu vinha impressentido, like the shadow of a cloud

Crepitante ainda dos aromas emolientes de Christ Church Meadows

Frio como uma coluna dos cloisters de Magdalen

Queimar-me à luz translúcida de Chelsea?

Fear love..

               ô brisa do Tâmisa, ô ponte de Waterloo, ô

Roofs of Chelsea, ô proctors, ô preposterous

Symbols of my eagerness!

                — terror no espaço!

                        — silêncio nos graveyards!

                               — fome dos braços teus!

Só Deus me escuta andar..

               — ando sobre o coração de Deus

Em meio à flora gótica.., step, step along

Along the High. “— I don’t fear anything

But the ghost of Oscar Wilde. ” ô darlingest,

I feared… A ESTAÇÃO DE TRENS.., I had to postpone

All my souvenirs! there was always a bowler-hat

Or a POLICEMAN around, a stretched one, a mighty

Goya, looking sort of put upon, cuja passada de cautchú

Era para mim como o bater do coração do silêncio (I used

To eat all the chocolates from the one-penny-machine

Just to look natural; it seemed to me que não era eu

Any more, era Jack the Ripper being hunted) e suddenly

Tudo ficava restful and worm.. — o siiiiiiiii

Lvo da Locomotiva — leit-motiv — locomovendo-se

Through the Ballad of READING gaol até a visão de

PADDINGTON (quem foste tu de tão grande

Para alevantares aos amanhecentes céus do amor

Os nervos de aço de Vercingetorix?) Eu olharia risonho

A Rosa dos Ventos. S. W. 3. Loeste! no dédalo

Se acalantaria uma loenda de amigo: “I wish, I wish

I were asleep”. Quoth I: — O squire

Please, à Estrada do Rei, na Casa do Pequeno Cisne

Room twenty four! ô squire, quick, before

My heart turns to whatever whatsoever sore!

Há um grande aluamento de micro-erusíferos

Em mim! ô squire, art thou in love ? dost thou

Believe in pregnancy, kindly tell me? ô

Squire, quick, before alva turns to electra

For ever, ever more! give thy horses

Gasoline galore, but do take me to my maid

Minha garota — Lenore!

Quoth the driver: — Right you are. sir

                       *

O roofs of Chelsea!

Encantados roofs, multicolores, briques, bridges, brumas

Da aurora em Chelsea! ô melancholy!

” I wish, I wish I were asleep. ” but the morning

Rises, o perfume da madrugada em Londres

Makes me fluid… darling, darling, acorda, escuta

Amanheceu, não durmas.. o bálsamo do sono

Fechou-te as pálpebras de azul… Victoria & Albert resplende

Para o teu despertar; ô darling, vem amar

À luz de Chelsea! não ouves o rouxinol cantar em Central Park?

Não ouves resvalar no rio, sob os chorões, o leve batei

Que Bilac deitou à correnteza para eu te passear ? não sentes

O vento brando e macio nos mahoganies? the leaves of brown

Came thumbling down, remember?

“Escrevi dez canções…

               … escrevi um soneto…

                               … escrevi uma elegia.. “

O darling, acorda, give me thy eyes of brown, vamos fugir

Para a, Inglaterra?

“… escrevi um soneto…

                               escrevi uma carta. “

O darling, vamos fugir para a Inglaterra?

                               ..”que irão pensar

Os quatro cavaleiros do Apocalipse…”

                               .. escrevi uma ode…”

O darling!

               O PAVEMENTS!

                               O roofs of Chelsea!

Encantados roofs, noble pavements, cheerful pubs, delicatessen

Crumpets,a glass of bitter, cap and gowu… -— don’t cry don’t cry!

Nothing is lost, I’ll come again, next week, I promise thee…

Be still, don’t cry..

               … don’t cry…

                       … don’t cry…

                               RESOUND

Ye pavements!

               — até que a morte nos separe —

                       ó brisas do Tâmisa, farfalhai!

Ó telhados de Chelsea,

                               amanhecei!

Também neste poema, longe do recorte clássico de muita da sua poesia, como os sonetos, onde foi grande como poucos no século XX, também aqui, dizia, é o apaixonado Vinicius que ao longo da vida cantou a mulher, os amigos e o amor, quem se mostra todo inteiro na desmesura do seu génio.

Ao voar da cafeteira

Abri a gaveta, e, em maré de despudor, encho o blog com parte do que lá encontrei. Por entre rasgos de desenfado ou indignação surgem poemas guardados ao voar da cafeteira. Deixo-vos estes.

 

I

O conforto vagabundo pousou nas asas do céu

e aí permaneceu.

É objecto de ensaios e breves meditações

na busca da evidência.

Quem passa aspira-lhe o cheiro

e a quem olha de longe

devolve intacto o perfume da sublime aspiração.

 

II

A D. Eulália hoje trouxe sarilhos em profusão.

Deixou à porta o pincel,

escovou a pregadeira,

 e saiu pela janela em voo baixo e picado sobre a cadeira da fé.

Caiu a pobre coitada e acordou

estremunhada

com as pinças e o vestido enfiados no cabide da panela de sair.

Veio a vizinha a correr

espantada do silêncio que tanto barulho fazia.

Entra pela chaminé o besouro prazenteiro

e pica a mão do bigode sentado à espera da vida.

Eis que de repente alguém

bate à porta em alvoroço.

Trazia pelo pescoço a vida que ali faltava.

A pobre vizinha desmaia, a D. Eulália sufoca e o bigode espevita.

Depois de tanto correr

dançam todos numa roda e acordam a sorrir.

 

III

Sentados na prateleira

dos requerimentos ao céu,

uma enorme trovoada estalou sobre as cabeças.

Um raio caindo na água

da torneira

lança fogo ao vendaval.

Sobem pois todos em fumo

pousando sobre o vitral.

Aí esperam

a vez

de sair em liberdade

e voltar à sensação do picado do jantar.

 

Escrever, essa grande fantasia

Escrever, 1ª tentativa

Fascinou-se a fantasia com fazer correr um dia

palavras sobre o papel.

Surge a frase na ideia como lamina no ar

e corta o papel onde escreve

deixando o sangue a correr nas veias da emoção.

A frase corre pela estrada

fugindo à perseguição do dicionário de frases

apostado em conservar a imaginação ordenada

sem respeito pelo caos

da perfeita criação. 

Escrever, 2ª tentativa

Num gesto largo e moscovita

deitou palavras ao vento e deixou o pensamento

correr com elas também.

Encontrou-as numa curva

entre escombros distraídas a pensar no que fazer.

Formaram frases sem nexo 

e voaram pelo ar

pousando sobre o papel

em busca de algum sentido.

 

Foi o som das consoantes ao bater contra a parede

que estragou a harmonia.

Vão presas as consoantes por provocar tal transtorno

enquanto a harmonia procura entre os escombros

a falta que lhe fazia

saber dizer do amor.

Escrever, 3ª tentativa

Entre a sombra e o silêncio

sentada, posta em sossego

repousava a fantasia,

quando de repente um grito

surge em assombro e aflito

escorrega na calçada

húmida de tanto pensar.

Parte então à desfilada

em sobressalto e tremura

para  poder  discernir

o estado da digestão.

Surge aí o alka-seltzer

e agora a fantasia

corre caminhos do evidente

deixando correr com ela

sem espanto, o trivial.

Morreu pois,

pobre coitada

com o fim da digestão.

Fim

Finalmente Camilo Pessanha

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E eis quanto resta do idílio acabado,

– Primavera que durou um momento…

Como vão longe as manhãs do convento!

– Do alegre conventinho abandonado…

 

Tudo acabou… Anémonas, hydrângeas,

Silindras, – flores tão nossas amigas!

No clautro agora viçam as ortigas,

Rojam-se cobras pelas velhas lágeas.

 

Sobre a inscrição do teu nome delido!

– Que os meus olhos mal podem soletrar,

Cansados… E o aroma fenecido

 

Que se evola do teu nome vulgar!

Enobreceu-o a quietação do olvido.

Ó doce, ingénua, inscrição tumular.

Prometi a mim mesmo escrever no blog apenas sobre a poesia de que gosto e por isso resisto há mais de um ano a escrever sobre a poesia de Camilo Pessanha (1867-1926). Mas os poemas chamam-me, apesar da recusa que em mim sinto sobre um sentir que me é estranho, como por vezes me acontece com a poesia assinada Álvaro de Campos.

Foi a fotografia que encima o artigo, e fiz há semanas no cemitério do Alto de S. João em Lisboa, que irresistivelmente trouxe ao blog esta poesia de forma mais circunstanciada. Antes apenas tinha transcrito um poema de Camilo Pessanha num artigo brincadeira: Ambrosio, tenho um desejo de poesia, onde efectivamente se brincava também com Tabacaria. Mas vamos a Pessanha.

A poesia de Camilo Pessanha (1867-1926) ressuma lassidão. Não a lassidão feliz do desejo satisfeito nem a lassidão saborosa depois do esforço físico, mas a lassidão do deixar andar entregue à inércia da vontade. Será paradigma desta impressão o poema CREPUSCULAR .

CREPUSCULAR

 Há no ambiente um murmúrio de queixume,

De desejos d’amor, d’ais comprimidos…

Uma ternura esparsa de balidos

Sente-se esmorecer como um perfume.

 

As madressilvas murcham nos silvados

E o aroma que exalam pelo espaço

Tem delíquios de gozo e de cansaço,

Nervosos, femininos, delicados.

 

Sentem-se espasmos, agonias d’ave,

Inapreensiveis, mínimas, serenas…

-Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas,

O meu olhar no teu olhar suave.

 

As tuas mãos tão brancas de anemia,

Os teus olhos tão meigos de tristeza…

– É este enlanguescer da natureza,

Este vago sofrer do fim do dia.

Há uma falta de luz que entristece mesmo quando não nos comovemos com as palavras dum sofrer sem remédio. Sendo poeticamente notáveis os poemas de Clepsydra, alguns são inquestionáveis obras-primas na forma como o assunto se desenvolve conduzindo o leitor pela emoção quando o poeta fala de si e do seu (de)encontro com o mundo.

Porque o melhor, enfim,

É não ouvir nem ver…

Passarem sobre mim

E nada me doer!

 

– Sorrindo interiormente,

Co’as pálpebras cerradas,

Às águas da torrente

Já tão longe passadas. –

 

Rixas, tumultos, lutas,

Não me fazerem dano…

Alheio às vãs labutas,

Às estações do ano.

 

Passar o estio, o outono,

A poda, a cava e a redra,

E eu dormindo um sono

Debaixo duma pedra.

 

Melhor até se o acaso

O leito me reserva

No prado extenso e raso

Apenas sob a erva

 

Que Abril copioso ensope…

E, esvelto, a intervalos

Fustigue-me o galope

De bandos de cavalos.

 

Ou no serrano mato,

A brigas tão propício,

Onde o viver ingrato

Dispõe ao sacrificio

 

Das vidas, mortes duras

Ruam pelas quebradas,

Com choques de armaduras

E  tinidos de espadas…

 

Ou sob o piso, até,

Infame e vil da rua,

Onde a torva ralé

Irrompe, tumultua.

 

Se estorce, vocifera,

Selvagem nos conflitos,

Com ímpetos de fera

Nos olhos, saltos, gritos…

 

Roubos, assassinatos!

Horas jamais tranquilas,

Em brutos pugilatos

Fracturam-se as maxilas…

 

E eu sob a terra firme,

Compacta, recalcada,

Muito quietinho. A rir-me

De não me doer nada.

Poemas de amor e morte, na sua maior parte, é um cheiro a flores apodrecidas que deles se exala, deixando-nos o amargo de uma existência inútil, no efémero de uma floração acontecida fora de tempo.

Floriram por engano as rosas bravas

No inverno: veio o vento desfolhá-las…

Em que cismas, meu bem? Porque me calas

As vozes com que há pouco me enganavas?

 

Castelos doidos! Tão cedo caístes!…

Onde vamos, alheio o pensamento,

De mãos dadas? Teus olhos, que um momento

Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

 

E sobre nós cai nupcial a neve,

Surda, em triunfo, pétalas, de leve

Juncando o chão, na acrópole de gelos…

 

Em redor do teu vulto é como um véu!

Quem as esparze – quanta flor! -, do céu,

Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?

Se de Camilo Pessanha quisesse escolher apenas um poema, elegeria este soneto [ Passou o outono já, já torna o frio…]. Ao lê-lo percorre-nos um arrepio gelado, mas corre nele a água limpida por onde se escoa a melancolia, e nela segue a amada morta, permitindo um novo recomeçar, diria eu.

Passou o outono já, já torna o frio…

– Outono de seu riso magoado.

Álgido inverno! Oblíquo o sol, gelado…

– O sol, e as águas límpidas do rio.

 

Águas claras do rio! Águas do rio,

Fugindo sob o meu olhar cansado,

Para onde me levais meu vão cuidado?

Aonde vais, meu coração vazio?

 

Ficai, cabelos dela, flutuando,

E, debaixo das águas fugidias,

Os seus olhos abertos e cismando…

 

Onde ides a correr, melancolias?

– E, refractadas, longamente ondeando,

As suas mãos translúcidas e frias…

Esta versão dos poemas foi transcrita da edição de CLEPSYDRA preparada por Gustavo Rubim e publicada como anexo aos nºs 155/156 da revista COLÓQUIO/LETRAS.

Era manhã de Setembro — poema de Carlos Drummond de Andrade

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Passados que estão os prazeres de Setembro, de que aqui dei conta, restam recordações avivadas com este poema de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), o Sábio.

 

Era manhã de setembro

e

 ela me beijava o membro

 

Aviões e nuvens passavam

coros negros rebramiam

ela me beijava o membro

 

O meu tempo de menino

o meu tempo ainda futuro

cruzados floriam junto

 

Ela me beijava o membro

 

Um passarinho cantava,

bem dentro da árvore, dentro

da terra, de mim, da morte

 

Morte e primavera em rama

disputavam-se a água clara

água que dobrava a sede

 

Ela me beijando o membro

 

Tudo o que eu tivera sido

quanto me fora defeso

já não formava sentido

 

Somente rosa crispada

o talo ardente, uma flama

aquele êxtase na grama

 

Ela a me beijar o membro

 

Dos beijos era o mais casto

na pureza despojada

que é própria das coisas dadas

 

Nem era preito de escrava

enrodilhada na sombra

mas presente de rainha

 

tornando-se coisa minha

circulando-me no sangue

e doce e lento e erradio

 

como beijara uma santa

no mais divino transporte

e num solene arrepio

 

beijava beijava o membro

 

Pensando nos outros homens

eu tinha pena de todos

aprisionados no mundo

 

Meu império se estendia

por toda a praia deserta

e a cada sentido alerta

 

Ela me beijava o membro

 

O capítulo do ser

o mistério de existir

o desencontro de amar

 

eram tudo ondas caladas

morrendo num cais longínquo

e uma cidade se erguia

 

radiante de pedrarias

e de ódios apaziguados

e o espasmo vinha na brisa

 

para consigo furtar-me

se antes não me desfolhava

como um cabelo se alisa

 

e me tornava disperso

todo em circulos concêntricos

na fumaça do universo

 

Beijava o membro

beijava

e se morria beijando

a renascer em setembro

 

 

 

Nota final

O poema foi publicado em O amor natural, recolha de poesia erótica, editada postumamente por indicação do poeta, em 1992 no Brasil e em 1993 em Portugal em edição Europa-América com ilustrações de Clementina Cabral. Terá existido em vida do poeta uma edição particular em 1981. No Brasil o livro vai, ao que suponho, em 18ª edição.

Nada de semelhante terá alguma vez um grande poeta português aceitado publicar – 40 poemas eróticos onde a obscenidade está ausente, e as práticas do amor são exaltadas sem véus de falso pudor. Não serão capazes de os escrever?

Saudade do teu corpo – soneto de António Patrício

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SAUDADE DO TEU CORPO

Tenho saudades do teu corpo: ouviste
correr-te toda a carne e toda a alma
o meu desejo – como um anjo triste
que enlaça nuvens pela noite calma?…

Anda a saudade do teu corpo (sentes?…)
Sempre comigo: deita-se ao meu lado,
dizendo e redizendo que não mentes
quando me escreves: “vem, meu todo amado…”

É o teu corpo em sombra esta saudade…
Beijo-lhe as mãos, os pés, os seios-sombra:
a luz do seu olhar é escuridade…

Fecho os olhos ao sol p’ra estar contigo.
É de noite este corpo que me assombra…
Vês?! A saudade é um escultor antigo!

Pois é, ler poesia a horas mortas dá isto!
E a esta saudade na pele faz companhia o dourado liquido temperado com in the wee small hours na voz de Sinatra.

Noticia bibliográfica
O soneto é de António Patrício (1878-1930). Foi originalmente publicado em 1911 no nº10 da revista A Águia e recolhido na edição de poesia completa, Assírio & Alvim, 1980.

História em 4 posters com um poema de Leonor Almeida

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Os 4 posters que seguem têm uma história que vou contar de forma telegráfica e púdica.

Recebi de uma leitora do blog correio com o poema  POSSE que transcrevo, e o convite para um encontro.

POSSE

Vem cá! Assim, verticalmente!

Achega-te… Docemente…

Vou olhar-te… E, no teu olhar, colher

Promessas do que quero prometer,

Até à síncope do amor na alma!

Colemos as mão, palma a palma!

A minha boca na tua, sem beijo…

Desejo-te, até o desejo

Se queixar que dói…

E sou tua, assim, como nenhuma foi!

Dei comigo a sonhar com a anónima escritora, daí um primeiro poster.

Muni-me de Viagra e parti para o encontro. Ao chegar tenho a imagem que se pode depreender deste 2º poster.

Avançados nos preliminares, vinha preparado para o prometido   Desejo-te, até o desejo / Se queixar que dói…  mas o Viagra é um problema sério para as mulheres de meia idade ou nem tanto. A certa altura, a fuga foi inevitável, ainda que feliz e satisfeita como este 3º poster elucida.

O blogger depois do encontro que se relata ficou no estado que segue, visto de forma brilhante por Dave Murray

Termino com o escritor, de costas para o mundo, a inventar esta história. Reparem nos coraçõezinhos a subir dos prédios imaginados pelo escritor. Tão q’rido não é?

Nota séria

O poema é de Leonor de Almeida (1915) e foi publicado no livro Caminhos Frios em 1947.

Da poetisa pouco se sabe no passado recente, a não ser que publicou pelo menos quatro livros de poesia: além do já referido Caminhos Frios (1947), Luz do Fim (1950), Rapto (1953), Terceira Asa (1960),  onde o erótico ressuma. Terá vivido longamente na Dinamarca, e daí a escolha dos posters.

Os posters com figuras femininas são de Mads Berg (Copenhague). O primeiro poster do artigo é de autor não identificado. O poster do escritor é de Borja Bonaque